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Ex-aliado de Chávez reacende temor de golpe de Estado

Local: Caracas (Venezuela)
Fonte: Claudia Jardim,
Link: http://www.brasildefato.com.br/v01/agencia

VENEZUELA Antigo ministro da Defesa surpreende venezuelanos, critica reforma constitucional e conclama militares a defenderem a “legalidade”

O ANÚNCIO do general reformado e ex-ministro da Defesa Raúl Isaías Baduel surpreendeu os venezuelanos. O militar abandonou a chamada revolução bolivariana. Não é qualquer figura, mas sim um dos principais atores no processo de reestituição da ordem Constitucional e do regresso de Hugo Chávez ao poder durante o falido golpe de 2002,

Baduel veio a público no dia 5 conclamar o povo contra a reforma constitucional defendida por Chávez, alardeando que as mudanças vão consolidar “ um golpe de Estado”. Para o ex-ministro da Defesa, as medidas em debate atentam contra “os direitos cidadãos” e concentram poderes nas mãos do poder Executivo e Legislativo.

A impactante declaração de Baduel, no entanto, não foi imprevista. Um dia antes, Chávez já havia antecipado o anúncio. “Lamento a atitude de algumas pessoas que formaram parte do governo e que, agora, saltarão o muro”, disse, diante de centenas de milhares de pessoas que tomaram Caracas. Em um discurso inflamado, o presidente venezuelano diagnosticou que haverá baixas na medida em que o processo revolucionário se aprofunda, acrescentando que isso “fortalecerá sua força física, moral e ideológica”.

A saída de um dos principais nomes da Força Armada da base de apoio do chavismo se insere no contexto de aprofundamento da polarização na Venezuela. Com a provável aprovação da reforma constitucional, que será submetida a referendo em 2 de dezembro, o processo de transição que estaria sofrendo o Estado tende a conhecer seu fim.

A revolução bolivariana – a partir da qual se pretende construir um Estado socialista – assumirá uma nova fase no próximo mês, em que a principal característica colocará a prova os atuais defensores da revolução. Até onde estarão dispostos a chegar com o socialismo venezuelano?

Pegar em armas

Baduel disse que o governo deveria explicar que tipo de socialismo seria aplicado na Venezuela, já que poderia ir desde o instaurado no Camboja ou na União Soviética até o de certos países europeus. “Temos que exigir que nos diga claramente, que não minta com um suposto socialismo a la venezuelana”, questionou. O exministro convocou o povo venezuelano a votar contra a reforma e chamou “seus companheiros de armas” a defender a Constituição.

Na opinião do general de divisão reformado Alberto Müller Rojas, a mensagem de Baduel é dirigida diretamente aos oficiais da Força Armada e tem como objetivo provocar uma rebelião. “Quando fala que se trata de um golpe de Estado, está convocando os oficiais a defender a ordem constitucional”, afirma Rojas, em entrevista ao Brasil de Fato.

Müller Rojas, que tem figurado como uma das vozes críticas dentro do governo, havia antecipado a crise atual. O general de divisão reformado se confrontou indiretamente com Baduel e o próprio presidente ao advertir, no mês de junho, que o ex-ministro de Defesa liderava uma corrente conservadora na Força Armada, a qual acredita em um chavismo sem Chávez. “Baduel está buscando protagonismo político e pretende se projetar como um líder alternativo à Chávez”, analisa Müller Rojas.

Apunhalada e traição

Em um programa de televisão, Chávez qualifi cou Baduel como “traidor” e admitiu que o Alto Comando da Força Armada Nacional (FAN) se reuniu para avaliar as declarações do general reformado. Ainda não se sabe se as declarações do ex-ministro podem gerar alguma conseqüência mais grave no interior da FAN.

O analista político Alberto Garrido avalia que Baduel deve estar apoiado por um grupo de militares. “A dúvida é se são militares na ativa ou reformados. Dependendo disso, o panorama pode mudar”, afirma. O general reformado chegou à coletiva de imprensa, quando anunciou sua posição, acompanhado de alguns oficiais, o que gera ainda mais temor sobre a possibilidade de uma divisão entre setores armados.

É bem verdade que Chávez tende a estar melhor protegido do que em 2002, quando a divisão no interior da FAN levou a seu derrocamento, por 48 horas. Ao regressar ao poder, o presidente venezuelano “limpou” dos cargos de mando todos os generais opositores. Os que ainda foram mantidos na Força Armada estão à frente de cargos burocráticos, sem a possibilidade de ascender ao corpo operativo de Defesa, informou ao Brasil de Fato uma fonte do governo.

Chávez garante que não há possibilidade de sucesso de um golpe de Estado. “Estou completamente seguro de que não há dentro da Força Armada nenhuma corrente que tenha a força necessária capaz de dar um golpe de Estado exitoso”. No entanto, Müller Rojas não descarta essa possibilidade. O general de divisão reformado acredita que uma rebelião é difícil, mas não impossível. Para ele, conforme a processo revolucionário for se aprofundando, mais dissidentes aparecerão, dentro e fora do círculo de seus companheiros de armas. “São necessárias mudanças na Força Armada assim como em todo os setores da sociedade venezuelana. Muitos não aceitarão as mudanças. O socialismo não é unanimidade, mas muitos o apoiamos”, analisa o general Müller Rojas.

Principais propostas da reforma constitucional – Redução da jornada de trabalho de oito para seis horas diárias; – Fim da autonomia do Banco Central – Criação do Poder Popular, que será incluído na escala dos tradicionais poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) – Independência dos Conselhos Comunais da administração pública, seja ela prefeituras ou governos estaduais – Reeleição irrestrita do presidente e mandato de sete anos – Proibição e eliminação dos latifúndios

*Publicado por Nezimar Borges

 

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