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CAPIBERIBE, João - Amazônia, o caminho da esperança

11/04/2007

Amazônia : O caminho da esperança

João Capiberibe*

É verdade que as ações humanas provocam impacto e degradam o meio ambiente. Foi sempre assim, desde os primeiros tempos em que o homem coletava seus suprimentos da natureza, incluindo a energia em forma de lenha para cozimento de seus alimentos e para se aquecer.

Também é verdade, que a degradação ambiental aumentou historicamente em paralelo ao crescimento do consumo humano, principalmente no que diz respeito ao consumo de energia. Da lenha ao carvão mineral, da hidroeletricidade ao petróleo, até chegar aos reatores atômicos houve  uma corrida louca e desenfreada em busca de novas fontes de energia. Foi assim que a humanidade perdeu de vista os limites da natureza, retirando recursos além da conta e devolvendo as sobras em forma de lixo, destruindo florestas, rios e envenenando o ar, provocando mudanças climáticas, colocando em risco a vida no planeta azul, nosso habitat.

E nós brasileiros e cristãos o que temos a ver com isso? Afinal, os lá de cima, os americanos e os europeus consomem em média oito vezes mais energia que nós, ou seja, degradam oito vezes mais que nós. Certo? Certíssimo.

Então quer dizer que podemos seguir o mesmo caminho que eles. Certo? Errado.

Claro que não podemos, como já disse acima, a natureza não agüenta tanto desaforo e nesse ritmo desenfreado não consegue satisfazer, por igual, a todos.

Por isso, como cristãos, temos obrigação de preservar a natureza, magnífica obra do criador. Como brasileiros detentores de uma enorme diversidade biológica, étnica e cultural, reunimos condições objetivas para construir um novo modelo de desenvolvimento.

Nós brasileiros temos tudo a ver com essa nova construção, pois temos um patrimônio incalculável ainda preservado que é a Amazônia, onde se encontra a maior reserva de biodiversidade e um quinto de toda a água doce do planeta.

Essa enorme responsabilidade deve ser compartilhada com todos. Para começar é preciso colocá-la na agenda das preocupações de cada cidadão e cidadã. Neste sentido, a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) acaba de dar um passo importante,  elegendo a Amazônia como tema da Campanha da Fraternidade em 2007, o que certamente fará o mundo católico procurar informação e refletir sobre os acontecimentos sociais e políticos envolvendo o planeta verde. Será um ano de muita discussão, o Brasil católico vai saber e passar adiante, que existem conflitos em torno da questão da preservação da natureza e muita gente já deu a vida por acreditar que um outro Brasil e que uma outra Amazônia são possíveis.

Chico Mendes, e a Irmã Dorothy Stang, são os nomes mais conhecidos de uma lista de mais de mil pessoas mortas por causa de conflitos na Amazônia, provocados por um modelo de desenvolvimento, que ao longo de nossa história baseia-se na desigualdade, na dependência externa e no crime ecológico. Essa história vem desde o ciclo da borracha passando pela mineração e pela exploração clandestina da madeira. O próprio governo financia pastagens na região, incentivando as queimadas para substituir floresta por gado. O mesmo ocorre com os subsídios governamentais para a soja, que provocam mais derrubadas de floresta. O modelo de desenvolvimento adotado para a Amazônia se mostra falido desde o seu nascedouro, é só olhar para o ciclo da borracha, que por trás da riqueza trazida para os donos dos barracões e exportadores escondia um sistema macabro de escravidão dos trabalhadores.

O homem da Amazônia acumulou experiências e adquiriu consciência de que é possível satisfazer suas necessidades econômicas, sociais e culturais, sem sucumbir ao vergonhoso fenômeno da subordinação ativa à desigualdade, à dependência externa e ao crime ecológico protagonizados por nossas elites. Desenvolver sem destruir o meio ambiente vai aos poucos se transformando em vontade coletiva.

Vários projetos apontam para esta direção, no Amapá vivemos, há alguns anos atrás, a implementação de políticas públicas fundamentadas nas teses do desenvolvimento sustentável. Neste momento o Acre vive sua melhor fase de desenvolvimento, tendo no meio ambiente o eixo principal de suas preocupações políticas. Em  outros estados da região, também cresce a preocupação ambiental.

É fundamental que nesta Campanha da Fraternidade tendo com tema a Amazônia, se produza informação capaz de alimentar os debates e estimular  propostas que possam conjugar o econômico, o social e o ambiental, tendo como centro destas preocupações o homem da Amazônia e a preservação deste fantástico patrimônio natural que pertence a todos os brasileiros.

Concluo com a seguinte proposta:

Que o Fundo Constitucional do Norte (FNO), operado pelo Banco da Amazônia, cujo montante deve estar muito próximo de R$ 1 bilhão, dinheiro vindo dos impostos pagos pelo povo, se destine prioritariamente a financiar atividades econômicas de baixo impacto ambiental, com forte repercussão no desenvolvimento local. Sugiro que se divida o dinheiro em três linhas de financiamento:

1- 40% para a modernização gerencial, introdução de novas tecnologias e adequação às exigências ambientais das atividades tradicionais, que já são objeto de financiamento através do Banco da Amazônia.

2- 40% para financiar a cadeia produtiva dos recursos da biodiversidade Amazônica, contemplando o setor empresarial, cooperativo e comunitário.

3- 20% para financiar pesquisas aplicadas para melhorar os produtos existentes e desenvolver novos produtos da biodiversidade Amazônica.

                                             Macapá, 28/12/06.
 
(*) João Capiberibe governou o Amapá de 1995 a 2002, implantando o PDSA (Programa de Desenvolvimento Sustentável do Amapá); pegou "emprestado" o título do excelente livro " Amazonie, lê chemin de l'espoir", feito a quatro mãos pelo professor e pesquisador Alain Ruellan e o jornalista Bertrand Verfaillie, editado na França.

*Publicado por Nezimar Borges

 

LUIZ ALBERTO MONIZ BANDEIRA

Cientista político, professor emérito da Universidade de Brasília e autor de "As Relações Perigosas: Brasil-Estados Unidos de Collor a Lula, 1990-2004", "Brasil, Argentina e Estados Unidos" e "De Martí a Fidel: a Revolução Cubana e a América Latina". Leia alguns de seus artigos AQUI>>

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