Entrevista: Capiberibe analisa ditadura de Pinochet
Fonte: Folha OnLine em 15 de Dezembro de 2006

Atualmente sem mandato, depois de ter sido governador duas vezes e
senador da República, Capi se dedica a ler, escrever e organizar o
partido do qual é presidente no Amapá: o PSB
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Durante o golpe militar liderado no Chile pelo ex-ditador Augusto
Pinochet os estrangeiros exilados no país foram alvo da xenofobia do
ditador. Entre esses estrangeiros estava o brasileiro João Alberto
Rodrigues Capiberibe, guerrilheiro da Ação de Libertação Nacional (ALN)
que havia fugido da prisão no Brasil, passado pela Bolívia e residia há
pouco mais de dois anos em território chileno.
Esta semana, três dias após a morte de Pinochet, o ex-governador do Amapá e ex-senador da República recebeu a Folha do Amapá para, numa entrevista, relatar a experiência. O ex-governador fala da
experiência socialista do povo chileno, do violento golpe militar que
levou Pinochet ao poder e compara a elite chilena à elite amapaense.
Capiberibe chegou ao Chile logo após a posse do presidente Salvador
Allende.
O senhor estava no Chile quando se deu o golpe militar que levou Augusto Pinochet ao poder. Como foi essa experiência?
Antes de mais nada é preciso que saibamos que a democracia chilena
até 1973 era a democracia mais estável da América Latina. Desde que se
instalou a República no Chile eles tinham tido apenas um golpe militar
que havia durado dois meses, mas rapidamente a população reagiu
enquanto sociedade civil. O golpe foi dado na década de 40 com apoio
das Forças Armadas, então a população reagiu fazendo com que os
próprios militares se retirassem do golpe. Se por exemplo um soldado do
exército entrava no ônibus todos desciam, se entrasse em um restaurante
todos saíam. Ouve uma grande mobilização civil para reconstituir o
processo democrático e depois veio 1973. Em 73 foi emblemático para a
construção de uma sociedade mais justa no mundo todo. O socialismo
chileno foi construído pela via do voto. A unidade popular que reunia
cinco partidos, o partido socialista, o partido comunista, o movimento
de esquerda revolucionário, o movimento de ação popular e um outro
partido que não lembro agora, vinham participando de todas as eleições,
até que em 1970 eles conseguem ganhar as eleições (para presidente). O
Allende tinha participado de outras eleições e, se não me engano, era a
terceira tentativa que obteve sucesso com essa frente de esquerda.
Quando o senhor chegou ao Chile o Salvador Allende já era o presidente?
Eu cheguei ao Chile em 24 de dezembro de 1971, na véspera de Natal.
Peguei um ônibus em Arica, atravessei o deserto do Atacama em uma
viagem de dois dias, então quando entramos na capital Santiago às
vésperas do Natal havia uma grande manifestação do Partido Comunista,
com bandeiras com a foice e o martelo. Para nós brasileiros que
estávamos chegando, eu, a Janete (esposa Janete Capiberibe) e a
Artionka (filha) foi um susto. Sair de um país como o nosso, repressivo
e violento, onde o Partido Comunista estava clandestino a décadas,
imagine!
O senhor saiu do Brasil direto para o Chile?
Nós passamos primeiro pela Bolívia. Passamos de agosto a novembro
na Bolívia. Lá enfrentamos um golpe de Estado que nos dificultou a
saída. Mas a nossa chegada ao Chile às vésperas de Natal e vendo aquela
efervescência foi muito surpreendente. O Chile se tornou um regime
generoso para toda a América Latina. Recebia exilados de todos os
demais países, buscando no Chile o asilo contra a opressão em seus
países. Nos chegamos nesse momento, Allende já estava no poder. Tinha
acabado de assumir. As eleições tinham ocorrido em 70. Era um processo
de plena liberdade. Todas as correntes de opinião tinham absoluta
liberdade de manifestação. A imprensa era livre. Era a construção do
socialismo democrático. A unidade popular encabeçada por Allende tinha
um programa de 40 pontos. Um programa que atingia fortemente as pessoas
economicamente. Rompia com a dependência. O Chile produzia na época
cobre que estava na mão de empresas multinacionais. A população chilena
não usufruía dessa riqueza. Entre outras coisas o programa da Unidade
Popular tinha na época forte influencia keynesiana. Um economista que
acabou marcando todo o século 20 com suas idéias de usar o Estado como
empreendedor. No programa estava a nacionalização do cobre, dos bancos
e reforma agrária. Allende honrou os compromissos assumidos
politicamente com a sociedade chilena. E logo que assume começa a
implantar o programa. Nessa época ainda vivíamos a era do marcatismo,
do anti-comunismo patrocinado pelos Estados Unidos. Você sabe que a
democracia americana nunca existiu. Hoje quando vemos o massacre que os
americanos estão fazendo no Iraque e no Afeganistão a gente compreende
que para os americanos não existe democracia. O Chile é um caso
patético de intervenção americana. Inclusive no dia do golpe os aviões
que atacaram o Palácio de la Moneda, que assassinaram o presidente
Salvador Allende, eram pilotados por americanos. Tinha uma esquadra
americana no porto de Valparaíso no dia do golpe.
Aconteceu quanto tempo depois que o senhor estava no Chile?
Salvador Allende foi eleito em 70. Nós chegamos no final de 71.
Ficamos o ano de 1972 e fomos embora em 1973, em setembro. Nós passamos
dois anos e um mês no Chile. Em janeiro de 1974 deixamos o Chile para
ir morar no Canadá, mas foi uma belíssima experiência. Uma experiência
política fantástica.
O senhor esteve praticamente todo o governo de Allende no Chile...
Perdi o primeiro ano só. O governo Allende teve uma influencia até
os dias de hoje no Chile. A reforma agrária que foi feita – eu morei
numa cooperativa de reforma agrária – teve um impacto econômico
positivo que foi determinante para esse avanço da agricultura chilena.
Principalmente a fruticultura, que deu um salto enorme. A produção do
vinho, por exemplo. Hoje o Chile é um dos maiores exportadores de
frutas e de vinho e ainda resultado do processo de reforma agrária do
período Allende. Com a arrogância, ou seja, com o empenho americano
unindo-se à elite local, uma elite extremamente conservadora, o apoio
de vários governos ditatoriais da América Latina, como o governo
brasileiro, foi possível derrotarem essa belíssima experiência
democrática no Chile.
Era possível prever o golpe. Havia clima no país nesse sentido?
Para você ter uma idéia o golpe foi num 11 de setembro, uma
terça-feira. Eu morava na região central do Chile, na província de
Talca, em uma fazenda da universidade a 15 quilômetros da cidade de
Talca. No dia 5 de setembro, seis dias antes do golpe, a Unidade
Popular chamou para uma grande manifestação pública de apoio ao
presidente. Veja, o Allende se elege com menos de 50% dos votos. A
eleição dele foi referendada pelo Congresso, mas antes da posse e o
referendo houve uma tentativa de golpe que ceifou a vida do comandante
chefe das forças armadas, general Isnaider.
Quando ocorreu isso?
Isso foi em 1970, logo após as eleições. Isso mostra que a direita
chilena aliada à CIA não aceitava a ascensão de um governo democrático,
de esquerda socialista, eleito pelo povo. No Chile foi tudo feito pela
decisão do cidadão. Em 1972 houveram as eleições municipais. A Unidade
Popular chegou a 53% dos votos, mesmo com as dificuldades todas. Logo
que Allende chegou ao poder se declara boicote internacional. O preço
do cobre vai lá para baixo. Os ingressos em dólar caíram enormemente.
As importações foram dificultadas. O Chile era que nem o Brasil,
totalmente dependente da economia externa. Houve uma situação
calamitosa. Faltavam alimentos básicos. Começou a faltar velas para os
carros. Faltava chupeta para mamadeira de criança, açúcar, leite. O
boicote era enorme. Agora, para você ter uma idéia, a população se
mobilizou toda para manter o seu presidente eleito, mas havia sabotagem
nas estradas. O Chile é uma linha enorme na costa do Pacífico, depende
muita de estradas. A direita, com apoio da CIA e do governo brasileiro
na época da ditadura, eles espalhavam pregos de avião nas estradas e os
caminhões furavam os pneus e não tinham como rodar. Eram pregos
chamados “miguelitos” com a forma assim (apontando o dedo polegar na
posição vertical com a ponta ligeiramente inclinada para cima, sobre o
indicador apontando no sentido contrário). Então a única maneira
encontrada pela população que morava nas margens das estradas para que
os caminhões trafegassem foi varrer as estradas. Eram quilômetros e
quilômetros sendo varridos.
Por duas vezes o senhor já citou o apoio do governo ao boicote. Quem era o presidente no Brasil?
Em 1973 era… (pensa um pouco) o Médici (Emílio Garrastazu Médici).
Esse apoio era explícito?
Com certeza. No golpe da Bolívia em 1971 era explícito. Até o
slogan utilizado era o mesmo “Bolívia, ame-a ou deixe-a”. Se distribuía
propaganda brasileira lá dentro da Bolívia. No Chile não havia
propaganda explícita, mas as palavras de ordem eram muito parecidas com
as do Brasil. Agora os alimentos não chegavam. Se boicotava tudo contra
o Chile nessa época. Ainda com todas essas dificuldades, carências, as
filas em 1972 a Unidade Popular ultrapassa 50% dos votos, que mostra
que o povo chileno estava orgulhoso com seu processo. O golpe mobilizou
a burguesia chilena aliada ao imperialismo
americano.
Por que não houve a mesma reação da sociedade como ocorreu no golpe anterior?
Ah, não! O golpe de 73 foi diferente, dado com uma truculência
inusitada. É por isso que o Pinochet é considerado um dos homens mais
sanguinários da América Latina. No primeiro dia do golpe ele mandou
executar milhares de pessoas. Não houve possibilidade de reação, foi
matança generalizada. A ordem dada por rádio por Pinochet – foi gravada
– era que para cada soldado morto se matasse dez comunistas. Agora eram
gente do povo. Matavam indiscriminadamente as pessoas.
Nesse momento, como exilado, o senhor temia pela sua vida e de sua família?
Eu tive muita sorte de escapar do Chile, e tudo graças ao bispo de
Talca. Ele nos garantiu o asilo na sua arquidiocese. Nós morávamos
afastados, como já disse, e ele mandou um

O passaporte da Cruz Vermelha era o único documento que Capi e
Janete tinham para se identificar, já que o Brasil negava documentação
para os exilados políticos |
padre que era professor nosso
nos buscar. Nós estudávamos na Universidade Católica. Esse padre foi
nos apanhar e nos levou para a casa episcopal de Talca. De lá saímos
levados pela ONU e pela Cruz Vermelha, tanto é que nosso passaporte é
da Cruz Vermelha, passaporte de refugiado. Aí tivemos que esperar
durante dois meses até que um carro com as bandeiras das Nações Unidas
e Cruz Vermelha, mais um diplomata da ONU, fosse nos apanhar.
O senhor ficou quanto tempo no Chile após ter sido dado o golpe?
O golpe foi em setembro. Fiquei em Talca de setembro até o início
de novembro. Depois a ONU nos levou para um campo de refugiados em
Santiago. Nós ficamos novembro e dezembro. Quando foi em janeiro
embarcamos para o Canadá.
Havia quantos brasileiros no Chile?
Em torno de cinco mil. Antes do golpe já haviam assassinado um. No
dia do golpe mataram mais dois. Teve um que escapou de forma milagrosa.
O senhor conhecia algum deles?
Conhecia o que escapou. Ele foi preso e depois levado para ser
fuzilado às margens do Rio Maputcho, com dezenas de outras pessoas. Ele
recebeu dois tiros, caiu dentro do rio. Sobreviveu, conseguiu chegar a
uma igreja e depois foi levado para uma embaixada. A ditadura chilena
fez uma caçada feroz aos estrangeiros. O Pinochet saiu à caça dos
estrangeiros. Nós morávamos a 300 quilômetros de Santiago e tivemos
essa ajuda da Igreja Católica.
O senhor perdeu algum conhecido?
Dois amigos da universidade. O Rodrigo e o Tano foram assassinados.
Vários foram presos. O governador da província em que morávamos foi
assassinado. Um comandante do
exército foi preso porque não me prendeu.
Após o golpe nós ainda ficamos dois dias na casa onde morávamos até que
o padre nos levasse para a arquidiocese. Tivemos uma sorte enorme.
Ainda dentro do campo de refugiado das Nações Unidas, uma vez o
exército chileno cercou, atirou lá para dentro e uma bala acertou a
janela onde eu conversava com a Janete. Foram momentos tensos. Muitos
brasileiros passaram meses na embaixada passando dificuldades. Eu
passei muita dificuldade, os alojamentos de refugiados eram
inadequados, pequenos e para quem tinha criança o sofrimento era
enorme. Nós já tínhamos, além da Artionka, o Camilo e a Luciana. A
dúvida era saber se eles nos deixariam sair.
Capi, Janete e os filhos: Início da ditaduta de Pinoichet.  |
Quem era o Pinochet antes do golpe?
Era o comandante da região de Santiago. Era o segundo homem na
hierarquia. Mas antes da manifestação de setembro já havia ocorrido uma
tentativa de golpe chamada “tancaço”. Essa tentativa de golpe foi
reprimida pelo comandante do exército. Naquele momento Allende poderia
ter desbaratado o golpe. Mas ele achava que o exército nunca iria se
sublevar. O exército chileno tinha uma tradição constitucionalista.
Tanto é que houve uma sublevação de uma companhia, mas o comandante do
exército abafou o golpe em maio. O Allende era um democrata. Eu tinha
certeza do golpe, tínhamos a experiência golpista. Os chilenos não
tinham tido um golpe na sua experiência republicana. Eles tinham razão
para não acreditar que o exército fosse cometer tamanha atrocidade.
A atrocidade do golpe chileno foi maior que a brasileira?
São muito parecidas. A ditadura brasileira sumiu com muita gente
também. Agora, nas semanas do golpe no Brasil ocorreram muitas prisões.
Foram de muita truculência. As ditaduras procedem da mesma maneira. No
Brasil os partidos e movimento sociais não tinham a força que tinha no
Chile. Lá a esquerda era governo. No Brasil o presidente João Goulart
era um presidente de centro. Aqui havia um avanço da sociedade civil,
mas muito distante do Chile. Os chilenos enfrentaram uma guerra civil,
sendo que um dos lados estava desarmado. Diferente do Hugo Chávez, o
Allende nunca armou a população. O Chávez armou a população. Se
procedesse aquela tentativa de golpe na Venezuela iria ocorrer uma
matança como houve no Chile. Depois disso o que fez o Chávez? Arma a
população civil. Comprou mais de 1 milhão de fuzis para colocar na mão
da população civil. O Chávez tem a vantagem de ser militar.
No século 21 a América Latina ainda não esta preparada para ter um governo socialista?
Não é a América Latina. O problema é que estamos muito próximo dos
Estados Unidos. Depois da experiência cubana eles não admitiram nenhum
outro processo democrático na América Latina. Agora observo que o povo
chileno não queria que ficassem impunes os crimes praticados pela
ditadura. Essa impunidade acabou prevalecendo em todas as ditaduras,
com exceção da Argentina. No Brasil ficou totalmente impune. Inclusive
os eminentes políticos da ditadura participam ativamente do processo
democrático. Entre os que deram sustentação política à ditadura e é um
dos homens mais prestigiados do Brasil está o senador José Sarney. Deu
certo na ditadura e na redemocratização. É figura de um malabarismo
digno de grandes artistas.
A sociedade chilena ficou dividida, parte contra e parte a favor de Pinochet?
A sociedade chilena se dividiu ideologicamente. Agora, o que é
fantástico é que a maioria acabou apoiando a Unidade Popular, apoiando
Allende. Mesmo com toda a sabotagem, boicote e campanha de mídia
intensa contra a democracia. Agora a elite se mobilizou com o apoio do
grande capital internacional. A burguesia chilena daquela época era
muita parecida com a burguesia amapaense. O povo paga a conta, paga
imposto e esse imposto é dividido entre poucas famílias locais.
Famílias oligárquicas.
O que o senhor tirou da experiência no Chile para sua vida política?
Nós reproduzimos no Amapá o resumo de toda essa trajetória. Nossa
experiência em várias regiões do mundo. Claro que o processo chileno é
pela natureza democrática. Foi no Chile que me dei conta da importância
do respeito à decisão popular. O Allende morreu em defesa da sua
palavra, do compromisso assumido. Depois a minha vivência no Canadá, um
país com distribuição de renda. Tanto é que a leitura que fizemos
terminou reacendendo uma utopia que é o Desenvolvimento Sustentável,
com justiça social e equilíbrio ambiental. Foi um processo que acabou
provocando uma reação inusitada da elite local. Tentaram aqui meu
afastamento do poder. Até hoje tentam via Judiciário a minha
inelegibilidade. No resultado das últimas eleições fica claro a
conspiração dos setores da elite. São poucos no País os políticos com
uma posição como a nossa. Aos meus 60 anos com cabelos embranquecidos,
eu continuo acreditando na revolução social aliando a necessidade de
preservação sobre a terra. Para isso temos de fazer uma revolução de
comportamento, do sistema de produção e de consumo da sociedade.
*Publicado por Nezimar Borges
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