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MEMÓRIA: Os anos de chumbo-Parte 4

Após alguns anos de agitação estudantil em Belém, no Pará, contra o regime militar instaurado em 1964, o estudante de economia João Alberto Capiberibe recebeu de Carlos Marighella, do partido clandestino ALN, a missão de atuar na região conhecida por Bico do Papagaio (na fronteira entre o Pará, o Maranhão e Goiás) para arregimentar homens do campo para a guerrilha.

Capiberibe largou a universidade e casou com sua namorada do Amapá, Janete, que viajou com ele e também se tornou militante de esquerda.

Ambos foram presos em 1970 e trazidos para o presídio São José, de Belém; Janete estava grávida da primogênita Artionka e por isso foi liberada após um mês. Mas João Alberto e mais cinco presos políticos permaneceram encarcerados, convivendo com outros 500 presos comuns condenados por assassinato, estupro, trafico de drogas, etc.

Neste quarto capítulo da série o senador que acaba de ser cassado por conta de uma trama urdida pelo PMDB e José Sarney, descreve o Carcará, um condenado que com esperteza driblava a vigilância do presídio para negociar cachaça que trazia da rua dentro de uma peça artesanal em forma de navio. A história burlesca, realmente cômica, revela uma realidade ilegal dos presídios brasileiros, que nem os militares com sua arrogância e intolerância conseguiram corrigir.

João Alberto Capiberibe

Carcará lá no sertão é um bicho que avoa que nem avião, é um pássaro marvado, tem o bico vorteado que nem gavião. "João do Vale"

Carcará e o navio encalhado

Ele tinha o corpo tatuado dos pés à cabeça. Depois de cinco anos de cadeia, Carcará não contava com espaço em seu corpo para mais nada. No peito, ostentava um desenho enorme de uma serpente engolindo uma águia. Nas costas, dois anjos alados de mãos dadas com dois diabinhos.Nos braços, nomes de mulheres, juras de amor e um coração traspassado por uma flecha. Em um lado do rosto, a estrela de Davi.

Alto e musculoso, andava de short pelo pátio da penitenciária exibindo orgulhosamente seu corpo rabiscado sem muita arte. Com cinco anos de casa, acusado de assassinato sem processo judicial, poderia ganhar facilmente o olho da rua se assim fosse seu desejo. No entanto, nada fazia e não deixava ninguém ajudar a obter o tal Alvará de Soltura, que o deixaria definitivamente em liberdade.

Enquanto a maioria dos colegas do Presídio São José vivia, ansiosamente, aguardando o abre-te Sésamo da Justiça para alçar vôo para a liberdade, Carcará não se interessava pelo assunto: ia ficando por ali, por gosto e satisfação.

Ora, na prisão, como em qualquer lugar, antiguidade é posto. Disso ele se aproveitava para usufruir privilégios e regalias. Freqüentemente ia à rua vender artesanato produzido por outros detentos. Seu trabalho na sapataria do presídio lhe rendia meio salário mínimo ao mês e a proteção do velho soldado Raimundo Aires, a quem chamava de comandante e prestava continência. Vivia arrotando importância e autoridade, pois era homem de confiança do chefe.

Empacado no posto de soldado há anos, Raimundo Aires, tal como os presidiários em relação ao alvará, vivia na expectativa de acrescentar uma listra na manga da camisa e assim poder experimentar a sensação de ver, além de Carcará, muita gente prestando-lhe continência. Enquanto não chegava a promoção, se contentava em comandar um pelotão de três dezenas de condenados na confecção de coturnos para seus colegas de farda em uma única dependência quente e úmida do velho casarão colonial, que no século passado, em uma Belém de relacionamento social mais ameno, abrigara recatadas e piedosas freirinhas da Ordem Carmelitana.

Nós, presos políticos, éramos três gatos pingados adversários do regime, enquadrados em vários artigos da Lei de Segurança Nacional. Subversivos para uns, comunistas para outros e traidores da pátria para o diretor do presídio: Pedro Alcântara, estudante de medicina; Camorim, da Marinha Mercante; e eu, da Escola de Economia da Universidade Federal do Pará — estávamos convivendo com o que chamávamos, nos tempos de liberdade, o lúmen do proletariado.

Naquele estranho mundo me tocou dar aulas de alfabetização de adultos aos meus colegas de prisão. Entre outros, Carcará foi meu aluno. Em que pese meu esforço e dedicação em fazê-lo aprender a ler, nada consegui: queixava-se de dor de cabeça ou que tinha muito trabalho na sapataria para escapar da sala de aula. Acredito ter sido o período mais angustiante e aborrecido que Carcará teve de suportar ao longo de sua permanência na prisão.

Na verdade, o tempo corria manso e sem nenhuma pressa para Carcará: tinha casa, comida e roupa de graça, trabalho remunerado e mais os extras que arranjava em suas idas e vindas da rua. Então, por que se preocupar com o futuro?

Mestre Vicente, artesão habilidoso, recém-chegado, condenado por estelionato e lesões corporais, construiu o transatlântico Rainha Elisabeth, réplica perfeita, em miniatura, do luxuoso navio de Sua Majestade Elisabeth II, rainha da Inglaterra. Então, como era de se esperar, coube a Carcará tentar vender fora dos muros da penitenciária a magnífica obra de arte produzida por Mestre Vicente.

O subtenente Cardoso, vice-diretor do presídio e responsável pela comercialização da produção dos detentos, chamou os dois para estabelecer o preço de venda e também a divisão dos lucros. Uma parte para Mestre Vicente, uma para Carcará e uma terceira que ninguém sabia para onde ia. Até aí tudo bem, eram regras da casa, portanto, não cabia discussão. Mas em relação ao preço, Mestre Vicente se achava com todo direito de recusar a ninharia proposta pelo vice-diretor. Não considerava justo o valor e fincou pé, caso contrário o navio não desatracaria do porto.

O gorduroso subtenente, meio a contra-gosto, resolveu ceder, porém, com um senão: caso em duas semanas Carcará não conseguisse comprador para o transatlântico, então voltariam para mais uma rodada de negociações.

Todas as manhãs o portão se abria e Carcará, com o navio na cabeça, sumia no burburinho da rua, retornando no início da tarde. Já entrando no quarto mês a cena se repetia com apenas duas alterações: o preço que havia caído para um terço do inicial e um ar de tristeza cada vez mais acentuado de Carcará, quando se apresentava em frente à mesa do subtenente para lhe anunciar mais um fracasso.

Um belo dia, o navio afundou em águas mansas de uma calmaria. É que o comandante-geral dos negócios, subtenente Cardoso, resolveu fazer uma inspeção. Tomando o navio em suas mãos, deu uma sacudidela, ouviu o marulho das ondas no porão da embarcação:

— Carga clandestina! — berrou indignado o zeloso vice-diretor.

Era aguardente, da legítima, pura e cristalina, transportada diariamente no fundo falso do navio e comercializada a preço de ouro dentro da cadeia. Carcará e Mestre Vicente pegaram 15 dias de castigo no Cinzeiro, a pão e água.

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*Publicado por Nezimar Borges

 

 

LUIZ ALBERTO MONIZ BANDEIRA

Cientista político, professor emérito da Universidade de Brasília e autor de "As Relações Perigosas: Brasil-Estados Unidos de Collor a Lula, 1990-2004", "Brasil, Argentina e Estados Unidos" e "De Martí a Fidel: a Revolução Cubana e a América Latina". Leia alguns de seus artigos AQUI>>

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