A cassação dos Capiberibe
01/10/2005
O casal João e Janete Capiberibe acusa
José Sarney de ter armado a cassação de seus mandatos de senador e
deputada federal
Por Déborah Vasconcellos - redacao@fazendomedia.com
O PMDB, representado pelo senador Gilvam Borges, aliado
político de um dos caciques do partido, o ex-presidente e também
senador, José Sarney, entrou com um processo no Tribunal Superior
Eleitoral (TSE) para a cassação de mandato do casal João e Janete
Capiberibe (ambos do PSB do Amapá). Gilvam perdeu para João
Capiberibe nas eleições ao Senado. O processo foi aberto no início
de 2004 com acusação de compra de votos.
Como prova, foi apresentada uma gravação em que duas mulheres
diziam ter recebido R$ 26,00 para votar em João e Janete nas
eleições de 2002. Depois, em depoimento à Polícia Federal, elas
afirmaram ter recebido dinheiro, sim, mas para depor contra o
casal e admitiram tentar extorquir João Capiberibe dizendo que
tirariam as acusações que fizeram.
Foram encontrados, também, R$ 15.495,00 em dinheiro, além de
uma lista de eleitores em uma operação de busca e apreensão na
casa de militantes do PSB em Macapá. O casal alegou que a lista se
referia ao cadastro de militantes que atuariam na
boca-de-urna.
Os advogados do casal entraram com recurso extraordinário no
Supremo Tribunal Federal (STF) requerendo uma liminar para
garantir a permanência de João e Janete no Congresso Nacional, o
que lhes foi concedido. O Tribunal Regional Eleitoral (TRE) do
Amapá inocentou o casal e não houve denúncia do Ministério Público
Estadual, que acompanhou todo o processo.
Ainda assim, no último dia 22 de setembro, o STF decidiu
arquivar a liminar e os dois tiveram seus mandatos cassados.
Gilvam Borges entrou no lugar de João e Evandro Milhomem (PCdoB)
tomou o lugar de Janete.
O mesmo tribunal que condenou Janete e João Capiberibe absolveu
Joaquim Roriz, governador de Brasília, muito amigo de Sarney e
acusado de gastar R$ 46 milhões em compra de votos.
Como "último suspiro", João Capiberibe, um dia depois de
confirmada a cassação de seu mandato, mostrou sua revolta andando
pelo Congresso com uma fita adesiva colada na boca. Para responder
aos questionamentos dos jornalistas, João escreveu: "Na luta
política, se ganha e se perde. Nesse caso, o vitorioso é o senador
José Sarney, que ampliou a bancada do PMDB com mais um senador. É
ele quem tem o que comemorar e muito o que falar".
Já Janete Capiberibe acusou, no plenário da Câmara, o senador
José Sarney de ser o articulador disso tudo e lamentando que o
nome e a história que os Capiberibe construíram estejam sendo
colocados junto à crise política atual, sendo misturados a
verdadeiros corruptos.
João e Janete se conheceram em Macapá e possuem um histórico
político bastante interessante: fugiram do país por causa de seus
ideais revolucionários contrários ao governo militar, viajando
Amazônia adentro, conhecendo os problemas dos habitantes da
floresta e a importância da mata. Ficaram exilados por dez anos,
passando pelo Chile, Bolívia, Canadá e África. Quando voltaram ao
Amapá, começaram a vida política filiados ao Partido Socialista
Brasileiro (PSB). Janete Capiberibe se transformou em deputada
federal, uma das dez mais votadas do Brasil. João Capiberibe foi
governador do Amapá por duas vezes e estava em seu primeiro
mandato como senador. Sempre se colocaram contrários a José Sarney
- que, apesar de maranhense, tem como domicílio eleitoral o Amapá
- e à política adotada por ele e pelo partido que preside.
Ambos são conhecidos por projetos de desenvolvimento
sustentável e de questões ligadas ao meio ambiente. Como a
cassação partiu de uma decisão judicial e não do Congresso, o
casal não perde os direitos políticos, podendo se candidatar nas
próximas eleições.
Recebidos por inúmeros militantes, simpatizantes e eleitores no
aeroporto de Macapá depois de se retirarem do Congresso, João e
Janete anunciaram que a vida política continua e que irão espalhar
urnas no Amapá para que a população vote o destino político dos
dois: se devem se candidatar ao Senado ou ao governo nas próximas
eleições. João admite ter uma vontade particular de disputar o
Senado com seu desafeto, José Sarney.
|