MEMÓRIA: Os anos de chumbo-Parte 5
Após nove meses de permanência entre criminosos comuns no presídio São José, de Belém, o estudante de economia da Universidade do Pará, João Alberto Capiberibe — preso pela ditadura militar em setembro de 1970 — adoeceu de pneumonia, precisando ser internado no Hospital da Santa Casa. Foi mantido na unidade de saúde durante quase dois meses sob forte aparato militar. Esse tempo foi suficiente para que empreendesse, com a ajuda de médicos, e, sobretudo, da esposa (Janete Capiberibe, também presa, mas liberada em seguida para dar à luz a primogênita Artionka) — uma fuga espetacular para o exílio.
Neste capítulo da série Memórias dos Anos de Chumbo, o hoje senador cassado pelo Supremo Tribunal Federal (que acolheu trama vergonhosa urdida pelo PMDB do Amapá com apoio do senador José Sarney) narra sobre a situação que viveu no hospital na condição de paciente e preso político. Aos poucos, ele conseguiu estabelecer diálogo com os soldados que o vigiavam com metralhadora não mão; e um deles propôs relaxar a vigilância em troca de vinte paus (vinte mil reais).
Quando Capiberibe retornou ao País, em 1980, após 10 anos de exílio no Chile, Canadá e África, amigos e simpatizantes indagavam: É verdade que você fugiu vestido de freira?
A resposta começa a ser dada nesta edição.
É verdade que você fugiu vestido de freira?
João Alberto Capiberibe

Não é verdade. Mas vou contar como tudo aconteceu. Em maio de 1971 fui transferido do Presídio São José para o Hospital da Santa Casa, para tratamento de uma pneumonia. Essa transferência foi uma vitória de Janete, conquistada junto ao Tribunal Militar com o apoio das raras entidades que lutavam na época em defesa dos Direitos Humanos. Algemado e sentado entre dois soldados, fui escoltado por mais dois veículos lotados de homens fortemente armados.
A caravana se seguia pelas ruas de Belém. Minha atenção se prendia nas pessoas que caminhavam normalmente pelas ruas, nos ônibus lotados, no soldado castigado pelo sol do meio-dia tentando organizar o trânsito. Depois de nove meses de prisão, aquela sensação de que apesar de tudo a vida continua encheu-me de pura satisfação. Só percebi o tamanho do aparato policial e a quantidade de arma que me faziam companhia ao chegar ao hospital.
A entrada foi triunfal: mais de 20 homens escoltando um sujeito de passos lentos, amarelado, com um metro e setenta e sete centímetros de altura e cinqüenta e cinco quilos de peso. Era uma cena patética para os grupinhos de curiosos que se formavam a minha passagem:
— Estudante — diziam uns.
— Subversivo perigoso — comentavam outros.
Finalmente, cheguei à enfermaria número 2, da ala que já não lembro o nome, do Hospital da Santa Casa de Misericórdia do Pará, onde permaneci dois meses e meio antes de cair no mundo.
Ganhei a companhia permanente de três soldados e um cabo da Polícia Militar, sendo que um ficava sentado dentro do quarto com uma metralhadora no colo a dois metros da cama:
— Situação tensa e constrangedora para o paciente — ponderou o médico com o soldado da metralhadora.
— Assim não dá para trabalhar, chame o seu superior — insistiu o médico.
Prontamente o cabo apresentou-se. Discutiram e não chegaram a nenhuma conclusão se eu era paciente, como queria o médico, ou detento, como sustentava o cabo. Assim resolveram apelar para o diretor do hospital, um coronel médico do Exército:
— É paciente e detento — sentenciou o diretor.
— Portanto, o médico cuida da saúde e o soldado da segurança. Para que um não atrapalhe o outro, daqui para frente, quando o médico entrar no quarto, o soldado aguarda lá fora. E assim ficou.
O médico então puxou a cadeira e sentou na cabeceira, abriu um grande sorriso e perguntou:
— Ei, Capi! Sou eu, João Conceição, tu não te lembras de mim? De Macapá, do IETA? Pois então, estou terminando medicina e faço estágio aqui. Fica tranqüilo que vamos cuidar de esticar o máximo tua permanência. Quanto aos home, vamos agir para aliviar a barra.
Claro que me lembrei na hora e com certeza o lembrarei para sempre; afinal, a conversa que tivemos naquelas circunstâncias acontece uma vez na vida e com certeza na vida de pouquíssimas pessoas. Conheci João Conceição no IETA, ainda no tempo em que o instituto se chamava Escola Normal de Macapá. Não éramos propriamente colegas de sala de aula. João era bem mais adiantado, creio que já terminando o segundo grau. Na verdade eu era colega de turma de sua namorada, assim ele se tornou assíduo freqüentador de nossa turma. Depois eles csaram e desapareceram.
Naquela ocasião voltava a encontrá-lo, quase médico, cheio de generosidade e esperança. Sentado na minha cabeceira falava-me de um futuro que eu não conseguia enxergar naquela condição de detento para o cabo, ou paciente, como queria meu saudoso amigo João Conceição. Menos de um ano após nosso reencontro, já vivendo no Chile, recebi com tristeza a notícia de seu falecimento em um acidente de carro.
Três semanas de exames, soro, injeções, sondas e tranqüilizantes surtiram efeito: melhorei da apatia e passei a relacionar-me com o meu novo ambiente e desfrutar de um privilégio impensável no presídio: as visitas diárias de Janete. Mesmo com o soldado da metralhadora dentro do quarto.
Além das visitas diárias da Janete, os estudantes de medicina tornaram-se assíduos freqüentadores da minha enfermaria. Mesmo sendo de economia, eu era estudante e isto bastava. Muitos faziam uma visita e não repetiam. Pura curiosidade! No entanto, o entra e sai de gente vestida de branco no meu quarto terminou mexendo nos sentimentos e preconceitos dos soldados em relação a minha pessoa.
O que eles sabiam a meu respeito lhes era repassado pelos seus superiores, com certeza. Coisas do tipo: elemento subversivo, marxista-leninista, traidor da pátria, etc. Para os soldados, este palavreado não significava muita coisa e eles resumiam tudo a seu modo simples de encarar a vida. Convencidos de que lidavam com um bandido de alta periculosidade, nas primeiras semanas me tratavam com uma boa dose de agressividade e falavam comigo o estritamente necessário. Mas a presença constante da moçada de branco foi desarmando os espíritos, abrandando os temores, rompendo a barreira do silêncio e provocando uma convivência amistosa entre mim e os soldados.
Para essa mudança de comportamento João Conceição foi incansável. Volta e meia estava ele papeando com os soldados, se prontificando a ajudá-los no que fosse possível; fazia encaminhamento médico para eles e seus familiares, conseguia exames e medicamentos. Assim, um belo dia o da metralhadora resolveu falar:
— Pelo que sei, tu não matou e nem roubou ninguém. Tu não és nem bicheiro, nem traficante, então por que tu estás preso?
— Bronca política — respondi em tom de sussurro.
— Ah, sim! Então é por isso que só vem gente bacana aqui pra te visitar? Já entendi, vocês queriam tomar o lugar dos homi e se deram mal.
— Não, nada disso, é muito mais que isso. Nós queremos mudar a sociedade, distribuir melhor a riqueza produzida pelos trabalhadores, acabar com o analfabetismo, com a fome e a miséria. Claro que para fazer tudo isso é preciso derrubar a ditadura e implantar a democracia.
— Sabe o que eu acho? — interrompeu-me o soldado.
— Não — respondi-lhe.
— Eu acho que vocês têm miolo mole. Isso mesmo, eu acho que isso é pura maluquice. Onde já se viu alguém se meter numa bronca danada dessas só pensando nos outros?
Cauteloso, decidi não estender muito a conversa. Podia dar-me por satisfeito: afinal, estava aberto o diálogo e como tinha pela frente muitos dias para preencher, dosar o papo de forma homeopática ajudaria a manter a distância necessária para que um pudesse tolerar a presença do outro no mesmo recinto.
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*Publicado por Nezimar Borges
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