A CONQUISTA DO ESTADO -
PARTE 2
16/04/2007
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René Armand Dreifuss
Editora Vozes
899
páginas
R$ 83,60 a R$ 95,00 |
Por Marcelo Salles -
salles@fazendomedia.com
Nesse segundo capítulo, Dreifuss dá seguimento à exposição
inicial e encerra o que seria a introdução de sua tese. Após abrir
o livro explicando a estrutura das oligarquias agrárias e sua
associação com os proprietários industriais nacionais, o autor
agora demonstra a consolidação do capital estrangeiro no país. A
Segunda Guerra Mundial aparece como divisor de águas e marca a
consolidação do capital monopolista nos centros industriais e
financeiros do Brasil.
A partir de agora, o capitalismo brasileiro viria a ser
transnacional e oligopolista subordinado aos centros de expansão
internacional. Se durante o governo de Getúlio Vargas o capital
nacional havia sido predominante, agora só existirá quando
associado ao dinheiro estrangeiro em empresas estatais. Nesse
último caso, entretanto, as corporações multinacionais exercem
papel significativo ao participar do controle parcial de ações de
empresas pertencentes ao Estado brasileiro (esse modelo seria
aprofundado mais tarde pelo governo Fernando Henrique Cardoso, que
quebrou o monopólio estatal em diversos setores estratégicos. Uma
das conseqüências foi permitir que o capital estrangeiro comprasse
49,5% das ações da Petrobrás).
Na abertura deste segundo capítulo, intitulado "A Ascendência
Econômica do Capital Multinacional e Associado", Dreifuss cita uma
pesquisa realizada pelo Instituto de Ciências Sociais da UFRJ. O
estudo mostra que entre 83 grupos bilionários (900 milhões a 4
bilhões de cruzeiros) instalados no país no início da década de
1960, cinqüenta e quatro eram multinacionais ou associados, contra
apenas 29 nacionais. Entre os 55 grupos multibilionários (acima de
4 bilhões de cruzeiros), 46 eram multinacionais ou possuíam
ligações com empresas estrangeiras e apenas nove eram genuinamente
nacionais.
Até o final do capítulo, o autor usará oito tabelas para
exemplificar esses e outros números. A partir da década de 1960,
os grupos estrangeiros passam a ser majoritários em quase todos os
setores da economia brasileira. Mais de 65% dos grupos
multinacionais operavam em áreas de atividade onde tinham controle
total ou quase total do mercado. O capital estadunidense tinha o
controle de 92,4% a 100% das atividades onde operava. De acordo
com Dreifuss, "esse processo de internacionalização seria
estendido ainda mais depois de 1964".
O interesse dos EUA concentrava-se principalmente no setor
industrial. Citando um relatório do Departamento de Estado dos
EUA, o autor relata que os estadunidenses investiram 45% de todo o
capital transnacional no setor (avaliado em cerca de 1,4 bilhão de
dólares, de um total de 3,5 bilhões de dólares em investimentos
estrangeiros). O relatório também apontava uma relação das maiores
firmas dos EUA no Brasil: Ford, Esso, General Motors, Firestone,
Texaco, Union Carbide e ITT, entre outras.
De acordo com Dreifuss, "deve-se ressaltar (...) que no esforço
(...) organizado pela burguesia para derrubar o Executivo de João
Goulart, fariam parte empresários importantes, que nele ocupariam
posições-chave, ligados à maioria das corporações às quais o
estudo do Instituto de Ciências Sociais faria referência; também
participariam desse espaço a maioria das companhias mencionadas no
relatório do Departamento de Estado".
Próximo ao final deste segundo capítulo, o autor revela o
surgimento do primeiro grupo que daria sustentação acadêmica ao
golpe. Trata-se da Atlantic Community Development Group for Latin
America (ADELA). Fundada em 1962 (mesmo ano do acordo assinado
entre Globo e Time-Life), a ADELA era liderada pelos
vice-presidentes de Standard Oil e FIAT. "A ADELA é também capaz
de exercer forte pressão sobre os governos dos países onde opera",
afirma Dreifuss.
Um adendo. De acordo com o escritor Roméro da Costa Machado,
autor do livro Afundação Roberto Marinho, "o escândalo
Globo/Time Life não é meramente um caso de um sócio brasileiro
(Roberto Marinho) que aceita como sócio uma empresa estrangeira
(Grupo Time-Life), contra todas as leis do país. O escândalo
Globo/Time-Life é mais do que isso. É antes de mais nada um
suporte de mídia que visava apoiar, dar base, sustentação e
consolidar a ditadura no Brasil, apoiada e supervisionada pela
CIA, por exigência dos Estados Unidos, comandado por terroristas
da CIA, como Vernon Walters e Joe Walach, sendo este último com
emprego fixo na Globo, como "representante" do grupo
Time-Life.
O Estado nacional brasileiro estava sendo nitidamente cercado.
"O capital monopolista transnacional ganhou uma posição
estratégica na economia brasileira, determinando o ritmo e a
direção da industrialização e estipulando a forma de expansão
capitalista nacional", sublinha o autor. Como resultado desse
processo, Dreifuss cita um estudo preparado a pedido do Comitê de
Relações Exteriores do Senado estadunidense: "as tomadas de
decisão nas industrias dominadas por multinacionais pareciam ter
sido transferidas efetivamente para as matrizes no exterior".
Na próxima semana, vamos estudar o terceiro capítulo: "A
Estrutura Política de Poder do Capital Multinacional e Seus
Interesses Associados". Aqui veremos a formação do bloco golpista,
composto por diretores de corporações multinacionais,
proprietários de interesses associados, administradores de
empresas privadas, técnicos e executivos estatais e oficiais
militares.
A conquista do estado 3 >>
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