A CONQUISTA DO ESTADO -
PARTE 4
21/05/2007
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René Armand Dreifuss
Editora Vozes
899
páginas
R$ 83,60 a R$ 95,00 |
Por Marcelo Salles -
salles@fazendomedia.com
Conforme prometido ao caro leitor Tarcísio José, aqui está o
resumo do quarto capítulo do livro A Conquista do Estado - Ação
Política, Poder e Golpe de Classe, assinado pelo uruguaio René
Armand Dreifuss e publicado pela Editora Vozes. Vamos continuar
estudando como as corporações multinacionais, com apoio dos meios
de comunicação, de empresários e de militares cercaram o Estado
brasileiro até tomá-lo de assalto. E isto acontece justamente
neste capítulo.
Durante o governo de Juscelino Kubitschek, as companhias
transnacionais formaram um verdadeiro estado paralelo. Contornaram
todos os canais de articulação de interesses de maneira a escapar
do escrutínio popular e garantir o atendimento de suas demandas.
Para tanto, fizeram uso dos órgãos apresentados no capítulo
anterior, tais como o Instituto Brasileiro de Ação Democrática
(IBAD), o Conselho Nacional das Classes Produtoras (CONCLAP), a
Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) e a
Federation of the American Chambers of Commerce do Brasil.
No governo posterior, de Jânio Quadros, diversos integrantes
dessas entidades passaram a integrar o quadro ministerial. A
administração paralela começa a migrar substancialmente para o
interior do Estado brasileiro em 1961. Nas páginas 138 e 139,
Dreifuss dá os nomes. Não dá pra citar todos, mas alguns que o
caro leitor certamente conhece são: Walter Moreira Salles, dono do
Unibanco e ligado ao grupo Rockefeller assume a embaixada nos EUA;
Clemente Mariani (Banco da Bahia, Light S.A. - grupo Morgan) vira
Ministro do Tesouro; Caio Mário da Silva Pereira, ex-advogado da
Hanna Mining, passa a Consultor Geral da República.
Representantes da FIESP, CONCLAP, IBAD e da Escola Superior de
Guerra também assumem postos no primeiro escalão do governo de
Jânio Quadros.
Aos olhos dos empresários, o movimento sindical havia se
tornado um fator de desorganização quando alguns líderes começam a
exigir mudança social. Se o vice-presidente João Goulart não era
considerado confiável pela classe dominante, o presidente Jânio
Quadros sofria resistência por parte de setores da oligarquia
dentro do PSD.
Em agosto de 1961, com o vice-presidente em viagem oficial à
China, Jânio Quadros renuncia ao mandato na esperança de ser
reconduzido por empresários e militares. Seria uma espécie de
retribuição pelos cargos que receberam no governo. Mas o fato é
que nem seus aliados estavam dispostos a bancar uma figura tão
excêntrica.
Dreifuss anota que João Goulart se tornou presidente
inesperadamente. "Contrariamente às expectativas dos empresários
multinacionais e associados, bem como da estrutura militar de
direita. Com a ascensão de João Goulart ao governo, o bloco
multinacional associado, que estava na iminência de perder sua
posição econômica privilegiada, preparou-se para restringir as
demandas populares e reprimir os interesses tradicionais pela
imposição de meios extrapolíticos". Ou seja, o tal golpe de
classe.
Apesar da infiltração das classes multinacionais e associadas
no governo federal, João Goulart conseguiu implementar um viés
nacional-reformista, apoiado pelas classes trabalhadoras
mobilizadas. Ao lado do governo trabalhista estiveram Francisco
Julião, líder das Ligas Camponesas do Nordeste, Mauro Borges,
governador de Goiás, Leonel Brizola, governador do Rio Grande do
Sul, Miguel Arraes, Sérgio Magalhães, Almino Afonso, Max da Costa
Santos e o jornalista Neiva Moreira, ex-marido de Beatriz Bissio,
que hoje edita os Cadernos do Terceiro Mundo.
Na página 143, o autor revela os reais motivos do golpe - que
estão muito além de acusações vagas sobre o "perigo comunista". Em
primeiro lugar, Jango assinou a lei que restringiu a remessa de
lucros pelas companhias multinacionais e suas matrizes. Isto, que
é feito em qualquer nação soberana, agrediu profundamente os
interesses multinacionais.
Além disso, "bancos pertencentes a nações que impunham
restrições a bancos brasileiros não podiam deter mais de 30% das
ações com direito a voto dos bancos nacionais. A remessa anual de
lucros não podia exceder a 10% dos investimentos líquidos
registrados. A remessa que ultrapassasse essa percentagem seria
considerada repatriação de capital, num máximo permito de 20%
anuais. Lucros acima desse limite seriam considerados capital
suplementar e não poderiam ser remetidos, devendo ser reinvestidos
no Brasil".
O governo João Goulart também conseguiu impor o monopólio
estatal da importação de petróleo e desapropriar as cinco
refinarias privadas do Brasil, assim como rever as concessões de
minerações dadas às corporações multinacionais. "Na frente
trabalhista, tentou-se reajustar os salários mínimos, reajustar o
poder aquisitivo dos trabalhadores e empregados, estabelecendo uma
política de controle de preços e supervisionar a distribuição dos
bens básicos de consumo".
E tinha mais. "Foi decretado também o primeiro e tímido estágio
da Reforma Agrária, que visou a desapropriação, com compensação
prévia e efetiva, de áreas não cultivadas localizadas a curta
distancia de ferrovias e rodovias (...). Finalmente, João Goulart
propôs uma reestruturação do sistema tributário baseado na taxação
da renda, uma reforma eleitoral dando a analfabetos e soldados o
direito a voto e concedendo novamente a sargentos a elegibilidade
ao legislativo, bem como uma reforma do sistema educacional
estendendo seus benefícios às classes populares".
Com o Estado sendo direcionado aos investimentos públicos, as
corporações multinacionais já não recebiam tanto aporte financeiro
quanto em outras épocas. A solução foi bater na tecla da
"ineficiência do Estado", que teria "diminuído o ritmo de
desenvolvimento". Além disso, as classes trabalhadoras e o governo
foram alvo de "forte ataque da mídia". Isso acontece num período
em que os maiores anunciantes passam a ser empresas
multinacionais. O anuário de publicidade de 1960 revela que as
três empresas que mais investiram em propaganda foram Lever,
Nestlé e Gessy. Na lista das dez primeiras, todas são
estrangeiras. Essa situação não era assim em 1954, quando a maior
anunciante era uma empresa nacional, a Companhia Antártica
Paulista.
Paralelo a isso, houve um desinteresse muito grande da
população sobre as coisas da política. O número de votos brancos
saltou de 4,8% em 1954 para 15% em 1962. Nas últimas eleições, se
somarmos brancos, nulos e os ausentes, chegamos a 24%.
O medo das forças populares fez com que a oligarquia rural
manifestasse receio de uma mobilização das massas camponesas; a
burguesia financeira sentia a ameaça lançada pelas medidas
nacionalizantes do governo e temia a organização das classes
trabalhadoras. Do mesmo modo, as corporações multinacionais
estavam insatisfeitas com o governo trabalhista que havia
restringido seus lucros.
"As classes capitalistas se 'unificaram' sob uma única
liderança - o complexo IPES/IBAD - no estado-maior da burguesia,
como também agiriam sob a bandeira de um único partido de ordem,
as Forças Armadas. A crise de autoridade orgânica e de hegemonia
política seria resolvida por um golpe preventivo
empresarial-militar, que visava, nas palavras de um dos líderes,
'a golpear o dispositivo adverso antes de seu desembarque'".
É isso. No próximo capítulo, mais informações sobre o complexo
IPES/IBAD e acerca dos intelectuais que contribuíram para
legitimar o golpe de Estado.
A conquista do estado 5 >>
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