MEMÓRIA: Os anos de chumbo-Parte 2
No segundo capítulo desta série sobre acontecimentos vividos sob a ditadura militar instituída no Brasil em 1964, o atual senador João Alberto Capiberibe (PSB), que tinha pouco mais de 16 anos à época, narra a aventura em que ele e outros jovens se meteram ao pichar muros e residências de Belém, de madrugada, com expressões do tipo Abaixo a ditadura.
Flagrado por guardas-noturnos fortemente armados, o grupo empreendeu fuga pelas ruas estreitas do Bairro Cidade Velha, próximo ao Porto do Sal, numa Kombi que foi atingida por cinco balaços. Ninguém saiu ferido, mas é importante lembrar que, naqueles tempos, os pichadores podiam até ter sido mortos, e a ação dos guardas-noturnos ou agentes do regime seria caracterizada como combate a subversivos. Provavelmente, receberiam honrarias!
Para os jovens militantes, entretanto, a pichação era uma espécie de treinamento para o ingresso em ações mais arriscadas, de guerrilha urbana ou rural. O jovem Capiberibe com sua mulher Janete (hoje deputada federal), também militante, passou por muitas testes: foi preso, fugiu e se exilou no exterior antes de tornar-se a liderança política com passado histórico honroso.

Capi quando jovem, já exilado no Chile
Armados de pincel madrugada adentro
João Alberto Capiberibe
De arma, digo, de pincel em punho, numa noite sem lua, caminhei em direção ao muro alto de um prédio de quatro andares, não sei se público ou privado: só sei que era todo meu e nele descarregaria meus sentimentos de indignação contra o regime intolerante e repressor. Na solidão da madrugada silenciosa ia deslizando meu pincel, fazendo aparecer os primeiros caracteres de uma frase que sonhava ver logo transformada em realidade:
ABAIXO A DITADURA!
O velho prédio, de arquitetura colonial, parecia discordar com o que estava acontecendo no seu muro; me dava a sensação que sentia cócegas ao contato do pincel. No entanto, permanecia em silêncio, permitindo que eu expressasse ali, na ausência de outros meios de comunicação, o meu justo protesto. Estava quase completando a frase ABAIXO A DITA... quando o silêncio da noite foi rompido com um silvo, logo seguido de mais outro. Era um insistente guarda-noturno que acabava de me descobrir e, de apito na boca, mobilizava seus colegas da área para iniciar a perseguição. De balde e pincel na mão, desandei a correr em direção ao carro que me esperava, no ponto combinado, a duas quadras dali. Já próximo ao carro, Lenilson, ofegante, passou por mim gritando:
— Vamos cair fora daqui! Tem guarda-noturno pra tudo quanto é lado. Vamos todos, rápido para o carro. Eles estão armados.
Senti um friozinho percorrer o estômago e apressei as pernas, exausto e melado de tinta que derramara na correria. Entrei na Kombi, trombando com os que já se amontoavam lá dentro:
— Arranca! Vamos logo, arranca com essa porcaria — gritava Otávio:
— Calma! Calma, pessoal! Tá faltando o Roberto — advertiu Mário, segurando nervosamente o volante da Kombi que seu pai emprestara sem suspeitar em que seria utilizada:
— Calma o quê! — reagiu Otávio. Os guardas-noturnos estão se aproximando e nós aqui esperando o Roberto, sem saber o que aconteceu com ele. Vamos em frente: eu vi quando ele se mandou em direção ao centro da cidade.
A estas alturas, os apitos silvavam em todas as direções, indicando que aumentara o número de guardas-noturnos. Parecia praga, surgindo de ruas e becos mal iluminados. Por certo não sabiam eles que aquele grupo de combativos estudantes estava em luta por uma sociedade mais justa, que os contemplaria em suas conquistas, afinal, eram trabalhadores explorados e mal pagos. Pena que esta consciência era unilateral e a perseguição continuava.
Mário, pressentindo a chegada eminente da tropa de choque, dos guardiões da propriedade privada, enfiou o pé no acelerador e arrancou; os pneus gemeram em atrito com o asfalto, os corações relaxaram diante da sensação de perigo deixado para trás, dobrou à direita na próxima esquina e avançou lentamente, como se estivéssemos curtindo esta invenção mecânica maravilhosa em cima de quatro rodas. Os faróis incidiram em uma sombra distante, mal definida, que avançava em nossa direção. Pelo gingado e o balançar dos braços não havia dúvidas: era Roberto. Caminhava como se estivesse desfrutando, inocentemente, a brisa suave da madrugada que soprava do cais do porto. Mário freou bruscamente a Kombi e ordenou que subisse:
— Então? O que te aconteceu? Onde está o teu material?
— Nada grave. Apenas um susto. Quando ouvi os primeiros apitos e a movimentação dos guardas-noturnos, saltei um muro baixo de uma residência onde guardei o material. Logo que vi a rua deserta saí caminhando normalmente até encontrar vocês. Foi tudo o que aconteceu.
— Tudo bem — resmungou Otávio. Vamos dar um giro, mais tarde a gente volta para apanhar o material.
Acelerou a Kombi com destino ao Porto do Sal, naquela hora mergulhado no mais profundo silêncio. Só se ouvia o marulho das ondas de encontro às bordas das embarcações e o ronco dos canoeiros, possivelmente sonhando com bons negócios ao amanhecer, quando o cais do porto reuniria milhares de pessoas comprando e vendendo num vai-e-vem interminável.
Ficamos por ali uma meia hora, lamentando a ação de divulgação e propaganda (leia-se pichação) frustrada pela reação de pessoas que, em tese, deveriam estar na mesma trincheira, lutando contra as desigualdades sociais e não ficar por aí assustando a gente com apitos inconvenientes.
Mal a Kombi estacionou, Roberto desceu apressado para recolher seus apetrechos de guerra: um balde de tinta e o pincel. Quando saltou o muro da residência escutamos o primeiro estampido e os apitos rasgando a noite: eram eles novamente. Roberto largou o balde pelo meio do caminho e tratou de entrar na Kombi, Mário cantou os pneus e saiu ziguezagueando pela rua estreita, dobrando na primeira rua à esquerda para se livrar das balas que vinham de trás. No meio do quarteirão, pintou a zebra: uma imensa lata aberta de meio-fio a meio-fio bloqueando o caminho. Mário tentou subir no passeio, mas era muito estreito; se avançasse terminaríamos caindo na vala.
Só restava uma solução: fazer o caminho de volta e tentar um acordo com os nossos perseguidores.
Com dificuldade fez a curva e, lentamente, foi avançando em direção aos guardas-noturnos que tinham formado uma barreira na entrada da rua e nos aguardavam de armas na mão com ar triunfante:
— Vamos sair dessa, deitem-se todos — ordenou Mário.
Parou a Kombi e apagou as luzes a uns vinte metros da barreira humana, como se fosse se entregar sem resistência. Os vigilantes baixaram a guarda e já caminhavam em direção ao veículo quando Mário mergulhou o pé no acelerador fazendo espirrar guarda-noturno pra todo lado, rompendo o cerco e recebendo uma saraivada de balas. Felizmente, as balas não atingiram ninguém; provocaram apenas um problema familiar, pois Mário não tinha como explicar a seu pai os cinco furos na lataria da Kombi. Ele terminou confessando a aventura e perdemos o militante.
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*Publicado por Nezimar Borges
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