JOÃO CAPIBERIBE é Apontado como o "Maior Amapaense de Todos os Tempos" Saiba Mais Aqui>>

Sobre o Casal Capiberibe: Uma fraude e duas vidas públicas de serviço ao Brasil

João Capiberibe: Perseguido indomável

João Capiberibe, Heloísa Helena e Protógenes Queiroz em ato do PSOL contra o desemprego e a corrupção

Carta aberta ao senador Renan Calheiros

Casal Capiberibe: Dois seres preciosos

O  caso da cassação de Capiberibe:  Passo a passo de uma farsa

Carta aberta a Carlos Veloso

João Capiberibe explica o projeto Transparência ao procurador-geral da República

João Capiberibe é Apontado como o "Maior Amapaense de Todos os Tempos"

João Capiberibe recebe Maior Comenda do Acre

Fonte: Extraido do Jornal Folha do Amapá OnLine Com adaptações

"Dedico esta história a Janete, que por amor e companheirismo venceu o medo abrindo caminhos para a conquista da liberdade. A Artionka, com sua inocência, que nos acompanhou na primeira fase da trajetória, e a Camilo e Luciana, que nasceram em Santiago e nos fizeram companhia até acharmos o caminho de volta."

João Capiberibe
 

MEMÓRIA: Os anos de chumbo (1)

Fonte: Extraido do Jornal Folha do Amapá OnLine Com adaptações

No woman, no cry
No woman, no cry BIS
Bem que eu me lembro a gente sentado ali na grama do aterro sob o sol
Observando hipócritas disfarçados rondando ao redor
Amigos presos, amigos sumindo assim, prá nunca mais
Nas recordações retrados do mal em si, melhor é deixar prá trás
Não, Não chores mais
Não, Não chores mais
(Gilberto Gil)

Foto feita no pátio do presidio São José Belém-Pa/Jan/71

Em 1964, os militares promoveram o golpe que mergulhou o Brasil numa longa e cruel ditadura. Transcorreu mais de vinte anos de terror com prisões arbitrárias, intervenção nos sindicatos, atos institucionais e ação militar contra estudantes, trabalhadores, artistas e organizações
de esquerda.

Na condição de Território Federal, o Amapá tinha na época menos gente e menos problemas de ordem pública. Mesmo assim, o arbítrio institucionalizado pelos militares atingiu grupos e pessoas locais, entre elas os estudantes João Alberto Capiberibe e Janete Del Castilo, que se conheceram no IETA (Instituto que formava professores de nível médio). Os dois, já casados, se tornaram membros da ALN (Aliança Libertadora Nacional), de Carlos Marighella, e acabaram presos em Belém em 1970.

Após um ano de prisão política, o casal conseguiu fugir com a filha Artionka, de oito meses, exilando-se no Chile, no Canadá e na África.

Ao retornar, em 1979, com mais um par de gêmeos (Camilo e Luciana), o casal iniciou trajetória política com os princípios libertários de sempre. Filiados ao PSB (Partido Socialista Brasileiro), João Alberto e Janete se elegeram no Amapá, continuamente, desde 1988: ele foi prefeito de Macapá e governador do Estado por dois mandatos, tornando-se senador em 2002; ela se elegeu vereadora, deputada estadual durante três mandatos e deputada federal mais votada nas últimas eleições.

O senador e a deputada federal, após serem eleitos pelo povo do Amapá nas eleiçoes de 2002, sofreram perseguiçao politicas do PMDB de José Sarney que com todo seu "prestigio" conseguiu com que o casal Capiberibe fossem cassados pelo Supremo Tribunal Federal. A Suprema Corte confirmou decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tomada a partir de uma denúncia improvável do PMDB do Amapá. Os fatos apontam, como reconhecem os acusados, para um conluio entre o senador José Sarney e outros membros do partido no Congresso visando afastar as duas lideranças populares das próximas disputas eleitorais.

Estimados pelo povo amapaense, João Alberto e Janete Capiberibe se tornaram referência nacional e internacional por sua luta pela construção do desenvolvimento sustentável na Amazônia, e parte de sua história foi narrada pelo principal protagonista numa série de artigos publicados nesta Folha em 1993. O jornal achou por bem reprisá-la, agora, para que as novas gerações possam avaliar a injustiça que se comete contra duas das mais legítimas lideranças políticas da Amazônia e do País. (Da Editoria) - Folha do Amapa com Adaptaçoes.

Pessoas inocentes na Fortaleza

Aos 16 anos, nos idos de 1964, eu acreditava que greve era obra de bagunceiros que não queriam trabalhar; e que os comunistas eram como os micróbios, estavam em toda parte e ninguém via. Vivíamos intoxicados pela intensa propaganda anticomunista patrocinada pelos Estados Unidos através dos meios de comunicação.

Cresci lendo e ouvindo estórias fantásticas sobre a crueldade dos vermelhos. Lembro-me dos relatos veiculados em uma revista de ampla circulação na época (Seleções, do Rider’s Digest), dizendo que eles praticavam todo tipo de atrocidades em suas vítimas: em geral religiosos, criancinhas e velhos. Tudo era tão convincente que meu pai acreditava sinceramente que o golpe militar de 64 era necessário para salvar o Brasil das garras do comunismo internacional. Ora — pensava —, meu pai devia estar certo e eu devia concordar com suas idéias.

Na verdade, me importava pouco com a questão política, queria mesmo era curtir o que uma adolescência pobre podia oferecer: jogar basquete e freqüentar festinhas de fim de semana. No entanto, se a questão política não me interessava, o mesmo não acontecia com os problemas sociais. Estes passaram a me incomodar desde cedo em função da minha condição e dos meus amigos do bairro Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, onde ensaiei meus primeiros passos na militância comunitária organizando um grupo de meninos para atividades sócio-culturais. Com apoio do pároco, promovíamos festa com finalidade filantrópica, encenávamos enquetes e discutíamos problemas que nos diziam respeito.

Veio então o golpe militar e com ele as primeiras prisões políticas. A velha Fortaleza de São José de Macapá foi reativada para receber os subversivos: eram tão poucos que se podia contar na ponta dos dedos; em geral, pessoas simples e tranqüilas, que gozavam da estima e amizade de todos naquela Macapá de poucas ruas e avenidas, onde ninguém passava despercebido.

Custava acreditar no que via: então eram aqueles os perigosos comunistas tão badalados e perseguidos pela fúria golpista? Homens como Chaguinha, Jorge Padeiro, Antônio Montoril, Isnard Lima e Hermínio Gurgel... foram apresentados como agentes da subversão capazes de façanhas mirabolantes para implantar a ditadura do proletariado em nome do comunismo ateu.

A pacata Macapá movimentou-se com o vai-e-vem de homens armados à caça dos inimigos do rei — um interventor militar, salvo engano, de nome Fontenelle — que parecia inconformado com a quantidade e qualidade da fauna ideológica nativa. Certamente, ele desejava ver as masmorras da Fortaleza repletas de comunistas, mesmo que para isso tivesse que improvisar alguns. Teve gente que até hoje não conseguiu explicar porquê esteve preso.

Em poucas semanas me dei conta dos equívocos de meu pai e passei a questioná-lo sobre as prisões de pessoas, quase todas amigas ou conhecidas. Claro que ele jamais imaginara aqueles acontecimentos. Para ele, as coisas ruins existiam, porém muito longe daqui. Na medida em que a repressão do regime avançava, através dos tristemente famosos Inquéritos Policiais Militares (IPM), entidades sindicais e estudantis eram fechadas e seus líderes encarcerados, fazendo despertar meu interesse pelos acontecimentos políticos e concluir que o golpe não atendia aos ideais do povo brasileiro, mas sim à cobiça dos poderosos grupos econômicos internacionais.

Já com as idéias mais ou menos arrumadas em relação ao regime, deixei Macapá um ano após o falecimento de meu pai, que também se desencantara com a proclamada Revolução Redentora. Em Belo Horizonte, onde fui morar, ampliaram-se os contatos e amizades. Conheci Elson Martins no final do primeiro semestre de 1966; fizemos amizade e terminamos morando na mesma República Estudantil, na Rua Rio de Janeiro. Com ele aprofundei-me na leitura de textos políticos e literários, foi também através dele que estabeleci contato com estudantes ligados às organizações de esquerda. Juntos, levamos as primeiras porradas da polícia, nas manifestações de rua contra a privatização das universidades brasileiras prevista nos acordos Mec-Usaid.

Claro que também curtíamos nossa juventude nas noites de Belo Horizonte, nas rodadas de discussão política estimuladas por uma cachacinha cujo nome referenciava uma das obras-primas de Chaplin: Luzes da Ribalta. Depois percorríamos os cabarés da Av. Goitacazes sem que o Elson se animasse a ensaiar um único passo dos boleros e samba-canções da época (definitivamente, não tinha o menor jogo de cintura para a dança). Às vezes encerrávamos a noitada tomando banho no chafariz da Praça da Liberdade.

Lembro-me que em 1963 eu estudava na Escola Normal de Macapá, o IETA, e que ensaiamos durante várias semanas a canção Deus Salve a América para receber o então embaixador dos Estados Unidos, Lincoln Gordon. A cidadezinha se concentrou no aeroporto na expectativa da chegada do ilustre visitante. Os estudantes faziam um corredor empunhando bandeiras americanas e brasileiras para saudar o embaixador. E, inocentemente, entoamos a canção longamente ensaiada. O real significado daquela visita, entretanto, só entendi alguns anos depois, quando o Elson explicou-me o papel de Lincoln Gordon peregrinando pelo Brasil afora, empunhando a bandeira anticomunista, intervindo sem nenhum pudor nas questões internas e preparando caminho para a intervenção militar.

O envolvimento do Governo Americano em golpes de estado na América Latina tornou-se largamente conhecido: agia ao estilo Lincoln Gordon, com desenvoltura e sem nenhuma preocupação em dissimular sua arrogância intervencionista. Até hoje paira a dúvida de que pilotos americanos teriam feito os ataques aéreos ao palácio de La Moneda, na derrocada e assassinato do Presidente do Chile, Salvador Allende, em 1973.

Pessoalmente, conheci e vivi as conseqüências de três ditaduras: Brasil, Bolívia e Chile, patrocinadas pelo governo norte-americano, conforme aparecerão com freqüência ao longo deste relato. Para o Pentágono e a CIA, democracia e bem-estar social é bom em casa; na terra dos outros, vale desigualdade e opressão. Foi mais ou menos esta filosofia que prevaleceu ao longo dos anos 60 e 70 na América Latina.

ANOS DE CHUMBO-PARTE2>>

 

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