A CONQUISTA DO ESTADO -
PARTE 3
30/04/2007
 |
René Armand Dreifuss
Editora Vozes
899
páginas
R$ 83,60 a R$ 95,00 |
Por Marcelo Salles -
salles@fazendomedia.com
Difícil saber o que pretendem telejornais espetaculosos ao
publicar matérias sobre o envolvimento dos EUA no golpe
civil-militar de 1964. Difícil saber porque assumir tal
envolvimento vai contra a linha editorial do oligopólio que
controla a televisão aberta no Brasil, que prefere acreditar que
os militares fizeram o serviço sujo sozinhos. Vez por outra surge
um historiador com a "versão definitiva" sobre a participação
estadunidense no golpe, muito embora René Armand Dreifuss e outros
já tenham deixado vasta obra publicada sobre essa interferência
estrangeira nos destinos do nosso país.
Basta aprofundar um pouquinho os estudos para perceber que o
golpe de 64 não foi espontâneo, repentino. 1964 resulta de uma
poderosa articulação entre o capital transnacional, o empresariado
nacional, os militares e intelectuais a serviço da alienação do
patrimônio público brasileiro. E mais. A mesma estratégia de
dominação foi usada em toda a região latino-americana.
Neste terceiro capítulo, intitulado "A Estrutura Política de
Poder do Capital Multinacional e seus Interesses Associados", René
Dreifuss apresenta o Instituto Brasileiro de Ação Democrática
(IBAD), o Conselho Nacional das Classes Produtoras (CONCLAP), a
Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) e a
Federation of the American Chambers of Commerce do Brasil. Esses
foram os mais importantes focos de pressão política onde
predominavam os interesses multinacionais e associados. Seu poder
econômico e capacidade de articulação eram tais que não seria
exagero falar numa verdadeira administração paralela desde o
governo Juscelino Kubitschek.
Eugênio Gudim, Octávio Gouveia de Bulhões, Roberto Campos,
Mário Henrique Simonsen e Antônio Delfim Netto são citados como os
principais representantes de uma geração de economistas
político-empresariais que ocuparam altos cargos na administração
pública e privada e que implementaram uma forma de gestão bastante
favorável aos interesses multinacionais. "Assim, o poder de classe
era internalizado no Estado sob a cobertura da racionalidade
técnica, necessidade e perícia (todos eles com uma conotação
neutra), e legitimado por grupos executivos e pelos escritórios de
consultoria tecnoempresariais", dirá Dreifuss à página 83.
Dois anos antes do golpe, grande parte desses e outros
tecnoempresários ocupavam cargos importantes nos aparelhos
ideológicos dos interesses multinacionais e associados.
Entre os militares, a Escola Superior de Guerra (ESG) aparece
como a principal instituição de doutrinação política pró-EUA.
Muitos de seus freqüentadores eram, além de oficiais, integrantes
da UDN, como o General Menezes Cortes, hoje nome de um terminal de
ônibus no centro do Rio de Janeiro. Os milhares de cariocas que
tomam ali suas conduções diariamente talvez não saibam que Menezes
Cortes participou ativamente do golpe contra o povo brasileiro em
1964.
"Alguns oficiais militares eram diretores importantes ou
acionistas de corporações privadas, como o General Riograndino
Kruel e o General James Masson (Eletrônica Kruel S.A.), General
Paulo Tasso de Resende (Moinhos Rio-grandenses Samrig S.A. - grupo
Bung & Born), Brigadeiro Eduardo Gomes (Kosmos Engenharia
S.A.), General Joaquim Ribeiro Monteiro (Cia. Carbonos Coloidais,
C.C.C. - grupo Wolney Attalla), de São Paulo, Light S.A., Mercedes
Benz), General Euclides Oliveira Figueiredo (Indústrias Químicas e
Farmacêuticas Schering S.A. - Schering Corporation e grupo Assis
Chateaubriand)" (página 86).
Além disso, Dreifuss ressalta que oficiais estadunidenses
permaneceram no quadro de diretores da Escola Superior de Guerra
até 1960 e os EUA mantiveram um oficial de ligação com o corpo
docente da escola até pelo menos 1970. A ESG havia instruído quase
3 mil militares e civis até 1975 e sua associação de ex-alunos
difundiu sua doutrina entre mais de 25 mil pessoas. O embaixador
dos EUA no Brasil reconheceu tais esforços. Para ele, o Programa
de Assistência Militar foi "um fator altamente importante (para)
influenciar os militares (brasileiros) a serem favoráveis aos
Estados Unidos".
Para esclarecer qualquer dúvida que pudesse restar, o General
George Robinson Mather, comandante da delegação estadunidense na
Comissão Mista Militar Brasil-Estados Unidos, disse em palestra na
ESG, no início de 1964: "[o objetivo do Programa de Assistência
Militar é] assegurar a existência de forças nativas militares e
paramilitares suficientes para combater a subversão comunista, a
espionagem, a insubordinação e outras ameaças à segurança interna,
sem que se tornasse necessária uma intervenção militar direta dos
Estados Unidos e de outras forças do mundo livre". Difícil ser
mais explícito.
Até aqui já deu para perceber que o golpe não aconteceu da
noite para o dia só porque alguns sargentos decidiram pela
insubordinação. Mas vamos adiante.
Dreifuss apresenta a Companhia Sul-americana de Administração e
Estudos Técnicos, ou simplesmente CONSULTEC. Segundo o autor,
trata-se do mais bem sucedido e importante escritório técnico e um
anel burocrático-empresarial. "Ao estabelecer contatos diretos com
agencias estatais ela evitou o escrutínio do público e a
necessidade de responder às demandas populares ou ter de levar em
conta outras pressões" (página 94).
As atividades da CONSULTEC eram basicamente de consultoria
sobre pedidos de empréstimos ao Banco Nacional de Desenvolvimento
(BNDE, ainda não havia o "S") por companhias multinacionais e
redações de discursos públicos, preparação de projetos de lei,
decretos e regulamentos. Vejamos alguns dos integrantes da
CONSULTEC e suas ocupações: Roberto Campos, presidente do BNDE;
Vítor da Silva Alves Filho, diretor do BNDE; Frederico Heller,
editor de economia de O Estado de S. Paulo; Edmar de Souza, chefe
do setor administrativo do BNDE; Alexandre Kafka, Fundo Monetário
Internacional; João Alberto Leite Barbosa, editor de economia de O
Globo; Glycon de Paiva, Companhia Vale do Rio Doce, BNDE,
conferencista da ESG e diretor de empresas multinacionais.
Um caso interessante envolvendo a CONSULTEC é o Projeto Hanna.
Este seria a cópia ipsis litteris do Documento nº 18,
produzido pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento. O redator
teria sido Mário da Silva Pinto, membro da CONSULTEC e diretor
geral do Departamento Nacional de Produção Mineral. De acordo com
o texto, a Hanna Mining, associada à Cia. de Produtos Alimentícios
Morro Velho S.A., estaria autorizada a explorar as minas de ouro e
ferro Morro Velho. Com as seguintes condições: taxas especiais de
cambio garantidas para suas operações sem confisco cambial;
segurança satisfatória de juros e reembolso, não recebendo, em
hipótese alguma, menos do que os juros do capital investido; o
minério de ferro pelo menor preço em vigor no mercado
internacional.
Posteriormente, a Hanna não seria ingrata. Entre suas
contribuições para o golpe estava o fornecimento de caminhões para
as tropas de Minas Gerais que iniciaram a agressão ao povo
brasileiro em 1º de abril de 1964.
Outras duas associações de classe que tiveram participação
destacada no golpe foram o Conselho das Classes Produtoras
(CONCLAP) e a Associação Brasileira para o Desenvolvimento de
Indústrias Básicas (ABDIB). A primeira "atacava sem trégua o
comunismo e apresentava uma defesa intransigente da empresa
privada, da estabilidade financeira e monetária e do capital
estrangeiro" (página 106).
Já a ABDIB, criada em 1955 e formada por 28 corporações cinco
anos depois, atuaria com mais discrição. "A maioria das companhias
pertencentes à ABDIB (...) apareceriam como contribuintes
financeiros da ação de classe do bloco burguês
multinacional-associado na campanha de 1962-1964 para assumir o
poder do Estado" (página 109).
A participação da CIA no golpe se dava de maneira indireta. O
diretor da agência de espionagem era usualmente algum membro
importante do Conselho de Relações Exteriores dos EUA. Este, por
sua vez, estaria envolvido em outras formas de pressão sobre o
governo brasileiro. Uma pressão além da diplomacia e do lobby tradicional. Ivan Hasslocher, por exemplo, era
diretor-geral do IBAD e apontado como agente de ligação da CIA
para o Brasil, Bolívia e Equador (Dreifuss indica o livro IBAD:
alienação da soberania nacional, de João Dória). O próprio
IBAD foi denunciado como uma das principais operações políticas da
CIA no Rio de Janeiro (aqui a indicação é Inside the
company, de Philip Agee).
"Durante a campanha eleitoral de 1962, [o IBAD] serviu de
conduto de fundos maciços para influenciar o processo eleitoral e
coordenou a ação política de indivíduos, associações e
organizações ideologicamente compatíveis" (página 113). Dreifuss
cita a criação, dentro do IBAD, de dois canais que seriam
utilizados para levar ao golpe. A Ação Democrática Popular, que
manejava campanhas eleitorais e fazia lobby. E a
Incrementadora de Vendas Promotion S.A., usada para disseminar as
idéias políticas do IBAD e para ser um agente publicitário junto a
jornais, rádios, revistas e emissoras de televisão no Brasil.
Na próxima semana, veremos o aprofundamento das relações entre
o capital multinacional e o empresariado nacional, a articulação
cada vez maior das associações de classe e a tentativa fracassada
de golpe em 1961. Tudo isso diante da "Crise do Populismo", que dá
nome ao quarto capítulo.
A conquista do estado 4 >>
|