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A ESQUERDA BRASILEIRA EM TEMPOS NEOLIBERAIS - PARTE - 4 (Final)

3. Uma Nova Esquerda

O fim da bipolaridade mundial entre capitalismo e socialismo provocou uma série de conseqüências no âmbito político internacional. O fenômeno da crise do socialismo e da desintegração dos regimes comunistas no Leste Europeu levou, sem dúvida nenhuma, a uma nova releitura dos termos esquerda e direita como vimos tentando demonstrar ao longo desse artigo.

No entanto, o que ressaltamos é que essa nova releitura não implicou na falta de sentido dos termos citados, não significou que a dicotomia esquerda-direita tinha desaparecido do cenário político mundial e, em especial do cenário político brasileiro. Para que isso tivesse ocorrido, seria necessário demonstrar que os discursos e os pensamentos políticos das várias correntes ideológicas estariam apontando, se não para um mesmo caminho, ao menos para um caminho semelhante. E não é isso que ocorre, hoje, no Brasil.

É claro que não se trata, no momento, de apontar uma rota alternativa ao capitalismo, ao modo de produção capitalista, até mesmo porque seria difícil convencer a sociedade brasileira que o ideal do socialismo ainda pode ter sucesso. A queda dos sistemas do Leste Europeu parece que, se não tornou impossível, pelo menos ampliou os obstáculos à realização desse ideal, obstáculos estes que já eram grandes.

A queda desses regimes do Leste Europeu e o solapamento da antiga URSS foi um fenômeno que alterou, radicalmente, a forma de expressão das lutas políticas entre esquerda e direita a nível mundial. O importante a ser considerado é que essas lutas ainda continuam se travando politicamente, embora dentro de um novo contexto, e os ideais de justiça social e de mercado é que estão sustentando tais lutas.

É dentro desse novo contexto, marcado principalmente pela emergência do neoliberalismo, que o pensamento político da esquerda brasileira está se desenvolvendo. Se não se trata, hoje, de apontar alternativas ao sistema capitalista, se trata, na atual conjuntura, de apontar um caminho de modernização para o sistema capitalista alternativo e diferente daquele proposto pelo neoliberalismo. E é exatamente isso que a esquerda brasileira, seja no âmbito de partidos políticos ou de movimentos populares, vem tentando implementar. E é também por isso que não se pode dizer que a dicotomia esquerda-direita desapareceu, que ela está extinta. O que percebemos hoje é que estão sendo apresentadas vias de modernização e de desenvolvimento para o sistema capitalista conflitantes e que se sustentam em princípios opostos.

Se não ocorre uma convergência entre as múltiplas forças políticas e se as vias de modernização e desenvolvimento apresentadas não apontam para um caminho semelhante, é porque as expressões esquerda e direita ainda continuam vigorando no cenário político brasileiro e, também, porque os ideais de justiça social e de mercado ainda permanecem. Prova disso é o fato da esquerda, se contrapor ao neoliberalismo, que representa uma saída de modernização que contempla o pólo do mercado, desconsiderando totalmente os ideais de justiça social.

O fato de ter emergido uma inovadora conjuntura sócio-política e da dicotomia esquerda-direita passar a ser expressar de uma nova forma e com ideais de justiça social e de mercado ganhando novo contorno, acarretaram um processo de reformulação e revisão do pensamento e do discurso político da esquerda nacional. A luta pelos ideais de justiça social, que sempre orientou a atuação da esquerda brasileira, não se expressa mais da mesma forma que se expressava antes da queda do socialismo. Na verdade, essa luta ganhou novo formato, o que não significa que a busca de uma sociedade mais justa e menos desigual tenha se tornado inviável. Essa busca continua por caminhos diferentes, caminhos que foram abertos com o fim da bipolaridade mundial, que deu lugar a um novo modo de expressão da contraposição mercado versus justiça social, que é a base fundante da dicotomia esquerda-direita.

Todas essas mudanças que ocorreram a nível mundial, isto é, o surgimento de uma nova conjuntura sócio-política e a nova moldura que ganhou a luta pela justiça social, acabaram implicando na formação e na emergência de uma nova esquerda brasileira. Uma esquerda que se mantém fiel aos ideais de eqüidade social, mas que adota novos percursos de luta e projetos diferentes daqueles adotados anteriormente. O caminho que se tem hoje para a implantação de uma sociedade mais humana e menos desigual é bastante diferente daquele que a esquerda brasileira acreditava antes da derrocada do comunismo.

A emergência dessa nova ordem esquerdista é um fenômeno importantíssimo para se entender, nos dias de hoje, a dicotomia esquerda-direita e resultou de um complicado processo de revisitação do pensamento político da esquerda não só no Brasil, como também em todo o mundo. O que essa revisão fez foi abrir novos horizontes para o duelo das forças políticas revitalizando o papel dessa esquerda que estava, de certa forma, confuso. Em realidade, o papel da esquerda nacional é ainda mais crucial do que em qualquer outro momento da história brasileira. Isso porque, atualmente, o mais importante não é tanto lutar para se obter direitos e progressos em termos de justiça social ou conquistar novos direitos, benefícios e garantias para as camadas mais baixas da sociedade (isso faria parte de um segundo momento). O mais importante agora é defender tudo aquilo que já foi conquistado no país, é garantir a manutenção das garantias e dos benefícios sociais e trabalhistas já adquiridos na área social, e que estão fortemente enfraquecidos pelo neoliberalismo.

Cabe a essa nova esquerda brasileira procurar atuar ativamente no cenário político e social no sentido de mobilizar a sociedade e, mormente, as camadas populares, alertando-as com relação aos objetivos pretendidos pela política neoliberal. Para caracterizar melhor essa nova esquerda brasileira e, com isso, resumir um pouco de tudo o que foi exposto até agora nesse texto, gostaríamos de abordar três aspectos que expressam a formação e a emergência dessa nova esquerda. Esses aspectos servem também para contrapor a esquerda brasileira antes da derrocada dos regimes comunistas e a esquerda emergente após esses acontecimentos.

Um primeiro aspecto que chama atenção é o fato de que o marco de referência para a atuação, o discurso e o pensamento político das várias correntes ideológicas da miríade de segmentos sociais e organizações partidárias é o neoliberalismo e não mais o capitalismo, como acontecia antes de toda a derrocada dos regimes comunistas e da ex-URSS. Anteriormente, o que delimitava a divisão das correntes políticas entre esquerda e direita era o capitalismo. Enfim, a posição assumida por um partido ou por um grupo social era definida de acordo com sua relação com o capitalismo e esta poderia ser caracterizada pela luta em favor da consolidação do sistema capitalista ou caracterizada pela luta em favor da transformação e da superação do sistema capitalista.

Antes de passar ao segundo aspecto destacamos um ponto importante: por mais que o termo esquerda seja complexo, a idéia de esquerda que se tem nesse trabalho, antes da derrocada, é de um posicionamento que lutava para implementar transformações estruturais no sistema capitalista, transformações que culminassem na sua superação e que permitissem a instituição de uma nova ordem social e política. Dessa forma, esta conotação de esquerda não pode ser resumida à idéia de reformas sociais, embora isso tenha feito parte das lutas oposicionistas no Brasil.

O segundo aspecto que expressaria a emergência dessa nova esquerda brasileira é a maneira como ela se coloca hoje, no cenário político nacional. O comportamento da esquerda dentro dessa atual conjuntura sócio-política, se caracteriza, primeiramente, por uma postura defensiva e não ofensiva. A necessidade fundamental é defender os direitos, benefícios e garantias sócio-trabalhistas, que já se concretizavam e que se vêem amealhados, hoje, pelas políticas neoliberais. Há que se sublinhar que dentro dessa nova conjuntura toda a dimensão social da cidadania se encontra ameaçada e, dessa forma, a esquerda tem que se esforçar para garantir a sua manutenção.

Um terceiro aspecto que caracteriza essa nova esquerda brasileira é o fato de que a luta empenhada não se desenvolve nos mesmos moldes que se desenvolvia antes do fim da antiga URSS e dos governos do leste europeu. O objetivo maior de construção de uma sociedade menos desigual não é mais pensado pela esquerda brasileira da mesma maneira que era pensado quando a bipolaridade mundial era vigente. Na vigência da bipolaridade mundial havia por parte da esquerda grande aproximação com os ideais comunistas e socialistas, alguns setores e partidos de esquerda mais, outros menos. Mas, o fato é que existia tal aproximação e, de uma forma ou de outra, os ideais de justiça social estavam dentro daquele contexto, associados ao comunismo e ao socialismo.

O que fica claro antes da derrocada é que os ideais de justiça social se operacionalizaram mediante transformações estruturais no sistema capitalista, que acabariam levando à superação. Obviamente que setores, partidos e organizações que se diziam de esquerda no Brasil divergiam em relação muitos pontos. Alguns defendiam transformações processuais e de forma gradual, outros exigiam transformações radicais e imediatas, através de um processo revolucionário independente.

4. Considerações finais

Essa divisão que se efetivara na França, ainda naquela época, já mostrava a contraposição mercado versus eqüidade social, que é o aspecto fundamental ainda hoje, para entendermos a dicotomia esquerda-direita. De um lado, estavam aqueles que davam ênfase no mercado, do outro estavam aqueles que privilegiavam a justiça social. A partir dali, os termos esquerda e direita ganhariam solidez e passariam a fazer parte do cenário político mundial.

Já a nova esquerda brasileira, surgida após a derrocada da URSS, se particulariza por um relativo distanciamento em relação a esses ideais comunistas e socialistas. A aproximação que existia antes não existe mais, o que significa que os ideais de igualdade social não estão mais associados ao comunismo e ao socialismo, a não ser em alguns poucos grupos de esquerda que ainda retomam esses pilares. E é isso que peculiariza a nova esquerda brasileira.

O que se tem hoje é uma luta que não se caracteriza mais pela necessidade de destruição do sistema capitalista e de construção de uma nova sociedade. O ideal de justiça social não se expressa na implementação de transformações estruturais. Esse ideal se manifesta numa abrangente reformulação do sistema capitalista, na escolha de uma via de modernização e desenvolvimento alternativo à via neoliberal e que seja norteada pelo objetivo de construir uma sociedade capitalista mais humana e menos desigual.

O que a esquerda brasileira pretende, nessa presente conjuntura, é efetivar um amplo processo de democratização e humanização do sistema capitalista, mas tentando seguir por uma via de modernização contrária àquela proposta pelo neoliberalismo. Isso significa que a nova esquerda brasileira adota uma tendência reformista e não transformadora. Os ideais de justiça social se efetivam, na prática, através da implementação de reformas sociais do capitalismo. São reformas que passam pela consolidação de todo o aparato social do Estado, pela ratificação do papel social do Estado, pela destinação de investimentos estatais maciços nas áreas sociais, pela ampliação das políticas sociais, fazendo-o capaz de atender as grandes demandas sociais que são dirigidas a ele.

É necessário que tais reformas abarquem, também, um conjunto de medidas e políticas econômicas que busquem instaurar um desenvolvimento global, com um grande poder de abrangência, que esteja, fundamentalmente, alicerçado e baseado em um amplo processo de distribuição de renda no país e também, em um processo efetivo de reforma agrária. De forma que seja um desenvolvimento que estimule e incentive, efetivamente, o crescimento dos salários e que estimule também o aumento significativo da participação dos salários na renda nacional, acarretando, como isso, o aumento do poder aquisitivo dos trabalhadores.

Referência Bibliográfica

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BLACKBURN, Robin. Depois da queda: o fracasso do comunismo e o futuro do socialismo. 2o Ed. São Paulo: Paz e Terra, 1993.

BOBBIO, Norberto. A era dos direitos. Rio de Janeiro: Campus, 1992.

HELD, David. Modelos de democracia. Belo Horizonte: Paidéia, 1987.

MARX, Karl; ELGELS, Friedrich. O manifesto comunista. 2a ed. São Paulo: Bontempo, 1988.

REIS, Daniel A. As esquerdas e a democracia. In: GARCIA, Marco A. (org.). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986.

SADER, Emir. O anjo torto: esquerda (e direita) no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1995.

Resumo

O objetivo deste breve artigo é tecer alguns comentários a respeito de certas mudanças valorativas e estruturais pelas quais passou o movimento esquerdista brasileiro nas últimas duas décadas. O texto destaca, entre outras coisas, a introdução da economia de mercado, desde que alinhada com a eqüidade social, no pensamento de grande parte da política de esquerda no país. Ademais, também são sublinhadas as alterações que os conceitos ‘direita’ e ‘esquerda’ tiveram nos anos mais recentes.

Palavras-chave: esquerda brasileira, justiça social, capitalismo neoliberal.

* MARCEL DE ALMEIDA FREITAS. Mestre Em Psicologia Social. Professor do Departamento de Sociologia e Antropologia da UFMG. Autor do livro: Meretrizes, Amazonas e Magas: um estudo dos arquétipos femininos nos mitos da humanidade. Belo Horizonte: edição do autor, 2001; 175 p. ISBN: 1001275902. E.mail: marleoni@Yahoo.com.br

*Publicado por Nezimar Borges

 

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