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Ação Libertadora Nacional: Uma visão crítica

Local: Sao Paulo - SP
Fonte: Midia Sem Mascara
Link: http://midiasemmascara.org

A ALN foi formada por uma corrente dissidente do PCB, pós 1964, aglutinada basicamente em torno de um grupo denominado Agrupamento Comunista de São Paulo, liderado por Carlos Marighella, com ramificações em outros Estados. Em 1967, os diversos segmentos, sob a liderança de Marighella, decidiram fundar a Ação Libertadora Nacional, organização político-militar, marxista-leninista, de linha foquista (cubana), dedicada à luta armada para a conquista do Poder Político e a instituição de um Estado Comunista. 

II - ALN - Tentativa de Implantação da Área Estratégica.

A estruturação de uma área rural sempre foi o objetivo estratégico da ALN e de outras organizações militaristas. As ações armadas urbanas, as expropriações (ilícitos marginais), visavam à obtenção de recursos para manutenção da militância e apoio ao objetivo estratégico. Bastava sentar e pensar sobre as possibilidades e aí desistir... 

No início de 1968, CARLOS AUGUSTO DA SILVA SAMPAIO, líder estudantil em Belém/PA, foi contatado por um militante da ALN e convencido a aceitar um encontro com CARLOS MARIGHELA, no Rio de Janeiro. Aproveitando as férias escolares, deslocou-se para o Rio de Janeiro, onde estabeleceu contato com a organização. Foi então montado um esquema de comunicação com MARIGHELA, por intermédio militante MARIA CERQUEIRA E SILVA (“Gorda”), residente em Copacabana, e do casal JOÃO BATISTA XAVIER PEREIRA e ZILDA PAULA XAVIER PEREIRA, então coordenadores da ALN/RJ. Em setembro de 1968, CARLOS AUGUSTO voltou a ser procurado dessa vez por JOÃO BATISTA XAVIER PEREIRA, que trazia orientação para o início da estruturação da ALN no Estado do Pará. Iniciados os trabalhos de aliciamento, logo aderiram à organização JOÃO ALBERTO RODRIGUES CAPIBERIBE (“Capi”), JOÃO MOACIR SANTIAGO MENDONÇA (“Zé”), PEDRO ALCÂNTARA CARNEIRO (“Alfredo”) e FLAVIO AUGUSTO NEVES LEÃO DE SALLES (“Ali”). Em junho de 1969, CARLOS AUGUSTO, em nova viagem ao Rio de Janeiro, acompanhado de JOÃO ALBERTO CAPIBERIBE, recebeu a missão de iniciar o trabalho de implantação da “Área Estratégica” da ALN na região do Araguaia, até a cidade de Imperatriz/MA. No Rio de Janeiro encontrou-se com os freis dominicanos, militantes da ALN, “Ivo” (YVES DO AMARAL LESBAUPIN) e “Fernando” (FERNANDO DE BRITO), e NESTOR MOTA, que já haviam vasculhado a região escolhida, em reconhecimentos realizados em 1968. O último, em Conceição do Araguaia/go, havia feito contato com o também militante JOÃO CARLOS RAMALHO, que trabalhava no movimento de Educação de Base (MEB) local.

Após acertos, e dentro do esquema de dar início ao trabalho de doutrinação no campo, JOÃO MOACIR SANTIAGO MENDONÇA (“Zé”), deslocou-se para Conceição do Araguaia, passando a residir com JOÃO CARLOS RAMALHO.

Em agosto de 1969, FLAVIO AUGUSTO NEVES LEÃO DE SALLES (“Ali”), que havia sofrido uma recriminação da Organização por ser viciado em entorpecentes, realizou, por iniciativa própria, um assalto à firma Gelar, em Belém/PA, com o auxílio de criminosos comuns. A intensificação da atividade policial em Belém, que se seguiu ao assalto, provocou, por questões de segurança, a viagem apressada de CARLOS AUGUSTO DA SILVA SAMPAIO e JOÃO MOACIR SANTIAGO MENDONÇA ao Rio de Janeiro, onde se homiziaram, em Copacabana, no apartamento de MARIA CERQUEIRA E SILVA. Ao retornarem a Belém, foram informados que JOÃO ALBERTO CAPIBERIBE já havia selecionado uma área apropriada no Tocantins.

Após o retorno de CARLOS AUGUSTO e JOÃO MOACIR do Rio de Janeiro, um grupo da ALN, em Belém, constituído por PEDRO ALCÂNTARA CARNEIRO, WANDERLEI GOMES CAMORIM, MANOEL TADEU SOZINHO e MARIA DE FÁTIMA SOZINHO, tentou roubar o carro de um Oficial de Marinha, fato que levou as autoridades a desenvolver um trabalho específico sobre a organização, visando à identificação e localização do grupo.

Com a morte de MARIGHELA, em 04 de novembro de 1969, e a prisão dos dominicanos que integravam sua rede de apoio, o grupo paraense perdeu a ligação com a Coordenação Nacional da ALN, localizada em São Paulo.

Somente em abril de 1970, CARLOS AUGUSTO, então já formado em Direito, retomou a ligação, sendo colocado em contato com “Toledo” (JOAQUIM DA CÂMARA FERREIRA), que assumira o comando da ALN.

Em junho de 1970, JOSÉ SILVA TAVARES (“Vitor”), que anteriormente militara na Corrente ( uma dissidência do PCB) e freqüentara um Curso de guerrilha em Cuba (IIº Ex da ALN) chegara de Cuba e, dentro do esquema, foi para São Paulo, onde recebeu orientação de “Toledo” para dirigir-se a Belém, com a finalidade de dar continuidade aos trabalhos de implantação da Área Estratégica.

Em julho de 1970, o militante da ALN, com Curso em Cuba (IIº Ex da ALN) RENATO LEONARDO MARTINELLI (“Tobias”) contatou CARLOS AUGUSTO, em Belém, para discutir detalhes do trabalho de campo e informar sobre o próximo deslocamento de JOSÉ DA SILVA TAVARES a ser instalado na área. Foi, então, adquirida uma área de terra próxima a Imperatriz/MA, que seria a base para o desenvolvimento do trabalho estratégico.

Em setembro de 1970, finalmente, JOSÉ DA SILVA TAVARES foi levado a Belém por RENATO LEONARDO MARTINELLI e “passado” para CARLOS AUGUSTO. No planejamento constava a ida antecipada do então estudante de Economia JOÃO ALBERTO RODRIGUES CAPIBERIBE para a área de Imperatriz, onde receberia TAVARES.

III – Desmantelamento da Área Estratégica da ALN.

Enquanto a ALN realizava os trabalhos de montagem da sua Área Estratégica, os Órgãos de Segurança em Belém, coroando investigações que vinham sendo realizadas desde abril de 1970, passou a desmantelar inúmeros aparelhos da organização.

No dia 07 de setembro de 1970, às 06:30 h, quando aguardavam o ônibus para o deslocamento para Imperatriz, foram presos JOÃO ALBERTO CAPIBERIBE, sua esposa JANETE DEL CASTILHO CAPIBERIBE, e sua cunhada ELIANE LÚCIA DEL CASTILHO GÓES. No mesmo dia, às 19:00 h, foi preso, em Belém, o advogado CARLOS AUGUSTO DA SILVA SAMPAIO.

JOSÉ DA SILVA TAVARES foi preso na manhã do dia seguinte, no interior do ônibus que o conduziria a Imperatriz. Um parêntesis: JOSÉ DA SILVA TAVARES, posteriormente, viria a ser apontado por setores da esquerda como o responsável, em dezembro de 1970, em São Paulo, pela morte de “Toledo”.

Prosseguindo, foram presos na base da Área Estratégica, onde já fora levantada uma construção rústica para alojar os militantes que chegariam de Cuba, o estudante de Medicina PEDRO ALCÂNTARA CARNEIRO (“Alfredo”) e WANDERLEY GOMES CAMORIM. Na área já haviam sido iniciado um incipiente trabalho de massa, através do atendimento médico à população local, realizado por PEDRO ALCÂNTARA CARNEIRO. No local, foi apreendido um mosquetão 7 mm com a respectiva munição, arma conseguida em Belém por JOÃO MOACIR SANTIAGO DE MENDONÇA (“Zé”).

Paralelamente, durante o desenvolvimento das operações, foi desmantelado um grupo da ALN na Faculdade de Ciências Econômicas da UFPA, com a participação de ROBERTO RIBEIRO CORREIA, que, posteriormente, no decorrer da década de 70, viria a ser militante do PCB. Esse grupo imprimia regularmente um panfleto denominado “Luta Revolucionária”.

IV – Militantes da ALN que, direta ou indiretamente, tomaram parte em atividades ligadas à implantação da área rural.

1. FERNANDO DE BRITO, (“Fernando”), vasculhou a região escolhida, em reconhecimentos realizados em 1968.

2. YVES DO AMARAL LESBAUPIN), (“Ivo”), vasculhou a região escolhida, em reconhecimentos realizados em 1968.

3. CARLOS AUGUSTO DA SILVA SAMPAIO, líder estudantil em Belém/PA, no início de 1968,

4. CARLOS MARIGHELA

5. FLAVIO AUGUSTO NEVES LEÃO DE SALLES (“Ali”).

6. JOÃO ALBERTO RODRIGUES CAPIBERIBE (“Capi”),

7. JOÃO BATISTA XAVIER PEREIRA, trazia orientação para o início da estruturação da ALN no Estado do Pará.

8. JOÃO CARLOS RAMALHO, militante da ALN, Movimento de Educação de Base (MEB), em Conceição do Araguaia.

9. JOÃO MOACIR SANTIAGO MENDONÇA (“Zé”), deslocou-se para Conceição do Araguaia, passando a residir com JOÃO CARLOS RAMALHO.

10. JOAQUIM DA CÂMARA FERREIRA, (“Toledo”).

11. MANOEL TADEU SOZINHO e MARIA CERQUEIRA E SILVA (“Gorda”), residente em Copacabana.

12. MARIA DE FÁTIMA SOZINHO,

13. NESTOR MOTA, vasculhou a região escolhida, em reconhecimentos realizados em 1968.

14. PEDRO ALCÂNTARA CARNEIRO (“Alfredo”) e WANDERLEI GOMES CAMORIM e

15. ZILDA PAULA XAVIER PEREIRA, coordenadores, naquela ocasião, da ALN/RJ.

Observações:
a) Somente Carlos Marighella (Nº 4) e Joaquim Câmara Ferreira (Nº 10) dos dezessete (17) relacionados morreram no confronto com os Órgãos de Segurança. Somente eles possuíam algum conhecimento teórico de guerra de guerrilha e de contraguerrilha.

c) Nenhum deles aparece, posteriormente, ligado às ações do MOLIPO e de outras organizações terroristas.

V – Conclusões.

A Coordenação Nacional da organização tornou-se inoperante, deflagrando um processo de luta interna, em conseqüência da morte de Marighella (04 /11 / 1969) e das quedas decorrentes (1969/70), que se prolongou até outubro de 1970, ganhando expressão com a morte de Joaquim Câmara Ferreira, “Toledo”, em dezembro de 1.970.

Em seguida à morte de “Toledo”, com a cisão surgida na ALN em face do rompimento do chamado Grupo dos 28, que recebia treinamento em Cuba e que viria a constituir o MOLIPO (Movimento de Libertação Popular), e com o desmantelamento total da própria ALN, a idéia da tal Área Estratégica feneceu.

Vários militantes do MOLIPO atuaram no eixo Brasília-Belém, numa tentativa desesperada de manter em pauta o visionário objetivo da ALN... É o que veremos na Terceira Parte da matéria em foco.

É interessante recordar que, nessa mesma época (1970/71) e nessa mesma área, outras organizações tentavam, também, montar suas áreas estratégicas: a VAR-Palmares (cujo trabalho foi desmantelado também em 1970 pela Operação Mesopotâmia) e o PC do B, que desde 1966 iniciara sua implantação na área, com elementos treinados na Academia Militar de Pequim.

*Publicado por Nezimar Borges

 

 

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