Internacionalização da Amazônia é realidade
Documento preparado pela CNBB mostra que diversas ações na Amazônia são comandadas por empresas ou grupos internacionais.
CHICO ARAÚJO >29/07/2007
BRASÍLIA - A internacionalização da Amazônia, tão temida por políticos e governos, já vem acontecendo na região. E isso se dá porque, hoje, milhares de hectares de terra ali são de propriedade (mais ou menos legal) de estrangeiros ou de empresas de capital estrangeiros. A extração mineral é dominada por empresas de capital internacional, isso sem falar nas pesquisas da biodiversidade, que são apoiadas por empresas, Ongs e entidades ligadas a governos de diversos países. No rico mercado da soja exportada da Amazônia quem manda são as empresas estrangeiras.
"Hoje, o fantasma da internacionalização (da Amazônia) foi apenas substituído pela realidade do mercado globalizado, que busca impor o mesmo projeto e as mesmas leis a todos os países da bacia amazônia", avalia a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), no texto-base da Campanha da Fraternidade deste ano que tem a Amazônia como tema central.
Para a CNBB, outro indício de internacionalização da Amazônia é a presença e a atuação na região de várias organizações não-governamentais de origem internacional. Essas Ongs são verdadeiras potências no setor ambiental e lidam com uma grande quantidade de recursos. "Alguns de seus membros têm cargos importantes no Ministério do Meio Ambiente e contribuem para a definição de projetos governamentais", aponta a entidade. Espionagem e tráfico A suspeita da CNBB é confirmada pelos órgãos de inteligência do governo brasileiro. Em junho, ao depor na Câmara dos Deputados, o do general de-Exército Maynard Marques Santa Rosa, secretário de Política Estratégia e Assuntos Internacionais do Ministério da Defesa, revelou um dado estarrecedor: "Muitas das organizações não-governamentais (Ongs) em atuação na Amazônia "têm interesses ocultos como tráfico de drogas, lavagem de dinheiro, tráfico de armas e de pessoas e até mesmo espionagem".
Dados dos serviços de inteligência dos órgãos de seguranças (Forças Armadas, Abin e Polícia Federal (PF) indicam que 100 mil Ongs operam na Amazônia. O general Santa Rosa foi à Câmara falar sobre a atuação de Ongs estrangeiras no Brasil. E fez questão de ressaltar que as informações por ele prestadas "têm caráter oficial e não são meras opiniões".
No início deste ano, o Grupo de Trabalho da Amazônia (Gtam) divulgou relatório indicando que a atuação de instituições religiosas e organizações não-governamentais (ONGs) estrangeiras, a pretexto de ajudar as populações nativas, estariam praticando espionagem na Amazônia. Essas entidades também fazem apropriação indevida de recursos naturais e pesquisas clandestinas para fins de biopirataria, diz o relatório do Gtam, órgão ligado à Agência Brasileira de Inteligência (Abin). Interesses ocultos
Mesmo assim, as ações dessas Ongs trazem algum benefício, pois despertam o senso preservacionista. Mas o texto da CNBB roconhece que, apesar desses benefíciios, fica a sensação de que a atuação (das Ongs) pode estar apenas servindo de fechada para encobrir interesses ocultos dos países que as financiam e não para a proteção, de fato, dos direitos das populações tradicionais. Para a CNBB, o sentimento é o mesmo com relação à pesquisa científica da biodiversidade da Amazônia, conduzida ali por organismos internacionais.
A entidade considera fundamentais as pesquisas na Amazônia. No entanto, alerta que é preciso o governo ficar atento para se evitar práticas nefastas da biopirataria (roubo de recursos naturais). Nos últimos anos, empresas estrangeiras patentearam produtos locais, entre os quais o cupuaçu, e se aproveitaram do conhecimento das populações tradicionais sem que elas recebessem um adequado retorno da enorme riqueza que esses conhecimento geram, em particular no campo farmacêutico e da cosmética.
A CNBB também lembra casos de experiências feitas com serem humanos, como a pesquisa sobre a malária, na comunidadade negra de Pirativa, no Amapá. Para evitar ess tipo de ação, a entidade alerta: o governo deve investir mais recursos na formação de pesquisadores amazônicos, de maneira que eles tenham possibilidade de desenvolver aqui suas pesquisas, sem ter de se colocar a serviço dos interesses internacionais.
Amazônia para o mundo
Segundo o texto-base da Campanha da Fraternidade, denunciar as diversas formas de internacionalização da Amazônia é obrigação de todo brasileiro. "Temos a clara consciência de que a Amazônia tem indiscutível e dupla importância para a humanidade toda: é importante como o ambiente que deve ser preservado para que o planeta possa "respirar" e "filtrar" suas poluições". Ou seja, a Amazônia é importante porque as populações, com sua prática existencial, podem ensinar a toda a humanidade uma nova maneira, carinhosa, respeitosa e austera de se relacionar com a natureza e com as pessoas.
"Qualquer intrenavenção na Amazônia só será ética se respeitar a indentidade e a vocação dessa região", destaca o texto. Nas décadas de 1970 e 1980, a preopupação com o futuro ambiental do planeta colocou a Amazônia no centro dos debates. Falava-se em soberania compartilhada e de que a região era o "pulmão do mundo".
O alarme internacional chegou a seu ponto máximo por ocasião da Cúpula de Haia, realizada dia 10 e 11 de março de 1989, qual o presidente da França formalizou a proposta de que o Brasil deveria abrir mão da parcela de sua soberania sobre a Amazônia. Pela proposta, essa parcela passaria a ser exercida por uma entidade internacional. E, por incrível que pareça, essa campnha continua até hoje, mesmo já tendo perdido forçar a idéia de tirar a Amazônia do controle jurisdicional do Brasil..
Saiba mais:
Após a Segunda Guerra Mundial, a Amazônia tornou-se um dos alvos dos interesses internacionais. Vários projetos de outros países se voltaram para a Amazônia, utilizando pretextos diferentes: Tratava-se de um grande vazio demográfico que precisava ser ocupado; A região era detenttora de fantásticos recusros naturais que deveriam ser colocados à disposição da humanidade; Esses recursos naturais e, em especial, a sua rica biodiversidade, deveriam ser objeto de pesquisas científicas que os países amazônicos não tinham condições de fazer.
A Convenção de Iquitos, de 1948, previa que os países amazônicos perderiam a jurisdição sobre as terras compradas pelos países do norte para o Instituto Hiléia, criado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) com a finalidade de planejar, cooordenar e fazer pesquisas científicas sobre a Amazônia. A tal convenção foi reprovada pelo Congresso brasileiro. Chegou-se a pensar em ocupar o vazio demográfico da Amazônia com populações de países asiáticos superpovoados e até de transformar a Amazônia num abrigo para a população norte-americana em caso de guerra nuclear. E não faltam projetos mirabolantes. Pensou-se criar uma megabarragem em Óbidos (PA) que iria se alagar até Manaus (AM), para produzir uma imensa quantidade de energia elétrica.
*Publicado por Nezimar Borges
|