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A hora final do Che

GUEVARA E A CIA NA SELVA DA BOLIVIA

06/06/2007

Local: BR
Fonte: Tribuna da Imprensa
Link: http://www.tribunadaimprensa.com.br

ARGEMIRO FERREIRA

A atual trama dos EUA, com a cumplicidade da grande mídia cucaracha (Brasil e o resto da América Latina), contra a Venezuela de Hugo Chávez, sugere lembrar que a execução de Ernesto (Che) Guevara, ferido e amarrado, nas selvas da Bolívia, completará 40 anos no dia 8 de outubro. O homem que celebrou o feito num livro (lançado em 1989, depois de passar pelo crivo da CIA) é Félix I. Rodriguez, então nos quadros da central de espionagem americana.

Rodriguez já chegara às primeiras páginas dos jornais americanos em maio de 1987, quando depôs perante comissão parlamentar (presidida pelo senador John Kerry) que investigava o escândalo Irã-Contras. Graças a seu envolvimento nesse episódio que deixou o presidente Ronald Reagan à beira do impeachment, Rodriguez pôde finalmente apresentar-se ao país no papel de herói e celebridade.

No livro - co-assinado pelo jornalista americano John Weisman, "ghost-writer" responsável pelo texto - Rodriguez retrata-se como "guerreiro das sombras" em defesa do "mundo livre" e "herói da CIA em uma centena de batalhas desconhecidas" em Cuba, no Vietnã, na América Central e na Bolívia: "Shadow Warrior - The CIA Hero of a Hundred Unknown Battles" (editora Simon and Schuster, NY, 1989).

Uma versão quase oficial

O destaque de Rodriguez no livro é para o que considera sua façanha mais notável, a morte de um Guevara batido, ferido e esmulambado nas selvas da Bolívia. Narrado na primeira pessoa, em busca de auto-glorificação, o livro torna-se revelador em relação ao papel dos EUA e sua central de espionagem na América Latina. Até porque o autor orgulha-se da ligação pessoal com o então presidente, George Bush pai.

Pelo menos até depor no Congresso sobre o escândalo Irã-Contras, Rodriguez era um daqueles ex-agentes fiéis à CIA, pois ainda usava dinheiro do contribuinte para proteger sua casa com um sistema de segurança de 25 mil dólares. Diante disso, presume-se ser praticamente oficial sua versão da morte de Guevara, que atribui aos aliados bolivianos os detalhes mais escabrosos, inclusive a decisão de matar um homem amarrado e ferido.

O general-ditador era René Barrientos; o chefe do Estado Maior do Exército, Ovando Candia, que também seria ditador mais tarde. Em Vallegrande, onde estava o QG das tropas que caçavam o lendário guerrilheiro de Sierra Maestra, o agente da CIA chamou oficiais bolivianos - entre eles, o coronel Joaquin Zenteno, chefe das operações - para festejar, com uma garrafa de Ballantine's, a captura de Guevara em La Higuera.

"Traga o cadáver às 2 da tarde"

O coronel Zenteno enviara imediatamente ao local, para interrogar Guevara, o tenente-coronel Andrés Selich. À noite anunciou que levaria o homem da CIA no helicóptero (só havia espaço para dois passageiros), na manhã seguinte para La Higuera. A se acreditar na versão, Guevara só morreu porque Rodriguez dera sua palavra de honra a Zenteno, cujo governo já decidira executar o prisioneiro.

Antes de retornar a Vallegrande, o coronel disse ao espião da CIA que poderia interrogá-lo à vontade, desde que o corpo fosse levado pelo helicóptero às 2 da tarde. Alega Rodriguez no livro que poderia perfeitamente salvar Guevara. Como só havia um telefone no lugar (e nenhum tipo de comunicação por rádio), quando o helicóptero chegasse, às 2, simplesmente iria ao telefone e, na volta, diria ao piloto ter recebido uma contra-ordem, a pretexto de que Barrientos fora convencido pela embaixada dos EUA a não matar o guerrilheiro. Se Guevara chegasse vivo a Vallegrande no helicóptero, diz Rodriguez, estaria salvo. Isso porque seria visto vivo por centenas de pessoas, inclusive os jornalistas estrangeiros que ali esperavam

Veterano da invasão fracassada da baía dos Porcos, Rodriguez - cubano de nascimento - já trabalhava há 15 anos como espião. É difícil acreditar na sua história de que a CIA o instruíra a fazer o possível para levar Guevara vivo para ser interrogado na Zona do Canal (sob ocupação militar dos EUA). Se isso fosse verdade, iriam os subservientes militares bolivianos insistir na execução sumária?

Os estranhos privilégios da CIA

Basta lembrar que o coronel boliviano fora ao extremo de dar a Rodriguez o único lugar no helicóptero, além de distingui-lo com o privilégio inacreditável de ser a última pessoa a conversar com o prisioneiro - e até decidir de que forma seria a execução ("se quiser, você mesmo pode fazê-lo", teria dito Zenteno, segundo o relato do livro).

Rodriguez alega que, mesmo tendo dado a palavra de honra ao coronel, chegou a hesitar. Mas aí lembrou-se de que o ditador Fulgéncio Batista prendera Fidel Castro (após o assalto ao Quartel Moncada) e depois cometeu o erro de libertá-lo - o que lhe permitiu, anos depois, liderar as guerrilhas até o triunfo revolucionário.

Parece mais lógico que a própria CIA - como o governo dos EUA e o da Bolívia - preferisse a liquidação sumária de Guevara, para pôr fim à lenda. E que Rodriguez estivesse ali precisamente para se certificar de que isso aconteceria. A versão do livro, assim, parece ter sido a mais conveniente aos interesses de Rodriguez, da CIA e dos EUA.
(Mais alguns detalhes ficam para amanhã.)

A hora final de Che Guevara

Na coluna anterior faltou o relato das últimas horas de Ernesto (Che) Guevara com o agente da CIA, cubano de nascimento, Felix I. Rodriguez, nas selvas da Bolívia, em outubro de 1967. Refiro-me, claro, à versão desse espião americano, contida no livro publicado por ele 20 anos depois, sob o título "Shadow Warrior - The CIA Hero of a Hundred Unknown Battles" (Guerreiro da sombra - o herói da CIA em uma centena de batalhas).

No texto do livro, a cargo do "ghost-writer" americano, John Weisman, o espião explora especialmente seu encontro com Che, obviamente por considerá-lo a façanha maior de sua vida inteira. Como é um diálogo sem testemunhas, qualquer um pode pôr em dúvida a palavra daquele narrador comprometido. Só os dois, segundo a versão, estavam na sala da casinha miserável que funcionava como escola na selva.

Guevara estava deitado no chão da casa, ferido - a perna direita sangrando, as mãos amarradas, a roupa rasgada, sem botões, o cabelo imundo. Aquele aspecto deprimente é confirmado pela única foto de Guevara vivo naquele dia. Os soldados bolivianos tinham acabado de matar outro guerrilheiro. A ordem era não fazer prisioneiros. Outros dois cadáveres estavam ao lado do Che.

"Eu o admiro, comandante"

"Guevara, quero falar com você", disse Felix Rodriguez, o espião da CIA. Ainda no papel de comandante, segundo o livro, Che respondeu com sarcasmo: "Ninguém me interroga". "Comandante, não vim aqui para interrogá-lo. Temos ideais diferentes, mas eu o admiro. Era ministro de Estado em Cuba, e veja agora como está. Reduzido a isso por acreditar em seus ideais. Vim para conversar com você".

Felix afirma que Guevara acabou concordando em conversar. Pediu para ficar sentado. O espião mandou um soldado boliviano entrar para desamarrá-lo. Em seguida os dois falaram da escolha da Bolívia para "exportar a revolução", das dificuldades encontradas, dos problemas econômicos de Cuba, da escolha dele para ser presidente do Banco Nacional de Cuba e das guerrilhas na África.

De acordo com o livro, Che Guevara negou-se a falar de detalhes da operação guerrilheira na Bolívia. Disse que nada poderia revelar. O agente perguntou então se seria capaz de adivinhar de onde vinha ele, Felix (usava o codinome Felix Ramos). "Você é portorriquenho ou então cubano", respondeu o guerrilheiro. Pela resposta, Che presumia tratar-se de um especialista da CIA em interrogatórios.

No rádio, a morte de Guevara já era anunciada. Avisado disso, do lado de fora, Felix contou ter entrado de novo na casa, dizendo ao guerrilheiro que a ordem para matá-lo fora expedida pelo Comando Supremo da Bolívia. "Quer transmitir uma última mensagem a alguém?", perguntou. "Diga a Fidel que em breve ele verá o triunfo da revolução na América", respondeu Che.

A CIA dá a ordem. Guevara morre

O espião interpretou a resposta como uma queixa contra Fidel pelo abandono a que teria sido relegado pelo líder cubano. Che continuou: "E diga a minha mulher para se casar de novo e tentar ser feliz". O homem da CIA usava naquele momento o nome falso e a patente de capitão do Exército boliviano. No livro diz que em seguida os dois se abraçaram, em momento de grande emoção.

"Eu não o odiava mais", relata Felix. "Sua hora da verdade tinha chegado. E ele se conduzira como um homem. Estava enfrentando a morte com coragem e altivez". O espião afirma ter saído em seguida da escola e dado a ordem aos bolivianos (um tenente e um soldado), do lado de fora, para que não atirassem no rosto - apenas do pescoço para baixo (talvez para a identidade do morto não ser contestada).

Minutos depois, ao ouvir os tiros, o agente da CIA olhou o relógio: Che morreu uma hora e dez minutos da tarde. Felix (Rodriguez/Ramos) diz que preferiu deixar aos próprios bolivianos a encenação da farsa - matar o guerrilheiro amarrado e depois fingir que a morte fora numa batalha. Mais tarde o corpo foi amarrado do lado de fora do helicóptero no qual o agente da CIA voou de volta a Vallegrande.

O relato de Felix expõe ainda a submissão dos militares bolivianos e o desprezo com que são tratados pela CIA. Ele próprio, espião, recebera o posto de capitão do Exército local. Virou autoridade local, com carteirinha e tudo. Reuniu então todos os documentos de Che (inclusive o diário). Fotografou cada página, sob a luz do sol, lá mesmo, em La Higuera, com duas câmeras, Pentax e Minox, que tinha levado.

O roubo do relógio Rolex

Assim, o conteúdo foi examinado pela CIA antes de chegar às autoridades bolivianas. Felix contou ainda que depois da morte do Che, apropriou-se de seu relógio Rolex, "como souvenir". Pegou-o para examinar e iludiu os bolivianos, trocando-o às escondidas pelo Rolex que ele próprio usava. O espião vangloria-se também de ter enganado os bolivianos na hora das fotos, antes da execução do prisioneiro.

Os militares bolivianos ser fotografados ao lado do Che. Entregaram uma câmera a Felix para que apertasse o botão. Ele o fez, mas antes alterou a velocidade e o diafragma, para inutilizar as chapas. Depois pegou sua própria Pentax e ajustou a velocidade e o diafragma corretamente, pedindo a um dos bolivianos para apertar o botão. Essa é a única foto existente de Guevara vivo - sujo, rasgado, mãos amarradas, ao lado de Felix. O filme foi direto para a CIA.

O espião conta ainda no livro que o general Ovando Candia (mais tarde promovido a ditador) queria conservar a cabeça de Guevara para exibir no caso alguém - Fidel, por exemplo - duvidar de que o guerrilheiro de fato morrera. Mas o chefe militar boliviano foi convencido pelos americanos a arrancar apenas as mãos, com as impressões digitais.

* Publicado por Nezimar Borges

 

LUIZ ALBERTO MONIZ BANDEIRA

Cientista político, professor emérito da Universidade de Brasília e autor de "As Relações Perigosas: Brasil-Estados Unidos de Collor a Lula, 1990-2004", "Brasil, Argentina e Estados Unidos" e "De Martí a Fidel: a Revolução Cubana e a América Latina". Leia alguns de seus artigos AQUI>>

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