MEMÓRIA: Os anos de chumbo-Parte 3
Antes entrar de cabeça no movimento estudantil e na luta contra a ditadura militar, nos anos sessenta, João Alberto Capiberibe trocou o bairro Igarapé das Mulheres (hoje N.S. do Perpétuo Socorro), em Macapá, pelo bairro Floresta de Belo Horizonte. Dali, correu com os estudos para concluir o segundo grau e entrar na Universidade. Foi aprovado para a Escola de Economia de Itaúna (cidade próxima da capital mineira), onde permaneceu até junho de 1969. Naquele ano, conseguiu transferência para o curso de economia da Universidade Federal do Pará, o que se impunha por dificuldades financeiras.
Neste terceiro capítulo de suas memórias, o atual senador pelo Estado do Amapá conta sobre a militância estudantil em Belém durante a greve geral decretada pelos alunos nas universidades brasileiras. Papagaio era o título do corajoso jornalzinho editado pelo Diretório Acadêmico. Logo, Capiberibe optaria pela luta armada que resultou em sua prisão e exílio por uma década no Chile, Canadá e África.

Fecharam o bico do Papagaio
João Alberto Capiberibe
Belém, minha nova cidade, tinha cheiro e sabor de coisa conhecida: a paisagem e seu povo eram familiares. Por ali havia passado há três anos, quando meio atordoado desci do DC-4 do Can (Correio Aéreo Nacional), vindo de Macapá, juntamente com Lucas e João Eudes, para tomar o ônibus com destino a Brasília, onde fiquei algumas semanas antes de seguir para Belo Horizonte. Estava feliz com a mudança, sentia-me como se estivesse novamente em casa. Afinal, Belém, além de ser passagem obrigatória para quem ia ou vinha de Macapá, era o referencial de metrópole da minha infância. Para completar minha satisfação, vários parentes por ali moravam, inclusive, minha irmã Conceição, que fazia odontologia.
Travessia, de Milton Nascimento, fazia tremendo sucesso em 68, encantando Áureo Ney, estudante de medicina em Belém, amigo do Elson, que foi passar férias em Belo Horizonte e ficou hospedado na república estudantil onde morávamos. Alegre e expansivo, Áureo não se cansava de ouvir a mesma música até aprender a cantá-la. A composição virou hino, cantado repetidamente pelos desafinados da república. Terminamos amigos e um ano depois fui morar com ele em um pequeno apartamento, na Vila Coroa, em frente ao Pronto-Socorro Municipal de Belém.
O segundo semestre de 1969 iniciou prometendo muita radicalização no movimento estudantil, dada a escalada da repressão indiscriminada promovida pelo regime militar em resposta às ações armadas realizadas por alguns grupos de esquerda no Sul do País. Nesse clima, retomei as aulas na Escola de Economia. As discussões já não se limitavam às questões específicas das lutas estudantis; estas estavam ficando em segundo plano, cedendo espaço para posições mais políticas de luta contra o regime militar. Dividiam-se as opiniões: os chamados reformistas, representados pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), mantinham-se firmes em sua linha pacífica de mobilização e ação política de massas, enquanto os grupos Trotskistas, Foquistas e Maoístas, mais radicais, defendiam a luta armada como única forma possível para derrubar a ditadura.
Entrosei-me com o pessoal do Diretório Acadêmico, denominado pelo PCB ou pecebão, como era chamado na época, que conduzia o diretório rigorosamente de sua linha específica de atuação, quebrando o pau freqüentemente com os grupos mais radicais que proliferavam no movimento estudantil. Através do Papagaio, jornal mimeografado, teimoso e democrático, se divulgava as questões de interesse do movimento estudantil; e num jogo de cintura esperto, para não perder as bases mais radicais, baixava-se o pau na ditadura, provocando inicialmente reações internas de um ou outro professor, identificado com o regime, mais tarde atraindo a atenção da repressão que não demorou a agir para fechar o bico do Papagaio provocador.
Sem vinculação orgânica com a turma do Partidão, ia mantendo uma relação amistosa e cordial com eles sem, contudo, deixar de freqüentar as discussões com os grupos independentes que alimentavam dúvidas em relação ao avanço no processo político conduzido pelo PCB. O clima de incertezas levava à desmobilização dificultando a organização do movimento estudantil, que em Belém apenas iniciava, mais pelo espontaneismo das bases do que pela capacidade de seus dirigentes. Neste quadro confuso e sem perspectivas, a UNE, na clandestinidade, declarou greve geral com ocupação das universidades, daí então as posições foram se definindo, mobilizando a militância mais decidida em adesão ao movimento em todo o Brasil. De Norte a Sul as aulas foram paralisadas e as universidades declaradas em assembléia permanente.
O Diretório da Economia, contrariando a decisão do pecebão, rachou ao meio. A dissidência garantiu a ocupação e se instalou no prédio da escola; a sala onde funcionava o diretório transformou-se em dormitório. De dia, a movimentação era intensa, com reuniões permanentes das diversas comissões e nas assembléias gerais com agitadas e intermináveis discussões sobre o encaminhamento e direção do movimento grevista. De noite, violão, cantoria e bate-papo até a hora de sair para as pichações. A medicina também foi ocupada, de lá passamos a rodar panfletos e manifestos para divulgar o manifesto, pois a dita imprensa democrática não dava uma só palavra sobre o assunto, esmagada pela censura braba imposta pela ditadura.
Mas, disposição não faltava, muito menos papel que não sabíamos nem mesmo de onde vinha. Cedo nas portas das fábricas, feiras, mercados e dentro dos ônibus distribuíamos nossos comunicados e ainda aproveitávamos para fazer comícios relâmpagos, conclamando o povo para cerrar fileiras com nossas lutas. Éramos de uma confiança inabalável nos discursos em defesa de nossas idéias e de nossa causa. Iríamos transformar o mundo, igualar as classes sociais, exorcizar a pobreza e a miséria de nosso país, tudo seria tão bonito e generoso como nossos corações.
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*Publicado por Nezimar Borges
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