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Um Che Guevara com petróleo-Parte 1
Eric Follath
Setembro/2006
Um modelo mundial para os esquerdistas, um amigo do ditador cubano Fidel Castro e um adversário do presidente dos Estados Unidos, o presidente venezuelano Hugo Chávez é um populista talentoso - sendo altamente controverso como reformador. Ele usou as riquezas petrolíferas do seu país para ajudar a transformar cortiços de Caracas a Nova York.
Se houvesse um Oscar para os piores insultos trocados entre políticos, Hugo Chávez e a sua equipe e o presidente dos Estados Unidos e o seu governo dividiriam o prêmio.
N ão há dúvida de que o presidente venezuelano não suaviza a retórica na hora de xingar, difamar e humilhar os gringos do norte. Ele volta e meia se refere ao presidente dos Estados Unidos como "o maior terrorista da Terra" e "um idiota". Na opinião de Chávez, o problema da secretária de Estado dos Estados Unidos, Condoleezza Rice, é a sua orientação "fascista" e o fato de ela "ser sexualmente frustrada". Chávez afirma que, embora fosse com certeza capaz de ajudá-la neste último departamento, ele não está nem um pouco interessado.
Rice retrucou, chamando o venezuelano de "demagogo". George W. Bush chama Chávez de "um padrinho do terror". O secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, o compara a Adolf Hitler. E Pat Robertson, o televangelista norte-americano e ex-potencial candidato à vice-presidência, já chegou a sugerir abertamente que a CIA matasse Chávez.
Chávez, 51, ameaça suspender as remessas de petróleo para a superpotência, sugere que poderia anexar uma ou duas ilhas do Caribe e chega a mencionar a possibilidade de formar uma "aliança antiimperialista" com os iranianos. Já os Estados Unidos realizam treinamentos de guerra com os seus aliados ao largo da costa venezuelana. Atualmente, considera-se como um dia positivo nas relações norte-americanas aquele no qual o embaixador dos Estados Unidos em Caracas é atingido por tomates e o resultado do incidente é um pouco mais do que uma ríspida censura diplomática.
Com a exceção do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad e do ditador norte-coreano Kim Jong Il, o político carismático de Caracas é a única figura pública no planeta disposta a atormentar o governo Bush. Mas ao contrário das duas outras crianças-problema, Chávez está brincando com fogo a uma distância desconfortavelmente curta. Na verdade, ele está praticamente no quintal da superpotência, já que o seu país está separado da costa dos Estados Unidos por apenas cerca de 1.800 quilômetros de oceano. Ele também está dando o melhor de si para mobilizar toda a América do Sul contra os Estados Unidos e inclinar o mundo latino para a esquerda. Mas Chávez está longe de ser um caudilho sem poder ou um insignificante político de fundo de
quintal: ele controla um país importante que está praticamente nadando em petróleo. A Venezuela é o quinto maior produtor mundial de petróleo e, com a exceção do Canadá, com as suas areias alcatroadas, possui as mais importantes reservas do Hemisfério Ocidental.
Uma Washington dependente
Como se isso não fosse o suficiente, os norte-americanos são também relativamente dependentes desse antagonista no seu flanco sul. Somente o Canadá, o México e a Arábia Saudita fornecem aos Estados Unidos uma quantidade de ouro negro um pouco maior do que a da Venezuela. Os Estados Unidos obtêm 11% das suas importações de petróleos do país de Chávez, uma parcela significativa nestes dias de redução deste recurso natural. E em todos os Estados Unidos a população enche os tanques dos automóveis em postos de gasolinas que são propriedades do adversário do governo Bush. A Citgo, com os seus 14 mil postos de combustível nos Estados Unidos, é propriedade integral do governo venezuelano.
O presidente venezuelano tem feito novas provocações a Washington com uma freqüência quase semanal. Durante uma visita de Estado à China, Chávez encorajou a liderança daquele país a se opor firmemente à "hegemonia dos Estados Unidos". Em Viena, ele voltou as costas ao Encontro União Européia-América Latina para participar de um evento alternativo, no qual foi aclamado como a nova grande esperança da esquerda. Durante uma visita a Londres, ele insultou o primeiro-ministro britânico Tony Blair, chamando-o de "poodle de Bush". Enquanto isso, ele elogia Fidel Castro como "um bastião da justiça" e proclama que Venezuela, Cuba e Bolívia formarão um "Eixo do Bem". Em meados de junho, Chávez anunciou que fará uma viagem passando por vários países, sendo que cada escala representará um tapa na cara da Casa Branca. A programação prevê paradas na Rússia, na China, na Coréia do Norte, na Síria e no Irã - para compras de armamentos, venda de petróleo e ingresso em "parcerias estratégicas".
O presidente venezuelano tem se mostrado especialmente ansioso para interferir na política dos países vizinhos. Com milhões investidos em contribuições de campanha, Chávez desempenhou um papel importante na ascensão de Evo Morales ao poder na Bolívia, onde o novo presidente rapidamente nacionalizou a indústria de gás natural do seu país. Na Argentina, ele adquiriu bilhões em títulos do governo, fazendo com que o governo do presidente Nestor Kirchner se curvasse à sua vontade. Ele tentou seduzir o Brasil e o resto do continente com gás natural barato, que seria transportado através de um fantástico gasoduto que, embora atualmente esteja somente nos estágios de planejamento, cortaria toda a América do Sul.
O presidente da Venezuela também distribui doações de caridade nos cortiços das grandes cidades dos Estados Unidos. Durante uma onda de frio repentina por volta do Natal de 2005, ele ofereceu petróleo para aquecimento, oriundo das suas próprias reservas, pela metade do preço, aos moradores de bairros de baixa renda em Boston e Nova York, e pretende fazer o mesmo no próximo inverno. É o "Santa Chávez" (trocadilho com a expressão "Santa Claus", a denominação de Papai Noel em inglês).
Um ídolo das massas atingidas pela pobreza Quem é esse homem que, como ídolo das massas atingidas pela pobreza, conquistou as ruas da América do Sul, chegando a empurrar para segundo plano lendas como Castro e Che Guevara? Seria ele um idealista incorrigível, mas agradável? Um moderno Dom Quixote, lutando com moinhos de vento enquanto investe contra o Banco Mundial? Seria ele o último verdadeiro revolucionário socialista? Um Che Guevara com petróleo? Ou trata-se simplesmente de um populista egomaníaco com uma apetência pela ditadura? O que move este homem, amado por uns e odiado por outros? Este homem que demoniza o governo Bush e se comporta como um dervixe, e que ao mesmo tempo despacha os seus superpetroleiros para o Texas e a Flórida e coleta friamente os lucros?
Este é um domingo perfeitamente normal na Venezuela. E assim como ocorre todos os domingos, 52 vezes por ano, o show na Venezuela começa às 11h. É neste momento que o país inteiro se reúne em frente aos aparelhos de televisão, em cozinhas e salas de estar por toda a Venezuela, para assistir a "Aló Presidente". Chávez falando ao vivo na televisão durante cinco, seis e às vezes até sete horas seguidas.
No programa, o presidente se encontra com pessoas, em um estúdio improvisado ou em um mercado aberto, em uma grande cidade ou em uma vila rural. Ele responde aos comentários da multidão e responde às perguntas dos cidadãos que telefonam ao programa, fazendo monólogos nos intervalos. Ele explica a situação global, fala sobre os seus sonhos e dá opiniões sobre problemas sexuais. Às vezes ele chega até mesmo a resolver brigas conjugais em frente à câmera. É a TV Chávez, freqüentemente banal, ocasionalmente engraçada, mas sempre um espetáculo impressionante, protagonizado por um político que adora contar uma boa história e que é capaz de estabelecer um vínculo direto, embora ocasionalmente confuso, com o povo. Seria extremamente difícil imaginar George W. Bush dirigindo o mesmo tipo de programa, e, aliás, tampouco o presidente alemão Horst Köhler.
A pequena cidade de El Tigre é o palco do show de hoje. Chávez usa uma boina vermelha de pára-quedista militar, uma camisa vermelha sobre uma camiseta também vermelha, calça jeans desbotada, e traz um amplo sorriso na sua face de pele escura. Os seus traços são tão distintos que parecem ter sido talhados a facão. A roupa parece sugerir que o presidente não é um daqueles burocratas afetados que vivem enfiados em escritórios com ar-condicionado, e tampouco um dos grandes latifundiários que só pensam neles próprios, nas suas mansões luxuosas e nas Ferraris velozes. Ao contrário, a indumentária parece atestar que Chávez é um membro do povo.
Com as câmeras filmando, Chávez caminha por um dos supermercados subsidiados que vendem alimentos básicos, e que o governo instalou nas favelas e nos distritos mais pobres do país. "Leite, farinha de trigo, milho, tudo baratíssimo", anuncia o presidente triunfalmente, segurando um pacote de café sob o nariz do convidado de honra do dia. "Veja", diz ele, "um produto venezuelano. Nós chegamos até a imprimir na embalagem o primeiro parágrafo da nossa constituição". O convidado, Daniel Ortega, banhado em suor e parecendo um pouco confuso, mostra o pacote de café à câmera. Mas Ortega faz uma cara amigável frente ao jogo um pouco estranho do seu anfitrião. Afinal, segundo se diz, Chávez está financiando a sua campanha eleitoral. O ex-presidente nicaragüense esquerdista e líder dos sandinistas pretende retornar ao poder em novembro próximo.
Chávez se apressa, passando por uma barragem de beijos e uma saraivada de palavras. Ele abraça uma moça formada em uma universidade, que mora em um dos bairros pobres, uma mulher que deve o seu sucesso às bolsas fornecidas pelo governo de Chávez. Ele elogia Jesus como revolucionário social ("A cada dia me sinto mais próximo ao cristianismo"), Lênin como político ("Ele colocou ordem nas coisas"), Cervantes como homem de letras ("Se os cães estão latindo para nós, é porque estamos galopando", diz ele, citando o escritor espanhol) e, finalmente, termina com a sua figura histórica favorita, Simón Bolívar, nascido em Caracas e "libertador da América do Sul".
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*Publicado por Nezimar Borges
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