Fraternidade e Amazônia
Dom Odilo Pedro Scherer (*)
23/02/2007
Fonte : http://www.cnbb.org.br

1. Campanha da Fraternidade mais uma vez
Cada ano, durante a Quaresma, a CNBB realiza a Campanha da Fraternidade e convoca toda a Igreja no Brasil, e também a sociedade inteira, a se envolverem na proposta da Campanha (CF).
Em 2007, a CF acontece pela 43a vez no Brasil. Muitos temas de grande interesse e importância foram tratados ao longo desses anos; recordo alguns: Fraternidade e trabalho; Fraternidade e educação; habitação; violência; terra; fome; indígenas, negros, pessoas idosas, pessoas com deficiência, fraternidade e água.
Através da CF, a Igreja aborda uma questão importante, a partir do enfoque da fraternidade; essa abordagem é importante para a missão da própria Igreja e para a sociedade como um todo, pois envolve um critério ético fundamental para a convivência social e religiosa. Para os cristãos, a fraternidade traduz o Mandamento do amor ao próximo. De fato, Jesus Cristo ensinou que Deus é Pai de cada ser humano e que deseja que seus filhos vivam todos como irmãos e irmãs neste mundo. Fraternidade diz justiça, respeito, solidariedade e paz. A ausência de fraternidade efetiva leva a perder o respeito pelos direitos e a dignidade do próximo, a discriminações, injustiças, conflitos, violência e guerra. Leva à ausência de paz.
A CF, tendo presente o tema de cada ano, em geral, começa coma denúncia das situações que denotam falta de fraternidade e, por isso, são geradoras de conflitos e de violência na convivência social. A seguir, a CF levanta critérios éticos cristãos, baseados na sabedoria humana, no ensinamento da Igreja e na Palavra de Deus, para avaliar essas situações de falta de fraternidade e para discernir qual seria a vontade de Deus para a construção de uma sociedade justa e fraterna. Finalmente, a CF propõe pistas de ação para suscitar e desenvolver maior fraternidade, sempre no âmbito do tema em questão.
A CF é organizada e promovida pela CNBB, mas não de maneira centralizada; uma vez lançada, ela é de toda a Igreja e de suas organizações, das outras Igrejas que queiram aderir a ela e mesmo de toda a sociedade. As questões levantadas, de fato, dizem respeito ao bem comum e o objetivo é que a sociedade, como um todo, se coloque diante da questão posta.
2. Fraternidade e Amazônia – CF 2007
Para 2007, CNBB escolheu e preparou o tema – Fraternidade e Amazônia. Muitas foram as solicitações e sugestões vindas de Organizações ligadas à Igreja e à sociedade, para que esse tema fosse contemplado pela CF. A própria CNBB possui, há vários anos, uma Comissão de Bispos encarregada de acompanhar as questões da Amazônia e de estimular toda a Igreja católica no Brasil a voltar-se mais para as situações vividas pelo povo da Amazônia e também aquelas relativas ao ambiente.
A Amazônia, atualmente, está no centro das atenções e dos interesses do mundo, por causa de sua grande floresta tropical, sua rica biodiversidade, seus recursos naturais, as riquezas dos eu subsolo e as imensas extensões de suas terras ainda inexploradas. Muitos interesses econômicos, pequenos e grandes, estão voltados para a Amazônia. Isso tudo levanta grande preocupação em relação ao futuro dessa Região, em relação às relações inadequadas com a Amazônia, que trazem danos graves e mesmo irreversíveis a esse grande patrimônio, que é dos povos que o ocupam, do povo brasileiro mas também da humanidade inteira.
Recentemente, ouvimos cientistas e técnicos apresentando um relatório alarmante sobre o processo de aquecimento global de nosso planeta Terra causado pela insensatez do homem na exploração e no uso dos recursos naturais. Se nada for feito para reverter esse processo, corremos o sério risco de destruir a vida na terra e de torná-la inabitável, em poucos séculos. Estamos destruindo a casa que nos abriga e preparando gravíssimos problemas para as futuras gerações. E seremos cobrados por isso, se nada fizermos para reverter esse processo. Não somente os governos serão responsabilizados, mas também a Igreja, as religiões e as organizações da sociedade serão cobradas por aqueles que herdarem de nós um mundo deteriorado.
É preciso, por isso mesmo, elaborar uma ética adequada para a convivência com a natureza, pautada no zelo e a comum responsabilidade. Nossa relação com a natureza e seus recursos deve ter sempre presente que ela existe como um bem, não apenas para mim, mas para o conjunto dos seres humanos e dos demais seres da criação, e ainda para as futuras gerações. Eis um dos enfoques da CF de 2007. Continuar a depredar e a destruir a Amazônia e qualquer outro bioma é uma insensatez, é falta grave de responsabilidade e de fraternidade. O egoísmo e a ganância destróem e matam; a fraternidade promove a partilha e a sustentabilidade.
Cuidar da Amazônia, esse rico berço de vida, é tarefa de todos os brasileiros, dos amazônidas e nativos destas terras aos habitantes das metrópoles do Centro-Sul, ou do Nordeste do Brasil. A depredação da Amazônia e de qualquer outro ambiente de vida deveria causar a firme repulsa de todos os brasileiros e seu forte clamor para que as autoridades competentes ponham em ação políticas publicas capazes de conter a destruição e de promover o respeito pelas condições de vida do nosso Planeta.
Outro aspecto da CF-2007 diz respeito aos povos da Amazônia: indígenas, caboclos, quilombolas, nativos ou migrantes, populações ribeirinhas e gente das pequenas e grandes cidades da Amazônia. São eles a referência primeira da fraternidade a ser despertada e aprofundada nesse chão. O povo da Amazônia é vítima, com freqüência, de esquecimento e discriminação, de graves conflitos, de violência e de sangue. Na ocupação da terra e na exploração dos recursos naturais, muitas vezes impera a lei da selva, a lei do mais forte, por causa da ausência, ou da ineficiência do Estado e de suas Instituições. E nessas situações, pessoas idealistas e generosas, que fizeram da solidariedade social o seu programa de vida e atuação, são vítimas de ameaças e da perda de suas vidas, como acontece com sindicalistas, agentes sociais e missionários, a exemplo de Ir. Dorothy Stang e tantos outros, em toda a Amazônia.
Por outro lado, os interesses e a sede de lucro da economia globalizada se projetam sobre a Amazônia e seus povos de maneira inexorável e como um rolo compressor, não respeitando a a vida, a cultura e o direito desses povos. O brilho da cidade, com suas promessas de conforto, oportunidades e riqueza, com seus encantamentos midiáticos e suas lojas cheias de produtos da sociedade de consumo , exercem um fascínio irresistível sobre gente simples e indefesa, que vive muitas vezes no isolamento e no abandono de suas aldeias e roçados no interior. Chegando à cidade, a maioria dessas pessoas defronta-se com as frustrações e amarguras dos sem-terra, sem-teto, sem-trabalho, sem-segurança, sem-referência, sem-futuro, sem- esperança. E assim vemos as cidades da Amazônia alargando-se desmesuradamente, com gravíssimas deficiências de oportunidades de trabalho, saneamento, habitações, escolas, estruturas públicas... Como conseqüências, aparecem a violência, o tráfico de drogas, a prostituição, até mesmo infantil, o degrado da família e da convivência social.
3. Vida e missão neste chão!
O que propõe a CF-2007? Antes de tudo, que se conheça um pouco melhor o significado da Amazônia para o Brasil e para o mundo; que se tome consciência das situações vividas pelos povos da Amazônia e se faça um grande debate sobre as questões amazônicas. Não será possível prevenir e resolver os conflitos originados com a posse e a exploração da terra e de suas riquezas? Não será possível frear definitivamente a queima da floresta amazônica? Como promover o respeito pelas populações amazônicas, o aproveitamento sustentável da floresta e dos recursos naturais, das águas e das riquezas do subsolo? Como fazer para que a Amazônia, pródiga de vida, em vez de se tornar sempre mais palco de injustiças, de violências e de sangue, seja o chão da convivência harmoniosa e fraterna de muitos povos, raças e culturas?
A CF propõe iniciativas das comunidades da Igreja e de toda a sociedade para alcançar esses objetivos. Igrejas e suas organizações, escolas e universidade, empresas e clubes, comunicadores e profissionais de todos os campos do trabalho, em todo o Brasil, poderão confrontar-se com a realidades da Amazônia e perguntar-se sobre o quê pode ser feito. A CF propõe a discussão de políticas publicas sábias e de horizontes largos, que empenhem o Estado na defesa e proteção desse bem comum, para que não venha a ser depredado em função de interesses particularistas, sem atenção aos interesses e necessidades das populações locais e da sociedade, como um todo.
A CF sobre a Amazônia coloca em xeque o modo de vida consumista inconseqüente, que não faz caso da sustentabilidade e gera a destruição dos recursos naturais e das condições de vida na Terra. Precisamos todos pensar num estilo de vida mais sóbrio, voltado para as necessidades essenciais e que desestimule a produção e o consume de supérfluos, que destróem a natureza e enchem o mundo de lixo e fumaça...
A preocupação da Igreja com o ambiente é inspirada no apreço e no respeito pela obra divina da criação, nos princípios éticos da destinação universal dos bens deste mundo para todos os seres humanos e da fraternidade universal de todas as pessoas e povos. A convivência sustentável requer, portanto, a promoção de uma cultura voltada para o respeito e a promoção do bem comum.
A CNBB abre a CF e convida toda a sociedade a participar dela. A missão aqui proposta é de todos. Que Deus abençoe a todos e faca suscitar muitos frutos de vida neste chão da Amazônia.
(*) Bispo auxiliar de São Paulo e Secretário Geral da CNBB
Mensagem proferida por ocasião do lançamento da CF em Belém
*Publicado por Nezimar Borges
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