A carta de Cuba a Nezimar Borges
Caro Nezimar,
Como você deve saber Capi e Janete viveram em Cuba durante muito tempo. Foi lá que receberam, segundo alguns, treinamento em guerra de guerrilha para depois sair espalhando a revolução mundo afora. Segundo um “conceituado jornal local” foi em Cuba que o Capi se especializou em “engenharia de massas”. Certo? Tem mais. Capi teria trabalhado na Rádio Havana fazendo programas em língua portuguesa para o Brasil. Muita gente em Macapá até escutava os programas que atacavam o governo brasileiro chamando o povo para pegar em armas e lutar contra a ditadura militar. Eis uma unanimidade, em qualquer roda de bate-papo a respeito de Capi e Janete: eles em um momento ou outro viveram em Cuba.
A manipulação da informação nasce junto com um jeito equivocado e mal-intencionado de fazer política. Os Estados Unidos, durante a guerra fria transformaram essa prática nefasta em política de Estado. Montaram agência de informação e estratégias de contra-informação com emissoras de rádio, televisão, revistas e jornais dentro e fora de seu país, tudo pago com dinheiro do contribuinte norte-americano, pior para eles e para todos nós. Tudo com o objetivo de difundir notícias falsas, difamar adversários e promover a instabilidade política onde fosse do seu interesse. Fizeram escola.
Demonizaram Cuba e transformaram Fidel Castro no satã de plantão. Qualquer um, do dia pra noite poderia se ver transformado em representante do diabo em qualquer canto do planeta. Foi exatamente o que aconteceu comigo. Associaram-me de tal maneira a Cuba, que na campanha eleitoral do ano passado na comunidade do Igarapé do Meio em pleno Arquipélago do Bailique um cidadão me perguntou:
- Capi, como é mesmo o nome do país que você nasceu?
- Em tom de brincadeira respondi: república do Afuá.
- Como? Quer dizer que você nasceu no Afuá? No afuá aqui do Pará?
- Com muito orgulho, retruquei.
- Pois olhe, prosseguiu, aqui muita gente tem certeza que você nasceu lá naquele país.....sabe....naquele país....que tem muito comunista.... onde a filha do Deuzuino está estudando pra ser médica.
- Cuba de Fidel Castro, disse.
- Isso mesmo, isso mesmo, repetiu o homem. Quer dizer que você não nasceu em Cuba?
- Não nasci e confesso que nunca coloquei os pés por lá, não conheço Cuba.
Na verdade quando escrevi os parágrafos que antecedem este que se inicia, eu não conhecia Cuba. Hoje, concluindo esta carta que começei a escrever no avião a caminho da irredutível ilha de Fidel Castro e terminada em Macapá pouco depois da chegada, não posso mais dizer que não conheço Cuba. Pisei na ilha comunista aos meus cinqüenta e nove anos de idade. Satisfiz um desejo de juventude e vivi uma experiência única. Mas Cuba foi o segundo país comunista no qual botei meus pés. O primeiro foi Moçambique, na África, onde morei, trabalhei e trabalhando conheci Crispin, engenheiro agrônomo cubano que, vinte e sete anos depois, me encontrou pelo Google e de tanto insistir me convenceu a viajar para um destino que, todos imaginavam, eu já deveria intimamente conhecer.
Um abraço.
João Capiberibe
Comentário de Chico Bruno : Capiberibe é ex-prefeito de Macapá, ex-governador reeleito do Amapá e senador, cujo mandato se encontra suspenso, aguardando uma decisão do STF. Capiberibe é um político que sofre com a manipulação da informação, como a que narra em sua carta e outras armações, como a de uma suposta compra de votos.
*Publicado por Nezimar Borges
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