A CIA E
CUBA
Mair Pena Neto
Publicada em: 28/06/2007
Costuma-se dizer que os Estados
Unidos são a maior democracia do mundo - o que pode ser verdade
internamente, embora os últimos tempos tenham reduzido as liberdades
asseguradas pela histórica Constituição -, mas será que essa
classificação é apropriada para um país que interfere tanto na vida
dos outros e que na busca por seus objetivos se vale de qualquer
recurso?
A pergunta se renova diante da divulgação de
documentos da CIA, sintomaticamente chamados de “jóias da família”,
que revelam ações autorizadas pelo governo norte-americano de
espionagem de seus próprios cidadãos, de experiências de alteração
do comportamento humano e de tentativas de assassinato de líderes de
outros países que não compartilham do seu entendimento do que é
democracia.
Mais uma vez, a questão se coloca. Um país
incapaz de conviver com diferenças de doutrina política, de costumes
e de religião pode ser chamado de democrático? Um país que se alia a
seus próprios criminosos merece o respeito das demais
nações?
Os documentos revelados da CIA mostram que na
tentativa de matar Fidel Castro, os Estados Unidos negociaram com um
mafioso para fazer o serviço sujo. Contrataram um capanga, como
fazem os piores ruralistas e grileiros. A situação chega às raias do
absurdo. Em primeiro lugar, trata-se de um governo democraticamente
eleito, tratando de liquidar um oponente. Em qualquer tribunal do
mundo, isso é crime. Depois, para efetuá-lo, este governo, legal, se
vale de um criminoso, que deveria estar na cadeia por suas
atividades ilícitas. Torna legal o ilegal, Compactua com o crime, é
cúmplice e co-autor.
Seria como se o governo brasileiro
tivesse problemas com um vizinho e decidisse resolver a questão como
no Velho Oeste. Como não pode dar o tiro, para fingir que respeita
as leis, contrata o maior traficante do país, o Fernandinho
Beira-Mar, por exemplo, para executar o crime.
Com Cuba, os
EUA sempre jogaram sujo. Depois de contratarem o tal mafioso,
treinaram mercenários para derrubar o governo de Fidel Castro na
fracassada invasão da Baía dos Porcos, em 1961. Fidel ainda não
tinha dois anos no poder e teve que enfrentar uma tentativa de
invasão que custou a vida de mais de 100 cubanos e os poucos aviões
que o país possuía.
Frustrada a tentativa, o então presidente
John Kennedy, venerado e pranteado como grande democrata, autorizou
no fim do mesmo ano a Operação Mongoose para “ajudar Cuba a derrubar
o regime comunista”. Cerca de 400 membros da CIA em Washington e
Miami se envolveram na operação, que apesar de todo o aparato não
atingiu seus objetivos. O jornalista Tad Szulc, em “Fidel, um
retrato crítico”, narra que um então diretor da CIA, Richard Helms
reconheceu perante uma comissão do Senado, em 1975, que a pressão
planejada sobre Cuba autorizava assassinar Fidel, embora o
assassinato nunca tenha sido formalmente ordenado.
“A
política naquele tempo era ser ver livre de Castro, e se matá-lo
fosse uma das coisas que tivesse que ser feita, ela estaria de
acordo com o que era esperado”, disse Helms ao Senado
americano.
O líder cubano conta a Ignácio Ramonet, na
“Biografia a duas vozes”, que mais de 600 atentados foram
planejados. O diretor do Le Monde Diplomatique pergunta se os EUA
sempre estiveram por trás desses atentados.
“Desde o primeiro
momento, o governo norte-americano tratou de criar uma imagem
desfavorável da Revolução Cubana. Fizeram grandes campanhas
publicitárias contra nós, grandes tentativas de isolar
Cuba...Romperam as relações diplomáticas em 1960 e adotaram medidas
de bloqueio econômico”, responde Fidel, acrescentando:
Já
haviam feito isso com a Revolução Mexicana na época de Lázaro
Cardenas, quando este nacionalizou o petróleo em 1936; diziam
horrores daquela revolução. Fizeram o mesmo também em 1954, contra a
revolução de Jacobo Arbenz, na Guatemala, porque ele promoveu uma
reforma agrária. Também fizeram uma grande campanha contra Salvador
Allende e suas reformas no Chile, e contra a Revolução Sandinista na
Nicarágua. Fizeram isso com todas as revoluções, e hoje fazem com a
Revolução Bolivariana de Hugo Chávez na Venezuela.
Alguém pode dizer, mas isso é a palavra de Fidel. Será
que dá para duvidar depois do que foi revelado pela CIA?
*Publicado por Nezimar Borges
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