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Os Núcleos de Base: A ferramenta dos Sem Organização Política.

Uma vez mais os resultados das eleições nos mostram que um segmento importante da sociedade não consegue estabelecer uma clara relação entre o voto e as políticas públicas implementadas pelos diferentes governos. Trata-se de um eleitorado desmotivado em função do estado de pobreza em que vivem e da falta de perspectiva de mudança e que daqui pra frente denominaremos de “Os Sem Organização Política”. É sobre essa exclusão absoluta e os resultados das urnas que devemos nos ater. Será preciso concentrar nossa reflexão e avaliação para tirarmos conclusões equilibradas e realistas que possam contribuir para o avanço do processo democrático e ampliar o exercício da cidadania.

Tivemos uma eleição marcada pela desigualdade entre as forças em disputa. De um lado nosso partido marchando solitário, sem qualquer aliança ou coligação partidária, com um reduzidíssimo tempo no horário eleitoral. Dos 20 minutos, em dias alternados, destinados à campanha de governador no rádio e televisão, ficamos com 1 minuto e 31segundos, enquanto nossos adversários dividiram 18 minutos e 29segundos. Em relação à disputa pela cadeira do Senado, a desigualdade na distribuição do tempo era também alarmante. Ainda assim polarizamos a disputa tanto para o governo como também para o senado, tendo o atual governador como candidato a reeleição e o ex-presidente da república e também candidato à reeleição Senador José Sarney. Poderosos adversários que dispunham de um arsenal gigantesco de armas e munições eleitorais e claro, de uma disposição sem limites para usá-las, tanto de maneira legal ou ao arrepio da lei como indicam o elevado número de recursos que tramitam no Tribunal Regional Eleitoral pedindo a cassação do registro ou do diploma tanto de um como de outro.

A dupla Sarney/Waldez contaram com a máquina pública do Governo Federal incluindo a presença do Ministro de Minas e Energia, nas vésperas do pleito, prometendo energia de graça para todos. Usaram, sem o menor constrangimento, a máquina pública estadual cujas secretarias e empresas se transformaram em comitês eleitorais. Distribuíram bondades à esquerda e a direita obtendo assim o inédito apoio de todos os prefeitos, de 95% dos vereadores, de 22 dos 24 deputados estaduais, da bancada federal tanto na Câmara como no Senado. Dispunham de abundantes recursos financeiros, controlaram e manipularam a maioria dos meios de comunicação. Como se não bastasse, contaram com a escancarada simpatia do presidente do TRE, cujo voto de desempate, em sucessivos julgamentos, ia sempre para os nossos adversários. O poderio disponível foi utilizado para pressionar e ameaçar qualquer pessoa que eventualmente tivesse algum vínculo com o Estado, Prefeituras ou Governo Federal. Dois exemplos para ilustrar a prática criminosa sistemática dos candidatos do governo:

1- As mães do programa Bolsa Família Cidadã, beneficiadas com meio salário mínimo mensal, criado em nosso governo, mudou de nome passando a se chamar Renda pra Viver Melhor, se viram obrigadas, diante da ameaça de perda do benefício, colocar bandeiras de nossos adversários em suas portas. Viveram nos meses que antecederam as eleições submetidas a todo tipo de pressão psicológicas e dúvidas em relação à continuidade do programa caso ganhássemos as eleições. O mesmo aconteceu com serventes e merendeiras contratadas pelos Caixas Escolares. Essas pessoas humildes e indefesas viveram e muitas continuam vivendo um clima de incerteza, medo e desesperança.

2- A promessa de regularização de uma área invadida a troco de votos, em frente ao Parque de Exposição da Fazendinha, denominado loteamento Vale Verde, onde quase todos os barracos apresentavam, em exagero, um festival de placas e bandeiras do candidato à reeleição, levou os invasores a tentar impedir a realização de qualquer reunião ou ato de campanha de outros candidatos com receio de desagradar o governador e perder a chance de receber o título de propriedade do lote invadido.

Depois das mais variadas ações de perseguição e abusos cometidos contra a parcela mais pobre e vulnerável de nosso povo, finalmente chegaram as ofertas generosas da véspera e do dia da eleição, dinheiro vivo, em notas de cinqüenta reais, às vezes mais de uma por voto.

Ainda assim, diante de uma correlação de força absurdamente desfavorável, conseguimos uma expressiva votação que mereceu avaliação positiva de todos os militantes dos núcleos de base de Macapá e Santana que participaram dos encontros que realizamos logo após o pleito. Para todos, ficou clara a dificuldade que o segmento mais pobre de nossa sociedade tem em relacionar o voto com a falta d’água ou com a péssima qualidade da saúde ou da educação. Ao que pese o domínio quase total dos meios de comunicação nas mãos de nossos adversários, nas pesquisas quantitativas e qualitativas que realizamos ao longo do ano, nosso governo foi sempre melhor avaliado que o governo reeleito. Na realidade o que parecia ser uma tranqüila disputa democrática, protegida pelo manto da legalidade eleitoral, proporcionando ampla liberdade à sociedade para julgar duas formas inteiramente diferentes de governar e cuidar da coisa pública foi transformado num jogo bruto e desenfreado de abuso do poder político e econômico, desequilibrando e jogando por terra o princípio da isonomia entre os candidatos em disputa.

Analisando os fatores que favoreceram o desempenho do PSB nas urnas, destacaria a luta histórica em defesa da democracia e da liberdade, o sucesso do Partido na implementação de políticas públicas abrangentes e inclusivas nos mandatos exercidos nas prefeituras, governo estadual e legislativo. Neste pleito, somado ao grande esforço de nossos candidatos às eleições proporcionais, que fizeram suas campanhas em precárias condições financeiras, o PSB passou a contar com os Núcleos de Base, nos bairros e entre categorias profissionais. Um instrumento fundamental e decisivo na mobilização popular para eventos da campanha eleitoral. É oportuno esclarecer que os núcleos de base emergiram dos debates do IX Congresso Nacional do Partido em 2003 para organizar os “os sem organização política” e excluídos de nossa sociedade, estabelecer uma interlocução definitiva com esse segmento e representá-los com legitimidade. Aqui faço questão de lembrar as palavras da companheira Deputada Luiza Erundina: “Portanto, representar sindicatos, representar os segmentos que têm um nível de organização é relativamente fácil. O difícil é você ser capaz de se credenciar, de ser capaz de se legitimar na representação desse largo segmento da sociedade, inorgânico, desorganizado, que são os excluídos em todos os sentidos. Nós precisamos também, sermos capazes de organizar esses segmentos. Caso contrário, nós, da esquerda, com outros métodos, também terminamos manipulando e usando esses segmentos da sociedade, inorgânicos, desorganizados, que são os segmentos excluídos”.

O PSB sai diferente dessas eleições, porque agiu rigorosamente dentro da ética, tratando o povo com respeito e dignidade, tornando-se uma referência para os “Sem Organização Política” que experimentaram a sensação entusiasmada e angustiante da militância voluntária, aguerrida e combativa, porém sem os recursos mínimos de infra-estrutura para exercer suas tarefas de campanha, mesmo assim não desanimaram seguiram em frente. Sofreram no dia da votação testemunhando todo tipo de abusos e crimes eleitorais sem ter pra quem apelar. Logo após o pleito, na reunião de avaliação chegaram altivos, orgulhosos, falando em vitória moral e reafirmando o compromisso de trabalhar e lutar com mais disposição e decisão para fazer avançar a luta dos “Sem Organização Política”.

O PSB sai fortalecido com a eleição da Deputada Federal Janete Capiberibe, pela segunda vez, a deputada mais votada da história política do Amapá com 10.3% dos votos válidos para a Câmara Federal, tornando-se nesse pleito a mulher mais votada do país em termos relativos. Também conseguimos eleger dois deputados estaduais que irão fazer a diferença na assembléia legislativa. Por último, nosso partido revelou Cristina Almeida, liderança carismática, corajosa e comprometida com as lutas do povo.

Para finalizar passo a enumerar algumas conclusões pinçadas das reuniões de avaliação que realizamos com dirigentes e militantes de nosso partido:

1) Que o segmento dos “Sem Organização Política”, entre 35 a 40% do eleitorado, são os mais afetados e também as maiores vítimas do sistema por não dispor de informação suficiente para resistir ao assédio do rolo compressor, resultante da combinação do poder político com o poder econômico.

2) Que nenhum eleitor, tendo consciência que seu voto pode causar a falta de medicamentos nas unidades de saúde ou até mesmo provocar privações para seus filhos que freqüentam a escola pública, cuja merenda, em muitos casos a única alimentação do dia, passou a ser o suco com bolacha em vez de uma refeição consistente como era em nosso governo, certamente receberia as ofertas de vésperas de campanha, dinheiro, cesta básica ou até mesmo o asfalto na porta, sem comprometer sua independência na hora da decisão pelo voto.

3) Que os núcleos de base chegaram pra ficar e se enraizar nos locais de moradia, nas categorias profissionais, nos locais de trabalho, para promover o debate, a discussão e a formação política do povo e que a mobilização será permanente em defesa dos direitos sociais básicos como saúde, educação, segurança, habitação, água tratada, etc.   

4) Que o PSB, seus eleitos e dirigentes permanecerão atentos e mobilizados, conduzindo com firmeza e decisão a luta do povo, promovendo encontros, reuniões de bairro, seminários, cursos de formação política, atos públicos, manifestações políticas e culturais.

Por último registro aqui minha satisfação de ter conduzido uma das mais bonitas e emocionantes campanhas eleitorais de  minha história política. Caminhamos nas passarelas, ruas e avenidas, acompanhados por multidões e ladeados pelos dirigentes e militantes dos núcleos de base que conheciam e nos apresentavam cada morador ou moradora pelo nome, relatavam fatos e acontecimentos de cada bairro, contavam historias e falavam com alegria e emoção de suas primeiras experiências como militantes de um partido político. Estabelecemos uma profunda aliança com o povo que foi às ruas com alegria, manifestar seu apoio, empunhar nossa bandeira da esperança na melhoria da vida coletiva. Obrigado pelo apoio e dedicação de todos e também pela oportunidade de participar ativamente na construção de uma sociedade onde todos, sem distinção, sejam tratados com dignidade e justiça.

João Capiberibe.

Presidente do Diretório Estadual do PSB-Amapá.

3º Vice-presidente do Diretório Nacional.

*Publicado por Nezimar Borges

 

LUIZ ALBERTO MONIZ BANDEIRA

Cientista político, professor emérito da Universidade de Brasília e autor de "As Relações Perigosas: Brasil-Estados Unidos de Collor a Lula, 1990-2004", "Brasil, Argentina e Estados Unidos" e "De Martí a Fidel: a Revolução Cubana e a América Latina". Leia alguns de seus artigos AQUI>>

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