A esquerda
brasileira vai ao Chile-Parte 2
Exilados apostaram
no sucesso do governo Allende. Alguns chegaram a
participar diretamente do que prometia ser a via
democrática para o socialismo.
Nos três anos que
se seguiram, o governo concentrou a atuação no Poder
Executivo.
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Fernando Rabêlo/
Fundação Darcy Ribeiro |
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Acima, palestra de Darcy
Ribeiro no Chile, durante o governo de Allende. À
esquerda, foto de Allende, autografada para o
brasileiro e sua esposa: “Para Berta e Darcy,
amigos-irmãos na luta por uma América Latina digna
e soberana. Cordialmente, Salvador Allende” |
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Acreditando que a legalidade chilena
suportaria as transformações em curso, adotou uma
posição intransigente nas políticas governamentais,
visando incrementar a industrialização do país mediante
processos de nacionalização e estatização; intensificar
a integração social por meio de políticas públicas de
viés popular; e aprofundar a democratização com o
aumento dos espaços de participação. A temática
político-institucional, presente na reflexão de Darcy
Ribeiro, permaneceu em segundo plano e, meses antes do
golpe, quando Allende lhe perguntou se a alternativa que
propusera teria sido mais viável e eficaz, o brasileiro
não teve como dar ao presidente uma resposta definitiva,
preferindo um argumento mais consensual para o momento.
Reconheceu que a dimensão econômica já havia chegado ao
seu limite e o governo necessitava de outras soluções
para enfrentar a severa crise. Apesar das divergências
de conduta, Ribeiro compartilhou com Allende a visão de
que era preciso compatibilizar as transformações
econômicas com o andamento político do processo e manter
um comportamento hábil e cauteloso com a finalidade de
“acumular forças” para passos mais decisivos que
estariam por vir.
O percurso em disputa
Contudo, desde o início, muitos viam com ceticismo a
chamada via chilena ao socialismo. Influenciada pela
Revolução Cubana e capitaneadas pelo Movimiento de
Izquierda Revolucionario (MIR), parcelas do MAPU e do
Partido Socialista – o partido de Allende – entendiam
que esquerda e governo deveriam seguir a estratégia de
“pólo revolucionário”, contestando de maneira antagônica
o poder burguês, agindo para aprofundar as contradições
e conflitos até produzir uma situação
pré-revolucionária. Para isso, era preciso “avanzar sin
transar”, ou seja, aprofundar as transformações sociais
e econômicas sem negociação alguma com outros segmentos
do espectro político chileno. O MIR não apoiara a
eleição de Allende e, durante todo o período, permaneceu
como a força oposicionista mais ativa no campo da
esquerda. Seu principal líder, Miguel Enriquez – que
anos mais tarde seria brutalmente assassinado pela
ditadura – qualificava de “mentirosa” a formulação da
via chilena como um segundo caminho para chegar ao
socialismo. De forma geral, todos esses setores de
esquerda eram críticos contundentes do projeto da via
chilena, sob acusação de que ela se mantinha
equivocadamente no interior da institucionalidade do
Estado burguês. Nessa avaliação, esses agrupamentos se
viam acompanhados por intelectuais que expressavam o
pensamento da então chamada gauche revolutionnaire.
Estes, inclusive a italiana Rossana Rossanda, do grupo
Il Manifesto, jornal crítico e dissidente do velho
Partido Comunista Italiano, vaticinavam em seus textos
que, mais cedo ou mais tarde, como em todos os
reformismos, Allende seria forçado a mudar de
estratégia, aderindo ao caminho revolucionário por meio
da ruptura armada com o Estado burguês.
Essa
divisão marcaria profundamente a avaliação dos
brasileiros que lá estiveram, refletindo a cisão que
existia no seio da esquerda latino-americana a respeito
do que se passava no Chile. Para boa parte dessa
intelectualidade e da militância que se exilou no país,
ao contrário do que defendia Allende, a experiência
chilena teria de operar uma inflexão radical: passar do
reformismo à revolução e do nacional-desenvolvimentismo
ao poder democrático-popular. Um dos mais expressivos
representantes dessa posição política foi Theotônio dos
Santos, filiado ao Partido Socialista Chileno e
dirigente, em 1973, do Centro de Estudos Socioeconômicos
da Universidade do Chile (Ceso). Nesse mesmo alinhamento
poderíamos mencionar os irmãos Eder e Emir Sader, Rui
Mauro Marini, bem como Marco Aurélio Garcia, todos
aderentes ou simpáticos às posições do MIR. Para ter uma
dimensão da contundência dos argumentos dessa corrente
política, Theotônio dos Santos, no balanço final de um
simpósio internacional realizado em Santiago, em outubro
de 1971, procurou indicar o que ele entendia ser o
papel-chave do governo da UP: “Criar condições para a
tomada do poder (...) através da constituição do poder
alternativo e não da conquista gradual do poder do
Estado existente”. Ao reavaliar todo o período, o que se
deveria julgar, de acordo com Eder Sader, não eram os
homens ou sua conduta no âmbito da esquerda e sim o
próprio projeto da via chilena ao socialismo. O
veredicto seria implacável: tratou-se de um equívoco
trágico e fatal.
Para Darcy Ribeiro, esses
setores praticavam um “radicalismo verbal exacerbado” e
pretendiam, dogmaticamente, “cubanizar o processo
chileno”. Essa “esquerda desvairada”, como a denominavam
os oposicionistas, teria ajudado a direita a dar o golpe
definitivo. A análise, ainda que insuficiente, nunca
pôde ser contestada cabalmente. Por outro lado, em
sentido contrário ao que propugnavam no período e ao que
escreveram posteriormente, aqueles que criticavam
Allende entendem hoje o governo da UP “como vanguarda
dos ideais revolucionários no nosso continente” e a sua
experiência, como um “projeto possível”.
Uma experiência
fracassada
Entretanto, para além da polarização acima
apresentada, é possível identificar também entre os
brasileiros uma posição intermediária, que chegou a ser
formulada no correr do período. Um texto publicado por
Fernando Henrique Cardoso na extinta revista Argumento
chamava atenção para algumas importantes dificuldades do
processo político chileno em superar a situação de
dependência existente no país por meio da estratégia e
das práticas adotadas pela UP e por Allende. Para ele,
os conflitos políticos e sociais que envolviam o governo
ameaçavam chegar a um patamar incontrolável e lançavam
uma nuvem de pessimismo sobre a situação. Segundo o
sociólogo brasileiro, em função dos graves
acontecimentos que marcavam a experiência, o cenário
apresentado não era dos mais auspiciosos para a
democracia chilena.
Contudo, essa percepção de
Cardoso, distanciada do protagonismo polarizador que
marcava as posições dos dirigentes da esquerda
brasileira ali presentes, não se transformaria em uma
orientação política relevante, permanecendo no seu
universo estritamente acadêmico e reflexivo. Deve-se
lembrar que FHC, então funcionário da Cepal, havia
publicado com o chileno Enzo Faletto, em 1967, o livro
Dependência e desenvolvimento na América Latina, que se
tornaria um clássico.
O que se pode observar é
que, expressas de forma contrapostas, as falas dos
principais protagonistas invadem integralmente o campo
de análise, mantendo o passado envolto em uma bruma que
não se dissipa. Ao testemunharem sobre o Chile de
Allende, é ainda a perspectiva da derrota da esquerda
diante da direita que, de maneira exclusiva, conduz o
repensar histórico.
Evita-se pensar na
experiência chilena como o fracasso de um governo
socialista. Nas avaliações publicadas pelos principais
protagonistas daquele processo, não se toma como
relevante o fato de que o governo atuou como nucleador
de uma política que seguia a via institucional, enquanto
as bases sociais da esquerda buscaram resolver a chamada
questão do poder para implantar rapidamente o
socialismo. Essa dissociação gerou uma tensão permanente
no campo da esquerda e invadiu o coração do governo da
UP.
Dessa perspectiva
de análise é possível perceber que, efetivamente,
Allende se tornou uma liderança disfuncional, já que não
advogava pela ruptura institucional e, por outro lado,
não revelava capacidade para dirigir e controlar por
inteiro o processo político, que redundou em uma
polarização catastrófica.
De forma geral, pode-se
dizer que a experiência chilena fracassou por razões que
pareciam despreocupar os principais atores da esquerda e
eram anteriores a qualquer possível erro de condução
política do processo. Também não se relacionavam de
forma direta com o desafio inédito de construir o
socialismo por meio da democracia.
A ESQUERDA VAI AO CHILE-PARTE 3 >>
*Publicado por Nezimar Borges
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