Pegada ecológica e social
Leonardo Boff
21/06/2007
Para
cada pessoa viver, é necessário uma pegada ecológica média geral (2,8
hectares). Mas Europa, EUA, Japão, Índia e China vivem muito acima
daquilo que lhes é permitido por seus recursos ecológicos, com uma
pegada que chega a 600%. O Planeta suportará?
Leonardo Boff
Quanto aguenta a Terra em sua generosidade ao nos forncecer todas as
condições para que possamos viver, nos reproduzir e coevoluir? Não só nós
mas toda a comunidade de vida que vai das bactérias aos vegetais e animais?
Ela é um planeta pequeno, finito em seus recursos e já velho. Temos que
viver dentro das capacidades de fornecimento e de reposição, próprios da
Terra
e não ao nosso bel prazer. A espécie homo sapiens/demens ocupou 83% do
planeta e consumiu excessivamente a ponto de a Terra já ter
ultrapassado em 25% sua capacidade de recarga. A seguir esta lógica, o
planeta quebra como qualquer empresa que gasta mais do que ganha.
Como
todos extraem da Terra seus recursos para viver, quanto de chão cada um
precisa para garantir sua sobrevivência? Quanto de terra produtiva, áre
aflorestal, energia, habitação, água, mar, urbanização e capacidade de
absorção dos dejetos cada pessoa necessita? A esse conjunto de fatores
ecológicos e sociais se chama de pegada ecológica e social, expressão
cunhada por Martin Rees e Mathis Wackernagel ao fazerem um estudo sobre
o tema para o Conselho da Terra em 1977. Eles tomaram como referência
de cálculo o número de hectares necessários para que cada um, cada
cidade e cada pais possam viver de forma minimamente decente. O planeta
dispõe de 10,8 bilhões de hectares produtivos que é menos que 25% de
sua superfície.
Para cada pessoa viver fazem-se necessários pelo menos 2,8 hectares. Esta seria a pegada ecológica média geral.
Como
18% da humanidade consome 80% dos recursos vitais e os hábitos de
consumo variam consoante as regiões e as culturas, varia também a
porcentagem de hectares per capita usados. Assim a Europa, os Estados
Unidos, o Japão, a Índia e a China vivem muito acima daquilo que lhes é
permitido
por seus recursos ecológicos, com uma pegada que vai de 200% até 600%
(é o caso do Japão) de sua biocapacidade nacional. Isto significa que
se uma região se apropria de mais hectares para manter seu alto nível
de consumo (Norte), a outra deverá forçosamente ocupar menos (Sul). Em
outras palavras, o consumo alto de um pais ou região comporta um
subconsumo baixo no outro. Por aí se entende a profunda falta de
equidade na repartição dos bens e o caráter desigual de todo o processo
de produção e consumo mundial.
A biocapacidade total do território brasileiro é de 18.615.000 pontos. A
pegada ecológico-social brasileira é de 2,6 hectares. Nossa biocapacidade
excede
tanto a nossa demanda que o Brasil poderia ser a mesa posta para as
fomes e as sedes do mundo inteiro. Mas nos paises notam-se profundas
diferenças.
Enquanto um habitante de Bengladesh possui uma pegada de 0,5 hectares,
a de uma norte-americano é de 9,6. Em outras palavras, se todos os
habitantes da Terra tivessem o nível de consumo norte-americano,
precisaríamos de três Terras semelhantes a nossa para garantirmos os
recursos energéticos e materiais suficientes. Vivemos, pois, sem nenhuma
humanidade e solidariedade. Por isso esse modo de viver é totalmente
insustentável e pode levar ecologicamente a Terra a um colapso.
O ideal que a Carta da Terra propõe para todos é um "modo sustentável de
viver": produzir em consonância com os sistemas vivos, contendo nossa
voracidade
e dando tempo para que a Terra se regenere e continue a oferecer a nós
e à comunidade de vida tudo o que todos precisam.
Leonardo Boff é teólogo e escritor.
*Publicado por Nezimar Borges
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