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Figura 1A pequena Artionka com os pais Capi e Janete em Cochabamba, na Bolívia. Abaixo, Camilo Capiberibe e Álvaro Faleiros, no Canadá

Ao completar dois meses de internamento no hospital da Santa Casa de Misericórdia de Belém, em julho de 1971, o estudante de economia e preso político João Alberto Capiberibe protagonizou uma fuga que deixou desorientados os diferentes organismos de repressão da ditadura militar brasileira. A escapada perigosa aconteceu com a ajuda de sua mulher, Janete Capiberibe, alguns médicos e amigos do casal, entre os quais alguns militantes de esquerda.

Aproveitando de um relaxamento da vigilância na enfermaria, o que lhe custou na época o equivalente a R$ 20 mil, além de longas conversas com um soldado de nome Osvaldo, Capiberibe vestiu um uniforme de médico e abandonou a enfermaria às 22 horas, atravessando os corredores do hospital e cumprimentando funcionários e pacientes. Um barco clandestino de passageiros largou às 23 horas, do Porto do Sal, e navegou Rio Amazonas acima levando o preso e sua perseguida família para a liberdade, que ainda demoraria 10 anos para acontecer de forma mais completa.

Após o transbordo em Santarém, Manaus e Porto Velho, João Alberto, sua mulher Janete e a filhinha Artionka, de nove meses, alcançaram a Bolívia, o Peru e o Chile; depois o Canadá e a África.

No limiar de 1980, a família voltou ao Brasil retomando no Amapá a história política que iniciou em sua juventude.

Essa é apenas uma parte da grande história de exílio do autor João Alberto Capiberibe, que pode ser complementada em futuras edições.

Caminhos da liberdade

João Alberto Capiberibe

Eu estava inquieto, fingindo dormir, com o olho pregado na porta esperando o soldado realizar sua inspeção quase protocolar, para pular da cama. Era chegada a hora de botar o pé na estrada. No entanto, exatamente naquele dia, o meu anjo da guarda estava demorando a vir abençoar o meu sono e abandonar seu posto como passara a fazer, invariavelmente, nos últimos dias que passei no hospital. Ainda com o gosto dos tranqüilizantes na boca, suando frio debaixo do lençol - o tempo fracionando-se com extrema lentidão -, senti a sensação de que estava tudo perdido. Meu pensamento encheu-se de coisas negativas e quando já me preparava para adiar ou até mesmo cancelar o projeto de liberdade, a porta da enfermaria abriu-se. O soldado enfiou a cara, rapidinho, olhou para um lado e outro, depois sumiu nos corredores da Santa Casa de Misericórdia.

Não havia tempo a perder: passava alguns minutos das 22 horas de uma quarta-feira do mês de julho de 1971. O caminho estava livre. Para conferir dei umas voltas, ainda de pijama, pelos corredores. Diante do espelho, caí na realidade: eu estava fugindo e minha cara demonstrava tensão e medo; minhas mãos tremiam dificultando o barbear.

Depois de vários golpes, consegui raspar o último fio do bigode. Preocupado com a hora enfiei a calça branca que ficou frouxa na cintura; coloquei o cinturão e afivelei no último furo; com a bata branca por cima, encobrindo o franzido da calça. Pendurei o estetoscópio no pescoço e coloquei os óculos. Fiquei alguns minutos diante do espelho, tentando me convencer de que estava diante de um médico.

Tinha pressa. O barco sairia às 23 horas de um porto da Cidade Velha, bairro antigo de Belém, localizado na margem da Baía do Guajará. Não podia me atrasar sob pena de perder a viagem e, conseqüentemente, colocar tudo a perder, pois não dispunha de outro esquema, nem mesmo para passar a noite caso acontecesse um imprevisto qualquer.

Comprovei que era um médico a poucos metros de minha recém-abandonada enfermaria, ao cruzar com uma enfermeira no corredor principal:

- Boa noite, doutor - cumprimentou-me sorridente.
Apanhado de surpresa, porém, fiquei sem saber o que responder. Terminei não devolvendo a saudação. Mas, na seqüência, tomei a iniciativa de cumprimentar todo mundo que passava por mim ao longo do corredor que me separava da liberdade. Finalmente, desci as escadarias, avistei dois soldados da minha escolta, sentados, batendo papo, a poucos metros da saída. Passei tranqüilamente e eles permaneceram do mesmo jeito. Atravessei a rua em frente à antiga Faculdade de Medicina da UFPA, caminhei mais três quarteirões chegando ao local combinado, aonde um Fusca me aguardava. Catarina e Janete estavam à beira do pânico, preocupadas com minha demora:

- Tudo bem. Vamos embora! - falei a Catarina, instalada no volante do fusquinha. Muito nervosa, ela não conseguia engrenar as marchas para arrancar com o carro. Pedi calma, conversamos um pouco para relaxar, em seguida Catarina conseguiu controlar os nervos e arrancar, lentamente, pelas ruas mal iluminadas de Belém.

Chegamos à casa de Catarina, onde Ana, sua irmã, cuidava de Artionka e dos preparativos de viagem. Nossa bagagem era uma maleta, bastante surrada, e um saco de viagem com algumas roupas e muita alimentação, incluindo garrafas de água mineral para Artionka.

Minha carreira de médico durou pouco. Na casa de Catarina troquei de status e de roupa, deixando de lado as vestes brancas de um honorável doutor para assumir a humilde condição de peão perdido no trecho. Vesti uma camisa desabotoada combinando com uma calça com alguns remendos, sandália havaiana já soltando as tiras; um chapéu de palha completava a transformação. Janete colocou um vestido encardido, de tecido barato, e para esconder a cara gordinha e saudável de Artionka sujou-lhe o rosto de tisna. Daí então eu fiquei sendo Zé, Janete recebeu o nome de Maria e Artionka, com nove meses, assumiu o nome de guerra de Carminha.

Arrumamos tudo no Fusca. Ana tomou a direção e acelerou em direção ao porto. Chegamos em cima da hora, o barco já estava com o motor ligado se preparando para partir. Embarcamos rapidamente e, após alguns minutos, estávamos singrando as águas do Rio Amazonas em direção a Porto Velho, com transbordo em Santarém e Manaus, de acordo com o roteiro traçado por Hamilton Rocha. Seguimos em busca da Sra. Hortência e do Dr. Ramon na fronteira boliviana.

Passamos quatro meses na Bolívia esperando aliviar a repressão desencadeada naquele país com a ajuda do governo brasileiro, durante o golpe que derrubou o governo progressista do General Juan José Torres. Depois de duas tentativas, chegamos ao Peru, onde conseguimos passagem para o Chile no dia 24 de dezembro de 1971.

Dois anos depois, mais um sangrento golpe militar nos fez abandonar o Chile e seguir para o Canadá. Depois para Moçambique, na África, até o final de 79. Com a anistia, que naquele ano nos devolveu o direito à pátria e à cidadania, retornamos ao Brasil.

Já em Macapá, em maio de 1987, recebi a inesperada visita de Hamilton Rocha, que havia se transformado em piloto da Marinha Mercante e estava com seu navio atracado no Porto de Santana. Queria saber se tinha dado tudo certo, se suas cartas tinham sido úteis. Disse-lhe que sim.

No período da ditadura, ajudar alguém a escapar das mãos da repressão implicava em ir para o lugar de quem recebeu a ajuda. Assim, 35 anos depois, lembro com carinho a solidariedade e a coragem das irmãs Ana e Catarina Tancredi, Elson Martins, Leopoldina (que não vejo desde então), Hélio Dourado, Lica e Bira, Almir Gabriel, Tia Irene, a enfermeira-chefe da Santa Casa, João Eudes, Hamilton Rocha, os estudantes de medicina e, com muita saudade, os queridos amigos que partiram desta vida: Deoclides Mont'Alverne e João Conceição.

Dedico esta história a Janete, que por amor e companheirismo venceu o medo abrindo caminhos para a conquista da liberdade. A Artionka, com sua inocência, que nos acompanhou na primeira fase da trajetória, e a Camilo e Luciana, que nasceram em Santiago e nos fizeram companhia até acharmos o caminho de volta.
 

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Figura 2
Capiberibe em almoço na casa do casal companheiro de exílio no Canadá, Vicente e Eva Faleiros

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Leia Mais: ALN: Uma Visão Crítica >>

*Publicado por Nezimar Borges

 

 

LUIZ ALBERTO MONIZ BANDEIRA

Cientista político, professor emérito da Universidade de Brasília e autor de "As Relações Perigosas: Brasil-Estados Unidos de Collor a Lula, 1990-2004", "Brasil, Argentina e Estados Unidos" e "De Martí a Fidel: a Revolução Cubana e a América Latina". Leia alguns de seus artigos AQUI>>

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