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A esquerda brasileira vai ao Chile

Exilados apostaram no sucesso do governo Allende. Alguns chegaram a participar diretamente do que prometia ser a via democrática para o socialismo.

Fonte: Revista História Viva edição 42 - Abril 2007

por Alberto Aggio

Irarrazabal chama-se a rua por onde caminhávamos em setembro. É um nome inesquecível

Em Santiago, o recém-eleito presidente SalvadorAllende acena para seus apoiadores. A seulado, montado a cavalo, o carrancudo generalAugusto Pinochet, que apenas três anos depoisarquitetaria a queda do governo socialista

porque jamais conseguimos pronunciá-lo corretamente em espanhol e porque foi ali, pela primeira vez, que vimos passar um caminhão cheio de cadáveres. Era uma tarde de setembro de 1973, em Santiago do Chile, perto da praça Ñuñoa, a apenas alguns minutos do toque de recolher.” É com essas palavras que Fernando Gabeira inicia a narrativa do seu famoso O que é isso, companheiro?, publicado em 1979, depois da anistia e de seu retorno ao Brasil. O livro alcançou um êxito tão fulminante quanto duradouro, especialmente pela polêmica que criou ao questionar os valores e crenças daqueles que se lançaram à luta armada no Brasil. Gabeira era um deles e, como muitos outros brasileiros que saíram do país por vincular-se à esquerda – armada ou não –, estava no Chile no dia do golpe militar de 11 de setembro de 1973.

Naquele final de tarde, Gabeira conhecia, mais uma vez, o sabor amargo da derrota. Disfarçadamente, ele caminhou com alguns companheiros pelas ruas de Santiago rumo à embaixada da Argentina, com o intuito de conseguir asilo político. A sensação era pesada e a decisão, difícil. Certamente não passava pela cabeça a letra de “Para não dizer que não falei de flores”, de Geraldo Vandré, na qual se cantavam, com outro espírito, os versos: “Caminhando e cantando e seguindo a canção (...) a certeza na frente, a história na mão”. Ao contrário do voluntarismo dessa canção, que animara corações e mentes no final da década de 60, ali só havia uma certeza: salvar a própria vida, rumo ao segundo exílio. A história lhes escapava das mãos e, como registrou Gabeira, “as ditaduras militares estavam fechando o cerco no continente”.

As mudanças produzidas naquela hora teriam, como se confirmará depois, caráter muito mais profundo do que apenas o de reação a movimentos armados ou governos eleitos pela esquerda. As ditaduras que se impuseram por meio de golpes militares, especialmente a chilena, refundariam países, e a repercussão disso era ainda insondável para os homens e mulheres contemporâneos àqueles fatos.

A visão de Gabeira era uma explicação compreensivelmente unilateral sobre o que se passava na América Latina e bastante superficial em relação ao Chile, elaborada por aqueles que investiram a juventude na luta armada e perceberam a sua situação pessoal complicando-se ameaçadoramente a partir da eclosão do golpe militar contra o governo socialista.

A ascensão ao poder

 

Fundação Darcy Ribeiro
Salvador Allende

Salvador Allende assumiu o poder no Chile depois de vencer a eleição presidencial de 1970 como candidato da Unidade Popular (UP), uma coalizão de esquerda que abrigava os partidos Comunista, Socialista, Radical, Social-Democrata, a Ação Popular Independente e o Movimento de Ação Popular Unificado (MAPU). Ao longo de três anos, exerceu a presidência da República, e seu governo ficou conhecido como a experiência chilena porque se propunha realizar uma tarefa inédita: construir o socialismo mediante a manutenção e o aprofundamento da democracia. Essa perspectiva política foi denominada por Allende como a via chilena ao socialismo, fórmula utilizada para expressar o caminho até a realização do objetivo maior de seu governo. Analiticamente, a “via” era o projeto-base para atuação do governo e da esquerda, enquanto a “experiência” constituía o processo que marcou todas as suas realizações, contradições e vicissitudes.

No início da década de 70, em contraste com essa situação, o Brasil vivia o aprofundamento do autoritarismo e da repressão política imposto pelo regime ditatorial. Dois anos antes, o Ato Institucional no 5 (AI-5) trouxe severas restrições à vida política, com o fechamento do Congresso, a implantação da censura prévia aos veículos de comunicação e a cassação do mandato de diversos parlamentares. Muitos brasileiros tiveram de rumar para o exterior e lá permaneceram, voluntária ou involuntariamente. Alguns o fizeram como último recurso para salvar a própria vida, outros, para conseguir dar seqüência à carreira profissional, em especial aqueles vinculados ao meio acadêmico, que se tornaram pesquisadores da Cepal (Comissão Econômica para América Latina). Havia ainda os que já estavam presos e foram expatriados após a libertação de algum embaixador seqüestrado pela esquerda armada no Brasil, como Gabeira.

Naquele momento, o Chile tornou-se um dos destinos preferenciais dos exilados brasileiros, tanto em função da sua longa trajetória de democracia, quanto da vitória da esquerda em 1970. Para todos eles, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, Francisco Weffort, Plínio de Arruda Sampaio e José Serra, entre outros, uma frase do hino nacional chileno, em que o país se coloca como “o asilo contra a opressão”, soava bastante literal e garantia amparo, em alguns casos até para suas famílias.

Darcy Ribeiro, um dos principais representantes da intelligentsia trabalhista brasileira, talvez tenha sido a liderança política que alcançou mais proximidade com o então presidente Allende. Assessor especial da Presidência, ele redigiu partes do famoso discurso de 5 de maio de 1971, que definia a via chilena como uma segunda forma de construção do socialismo, procurando distinguir seu caminho das experiências soviética e cubana. Nesse pronunciamento, referência sobre a opção do governo de esquerda, Allende menciona explicitamente trechos extraídos de clássicos do marxismo, em especial Friedrich Engels, admitindo um caminho pacífico para uma sociedade socialista. Sua fala enfatizava que esse percurso seria trilhado “dentro dos marcos do sufrágio, em democracia, pluralismo e liberdade”.

Anos mais tarde, em suas Confissões, Ribeiro relata que, juntamente com outro assessor, o valenciano Joan Garcés, defenderia perante o presidente a criação de uma legalidade democrática de transição ao socialismo como o primeiro objetivo de seu governo, e não a ênfase na política de nacionalizações e estatizações. Assim, para ele, além das grandes transformações estruturais desenhadas no programa da UP – que deveriam ser realizadas com muito equilíbrio –, o principal desafio da opção assumida residia no trajeto a ser percorrido para a conquista da institucionalização da via política para o socialismo.

 

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*Publicado por Nezimar Borges

 

 

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