Um Che Guevara com Petróleo-Parte 3
Investimentos sociais de US$ 10 bilhões
"Misión Sucre", em uma zona pobre de Caracas, uma das centenas de instalações modelo do gênero espalhadas pelo país, e administradas pelo governo, é um agregado de estruturas construídas apressadamente, cercadas por gigantescos murais com o retrato de Chávez pintado em estilo ingênuo, imagens de escravos rompendo os seus grilhões e o slogan "Venceremos".
Médicos cubanos trazidos da ilha caribenha para cá em troca de petróleo barato atendem crianças chorosas em uma pequena clínica médica. Em um prédio escolar simples, adultos escrevem letras estranhas em um quadro negro.
Aqueles que participam da campanha de alfabetização recebem cupons para adquirirem alimentos nos mercados subsidiados. Trabalhadoras fazem sandálias em uma pequena fábrica de sapatos, enquanto outras costuram camisetas vermelhas em um grande prédio.
Pôsteres de Chávez são colados a algumas das máquinas modernas. "Afinal de contas, ele nos deu as máquinas", explica Amalia, uma costureira. "No passado, ninguém levava a sério a vida do povo nas áreas pobres. Agora nós temos Chávez. Ele veio de baixo. Ele está vivendo o nosso sonho". A fábrica, uma cooperativa, vende as camisetas por US$ 3 a unidade para a companhia de petróleo, cuja diretoria consiste exclusivamente de apoiadores de Chávez. A cooperativa não precisa se preocupar com competição, ainda que a qualidade dos trabalhos fique abaixo da média. As vendas são garantidas, e os rendimentos são distribuídos igualmente entre os trabalhadores.
Mas esse paraíso dos trabalhadores também tem as suas limitações. Rosario reclama de que, mais uma vez, só um pouco mais da metade dos funcionários compareceu hoje ao trabalho. "Tenho que enviar até três advertências por escrito aos faltosos antes de poder sequer promover cortes nos seus salários", reclama Rosario, que foi eleita para o cargo de gerente. E ela não pode também aplicar sanções a costureiras durante o primeiro ano destas no emprego. Rosario, visivelmente frustrada, escreveu a seguinte mensagem na parede: "A companhia pertence a nós. Isso significa que quem quer que não faça o seu trabalho é um oportunista". Mas as suas palavras não tiveram efeito. Segundo ela, a única advertência que funciona é aquela feita pelo comissário político de Chávez no bairro. Aqueles que estão no topo não querem problemas com o seu modelo de operação empresarial.
O presidente investiu pelo menos US$ 10 bilhões em programas sociais nos últimos dois anos. Que parcela desse dinheiro se desvaneceu como fumaça, e quanto foi desperdiçado em programas mal-sucedidos? E alguns críticos indagam se as misiones, esses oásis de um mundo mais justo que desafiam as favelas, não passam de mais imposturas no Caribe. Isso, pelo menos, é o que alega a oposição, chamando os programas de Chávez de exemplos de política ingênua de Robin Hood sem qualquer durabilidade. Para comprovar tais alegações, eles citam estatísticas que demonstrariam que o abismo entre ricos e pobres continuou tão vasto como nunca durante os sete anos que Chávez esteve no poder. Aos seus olhos, o presidente estaria mais para embusteiro do que para salvador da pátria.
Uma oposição fragmentada
A maioria dos oponentes de Chávez é composta de ricos proprietários de negócios. Entre eles está um esquivo neoliberal chamado Julio Borges, 36, ex-político e ex-guerrilheiro; o editor Teodoro Petkoff, 74, que subitamente se apresenta como um homem de centro; e o idoso e ilustre juiz Enrique Tejera Pais, 85, que passa os seus dias na sua fazenda opulenta ou no seu escritório no centro da cidade. É um conjunto lamentável, no qual o membro mais velho é a única força intelectual significativa.
Tejera nega veementemente que os programas sociais do presidente sejam a abordagem correta. Ele é fluente na linguagem do Banco Mundial, apesar do fato de os conceitos neoliberais de Washington terem fracassado na América Latina, tornando os pobres ainda mais pobres. Segundo ele, o padrão de vida na Venezuela só pode ser radicalmente melhorado com o fortalecimento da iniciativa privada. Tejera acrescenta que, embora a economia tenha crescido mais de 9% no ano passado, os investimentos privados só aumentaram 3% nos últimos quatro anos. De acordo com ele, Chávez assusta os investidores com as suas constantes novas regulamentações. "Se o preço do petróleo cair apenas 25%, ele estará acabado em pouco tempo - e o país ficará arruinado".
Tejera alega que Chávez retira dinheiro da companhia estatal de petróleo quando bem entende, diz que o presidente está criando um exército privado com a sua milícia particular e que ele recentemente fechou um acordo ridículo com os russos para a aquisição de helicópteros de combate e de 100 mil fuzis Kalashnikov. Segundo Tejera, Chávez não mede esforços no sentido de fomentar o medo de uma invasão, fazendo, desta forma, com que o povo se una em torno dele.
"Às vezes Chávez me dá a impressão de ser esperto", afirma Tejera, que só deve conseguir uns poucos votos na eleição presidencial de 3 de dezembro. "E às vezes eu acho que ele é irracional, um sonhador. De fato, este homem provavelmente deveria estar no divã de um psicanalista".
Chávez e Bolívar
O doutor Edmundo Chirinos, 70, o psiquiatra e grande amigo de Chávez, tem uma clínica em um dos melhores bairros de Caracas. A sua sala de espera é decorada com um pôster de Sigmund Freud, com globo dourado brilhante e com uma cascata que cai sobre uma selva artificial peculiar. Dois pacientes estão entregues a um cochilo induzido por medicações, enquanto um terceiro grita, com uma regularidade terrível: "Graças aos céus! Que Deus esteja conosco!".
O diretor da Psicológica Clínica é um homem que se veste com roupas caras. Ele transmite a impressão de que cada célula do seu ser pertence à classe alta, mas os pôsteres na parede do seu consultório contam uma história diferente, apresentando-o como um intruso no universo das classes dominantes, e como o candidato à presidência em 1988 pelo Partido Comunista.
"Em vez de mim, foi Hugo que chegou lá, mas eu o ajudei sempre que pude", afirma Chirinos. "Ele ganhou, e a situação do nosso país está melhor, apesar de algumas deficiências". Chirinos tratou Chávez? "Ele foi meu paciente e se tornou meu amigo, e ainda nos vemos quase toda semana". Chirinos diz que, evidentemente, não pode divulgar qualquer informação profissional, mas revela que o presidente e a sua primeira mulher tentaram salvar o casamento durante várias sessões. "Muitas lágrimas foram derramadas neste consultório, mas sem resultado", conta ele. E, a seguir, o médico passa a fazer um relato detalhado sobre a afinidade especial que Chávez tem por Bolívar.
Será que Chávez realmente se vê como uma reencarnação do grande libertador, que, desapontado com o povo latino-americano, se transformou em um autocrata nos seus últimos anos de vida? Seria esse relacionamento, essa simpatia espiritual, uma obsessão? Afinal, observadores afirmam que o presidente conversa rotineiramente com um busto de Bolívar.
"No meu universo profissional, a obsessão é uma categoria. Prefiro não usar tais termos", frisa o psiquiatra. "Mas Chávez se identifica integralmente com Bolívar e com os seus sonhos grandiosos. Não existe nenhuma jogada estratégica ou simulação a esse respeito. Até mesmo as derrotas, como a que ocorreu no Peru - onde Chávez não apoiou o candidato social-democrata vitorioso, Alan García, e sim o ultra-esquerdista Ollanta Humala - são para ele apenas contratempos temporários".
E quanto ao seu papel como o símbolo da esquerda e um oponente da globalização, como se fosse um novo Che? "Chávez gosta desse papel, e ele escolheu as coisas por conta própria - assim como todo estadista importante da história. Isso está evidente na sua surpreendente energia, que lhe permite trabalhar por noites a fio. Ele é um homem que tem uma missão, e estaria certamente preparado para morrer como um mártir caso as coisas chegassem a esse ponto".
Para demonstrar os paralelos com Simón Bolívar, o psiquiatra cita o trabalho de um colega que coletou tudo que foi escrito sobre a personalidade do herói nacional do país. Ele lê em voz alta: "Honesto, um comunicador talentoso e que não é receptivo para com a corrupção. Alguém que preferia buscar sonhos difíceis a lidar com as duras realidades da vida - isso também se aplica a Hugo".
O relato do perfil psicológico de Bolívar prossegue. "Confiante no seu poder a ponto de ser manipulador, às vezes impiedoso e excessivamente focado em sim mesmo. Também enxergo paralelos nisso". O psiquiatra finalmente resume o que pensa com relação ao assunto: "Vejo dois homens que se recusam a se acovardar". Mas ele acrescenta que Chávez conta com um conceito político esquerdista bem mais pronunciado, que se desenvolveu em um sistema independente de governo. "Como é que eu poderia chamar esse sistema...?". Chirinos busca a expressão correta.
Narcisismo-leninismo, quem sabe?
Chirinos não está certo de que gostou da expressão. Mas ele oferece uma opinião profissional. "O termo narcisismo descreve uma doença - e Hugo Chávez certamente não é doente, no sentido clínico".
Há um som suave e sussurrante vindo da pequena cachoeira na sala de tratamento do psiquiatra. Música suave - "My Way", de Frank Sinatra - que sai de autofalantes ocultos. Tudo parece ter sido arranjado no sentido de promover a calma.
Chirinos se despede. "Passei muito tempo refletindo sobre qual político atual Hugo Chávez poderia lembrar. Esse sentido de missão, essa certeza que dissipa todas as contradições, essa linguagem bíblica com a sua divisão entre Deus e Satanás, o bem absoluto e o mal sem limites. Só sou capaz de pensar em um homem: George W. Bush".
*Publicado por Nezimar Borges
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