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João Alberto Capiberibe: “Nossa cultura é construída com relação direta na floresta”

Tião Maia
Especial para o Jornal Página 20 do Acre

Rio Branco - Acre, domingo, 16 de fevereiro de 2003

Prefeito de Macapá (AP) de 1988 a 1992, o zootecnista João Alberto Capiberibe, 55 anos, três filhos e vários netos, chegou ao Senado, na semana passada, como uma referência da Amazônia. Eleito governador de seu Estado em 1994, notabilizou-se no cenário nacional e internacional pela elaboração de um programa político de desenvolvimento sustentável. A iniciativa gerou novas perspectivas para a economia do Amapá e incluiu no processo produtivo os chamados povos da floresta, antes relegados a uma vida miserável longe dos centros urbanos.

Muito mais que um parlamentar, o senador é um homem que pensa a Amazônia. Suas idéias de desenvolvimento no Amapá são muito parecidas com as propostas desenvolvidas pelo governo do Acre. Ele esteve em Rio Branco nos últimos dois dias para, como disse, estreitar os laços que o unem ao também senador Geraldo Mesquita Júnior, seu colega de bancada no PSB, e para conhecer de perto as obras em execução pelo governador Jorge Viana. “Capi”, como também é conhecido, recebeu o Página 20 no restaurante do “Imperador Galvez” para a seguinte entrevista:

O senhor andou aqui pelo Acre há cerca de 20 anos. Portanto, conhece bem a nossa realidade. Qual é a sua avaliação do Estado 20 anos depois?

Há uma diferença positiva muito grande, notadamente na cidade de Rio Branco. Acho que essas mudanças se deram devido a uma profunda transformação política. O Acre vem de uma longa história de lutas, desde a Revolução Acreana até a mobilização intensa dos seringueiros, passando pelo sacrifício de Chico Mendes em defesa das florestas e, claro, com o surgimento dessas novas lideranças que estão hoje projetando o Acre como um Estado moderno do ponto de vista da gestão e da concepção do desenvolvimento. A gente observa isso nas ruas e nas estruturas do serviço público. Há um certo refinamento naquilo que o Estado propõe para a sociedade na qualidade dos serviços desse grupo de jovens comandado por Jorge Viana.

O modelo de desenvolvimento implementado pelo senhor no Amapá é um tanto parecido com o que está acontecendo no Acre, com esse conceito do desenvolvimento sustentável. O senhor acha que a Amazônia precisa ter um modelo de desenvolvimento uniformizado?

Tem algo de curioso que as mudanças no processo de desenvolvimento da Amazônia partam de Estados tão isolados como o Acre e o Amapá. O que nós temos em comum em toda a Amazônia é que essa foi uma região extremamente penalizada, seja pela Coroa portuguesa no período colonial, seja depois pela República. Um exemplo é a energia. A Amazônia virou exportadora de energia com um custo absurdamente caro. Outro exemplo é que no ciclo da borracha, todo o esforço de produção foi para atender demandas externas. A exploração mineral, de energia - ou seja, todo o esforço foi feito para fora. O que nos caracteriza e nos identifica é que, nas duas pontas, lá no Amapá e aqui, a gente tem um diagnóstico de que a Amazônia, ao longo de sua história, foi explorada e saqueada e suas populações excluídas. A partir desse diagnóstico, a gente começa a criar um projeto para as comunidades locais em harmonia com a cultura de convivência com a natureza – uma cultura que nós adquirimos ao longo da história.

O senhor tem uma visão moderna de desenvolvimento mas, no seu Estado, tem sido obrigado à convivência com algumas oligarquias, algumas internas e outras que se assenhoram do Estado, como foi o caso do senador José Sarney (PMDB), eleito pelo Amapá sem nenhuma tradição política ali. Como é possível essa convivência?

O Amapá é muito típico e muito recente. A transformação do Território em Estado deu-se em 1988, com a Constituição. Portanto, a primeira eleição geral no Estado para governador, deputados e representantes no Senado foi em 1990. É, portanto, uma experiência muito recente de construção democrática. Como nós somos uma região periférica, que sempre fomos olhados apenas como grandes reservas de recursos naturais que poderiam facilmente ser submetidos à pilhagem, também, do ponto de vista político, por pouco também não ocorre essa pilhagem. As primeiras eleições atraíram gente de todo canto para se candidatar.

Não foi só o Sarney?

Não, apareceram várias pessoas. Aventureiros mesmo, que nunca tinham tido nenhuma experiência política, que nunca haviam feito política nem nas suas comunidades de origem. Também vale dizer que o Amapá, diferentemente do Acre, tem uma composição de migrantes. Há dez anos, nossa população correspondia à metade da população do Acre. Hoje a população do Amapá é maior que à do Acre. É evidente que isso atrai muitos aventureiros, inclusive no campo político. Outros por circunstân-cias, como é o caso do senador José Sarney, que havia deixado a presidência da República e não pôde ser candidato pelo Maranhão porque o governador que ele havia indicado, ao que me parece, lhe criou dificuldades e até hoje ele é senador pelo Amapá.

Essa migração para o Amapá não dificultaria a proposta de construção de uma cidadania da floresta, algo com o que seu Estado se assemelha muito ao Acre? O senhor também defende a idéia de uma identidade regional, o que aqui é chamado de florestania?

É claro que o processo de exploração e de exclusão das comunidades na Amazônia nos cria uma identidade. O processo de aviamento dos seringais, na foz e na cabeceira dos rios, era igual. O patrão era o mesmo. No esforço da borracha na Segunda Guerra, a linha de crédito era dos Estados Unidos. O modelo de exploração era único. Temos, portanto, uma identidade na exclusão porque todos os projetos eram feitos no sentido de pilhar os recursos naturais sem o envolvimento das comunidades locais. Mas uma outra identidade é que nós construímos uma civilização da floresta. Imagine o que seria viver na Amazônia de um século atrás. Nós temos uma cultura construída numa relação direta com a floresta e com os rios da Amazônia.

Como foi que o senhor conheceu o Acre? Como travou conhecimento com o Estado há 20 anos?

Através do Elson Martins [ jornalista acreano radicado no Amapá], um acreano de uma história muito interessante. Eu o conheci em Belo Horizonte, como estudante, lá por 66 ou 67. Uma das características do Elson era só ouvir música clássica e isso me deixava intrigado porque um homem da Amazônia tinha um ouvido tão educado musicalmente. Um dia ele me explicou: como viveu no seringal até sua pré-adolescência, no processo de aviamento dos seringais, os seringalistas importavam vitrolas e discos de músicas clássicas que, como ninguém por ali conhecia, acabavam sendo desprezados e depois recuperados pelo Elson. Foi então através desse grande acreano que eu conheci a bela história do Acre. Depois, quando voltei do exílio, em 80 - fiquei dois anos no Pernambuco e só voltei para Macapá no final de 83, quando ele me convidou a conhecer o Acre e eu vim e aqui cheguei a trabalhar e viver. Tive uma experiência fantástica na região do Vale do Juruá.

*Publicado por Nezimar Borges

 

 

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