A CONQUISTA DO ESTADO -
PARTE 5
15/06/2007
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René Armand Dreifuss
Editora Vozes
899
páginas
R$ 83,60 a R$ 95,00 |
Por Marcelo Salles -
salles@fazendomedia.com
O presente capítulo trata da formação do IPES e do IBAD, duas
entidades centrais na articulação do Golpe Civil-Militar de 1964.
Provavelmente sua escola pulou esta parte da História. René
Dreifuss, não.
Tanto o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES) quanto
o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD) reuniam em seus
quadros a elite dos intelectuais orgânicos dos interesses
multinacionais e associados. Seu objetivo era se opor ao governo
de João Goulart e às forças sociais que apoiavam sua
administração.
O IPES surge em novembro de 1961, apenas dois meses após a
renúncia de Jânio Quadros. Paulo Ayres Filho, Gilbert Huber Jr.,
João Batista Leopoldo Figueiredo e Golbery do Couto e Silva estão
entre os fundadores.
Oficialmente, o IPES foi instituído como uma "agremiação
apartidária com objetivos essencialmente educacionais e cívicos" e
seria orientado por "dirigentes de empresas e profissionais
liberais que participam com convicção democrática, como patriotas
e não como representantes de alguma classe ou de interesses
privados".
Por outro lado, René Dreifuss sustenta que na verdade o IPES
"coordenava uma sofisticada e multifacética campanha política,
ideológica e militar" e seus fundadores estavam avidamente
dedicados à "manipulação de opiniões e à guerra psicológica".
Partido político da burguesia
O autor mostra que IPES
e IBAD atuavam de modo complementar. O primeiro agia como unidade
tática, implementava as atividades secretas e se expunha mais. Já
o segundo - IBAD - funcionava como centro estratégico. Dessa
forma, a elite orgânica infiltrou-se nos movimentos estudantis e
operários, desencorajou mobilizações camponesas e estabeleceu um
forte esquema de lobby no Congresso Nacional, além de
exercer um efetivo controle dos meios de comunicação de massa. De
modo que "o complexo IPES/IBAD se tornava o verdadeiro partido da
burguesia e seu Estado-Maior para a ação ideológica, política e
militar".
Num primeiro momento, alguns civis e militares viajaram pelo
país para arregimentar grupos que topassem engrossar as fileiras
antitrabalhistas de esquerda. Depois, o coordenador geral do IBAD,
Ivan Hasslocher, divulgou um documento em que classifica os
empresários em seis grupos, sendo que apenas 4% estariam aptos -
por sua "visão privilegiada" - a liderar os demais na luta contra
a "ameaça comunista".
Uma das práticas do IBAD era pressionar os grupos econômicos
que anunciavam em veículos de comunicação que não partilhavam de
seus ideais. Foi assim com o Grupo Ducal, que anunciava no jornal
popular Última Hora, de Samuel Wainer.
René Dreifuss ressalta que a articulação da direita entreguista
em associações de classe não foi uma exclusividade brasileira. Em
toda a América Latina surgiram organizações semelhantes, algumas
delas controladas diretamente pela CIA, como na Colômbia e no
Equador. No Brasil, o autor identificou o apoio logístico de duas
organizações controladas por David Rockefeller, dono da Stardard
Oil (Esso), para o IPES.
Paralelo a isso, o governo dos EUA garantia seu apoio ao Golpe,
como Dreifuss registra nas páginas 184 e 185: "Quando o Coronel
Vernon A. Walters, eficiente homem de informações que se tornaria
mais tarde vice-diretor da CIA, voltava da Itália em direção ao
Brasil, para, ostensivamente, tornar-se adido militar, foi
informado de que o Presidente Kennedy 'não se oporia à deposição
do governo de João Goulart, se fosse substituído por um estável
governo anticomunista que ficasse ao lado do mundo livre
ocidental'". De acordo com o escritor Roméro da Costa Machado
(autor do livro Afundação Roberto Marinho), Walters, ao
lado de Joe Walach, supervisionou durante anos o conteúdo
divulgado pela TV Globo, empresa criada a partir de um contrato
com o grupo estadunidense Time-Life [para saber mais sobre este
tema, leia o livro A história secreta da Rede Globo, de
Daniel Herz].
Corporações que apoiaram o Golpe
Entre as páginas 187
e 194 e nos apêndices I e H, Dreifuss identifica os integrantes do
IPES e as corporações que eles representavam. A leitura desse
trecho é esclarecedora. Se você não possuir o livro, vale a pena
entrar numa livraria e abrir nessas páginas para entender o Brasil
de hoje. Entre os que conspiraram para o Golpe que seqüestrou,
torturou e matou milhares de brasileiros estão: Unibanco, Esso,
Souza Cruz, Mesbla, Morgan Group (esse que avalia o "risco-país"),
Mercedes-Benz, Brascan, Texaco, Shell, IBM, O Estado de São Paulo,
Editora Globo, FIESP, TV Record, Light, Itaú, Gerdau, Votorantim,
Motorola, Johnson, Nestlé, Alpargatas (que fabrica as Havaianas),
Coca-Cola, Panair, Varig, Cruzeiro do Sul, Grupo Sul-América,
Lojas Americanas, Kibon, Cia. Suzano de Papel, Antártica, Brahma e
Editora Saraiva.
O IPES distribuía entre os militares uma circular bimestral,
sem identificação, que descrevia e analisava a "atividade
comunista" e incitava a opinião militar contra o governo João
Goulart. Além disso, o IPES teria grampeado 3 mil telefones, só no
Rio de Janeiro. Esse serviço de "inteligência" funcionava no mesmo
endereço onde ativistas da direita paramilitar haviam alugado
salas para suas operações: Edifício Av. Central, 27º andar.
René Dreifuss relata a criação do Grupo de Opinião Pública, que
funcionava dentro do IPES e tinha como objetivo declarado
manipular a opinião pública por todos os meios disponíveis. JB,
Estadão e Repórter Esso são citados como colaboradores do esquema,
e o general Golbery do Couto e Silva foi apelidado de Chefe Geral
de Opinião Pública.
Outro grupo criado dentro do IPES tratava das publicações da
instituição. A supervisão era de ninguém menos que Rubem Fonseca,
que contava com o apoio de Raquel de Queiroz. Naturalmente, era um
serviço bem feito. O grupo "escrevia, traduzia e distribuía
material impresso anticomunista, antitrabalhista e antipopulista,
bem como publicava traduzia e reimprimia livros, artigos e
panfletos" (página 221).
O tema da última parte deste capítulo é sobre o financiamento
do IPES. Dreifuss relata desde jantares com empresários com a
finalidade de arrecadar dinheiro até recursos oriundos de caixa
dois - este geralmente usado para financiar ações secretas na
mídia, no Congresso, nas Forças Armadas, nos sindicatos e no
movimento estudantil. Além disso, Dreifuss revela o uso de
agências de propaganda na lavagem de dinheiro (ou seja, Marcos
Valério não inventou a roda).
Com relação aos investimentos estrangeiros no IPES, o autor
identifica 297 corporações dos EUA e 101 provenientes de outros
países. embora os membros do IPES negassem, o então cônsul dos EUA
Niles Bond disse ter certeza de que fundos estadunidenses chegavam
ao IPES. Ademais, o embaixador Lincoln Gordon também atuou em
favor dessas operações. Por fim, Dreifuss é complementa: "Dinheiro
da CIA americana também era canalizado para o IBAD" (página
223).
No próximo capítulo serão examinadas com mais detalhes algumas
atividades do bloco multinacional e associado responsáveis pela
desestabilização do sistema político brasileiro.
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