MEMÓRIA: Os anos de chumbo-Parte 6
A longa permanência no Hospital da Santa Casa do Pará permitiu ao preso político João Alberto Capiberibe sonhar com a fuga para o exterior. Estudante de economia e militante da ALN (Aliança Libertadora Nacional), organização de esquerda que combatia a ditadura militar, Capiberibe encontrava-se internado há dois meses na unidade de saúde, tratando de uma pneumonia, mas se aproximava o momento dele voltar para o presídio São José.
Os três policiais militares encarregados de vigiá-lo demonstravam cansaço da rotina; e um deles, o soldado Oswaldo, acabou propondo algo inesperado: relaxar a vigilância em troca de
propina.
Em troca de 20 paus (vinte mil reais hoje), os três militares que permaneciam dentro da enfermaria portando metralhadoras passariam a ficar do lado de fora, permitindo que Capiberibe conversasse livremente com a mulher, Janete, e seus amigos. A proposta foi aceita, e a partir daí a fuga começou a ser articulada por Janete e amigos, todos correndo riscos de serem fuzilados pela repressão militar.
Soldado ajudou a criar clima para a fuga
João Alberto Capiberibe
Três equipes compostas de um cabo e três soldados se revezavam na Santa Casa a cada 24 horas, de metralhadora em punho, para me vigiar. Eram sempre os mesmos militares; até que um dia aconteceu a primeira mudança, creio que já entrando no segundo mês. Álvaro, como se chamava o novato, entrou na enfermaria, encostou a metralhadora no canto e arredou a cadeira pra perto de mim, indo direto ao assunto:
— Escuta aqui meu chapa, eu sei que tu és gente boa e que tem gente graúda metida nessa tua bronca. Arranja vinte paus e deixa comigo, vou aliviar a tua barra. Pra começar vamos providenciar para que a partir de amanhã aquela máquina (apontou a metralhadora desprezada no canto) fique guardada em nosso alojamento. Também vamos ficar na guarda pelo lado de fora, assim tu poderá conversar livremente com tuas visitas. Então? Que achas? Apenas vinte paus.

Sem dúvida, era uma proposta interessante. Só o fato de ficar livre da presença nada agradável daquela metralhadora e poder ficar a sós com as visitas valia bem mais do que pedira o soldado. No entanto, isso tudo dependeria dos famigerados vinte paus.
Nesse dia, Janete me encontrou de bem com a vida, contei-lhe as novidades do soldado Álvaro. Discutimos longamente a questão, pela primeira vez sem ninguém por perto, e concluímos que valia a pena tentar levantar o dinheiro. Na verdade, nosso grupo de apoio era reduzido e a quantia exigida talvez correspondesse, a valores de hoje, a dez salários mínimos.
Além de ser a quantia relativamente alta, precisaríamos de um bom álibi para não levantar suspeitas de que estávamos sonhando com uma fuga. Decidimos então procurar uma única pessoa e dizer a ela em que seria utilizado o recurso. Na verdade, vivíamos em grandes dificuldades financeiras, praticamente dependendo da solidariedade de amigos e parentes. Assim, procuramos o professor Hélio Dourado, velho militante do movimento estudantil que havia se estabelecido com um cursinho pré-vestibular e que gozava de nossa inteira confiança.
Vivi dois momentos distintos durante minha permanência na enfermaria da Santa Casa de Misericórdia do Pará: antes e depois da chegada do soldado Álvaro. Quando lhe entreguei os vinte paus, fez questão de dizer que não ficaria com um centavo de dinheiro, que dividiria entre os soldados de sua equipe. É bom lembrar o quanto tinha razão João Conceição, quando me recepcionou na chegada, prometendo esticar ao máximo minha permanência. Era preciso tempo e paciência para ver as coisas acontecerem.
Voltando ao soldado Álvaro, devo dizer que exagerou no cumprimento do trato e terminou ligando-se a mim, de tal forma, que um belo dia não se conteve:
— Escuta aí meu chapa! Vamos cair fora, juntos! Vamos? Conheço tudo no mundo da malandragem. Posso te ajudar. Confia em mim, chapa. Tudo vai dar certo. Por que voltar para o presídio? Tá na hora da gente se mandar, cair no mundo, sumir. Vamos pra Cuba! Isso mesmo: vamos bater lá com o Fidel. Ninguém vai nos achar.
— Não! E não me volte a falar no assunto — retruquei asperamente. Como saber se Álvaro estava sendo sincero ou se apenas cumpria, com habilidade, as determinações de seus superiores no sentido de detectar com antecedência uma possível tentativa de fuga? Pelo sim, pelo não, dei um basta definitivo naquele tipo de conversa. No entanto, devo admitir que até hoje carrego esta dúvida comigo.
Com o passar do tempo, minha rotina de paciente ficara mais rígida que as minhas obrigações de presidiário: às 20 horas, tinha obrigatoriamente de ir para a cama e engolir os comprimidos de tranqüilizante trazidos pela enfermeira; quinze minutos depois, adormecia. Mas aprendi a me livrar dos tranqüilizantes colocando-os debaixo da língua para, em seguida, cuspi-los no vaso sanitário assim que a enfermeira virava as costas. Apagava a luz e deitava-me, fingindo adormecer. Assim pude observar que o soldado que tomava conta da porta não esperava muito tempo para entrar no quarto, checar se eu estava dormindo e depois desaparecer, abandonando seu posto. Retornava esporadicamente, durante a noite, abria a porta, dava uma olhada, em seguida desaparecia novamente.
A idéia de fuga, acalentada há muito tempo, tomou conta dos meus pensamentos. Por que voltar para o presídio? Por que voltar para uma cela imunda e superlotada? Claro! A liberdade, por que não? Primeiro e decisivo passo, conversar com Janete. A facilidade de relacionamento com meus carcereiros, promovida pelo soldado Álvaro, ampliava as possibilidades de uma fuga bem-sucedida, mas não era tudo, muita coisa restava a ser tratada nos seus mínimos detalhes.
Naquela tarde, Janete chegou com algumas rosas na mão. Iniciamos falando de amenidades e de nosso tema predileto: Artionka, então com oito meses de idade. De repente, inspirado nas conversas sobre nosso futuro e, sobretudo, de Artionka, relatei-lhe meus planos. A princípio, assustou-se com a idéia de fuga. Lembrou-se das palavras de um dos membros do conselho de sentença da Auditoria Militar:
— Estamos autorizando a transferência de seu marido para o hospital, mas se ele tentar fugir e for apanhado, nós não nos responsabilizamos por sua vida. Convença-o de que não tem a mínima chance de escapar e que não hesitaremos um minuto em colocá-la na prisão no lugar do seu marido.
Janete tinha razão em duvidar do sucesso da empreitada. Vivíamos em plena era Médici, do milagre econômico e sob intensa repressão política. Dedo-duro era o que não faltava. A propaganda oficial incentivava a delação e o regime contava com profissionais espalhados nos táxis, repartições, fábricas, salas de aulas, nos jornais, emissoras de rádio e televisão. Os ouvidos e olhos da repressão estiveram atentos em todos os lados e todo tempo.
Levamos a tarde toda discutindo o assunto, avaliando nossas possibilidades. Também, construindo castelos de areia embalados nos sonhos de liberdade. Janete entusiasmou-se:
— Vamos! Levaremos Artionka.
— Assim será — concluí. Pedi a Janete para trazer as cartas de Hamilton Rocha.
Li e reli várias vezes as cartas sem nada entender. Uma delas, destinada a uma tal senhora Hortência, dona de um pequeno restaurante em um porto na margem esquerda do Rio Madeira, em Rondônia, antes de chegar a Porto Velho. Era parada obrigatória dos barcos de passageiros para desovar estrangeiros clandestinos, traficantes e outras espécies abundantes na região. A outra carta era destinada a Dr. Ramon, em Guayaramirim, na fronteira boliviana.
Hamilton Rocha tinha uma estória curiosa: havia sido preso em Manaus, acusado de ter assaltado um banco com um revólver de brinquedo. Transferido para Belém e colocado à disposição da Auditoria Militar da 8ª Região, foi parar no Presídio São José, onde eu o conheci. Alguns dias antes da transferência para o hospital, indagou para onde eu iria se tivesse uma chance de fugir. Respondi-lhe que a idéia não me passava pela cabeça, pois confiava na Justiça e brevemente estaria em liberdade:
— Há quanto tempo você está preso? — insistiu.
— Há nove meses — respondi.
— Você já foi ouvido na Justiça?
— Não! Até agora não. Estou aguardando ser chamado a qualquer hora.
— Escuta-me, não quero te convencer a fugir. Peço apenas que ouça com atenção o que tenho a te dizer. Não custa nada ouvir, apenas um pouco de paciência. Se não te interessa, esquece.
— Tudo bem, então fala — concordei.
— Existem três opções para sair do Brasil com boas chances de sucesso: pelo Amapá, com destino a Guiana Francesa; por Roraima, para atingir a Venezuela; e por Rondônia, para cruzar a fronteira boliviana.
Hamilton detalhou os roteiros e finalizou entregando-me as duas cartas, recomendando que as usasse em caso de necessidade. Antes de afastar-se, lembrou-me que alguns anos se passariam até a decisão judicial.
Nos dias que sucederam, durante as visitas de Janete, definimos todas as tarefas a serem cumpridas para evitar despertar a atenção dos arapongas do SNI e do CENIMAR, que procuravam acompanhar cada passo de Janete. Era fundamental manter a rotina de sempre, freqüentar os mesmos lugares e visitar as mesmas pessoas. Assim, para retirar roupas e objetos que certamente precisaríamos na viagem, saía de casa diariamente, no final da tarde, com Artionka e ia para a Praça da República. Dentro do carrinho de bebê, entre fraldas e mamadeiras, iam nossas roupas e alimentos para a viagem.
Janete esticava o passeio da praça até a casa de Catarina e Ana Tancredi, estudantes de filosofia que moravam há algumas quadras dali. Ana e Catarina apoiaram a idéia com decisão e ousadia, colocando sua casa à nossa disposição para qualquer eventualidade. Guardaram tudo que Janete conseguiu transferir, até o dia da fuga.
Uma outra amiga e companheira, que também cursava filosofia, fez o levantamento do movimento das pequenas embarcações saindo de Belém com destino a Santarém e Manaus. Leopoldina colheu informações sobre os passageiros que utilizavam esse meio de transporte: geralmente ribeirinhos e nordestinos retirantes que viajavam sem lenço e sem documentos em busca da terra prometida no coração da Amazônia.
Decidimos, então, nos aventurar seguindo o roteiro de Rondônia, de acordo com as informações de Hamilton Rocha.
(Continua na próxima edição).
SNI — Serviço Nacional de Informação. Órgão de inteligência criado pela ditadura para bisbilhotar a sida de seus opositores.
CENIMAR — Centro de Informação da Marinha que atuava na espionagem e repressão política.
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*Publicado por Nezimar Borges
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