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A esquerda brasileira vai ao Chile

Exilados apostaram no sucesso do governo Allende. Alguns chegaram a participar diretamente do que prometia ser a via democrática para o socialismo.

 

Hoje está claro que desempenhou um papel fundamental o fato de Allende ter um apoio político minoritário do ponto de vista da representação institucional, uma vez que ele havia sido eleito com apenas 36% dos votos e sua posse foi aprovada, em segunda instância, pelo Congresso.

Efetivamente, somente o “clima revolucionarista” do final dos anos 60 e a poderosa influência da Revolução Cubana na esquerda latino-americana explicam a temeridade de avançar na construção do socialismo pela democracia com um percentual tão exíguo de apoio eleitoral.

Há uma extraordinária importância na divisão em três correntes político-ideológicas – os liberais e nacionalistas, a democracia-cristã e o eixo socialista-comunista. Com projetos de sociedade distintos e até antagônicos entre si, a convivência e o equilíbrio do sistema político tornaram-se impraticáveis diante do extremismo de suas posições. É importante chamar a atenção para o fato de que o Chile nesse momento não tinha um centro político com funções negociadoras. Ao contrário, a democracia cristã buscava também implementar o seu projeto de sociedade. Em outras palavras, era um centro excêntrico e isso, se não impossibilitava, dificultava ao extremo qualquer negociação mais substantiva ou duradoura entre esquerda e centro político.

Em terceiro lugar se poderia mencionar um tema programático: as reformas implementadas por Allende, aprofundando a distribuição de terras no campo, estatizando bancos e empresas, especialmente aquelas vinculadas à área mineradora, eram excessivamente maximalistas, e o caminho adotado para realizá-las, por meio do Executivo, acabou efetivamente abrindo espaço para a ingovernabilidade. A exacerbação da idéia de que socialismo era planificação econômica gerou uma política de tipo “soma zero”, que, agregada aos outros fatores acima mencionados, causou uma crispação sem remissão entre as forças políticas do país. Por fim, há o fator externo: o apoio dos EUA à oposição – democrática e não-democrática – e, em seguida, ao golpe de Estado não deixa dúvidas a respeito da transcendência do que se passava no Chile no início da década de 70. Impedir uma nova Cuba era essencial para os americanos e se configurou como um processo impossível de ser levado a bom termo em um país que havia experimentado décadas de vida democrática antes de 1973.

Dividida e aquém dos acontecimentos e dos ditames que a história lhe colocava, a esquerda buscava, sob Allende, realizar uma revolução feita por mecanismos legais do Estado, mas pretendia implantar um socialismo que não era outra coisa senão algo equivalente ao que se passava na União Soviética, na China ou em Cuba.

Realizar ambos se mostrou inviável naquelas condições, indicando que em nenhum sentido estava amadurecido o significado da via democrática ao socialismo que a esquerda chilena, a partir do governo, vocalizava e dizia querer implementar.

Por essa razão, o Chile não deve ser entendido como uma experiência prática da impossibilidade histórica de uma via democrática ao socialismo, como pensaram a esquerda brasileira e a latino-americana por vários anos, depois do 11 de setembro de 1973. Ele apenas anunciou essa possibilidade. Allende e a UP concebiam o socialismo a partir de uma cultura política convencional que predominava na esquerda latino-americana. O desafio que emergiu era novo e obrigava o desenvolvimento de outra concepção socialista e de estratégias para chegar à sociedade almejada. Ator e circunstâncias se contraditaram, e a história, por meio de outros personagens, se impôs implacável.

Alberto Aggio é professor livre- docente de história da América da Unesp. Autor de Democracia e socialismo: A EXPERIÊNCIA CHILENA (ED. ANNABLUME).

*Publicado por Nezimar Borges

 

LUIZ ALBERTO MONIZ BANDEIRA

Cientista político, professor emérito da Universidade de Brasília e autor de "As Relações Perigosas: Brasil-Estados Unidos de Collor a Lula, 1990-2004", "Brasil, Argentina e Estados Unidos" e "De Martí a Fidel: a Revolução Cubana e a América Latina". Leia alguns de seus artigos AQUI>>

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