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A ESQUERDA BRASILEIRA EM TEMPOS NEOLIBERAIS - PARTE - 1

Marcel de Almeida Freitas *

Introdução

vivemos hoje sob a hegemonia do sistema capitalista e num mundo em que as possibilidades de transformação da ordem sócio-política se mostram bastante reduzidas e para muitos não há mais meios para se fazer qualquer transformação. Nesta perspectiva, a palavra transformação é, nos nossos dias, incompatível com o contexto sócio-político que experimentamos. O capitalismo se apresenta como a única alternativa viável para qualquer sociedade e para qualquer povo. A sociedade burguesa deve ser a base de qualquer sociedade que queira progredir, se desenvolver economicamente e, principalmente, que queira efetivar os ideais democráticos e as liberdades civis. Capitalismo passa a ser sinônimo de desenvolvimento, progresso, democracia e liberdade. Para muitos, só ele pode fazer girar tudo de forma eficiente.

Ao lado dessa hegemonia capitalista, o que percebemos é que o mundo hoje, é um mundo cheio de contradições e conflitos, principalmente contrastes de natureza social. O planeta se divide cada vez mais, em ricos e pobres, em desenvolvimento e subdesenvolvimento. Não há como negar o desenvolvimento econômico, os avanços tecnológicos, o progresso científico e a modernização de uma parte do mundo. Mas, por outro lado, não há como negar as desigualdades sociais, as injustiças, a miséria, a fome e o subdesenvolvimento que está presente numa outra parte do mundo, muito maior do que a primeira. Assim, estamos num mundo sob a égide capitalista que se caracteriza por duas esferas contrastantes. Uma esfera é a da modernização e do desenvolvimento, a outra é da desigualdade e do subdesenvolvimento, que é a esfera onde está a maioria da população.

É importante ressaltar a origem dessa conjuntura sócio-política e o que foi responsável por essa hegemonia do capitalismo nos dias atuais. Sem dúvida, o desmoronamento da ex-URSS e a derrocada dos regimes socialistas do Leste Europeu foram os principais fatores que determinaram para que o mundo chegasse à atual conjuntura. É evidente que o capitalismo não chegaria à posição que chegou hoje se o socialismo não tivesse dado a sua contribuição de forma decisiva. Não nos cabe aqui discutir quais os fatores que levaram a essa derrocada, nem se esses erros e defeitos foram do socialismo em si, enquanto doutrina, ou se foram dos governos comunistas que dirigiram tais sistemas. O importante é percebermos que essa derrocada e esse desmoronamento foram primordiais para a ascensão capitalista hoje.

É dentro do presente contexto, de ascensão capitalista e fracasso socialista e do desaparecimento da bipolaridade mundial, que surge uma grande e importante questão, que pode ser colocada da seguinte maneira: será que o desmoronamento da ex-URSS e a derrocada dos regimes socialistas do Leste Europeu teriam estabelecido a impossibilidade de se propor alternativas à sociedade capitalistas? E a partir desse quadro, não haveria mais sentido falar de esquerda e direita no mundo atual já que a esquerda se propunha de certas formas, a contestar o capitalismo? Poderíamos afirmar de forma enfática, como Blackburn (1993), que esses acontecimentos implicaram no ‘fim da história’?

Todavia, uma coisa é o sentido dos termos esquerda e direita, ele se alterar em face de tais transformações, outra é esse sentido desaparecer. A ascensão capitalista e a derrocada da antiga URSS e dos regimes socialistas não são suficientes para se afirmar que os termos esquerda e direita estejam ultrapassados e não tenham mais significação. A dicotomia esquerda-direita vai além da bipolaridade capitalismo-socialismo, que orientou toda a ordem política mundial, durante anos. Não podemos dizer que o fim dessa bipolaridade represente o fim da dicotomia esquerda-direita, pois os princípios típicos de esquerda como a igualdade e a justiça social, não acabam com o fim da bipolaridade. O fim dos regimes socialistas pode representar a derrocada de uma via que possibilitava a realização desses ideais, mas não que há uma única via.

Diante disso, é mister frisar que o que define realmente a dicotomia esquerda-direita, não é tanto a antiga bipolaridade capitalismo-socialismo, mas é fundamentalmente a contraposição mercado versus justiça social. É essa contraposição o elemento primordial para pensar em esquerda e direita, principalmente nos dias de hoje, pois, atualmente essa contraposição se mostra não só presente, mas fundamental para a análise do cenário político brasileiro. Quanto a essa questão, Emir Sader escreve:

"Nessas condições, nunca como hoje a contraposição mercado x justiça social foi tão essencial. Jamais esta contradição cruzou tanto nossas sociedades desde os 30 milhões de desempregados do próprio hemisfério norte, junto à discriminação e segregação de suas dezenas de milhões de imigrantes, até as grandes maiorias do hemisfério sul, vivendo em sociedades cada vez mais apartadas" (Sader, 1995:17).

 

É dentro desse contexto sócio-político que compreendemos a dicotomia esquerda-direita no Brasil, procurando ressaltar o novo sentido que essa dicotomia tem atualmente. Para isso, é necessário atualizar a contraposição mercado versus justiça social e conseqüentemente, fazendo isso, estaremos atualizando o próprio sentido dos termos esquerda e direita. Por fim, ao reciclar o significado dos termos esquerda e direita, apontaremos para a possibilidade de surgimento de uma nova esquerda.

2. Conceitos de Esquerda e Direita

Para fazer uma sólida análise da dicotomia esquerda-direita e para que se possa entender bem o sentido destes conceitos hoje, se faz necessário conceituar, minimamente, os próprios termos esquerda e direita, verificando o significado político que tiveram e, principalmente, averiguando como estes termos estiveram presentes em grandes acontecimentos históricos.

Os dois termos simbolizam localizações geográficas que se opõem uma a outra. Os termos ganharam significado estritamente político, inicialmente, na Revolução Francesa. Durante a Assembléia Constituinte, aqueles que apoiavam e que estavam a favor do antigo regime ficavam originalmente, do lado direito, por outro lado, aqueles que defendiam a nova ordem social e política se sentavam do lado esquerdo. Isso significa que os conservadores, que pretendiam manter o regime anterior, se agrupavam à direita no parlamento, os defensores da mudança se agrupavam à esquerda.

A partir dessa distinção básica, as concepções esquerda e direita adquirem significado fundamentalmente político. Esquerda passou a designar aquele conjunto de forças que luta, essencialmente, por transformações numa determinada ordem social e política, transformações que resultem na instauração de uma nova ordem, ou transformações que resultem na reformulação da ordem vigente. Mesmo que o teor e o grau das mudanças possam variar, de acordo com uma esquerda mais ou menos ‘radical’, o que está presente em qualquer esquerda é o caráter contestatório assumido.

A direita já seria o contrário disso. Direita passou a designar, no âmbito político, aquelas forças favoráveis à manutenção de uma ordem social e política. A direita se preocupa, basicamente, em conservar e não alterar um sistema que está dado. Isso pelo fato de que a manutenção de um sistema, tal como ele foi instaurado e tal como ele se apresenta, é amplamente favorável aos interesses econômicos, sociais e políticos daqueles que compõem as forças de direita. Para a direita não é vantagem alterar o sistema, mas sim preservá-lo.

Analisando as noções ‘esquerda’ e ‘direita’ poderíamos identificar a direita com aquele conjunto de forças políticas interessadas em manter o sistema atual vigente, que é o capitalista. A esquerda seria identificada com aqueles que se propõem a lutar por mudanças no sistema capitalista, seja no sentido de reformulá-lo ou seja no sentido de superá-lo e instituir um outro sistema. Dessa forma, as pessoas ou partidos que lutam para implementar mudanças e até pela superação do sistema capitalista, constituem a esquerda. Quanto a essa diferenciação, podemos colocar que

"Assim, hoje a direita se compõe dos conservadores daqueles que se interessam pela reprodução e manutenção do sistema vigente, o capitalismo, e a esquerda se caracteriza por integrar aqueles que desejam a evolução e a superação de tal sistema" (Sader, 1995:21).

A contraposição mercado versus justiça social que é fundamental para entendermos a díade esquerda-direita no Brasil, e que sempre faz parte dos cenários políticos em todo o mundo, principalmente no tocante às lutas políticas entre esquerda e direita, tem o ponto de origem na própria Revolução Francesa. Isso pelo fato de propor a implementação de ideais que se mostravam bastante contraditórios, o que permitiu uma série de críticas à efetivação dos ideais por completo. Os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade se mostravam contraditórios porque a efetivação de um, implicaria a negação do outro, de modo que não haveria como esses planos se concretizarem conjuntamente. Garantir a liberdade significa garantir o direito de propriedade e a liberdade de mercado, instituindo relações econômicas de mercado, o que por sua vez, entrava em choque com a realização da plena igualdade.

A ESQUERDA BRASILEIRA EM TEMPOS NEOLIBERAIS-PARTE 2>>>

*Publicado por Nezimar Borges

 

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