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Bailique: Uma viagem no tempo

Local: Macapá - AP
Fonte: João Capiberibe
Link: http://lucapi.blogspot.com/

                                                    Por João Alberto Capiberibe

Estive no arquipélago do Bailique pela segunda vez em fevereiro de 1989, dois meses após ter tomado posse como prefeito de Macapá. Da primeira viagem no começo da adolescência, lembro-me pouco, muito já se perdeu no túnel do tempo. De lá para cá foram inúmeras idas e vindas ao arquipélago, a última delas foi quatro dias antes do Natal de 2007. Na verdade pretendo refletir aqui mais longamente sobre o período que vai da segunda viagem, até a mais recente, ou seja, dezenove anos de estreita relação com a paisagem, com a história e cultura do povo bailiquense.


O arquipélago é formado por seis ilhas espremidas no meio de um confronto de gigantes; de um lado o Rio Amazonas que vai entrando mar adentro sem pedir licença; de outro o Atlântico, muito contrariado com a ousadia, tenta de todas as maneiras empurrar suas águas rio acima. Desse cabo de guerra entre águas tingidas de cores diferentes pela natureza, nasce um enfezado e barulhento desfile de ondas que vai arrastando tudo o que encontra pela frente, muito temido na região, chamado Pororoca.


Da primeira viagem, entre as poucas lembranças, sobrou uma sobre um impasse em que eu e meu companheiro, Antonio Cabral, atualmente médico cardiologista, fomos chamados a intervir. Nossa autoridade eclesiástica era nenhuma, apenas acompanhávamos o Padre na função de coroinhas, no entanto os moradores da comunidade de Cubana do Bailique não pensavam assim.

Após rezar a missa, realizar dezenas de casamentos e batizados, o vigário deu por encerrado todas as atividades naquela comunidade, negando inclusive, á Comissão dos Festejos, a realização do tradicional arrasta pé, que em geral, entra pelo dia seguinte. Inconformados, apelaram à nossa intermediação para conseguir a autorização do Padre, que depois de muita insistência de nossa parte e alguns ralhos, terminou cedendo.


A segunda viagem deveria ter acontecido ao longo da campanha eleitoral que me levou à prefeitura de Macapá em 1988, no entanto faltou dinheiro para custeá-la, por essa razão recebi poucos votos no arquipélago, naquele pleito. Um mês e meio após assumir o mandato realizo então, a que seria minha primeira viagem política ao Bailique, que durou uma semana.

Naquela viagem usamos a embarcação de propriedade da prefeitura, com capacidade de carga de três toneladas e meia, denominada Ciborg. Pequena e desconfortável, tinha o toldo muito baixo. Para deslocar-se dentro dela era preciso dobrar-se em dois, era impossível escapar das constantes cabeçadas no teto. Pilotada por um homem de grande sabedoria e conhecimento da região, Deuzuino Pena Amanajás, o seu Deuzuino, como era conhecido. O cozinheiro era o Camarrada, alma generosa que descansa em paz velando por todos nós. Para homenageá-lo, alguns anos depois, como governador do estado determinei a compra de um barco grande, para transporte de cargas e passageiros, que recebeu o seu nome, o Camarrada. Também fazia parte da comitiva o cinegrafista Leonardo Trindade e seu inseparável violão. Éramos quatro e mais não cabia dentro daquela lata de sardinhas flutuante.


Nesse contato com a paisagem cênica, social, econômica e cultural da região fiquei completamente “mundiado”, comovido e envolvido por aquela realidade plena de contrastes. Trinta e oito comunidades, algo em torno de seis mil habitantes, espalhados nas ilhas do arquipélago, vivendo na mais completa pobreza, abandonadas pelo poder público. Quando muito, aqui e ali, uma escolinha caindo aos pedaços, em geral sem professor.


Mesmo diante desse quadro desolador, conseguia enxergar alternativas e soluções para superar essas enormes dificuldades. Foi ali e bem no comecinho do exercício do meu primeiro mandato popular que pude perceber com absoluta clareza o desprezo político que sustenta a dependência e a indigência, tornando um pesadelo a vida social em um espaço natural paradisíaco como o Bailique. Nosso atraso político sustenta e eterniza as demais formas de exclusão, a econômica, a social, a cultural, etc.

Para resumir o quadro de isolamento da região vou contar um caso que aconteceu no Igarapé Grande do Curuá.


A lancha de Ciborg só tinha o nome, não se apressava pra nada, a viagem até as primeiras comunidades da Ilha do Curuá, que se faz normalmente em dez horas, foi feita por nós em dezesseis. No segundo dia de nossa expedição, lançando mão do prestígio conferido a minha condição de prefeito, conseguimos uma voadeira emprestada, nela percorremos o Igarapé Grande, parando de casa em casa até o último morador. Avançamos um pouco mais rio acima, encontramos um cidadão pescando, encostamos ao lado de sua pequena embarcação e nos pusemos a fazer perguntas sem nos apresentar. Já levávamos uma boa meia hora de conversa quando então o pescador, meio sem jeito, me questionou:

-O senhor queira me desculpar mas com quem mesmo estou falando?

Ora! Ora! Eu é que lhe peço desculpas. Eu sou o prefeito de Macapá e o rapaz aí é o Leonardo Trindade, meu assessor.

O homem abriu um sorriso de orelha a orelha, transbordando de felicidade, arrematou:

- Muito prazer Seu Murilo, que grande alegria em vê-lo por aqui, ninguém vai acreditar, se eu chegar contando isso em casa, vão dizer que eu estou vendo visagem.

Claro que rimos muito da situação antes de esclarecer que o “Seu Murilo” havia concorrido, porém não havia vencido as eleições. Em seguida, voltei a lhe pedir desculpas, e me apresentei corretamente, declinando meu nome e sobrenome.

Na volta a Macapá, convidei algumas pessoas a quem fiz um relato cheio de emoção, do que vimos e ouvimos em nossas andanças pelo boqueirão do Rio. Janete, minha companheira de vida e de luta, acabara de se eleger vereadora. Atenta, não perdia uma só palavra, prendia a respiração nos pontos e nas vírgulas, logo que conclui, entusiasmada, anunciou que visitaria o arquipélago no mais tardar em trinta dias.


Assim foi feito, na mesma Ciborg, com Deuzuino e Camarrada, embarcaram:

A lutadora social Marlusa Correa Lima, a Mara, de quem falarei mais adiante, o economista Philippe Lamy, o fotógrafo Daniel de Andrade que revelou ao mundo a face terna e generosa do povo bailiquense, a diretora de teatro Edna Tossath, a Vereadora Janete Capiberibe e sua irmã Eliana Del Castilo, a Lica. Uma intrépida trupe, composta de pessoas que não se deixariam intimidar pela primeira pororoca que, por acaso, atravessasse em seus caminhos. Gente que nos anos de chumbo da ditadura comeu o pão que os milicos amassaram. Pois assim eles foram, viram, ouviram e se apaixonaram. Janete nunca mais parou de ir ao arquipélago. Ela esteve lá comigo às vésperas do Natal de 2007.


Depois dessa primeira viagem como político, perdi as contas das tantas vezes que lá voltei. Já usei os mais variados meios de transportes para me deslocar até o Arquipélago. Para quem tem pressa, de avião é possível, em 25 minutos de vôo, descer em uma pista de pouso na Fazenda Pará Búfalos, na região de Urucurituba, daí então tomar uma embarcação e seguir navegando por rios tranqüilos, desfrutar das belezas cênicas e percorrer dezenas de comunidades em tempo muito curto.


Pelo Rio Amazonas, fiz incontáveis viagens, usando embarcações de todo tipo, algumas velozes e confortáveis, outras nem tanto. Das várias opções para se chegar ao Bailique, a mais comum e tradicional, é o barco a motor que faz linha regular transportando cargas e passageiros, a dormida é de rede, a viagem dura, dependendo da velocidade da embarcação e da maré, entre dez e doze horas, é uma viagem muito segura, não tenho conhecimento de acidente nesse percurso envolvendo barcos da linha regular. Antes de descrever minha rota preferida, apresentarei a seguir um resumo dos atos e desatos políticos administrativos que aconteceram em dois grandes momentos da história do Bailique.

1 - Ascensão e apogeu (1995-2002)

Período marcado por benefícios coletivos de grande impacto, o mais importante, a Escola Bosque do Bailique com sua filosofia sócio-ambiental, que construia conhecimentos associando os saberes locais ao conhecimento científico universal. Inaugurada em 1998, oferece o ciclo completo da educação básica, do pré-escolar ao segundo grau, realizando assim o sonho dos jovens do arquipélago, estudar sem precisar se deslocar à capital Macapá. A escola oferecia transporte gratuito aos alunos e garantia uma bolsa família, que variava de meio a um salário mínimo, para que as mães garantissem a presença de seus filhos na escola.



Depois da Escola Bosque, a energia elétrica 24 horas e a água tratada foram duas gratas e inesperadas surpresas. A energia era precária, de duas a quatro horas por dia quando tinha combustível, água tratada nem pensar, era produto desconhecido em todo o arquipélago.

A região contava com um programa próprio fundamentado nas teses do desenvolvimento humano sustentável, construído com ampla participação comunitária, buscava o desenvolvimento econômico, social, cultural e político em equilíbrio com a natureza.

Foi no Bailique, onde primeiro se implantou, com assistência técnica e crédito, o manejo racional dos açaizais nativos que hoje contribui de forma decisiva com a economia local. Várias fábricas foram ali instaladas, de polpa de açaí, de industrialização do palmito, beneficiamento de mel, de gelo, beneficiamento de pescado e camarão. Esse ciclo virtuoso de desenvolvimento atinge o ápice nos primeiros meses de 2002 para em seguida ingressar em um novo processo, dessa vez, de declínio.

2 – Abandono e decadência ( 2003-2007)



Vamos então a nossa viagem mais recente, dessa vez, por minha rota preferida, à comunidade do Franquinho, localizada na ilha Bailique, nome também dado ao arquipélago. Na manhã do dia 21, uma sexta-feira de dezembro, por volta das sete da manhã, deixamos Macapá pela BR-156. Na altura do km 55, saímos do asfalto e pegamos a direita rumo a São Joaquim do Pacuí. Ali então voltamos a quebrar a direita, passamos pela comunidade de Catanzal direto até Santa Luzia, onde mais uma vez dobramos a direita e seguimos em frente. Nesse comecinho de período chuvoso com a estrada em estado razoável, gastamos quatro horas e meia, incluindo o tempo que perdemos em um atoleiro, para percorrer os 170 km que separam Macapá da Fazenda do Seu Aristarco na margem esquerda do Rio Gurijuba.


Nossa viagem tinha um objetivo, atender o convite do Movimento de Mulheres do Bailique para a confraternização natalina, realizada na espaçosa sede da Colônia Z-5 dos pescadores da região. A comitiva era formada pela Deputada Federal Janete Capiberibe, cujo trabalho com essas mulheres vem de sua primeira viagem. Cristina Almeida, Juliano Del Castilo, Kelson Freitas e Luciana Capiberibe, militantes do Partido Socialista Brasileiro.

Duas embarcações de seis metros de comprimento, com motor de popa de quinze cavalos, nos aguardavam. Os pilotos vieram ao nosso encontro para nos comunicar que haveria um atraso. Estavam desmontando os motores para limpá-los. Problema causado por gasolina acondicionada em recipientes plásticos novos sem que antes fossem lavados para eliminar as impurezas de fábrica. Uma hora depois, veio o anúncio de que podíamos partir, ocupamos nossos lugares nas embarcações, que passaram a deslizar sem muita pressa pelas águas tranqüilas do Rio Gurijuba.


Ladeado de mata densa, de um verde estonteante, árvores de copas gigantescas pendem de uma margem e outra quase encostando suas copas, formando túneis que protege o viajante do sol cáustico do meio dia, porém, que pena! Só na primeira meia hora da viagem onde o rio é estreito. A medida em que avançamos em direção à foz, as margens vão se distanciando cada vez mais uma da outra, o enorme volume de água que sobe e desse pelo leito do Gurijuba duas vezes por dia, concentra uma força gigantesca. Suas correntes se enroscam em determinados pontos, formando redemoinhos de meter medo, dando a sensação de que seremos tragados ao atravessá-los, mas que nada, a habilidade de nossos pilotos e a paisagem magnífica, tornam a viagem agradável e descontraída.

O rio Gurijuba deságua no Rio Amazonas bem em frente a ilha do Curuá, onde na comunidade de Itamatatuba deveria estar funcionando uma fábrica de gelo e uma outra de beneficiamento de camarão, gostaria muito de visitá-las, porém fica no sentido contrário de nosso destino, ademais estávamos pressionados pelo tempo em função do atraso na partida. Seguimos adiante, fizemos uma rápida parada no Igarapé Carneiro para visitar as fábricas de processamento de mel de abelha, polpa de açaí e industrialização do palmito.


Estava fechada,apesar de pintada e com telhas novas de Brasilit, as antigas feitas em material biodegradáveis foram substituídas sabe-se lá porque, já que a fábrica continua sem funcionar. Um jovem se aproximou e nos cumprimentou sorridente, nos disse que estava muito feliz em nos encontrar. Falou que tinha estudado o segundo grau na Escola Bosque e que gostaria muito de continuar estudando. Como estávamos em frente ao prédio, perguntei a ele como andava a fábrica.

- Bem! O caso aqui é muito sério! Depois que o senhor saiu ainda funcionou por mais alguns meses, acho que até setembro ou outubro de 2002, depois parou. No ano passado, veio gente de Macapá, pintaram o prédio, depois veio o governador com uma grande comitiva, trocaram aquela placa ali, trouxeram mel não se sabe de onde, colocaram nos potinhos, filmaram tudo e foram embora, foi a única vez que eu vi funcionar nos últimos cinco anos..


O jovem fazia referência à placa onde constava o nome do governador, do Secretário de Obras, da Secretária de Indústria e Comércio, assim como dia, mês e ano da inauguração.

Perguntei-lhe então pelas fabricas do Itamatatuba, não muito longe dali.

- Por lá também é a mesma coisa, está tudo parado. O pior de tudo é que voltou o racionamento de energia elétrica que nos deixa sem água tratada, às vezes falta combustível, ficamos semanas no escuro.

Perguntei-lhe se sabia das maquinas e equipamentos da fábrica de palmito.

- Já faz tempo que o Seu Tomás levou embora.

Quem é esse senhor?

- É o representante do governador.

Você sabe pra onde ele levou?

Pra fábrica que ele tem lá no Jaburuzinho.

Caminhamos sem comentários de volta às voadeiras que nos aguardavam no trapiche da fábrica, embarcamos e seguimos em frente. Nossa próxima parada foi no porto da Escola Bosque, localizada na Vila Progresso, na Ilha do Marinheiro, é a maior comunidade do arquipélago. Encontramos alguns operários reconstruindo as passarelas, porém o conjunto de prédios redondos, inspirados na arquitetura indígena, construídos inteiramente com mão de obra e matérias da região, apresentava evidencias de má conservação. O alojamento dos professores fora desativado por falta de manutenção já há alguns meses.

A antena de radio que proporcionava conexão da escola a internet estava desativado. Os professores que haviam recebido qualificação específica para responder as exigências educacionais da escola viram seus salários minguar com o corte do adicional de localidade, desestimulados retornaram a cidade, por falta de pessoal qualificado a filosofia sócio ambiental foi abandonada. Com um aperto no coração, mergulhados no mais profundo silêncio, como se tivéssemos perdido um ente querido, caminhamos sobre as passarelas em direção ao prédio do que deveria ter sido o Hotel Escola Bosque do Bailique.

Outro choque. Incompreensível o estado de abandono em que se encontra. Impossível! Não pode ser! Não é verdade! Essas eram as expressões mais repetidas por todos. Uma arquitetura genial, pós- moderna, cheia de conforto e beleza, em absoluta sintonia com a floresta e seus habitantes, capaz de construir conhecimentos fantásticos, de gerar empregos, atrair estudantes de toda a Amazônia para receber uma formação excepcional em turismo ecológico e comunitário. O que deveria ser um ícone do novo paradigma homem natureza terminou se transformando em símbolo do abandono, em um monumento à irresponsabilidade pública e à impunidade.


Além da destruição sistemática de tudo que estava feito e funcionando, há de se contabilizar as perdas do que estava programado e deixou de ser realizado, como por exemplo, o linhão que interligaria o arquipélago, com energia trifásica, ao sistema de distribuição de energia da CEA (Companhia de Eletricidade do Amapá) a partir de Santa Luzia. A obra estava em andamento com dinheiro garantido para sua conclusão em 2002, no entanto, o governo que me sucedeu decidiu suspender a execução do projeto e aplicar o dinheiro em outra atividade. Também estava programado a construção de mais duas escolas nos moldes da Bosque que atenderia 95% das crianças e adolescentes do arquipélago. É longo o relatório das perdas, pra finalizar citarei apenas mais dois exemplos, a pista de pouso na Macedônia e o catamarã de 65 lugares, contribuição da iniciativa privada, que faria o percurso Macapá-Vila Progresso em três horas, o que colocaria o Bailique, definitivamente, no roteiro eco-turístico internacional. Paciência, nem tudo está perdido, essa má fase vai passar e tudo será retomado mais na frente.

Daí então seguimos direto à comunidade do Franquinho, os barcos chegavam abarrotados de gente sorridente, vindas de quase todas as comunidades do arquipélago para participar de uma festa, que também serve como catalisador de emoções de pessoas que vivem distantes umas das outras.


Trocamos tantos cumprimentos e abraços que terminei aliviado das tensões vividas ao longo do dia depois de ver tantos bons projetos abandonados. A confraternização começou com uma cerimônia conduzida por Lucia, líder do movimento de mulheres, seguida pelo Diácono que fez as orações. Em seguida, o líder comunitário Paulo Rocha usou a palavra, fez uma breve reflexão sobre o Natal, agradeceu por nossa presença e pelo carinho que dispensamos ao Bailique. A Deputada Janete removeu os labirintos da memória falando sobre laços antigos de amizade, de suas tantas viagens e projetos desenvolvidos na região.


As mesas estavam repletas de comida, aguardando o fim das falações para então iniciar a ceia natalina, logo em seguida viria o momento mais esperado, o baile que poderia varar a noite, caso todos se comportasse com cavalheirismo, recomendação expressa de todos os líderes comunitários em suas falas. Em minhas palavras de encerramento da cerimônia destaquei a capacidade de organização, o grau elevado de consciência política e a dignidade do povo bailiquense. Agradeci pela forma carinhosa que nos acolheram e desejei boas festas a todos e um ano novo com muita saúde e paz.


Na saída, vinha tranquilamente conversando e cumprimentando as pessoas que me abordavam quando dei com olhos em uma embarcação que encostava ao porto da sede da colônia. Em letras enormes, tomando toda a lateral, estava escrito em letras garrafais, o nome da embarcação: Marlusa. Confesso que naquele momento meu coração bateu forte, bateu uma enorme saudade, contemplando aquela embarcação que ancorava quase em câmera lenta diante dos meus olhos. Na minha lembrança eu encontrava ali alguém que ziguezagueou pelo mundo construindo utopias. Sim Marlusa! o barco que leva teu nome continua de ilha em ilha, transportando gente que ri com tão pouco, que continua sonhando com seus sonhos. A Marlusa que deu nome ao barco e já nos deixou tem uma parte em tudo que aconteceu de bom no Bailique.


Conhecemos Marlusa em Moçambique. Destemida, arriscando a própria vida, escondia em sua casa os militantes do ANC, organização pelo fim do Apartheid, liderada por Nelson Mandela. Ela esteve conosco no Amapá quando me elegi prefeito e foi uma lutadora social apaixonada pelas riquezas naturais e pela gente daqui. Puxa Mara! Fico imaginando se você tivesse vivido pra ver o quanto valeu a pena. Mandela pos um ponto final no apartheid e virou o grande estadista do século XX, o Bailique avançou as duras penas e atualmente vive o descaso, mas as sementes que plantamos continuam a brotar na terra e nos corações daqueles que emprestam seus corpos e mentes para que nossa luta por justiça social continue. Mara, onde você estiver quero que saiba que você vive no Bailique, que você vive no Amapá, que você vive na África do Sul, que você vive em outros tantos cantos desse imenso mundo onde as causas que você defendeu continuam a existir e a unir diferentes povos e gerações.

Visitar o Bailique é olhar para o futuro, sem esquecer o passado, pelo contrário, é utilizar o passado como fonte de inspiração para continuar promovendo as mudanças necessárias aos avanços do desenvolvimento sustentável.

Macapá, 30.12.2007

João Alberto Capiberibe, 60 anos, ex-preso e exilado político, ex-prefeito de Macapá, ex-governado e ex-senador do Amapá, é vice-presidente nacional do PSB

Outras fotos do Bailique:





*Publicado por Nezimar Borges

 

LUIZ ALBERTO MONIZ BANDEIRA

Cientista político, professor emérito da Universidade de Brasília e autor de "As Relações Perigosas: Brasil-Estados Unidos de Collor a Lula, 1990-2004", "Brasil, Argentina e Estados Unidos" e "De Martí a Fidel: a Revolução Cubana e a América Latina". Leia alguns de seus artigos AQUI>>

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