A CIA mostra seu trabalho sujo
Blog do FC Leite Filho-27 de junho de 2007
Muitas pessoas, que não estão obrigadas a ir
a fundo na informação, não levavam a sério as denúncias de que a
CIA, Central Intelligence Agency, o maior centro da arapongagem do
mundo, armou cerca de 200 atentados contra a vida de Fidel Castro e
assassinou líderes políticos, como Parice Lumumba, do Congo, e
outros.
Agora, quando são liberados (o termo em inglês é
declassify) mais de 11 mil páginas de documentos mostrando algumas
das atividades da CIA, entre os anos 1960 e 1970 (o internauta
poderá acessá-los no site http://www.cia.gov/), fica claro o real alcance do
trabalho da agência americana. Pode-se também dar algum crédito às
denúncias do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, de que a CIA está
tentando matá-lo e que os Estados Unidos preparam uma invasão a seu
país.
Muito a propósito , o jornal Folha de S. Paulo , publica em sua edição de hoje
(só para assinantes) reportagem do jornalista Sérgio Dávila,
enfocando a arapongagem da CIA durante o Governo João Goulart
(1961-1963), no Brasil. Segundo o jornal, a CIA tinha o Brasil como
"o maior alvo" do comunismo na América Latina, e o presidente João
Goulart, "um oportunista que ascendeu ao governo com o apoio da
esquerda e tenta, desde então, aumentar seu poder pessoal ao fazer
concessões, alternadamente, à direita é à esquerda".
Já Leonel
Brizola se tornou "o líder demagogo antiamericano" brasileiro, "com
propaganda fortemente financiada por industriais
nacionalistas".
"É nesse contexto que entra o Brasil, um dos
países em que os "dissidentes pró-chineses" são os que mais se
fortalecem dentro dos Partidos Comunistas nacionais, segundo o
texto, escrito em novembro de 1963. É ali que está o "grande,
semilegal e ortodoxo Partido Comunista Brasileiro (PCB), liderado
por Luís Carlos Prestes", que por anos tenta "com algum sucesso"
expandir sua rede de influência.
"Para tanto, afirma a CIA, o
líder usa "uma complexa rede de relações com forças esquerdistas
extremamente diversas e forças nacionalistas". A análise de 172
páginas é intitulada "A Luta Sino-Soviética em Cuba e o Movimento
Comunista na América Latina", e a parte brasileira está num apêndice
sobre a preocupação principal: Cuba.
Depois de citar o
então presidente brasileiro e seu "genro" (na verdade, cunhado)
Brizola, o texto elenca "o deputado federal Antonio Garcia, que
tentou usar a organização dos sargentos militares que liderou para
avançar a causa da esquerda e contra os EUA; Francisco Julião,
advogado que lidera uma liga camponesa em Pernambuco com estreitas
ligações com Castro; Miguel Arraes, novo governador de Pernambuco,
fortemente pró-comunista, mas que aparentemente ainda não é sujeito
à disciplina" do partido.
A vida política brasileira é "bem
complicada", admite o documento, para então citar a ambigüidade
histórica de Goulart em relação ao PCB e depois dizer que Julião e
Prestes visitaram Cuba em 1963, após Fidel cortar a ajuda financeira
que dava e "numa tentativa aparente de coordenar as ações
[brasileiras] com os soviéticos".
"Outro documento ,
"A Igreja Engajada e a Mudança na América Latina", de 60 páginas,
divide a presença e a ação da Igreja Católica no continente entre
"reacionários" e "progressistas". No segundo caso está dom Hélder
Câmara, "provavelmente o mais dramático e amplamente
conhecido".
"Seu forte é fazer publicidade e exigir publicamente
reformas, sem oferecer soluções práticas para os problemas que ele
cita", afirma a CIA, "uma tática que provavelmente afasta mais os
não-alinhados do que os atrairá". O texto cita ainda a TFP
brasileira como uma das organizações reacionárias líderes da América
Latina, "que recebe apoio de empresários interessados em suprimir
influências reformistas na igreja brasileira".
"Visto mais de
quatro décadas depois, os textos menos fazem revelações do que
atestam o óbvio. O que chama mais a atenção é o uso liberal de
adjetivos ao se referir a líderes e personalidades estrangeiras
(chamar o presidente brasileiro de "oportunista" publicamente
criaria um incidente diplomático então), daí o secretismo à época",
conclui a reportagem da Folha.
Veja aqui, em inglês, os documentos liberados
*Publicado por Nezimar Borges
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