Cassaram a vontade popular
por João Alberto Capiberibe
Fonte: Revista Caros Amigos
Desde as eleições em 2002, eu e minha companheira
Janete Capiberibe, deputada federal mais votada da história do
Amapá, lutamos pelos mandatos que conquistamos nas urnas. Os
leitores da Caros Amigos têm acompanhado nossa luta, por isso
estamos aqui para anunciar o desfecho dessa grande armação, montada
por adversários inescrupulosos que querem nos banir da política.
Eles hoje comemoram a cassação dos nossos mandatos ratificada pelo
Supremo Tribunal Federal no dia 22 de setembro.
Assumirá a
vaga deixada por mim no Senado Gilvam Borges (PMDB), abastado
proprietário de boa parte da mídia eletrônica local e afilhado
político do senador José Sarney, o verdadeiro arquiteto dessa trama.
Desde o começo do processo, Sarney colocou à disposição de Gilvam
uma advogada paga pelo Senado Federal, e, nos últimos dias, vinha
anunciando a seus correligionários no Amapá que até o final de
setembro deste ano estaríamos cassados.
O ex-presidente
Sarney é nosso adversário porque somos os únicos no Estado a
questionar seus meios de fazer política e a tentar refrear seus
ímpetos de transformar o Amapá em mais um de seus feudos. Mas
aprendemos com isso que ter Sarney como adversário é sinônimo de
resolver questões eleitorais sempre nos tribunais. Foi assim em
1998, quando tive o registro de minha candidatura ao governo cassado
pelo TRE do Amapá, decisão reformada pelo TSE. É assim agora, quando
cassam a vontade do povo. E, se não houver um freio, deve voltar a
ser assim no futuro.
A trama em que fomos envolvidos dessa
vez iniciou-se no dia 2 de outubro de 2002, quando a Polícia Federal
e o Ministério Público Federal invadiram uma casa onde era preparada
uma boca de urna do PSB, meu partido. Vale lembrar que boca de urna,
apesar de ser proibida pela Lei Eleitoral, não gera cassação de
mandato.
Nessa operação, o Ministério Público Federal não
viu evidências suficientes para apresentar uma denúncia de compra de
votos, mas o PMDB do Amapá viu no fato uma possibilidade de
conseguir um mandato no tapetão e prontamente entrou em ação. O
partido procurou por pessoas cujos nomes constavam da lista de boca
de urna encontrada na casa, e ofereceu vantagens para que depusessem
contra nós. Duas supostas testemunhas foram levadas a um cartório e
lavraram escritura pública, mesmo sem saber ler e escrever,
registrando “depoimentos” onde afirmam ter vendido seus votos por 26
reais, pagos a prestação, para votar no candidato do PSB ao governo
do Estado, em mim para o Senado, e em Janete para deputada
federal.
Ainda em 2002, aconteceu o julgamento no TRE, que nos
inocentou. O voto do presidente do TRE do Amapá, desembargador Mário
Gutyev, diz mais sobre a improcedência da denúncia que mil palavras:
“Pronuncio-me pela fragilidade da prova produzida nestes autos com
muita tranqüilidade, com a consciência de um Juiz. E faço este
registro muito à vontade, porque integro o Tribunal de Justiça do
Estado do Amapá, o órgão mais perseguido nos últimos quatro anos do
governo do Sr. João Alberto Rodrigues Capiberibe. Poderia, neste
momento, tirar proveito da minha posição para decidir de forma
contrária. Mas se assim o fizesse não seria digno do cargo que
exerço, não estaria sendo um autêntico Juiz. Estou votando com minha
consciência tranqüila, porque estou demonstrando ao Sr. João Alberto
Rodrigues Capiberibe que na Justiça do Amapá há Juízes”.
Mas
o PMDB recorreu e o processo subiu para o TSE. Às vésperas do
julgamento no TSE, nossos advogados foram procurados pelas
“testemunhas” que afirmavam ter recebido favores para testemunhar e
pediam 20.000 reais para mudar seus depoimentos. Gravamos essa
conversa em vídeo e anexamos ao processo no TSE. Para nosso espanto,
o ministro relator considerou que havíamos coagido as testemunhas e
desconsiderou a prova.
Em artigo recente publicado na Folha de S. Paulo, Josias de Souza faz uma análise
oportuna, comparando o nosso caso com o que envolve o governador e a
vice-governadora do Pará, do PSDB. O jornalista elenca uma série de
provas concretas contra os políticos do PSDB e questiona a diferença
de entendimento no julgamento dos dois casos, que na prática seriam
semelhantes, mas na teoria dos tribunais tiveram desfechos muito
diferentes, e afirma: “O TSE vê duas leis eleitorais”.
Em
Brasília, durante nosso curto mandato apresentamos projetos de lei
que defendem a cidadania, como o Projeto Transparência, um antídoto
à corrupção, que pretende colocar na Internet os gastos detalhados
dos governos federal, estadual e municipal. Esse projeto, aprovado
por unanimidade no plenário do Senado Federal, está prestes a ser
aprovado na Câmara e se tornar lei.
Em decorrência do
processo tivemos nossos mandatos mutilados, mas confesso que não
perdemos a esperança na política. Quando voltamos ao Amapá pela
primeira vez depois do julgamento, no sábado (24/9), fomos recebidos
por uma multidão atônita que pranteava conosco a perda de seus
votos. Na força dessas pessoas está o ânimo necessário para
continuarmos na luta.
João Alberto
Capiberibe, 58 anos, zootécnico, eleito senador pelo PSB-AP
em 2002, foi exilado político, prefeito de Macapá (1989-1993) e
governador do Amapá (1995-2002).
*Publicado por Nezimar Borges
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