Revista Caros Amigos
Entrevista explosiva
João Capiberibe
Cassado por que, mesmo?
É um caso (escandalosamente) inédito: um senador, João Capiberibe, e uma deputada federal, Janete Capiberibe, têm os mandatos cassados pelo TSE por uma suposta compra de dois votos, no valor de 26 reais cada.
O autor da denúncia, Gilvan Borges, que já foi senador, fabricou “provas” e tem no currículo, entre outras coisas, uma acusação de nepotismo quando empregou a mulher e a mãe em seu gabinete no Senado, acusação à qual respondeu assim: “Uma me pariu e a outra dorme comigo”. Dispensem-se maiores comentários e vamos à entrevista. Exemplar, por sinal.
Entrevistadores: Natalia Viana, Marina Amaral, Débora Pivotto, João de Barros, Flávio Cannalonga, José Arbex Jr., Wagner Nabuco e Sérgio de Souza. Fotos: Elena Vettorazzo.
Trecho 1
Natalia Viana - Sempre começamos perguntando da infância do entrevistado...
Nasci na ilha do Marajó, na beira de um rio e onde não tinha absolutamente nenhum vestígio da sociedade industrial. Não tinha energia, não tinha escola, uma coisa isolada mesmo. E cresci ali até os 6 anos...
Sérgio de Souza - Seus pais?
Meu pai era um sujeito muito especial, era poeta, músico, trabalhava em Belém como condutor de bonde, e resolveu se embrenhar na floresta depois de casar com a minha mãe, que também vivia em Belém, e os dois foram para Marajó, onde eu nasci. Quando tinha 7 anos fomos morar em Macapá, para eu estudar, porque a minha mãe achava que tínhamos todos que estudar. Meu pai não, estava absolutamente conformado com a vida, eu já sabia nadar, subir no açaizeiro, pescar, então já estava pronto para a vida.
Marina Amaral - Eram muitos irmãos?
Sete. Macapá nos anos 50 devia ter 30.000 habitantes. E a lembrança mais fascinante que guardo é a imagem da cidade iluminada, aquilo pra mim foi um total deslumbre. A gente ia de barco a vela, a viagem durava uma semana. E estudei lá até os 17 anos.
Natalia Viana - Morava lá a família toda?
Todo mundo, e ainda tinha uns agregados, que chegavam do interior e iam ficando na nossa casa. Uma família pobre, comecei a trabalhar aos 7 anos, logo que cheguei, vendia revista, jornal, loteria, frutas, eu era um excelente vendedor. E fiz o curso primário em Macapá, no Grupo Escolar Barão do Rio Branco. Um dia fui lá, quando era governador, ver meus boletins. Eu era um péssimo aluno, minhas notas não eram lá essas coisas. Enfim, foi uma vida muito pobre, morávamos na Baixada, uma favelona, sem água, sem luz também, e conheci um padre – eu não tinha religião, não sabia rezar absolutamente nada, meu pai era ateu, minha mãe oscilava entre o catolicismo e o protestantismo –, e o padre me convidou para fazer um leilão. E eu fui, imagina, eu vendia o que pintasse na minha mão. Fui gritar o leilão do padre, ele gostou muito de mim, perguntou se eu queria ir para o seminário. Eu digo: “Na hora!”
Sérgio de Souza - Você estava com que idade?
Estava com 10 anos. Fui para um seminário, que era numa ilha, com padres italianos. Não suportei, eu era menino de rua, chegar numa disciplina de acordar às 6 horas, tinha que rezar, eu não sabia rezar. Aí, inventei uma doença pra voltar. Então me meteram num hospital, cuidado pelas freiras, e os médicos encontraram uma doença – me tiraram o apêndice!... Em compensação, nesse período me ensinaram a rezar. Quando voltei para o seminário, passei a ler a Bíblia e a me interessar – os padres tinham uma biblioteca excelente – pela história dos santos. Sem nenhuma vocação para ser santo. E fiquei três anos no seminário. Então, reconheci não ter mesmo a menor vocação para padre, e pedi para sair. Depois de concluir o 1º grau, fui para a Escola Normal, conheci Janete...
Marina Amaral - Desde essa época?
Sim, e passamos a fazer militância juntos no movimento estudantil. Época da ditadura, os grêmios eram proibidos, quando cheguei ao 2º ano fui para Brasília, estudar na Escola Agrícola. Passei quinze dias na escola, não agüentei, fui embora. Para Belo Horizonte.
Sérgio de Souza - Estudar lá?
Sim, fui em 1966, fiquei até 1968. E aí acompanho as primeiras manifestações de rua, um movimento estudantil muito forte...
Trecho 2
Sérgio de Souza - Você sofreu também tortura física?
Também. “Telefone”, todo tipo de tortura que você possa imaginar, ninguém passava incólume. Daí, depois de 110 dias preso ali, me transferiram para o presídio São José, um prédio do século 18 que havia sido convento, e fui colocado com os presos comuns. Primeiro fui levado para uma torre, torre de igreja mesmo, com sino, e ali me pelaram a cabeça, me desnudaram, e tocaram aquele sino. Aquele negócio ficaria na minha cabeça para sempre. Toda vez que tenho um momento de risco, ouço o tal do sino. No dia em que o TSE cassou o nosso mandato, a primeira coisa que veio na cabeça foi o sino. Impressionante como me marcou. E a cela onde eu ficava tinha 95 presos, dormiam todos em redes, um cruzado em cima do outro. Um calor de 40 graus, uma coisa insuportável, e, como eu já tinha sofrido tortura na fase de interrogatório, terminei ficando muito mal. Cheguei a pesar 51 quilos, era só osso. Então, Janete consegue que me transfiram para um hospital. Passei um mês e meio lá e, quando já estava bem melhor, começamos a articular a fuga do hospital. E terminei fugindo, realmente. Criamos um fisiologismo, um clientelismo com os soldados, e eles relaxaram bastante a guarda. A Janete trouxe uma bata de médico, óculos, sapato, e terminei saindo pela porta da frente do hospital. Sozinho. No caminho, as enfermeiras ainda davam “boa noite, doutor”, era um hospital grande. Eu, Janete e Artionka, que tinha dez meses de nascida, pegamos um barco desses que circulam clandestinamente na Amazônia, são milhares até hoje, e fomos até Santarém, oito dias de viagem. Depois, Manaus, mais cinco dias, pegamos um barco para Porto Velho. Tem uma história fascinante: esse roteiro quem traçou para mim foi um sujeito que tinha feito um assalto com revólver de brinquedo em Manaus...
Trecho 3
Sérgio de Souza - Como você montou seu time, seus secretários?
Criei uma escola de governo, um centro de informação com desenvolvimentos humanos, e treinávamos permanentemente e capacitávamos as pessoas, era muito intenso, fizemos parcerias com as universidades e levamos gente da Unicamp, da USP, da Escola Paulista de Medicina, fizemos uma parceria com os franceses na área de educação e pesquisa.
José Arbex Jr. - Danielle Mitterrand esteve várias vezes com você lá, tem até um instituto...
Tem um instituto de línguas e, na verdade, eu já sabia que não teríamos nenhuma possibilidade de obter apoio do governo federal, então fizemos uma parceria ampla com a Guiana Francesa e com a França. Fundamentada nas teses do desenvolvimento sustentável, e isso terminou nos ajudando enormemente. A questão com a Guiana evoluiu tanto, que em 1997 articulamos um encontro do presidente Chirac com o Fernando Henrique lá na fronteira, e esse encontro aconteceu em São Jorge, a imprensa aqui do sul não deu muita cobertura.
Trecho 4
João de Barros - Pode-se encontrar algum paralelo entre o julgamento de vocês dois e o julgamento do Roriz, governador do Distrito Federal?
Acho que usaram dois pesos e duas medidas, não tenho a menor dúvida de que ali o que era prova contundente se transformou em “indícios”, e o que era suposição me condenou. Então, por mais que um jurista diga que são dois processos diferentes, um envolvia 52 reais e o outro 40 milhões de reais desviados de recurso público e tudo comprovado com fotografias, com documentos, e no nosso julgamento só tinha a palavra das duas testemunhas. Eu disse que eles estão cassando um e levando dois, porque a deputada Janete foi a mais votada em toda a história do Estado. Teve quase 10 por cento dos votos proporcionais, o que é muito. Um dos argumentos dos acusadores é que os dois votos que “compramos” tinham influenciado a eleição, porque a diferença entre a minha votação e a do Gilvan era de 4.500 votos. Como a diferença era muito pequena, poderia ter tido alguma influência. Só que a Janete teve perto de 24.000 votos, o segundo colocado teve a metade. Isso significa que ela está sendo cassada sem nenhuma razão objetiva. Simplesmente porque se elegeu pelo PSB, junto comigo. Até parece uma atitude machista: “Vamos cassar o casal”. Como se ela não tivesse uma trajetória de luta política. Ninguém no Amapá admitiu a cassação. A contradição entre os dois julgamentos, o nosso e o do governador Roriz, terminou causando um choque na opinião pública, na Câmara e no Senado. Conseguimos ser mantidos nos mandatos por uma liminar da ministra Ellen Gracie. Até que se publiquem os acórdãos. Caso a gente não consiga uma revisão da decisão no TSE, então cabe um recurso extraordinário ao Supremo. E, por último, pela disposição dos senadores e dos deputados, pode haver também um processo de anistia. E tem ainda o aspecto que, para os eleitores que votaram na gente, a cassação é inaceitável, é falta de respeito com a decisão deles. Então, vários grupos no Amapá decidiram produzir uma reafirmação do voto. E está correndo um abaixo-assinado cuja meta é chegar a 98.000 assinaturas, exatamente a quantidade de votos que nós dois tivemos na urna. Foi um choque tão grande, que as pessoas estão comovidas. Tenho ido a Macapá, e também me comovo com as pessoas. Elas não admitem que o voto delas está anulado. Porque a decisão do TSE é de anular todos os votos. Pelo menos até que saia o acórdão, pode ser outra a decisão. Mas o povo está disposto ao seguinte: se confirmada a cassação, a Janete vai ser prefeita e eu vereador de Macapá. É uma decisão de nos devolver esses mandatos. Acho que porque uma das características do nosso trabalho político é exatamente a preocupação com o bem público. E porque é inadmissível, pelas regras do jogo político, alguém ser intransigente com composições, com determinadas cumplicidades. E outra coisa que não se aceita é que eu tenha sido governador durante tanto tempo e não tenha me “prevenido” – vocês sabem o que isso significa, não é? Acumular uma grande quantidade de dinheiro para poder se defender dos processos. Se perdermos o mandato, vamos ficar desempregados, não temos nenhuma aposentadoria. Existia aposentadoria do governador, eu digo: imagina um sujeito com 50 e poucos anos se aposentar... e acabei com ela. E não temos nenhuma poupança, então isso tudo para os padrões políticos brasileiros, é inaceitável.
José Arbex Jr. - Você falou com o Lula e o Zé Dirceu?
Falei. Eles ficaram solidários, e preocupados...
José Arbex Jr. - Mas deram declaração pública sobre o caso?
Não. Até porque há essa questão da governabilidade, da relação harmônica entre os poderes. Tenho uma visão um pouco diferente, no meu Estado, harmonia entre os poderes é prejuízo para a sociedade.
Trecho 5
Sérgio de Souza - Como está o papel da mídia nessa história?
Pela minha pouca experiência e a convivência que estou tendo com jornalistas no plano nacional, há uma dificuldade de acesso à informação dos próprios jornalistas. Vi nesse imbróglio com o jornalista americano uma certa pressa na produção da notícia. Perguntei aos jornalistas: “Vocês leram o artigo?” “Não.” Para os senadores, fiz a mesma pergunta: “Vocês leram o artigo? O que foi que ele disse?” Ninguém sabia. Como é que está todo mundo falando, se ninguém sabe o que ele falou?
José Arbex Jr. - E, no seu caso específico, como a mídia está se comportando?
Eu diria com uma compreensão muito grande, com exceção de São Paulo, em que teve pouca repercussão.
José Arbex Jr. - Por quê?
Acho que há um preconceito paulista em relação a um agente político lá da margem esquerda do rio Amazonas.
*Publicado por Nezimar Borges
|