Um Che Guevara com petróleo-Parte 2
Poder incontestado
Assim como Bolívar uniu uma grande parte do continente contra os ocupantes espanhóis por volta de 1820, Chávez deseja criar o mesmo tipo de unidade contra aquilo que chama de "novas forças de ocupação ameaçadoras de Washington". Ele conseguiu mudar o nome oficial do seu país para "República Bolivariana de Venezuela". Mas isso não é o suficiente para Chávez, que deseja transformar toda a América Latina em um reino antiamericano a la Bolívar.
O seu humor neste domingo em El Tigre parece quase suave se comparado a uma performance recente, quando Chávez, praticamente cuspindo de fúria, repreendeu um dos seus ministros em frente a uma câmera que registrou a cena ao vivo. Mas neste dia em El Tigre os seus comentários contra o capitalismo desumano e o demônio norte-americano parecem quase mecânicos. Por volta da quarta hora do programa, ele se dedicou completamente ao seu papel de benfeitor. Toda vez que ele promete algo a uma pessoa que telefona, a platéia aplaude. "O quê? Você não conta com água potável na sua comunidade? Isso é impossível. Bem, nós garantiremos que esta situação mude. Agora, ouça, senhor ministro das Finanças...". Ele age como um empreendedor cujo objetivo principal na vida é gastar dinheiro com o seu povo.
Quando "Aló Presidente" chega ao fim, os telespectadores estão pelo menos tão cansados quanto o astro. Como os principais partidos de oposição boicotaram as últimas eleições, não existe um só membro do parlamento que não seja aliado próximo de Chávez. O presidente sabe que não precisa temer qualquer crítica vinda daquele setor. Os principais jornais da Venezuela, o "El Universal" e o "El Nacional", continuam a fazer críticas duras ao presidente, o que é uma prova de que o país está longe de ser uma ditadura da opinião no estilo cubano. Mas Chávez pouco se interessa por esses bastiões da classe alta. O seu instrumento de dominação é a televisão, e é por meio da TV que ele controla o país - com o seu show de personalidade e com uma lei de mídia que prescreve a "responsabilidade social", e que pode se descambar para a censura a qualquer momento.
O presidente conta com poucos conselheiros, mas o seu círculo mais amplo inclui três alemães, todos eles esquerdistas rígidos: Carolus Wimmer, o delegado do país para o parlamento latino-americano e um veterano do movimento político de 1968, o vice-ministro do Petróleo, Bernard Mommer, e Heinz Dieterich, um ideólogo anticapitalista que mora no México. O círculo de pessoas mais próximas a Chávez inclui dois amigos pessoais, com os quais ele se reúne "informalmente", mas com freqüência: o seu camarada de lutas, o prefeito de Caracas, Juan Barreto, e o seu amigo íntimo, o psiquiatra Edmundo Chirinos.
Os seus inimigos são homens que estão formando um bloco anti-Chávez para as eleições de dezembro. O slogan desafiador destes indivíduos é: "Este país só tem um futuro conosco". Qualquer um que deseje julgar Hugo Chávez precisa conhecer ambos os lados.
Uma terra de contrastes
A Venezuela é muitas coisas. É o país das vastas planícies centrais Llanos, achatadas como panquecas, com as suas fazendas de gado. É a região tropical quente e úmida ao longo do Rio Orenoco, na qual fica a cachoeira Salto Angel (a mais alta do mundo) e manguezais repletos de fontes borbulhantes de petróleo. É a Isla de Margarita, com as suas praias magníficas e as suas lojas de produtos importados isentos de tarifas, na qual o jet set internacional anda lado a lado com a elite venezuelana (de fato, o local é tão cosmopolita que é quase irreconhecível como parte do território venezuelano - de uma forma tão acentuada que é apelidada de "Terra do Chivas" e não de "Terra do Chávez"). E é o Lago Maracaibo, com as suas pesadas torres de perfuração escurecendo o horizonte, como se fossem uma nuvem de gafanhotos caída sobre a terra.
Mas, acima de tudo, a Venezuela é a Grande Caracas, a capital, onde residem seis milhões de pessoas - quase um quarto da população do país - morando em barracos miseráveis amontoados nos morros, em mansões luxuosas no vale ou nos altos prédios que ficam entre esses extremos. A cidade, com as suas auto-estradas de oito pistas, McDonalds, Pizza Huts e Starbucks Cafés, lembra mais Los Angeles do que Lima. E é uma cidade praticamente feita para os motoristas, com quase nenhuma calçada e com os preços de combustíveis mais baratos do mundo, onde um litro de gasolina custa 80 bolívares (cerca de quatro centavos de dólar, ou 8,5 centavos de real). Apesar do sol quase constante, dificilmente alguém dirige um conversível, e ninguém nunca abaixa o vidro do carro, nem mesmo nos congestionamentos de trânsito. Caracas é considerada a capital do crime violento, perdendo atualmente apenas para Bagdá na lista das cidades mais perigosas do mundo. Não é raro que sejam registrados de 40 a 50 assassinatos em um único final de semana.
A maioria dos homicídios ocorre nos bairros pobres, locais em que Caracas se parece com uma lata de lixo virada, e nos quais os atos sangrentos de vingança são cometidos nas ruas estreitas, escuras e enlameadas das favelas da cidade. Mas a área do centro da capital também é considerada especialmente perigosa, juntamente com a sua romântica praça histórica, batizada, como quase todo marco histórico do país, de Simón Bolívar. Quando as sombras cinzentas do entardecer caem como uma mortalha sobre as velhas paredes do centro de Caracas, as gangues armadas tomam conta das ruas.
Em frente à prefeitura na praça principal, com a sua estátua de um Bolívar a cavalo, mulheres idosas vendem retratos de santos e de Chávez. Às vezes elas vendem combinações dos dois - uma imagem de um deus-presidente, rodeado de anjos, distribuindo maná ao povo - Santo Hugo das Panelas. Do seu escritório no primeiro andar da prefeitura, o prefeito Juan Barreto, 47, tem dificuldade de falar devido ao ruído do tráfego lá fora. A secretária sentada próxima à mesa dele, uma mulher de uma beleza enorme, assim como qualquer uma das numerosas vencedoras venezuelanas dos concursos de Miss Universo, parece estar a ponto de explodir de tensão. Ela controla a agenda do prefeito, cujos compromissos estão sempre uma hora atrasados. "Como sempre", suspira ela.
Ressuscitando um passado revolucionário
Barreto caminha até a sala. Um ex-romancista, ele é um homem de grandes idéias, e não alguém capacitado para lidar com os problemas cotidianos de gerenciamento de uma cidade. No entanto, ele é alguém capaz de citar sem esforço alguns dos grandes filósofos - Spinoza, Marcuse, Adorno. E quais foram as suas mais recentes iniciativas políticas? O prefeito barbudo, com uma graça semelhante à de um urso de pelúcia, acaba de se juntar ao presidente na criação de um CD para convidados do Estado, e que também será distribuído gratuitamente nos bairros pobres. O título é "Sonidas de Caracas", uma coletânea de músicas alegres, frívolas e até mesmo algumas sentimentais. Músicas que fortalecem a unidade nacional. "Onde existe egoísmo, a solidariedade é necessária", afirma o prefeito. "Isso, pelo menos, é o que eles dizem na Escola de Frankfurt".
Barreto, que gosta especialmente de falar sobre o seu amigo Chávez, põe para fora da sala qualquer um que possa interrompê-lo durante as próximas horas. Todos, com exceção de uma menina de quatro anos, a filha da secretária, que está ocupada em fazer aviõezinhos de papel com os documentos que estão sobre a mesa. Mas ela também presta atenção nas palavras de Barreto, que ressuscita um passado revolucionário.
Ele conta a história do filho de professores pobres e mestiços de uma aldeia, um garoto que cresceu na sonolenta vila de Sabaneta, em Llanos, a mais de 400 quilômetros de Caracas - em um planeta totalmente diferente. Ele fala sobre o menino Hugo, que, com nove anos de idade, vendia frutas em uma carroça na vila, a fim de ajudar a sustentar os cinco irmãos. E ele fala sobre Hugo, o estudante ambicioso, que só enxergou uma oportunidade de vencer na sociedade "branca" dominada pelos descendentes dos colonizadores: uma carreira de oficial das forças armadas.
Chávez adorava o uniforme, e sonhava ser jogador de beisebol. Mas ele não estava cego para os gritantes contrastes sociais na Venezuela. Quando os direitistas, ajudados pela CIA, derrubaram o governo do presidente socialista Salvador Allende, em Santiago do Chile, em 1973, Chávez deu início à sua educação política, lendo Marx e Lênin, e devorando cada palavra que Bolívar escreveu. Ele avançou rapidamente na hierarquia militar, a sua principal carreira. Mas Chávez também desenvolveu uma segunda carreira, ao criar um movimento clandestino dentro do corpo de oficiais militares.
No final da década de 1960, a Venezuela ainda era o maior exportador de petróleo do mundo, sendo um dos membros fundadores da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). O presidente Carlos Andrés Pérez nacionalizou a indústria do petróleo em 1976, e por um momento teve-se a impressão de que o padrão de vida de todos os venezuelanos estava preste a melhorar drasticamente. Mas Pérez distribuiu os rendimentos obtidos com as exportações entre os seus amigos, permitindo que uma elite pequena, arrogante e ignorante se locupletasse com o dinheiro do petróleo. O despertar brusco ocorreu em meados da década de 1980, quando o preço do petróleo sofreu uma queda de quase 70%, e a Venezuela mergulhou em uma falência estatal. Os partidos políticos ficaram desacreditados, e os aumentos dos preços dos alimentos básicos fizeram com que os venezuelanos saíssem às ruas, onde batalhas sangrentas ameaçavam fragmentar a nação.
Em 1992, Chávez e seus companheiros de batalha tentaram derrubar o governo. Foi uma rebelião mal planejada, mas o seu líder transformou rapidamente a derrota em um triunfo pessoal. Preso pelas autoridades, Chávez, falando ao vivo em frente às câmeras, assumiu total responsabilidade pelo incidente e, em um gesto dramático, pediu aos seus companheiros rebeldes que evitassem mais derramamento de sangue. "Nós falhamos, infelizmente", declarou o homem telegênico. "Falhamos - por ora".
Chávez foi condenado à prisão, mas teve permissão para receber visitantes enquanto esteve encarcerado. Para setores do exército e, acima de tudo, da população pobre, ele se transformou em um facho messiânico de esperança.
Após a sua libertação, em 1994, o revolucionário se encontrou pela primeira vez com Fidel Castro, buscando inspiração no ditador cubano. Embora impressionado pelas campanhas nacionais de saúde de Castro, ele não tinha interesse em simplesmente imitar o rigoroso socialismo de Estado de Havana.
Chávez preferiu deixar que o povo decidisse se ele voltaria à política. Em 1998, após obter mais de 56% dos votos em uma eleição livre, ele se mudou para o palácio presidencial Miraflores, tornando-se o mais jovem presidente na história do país. Ele criou poderes especiais para si, de forma que pudesse promover a sua "revolução social", e convenceu o parlamento a adotar uma constituição favorável ao presidente. Em abril de 2002, Chávez sobreviveu a uma tentativa de golpe organizada - "provavelmente com o auxílio da CIA", segundo a revista norte-americana "Newsweek" - pelas elites, que temiam perder os últimos privilégios que lhes restaram. Apenas dois dias depois, Chávez, com o apoio de soldados leais, reassumiu a presidência.
Em agosto de 2004, o futuro de Chávez ficou mais uma vez ameaçado, quando ele viu-se obrigado a realizar um plebiscito, depois que uma greve paralisou a indústria petrolífera do país. Chávez venceu o referendo com mais de 59% dos votos. A oposição alegou que houve fraude nas eleições, mas observadores, incluindo o ex-presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter, afirmaram que o pleito foi válido. "O meu amigo é e continua sendo popular junto às massas", afirma orgulhosamente o prefeito Barreto. "Isso porque ele presta atenção às preocupações dos mais pobres".
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*Publicado por Nezimar Borges
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