A lei que foi um porre
28 de Agosto de 2007
Para acabar com os problemas sociais, os Estados Unidos decidiram banir as
bebidas alcoólicas. Em vigor de 1920 a 1933, a Lei Seca se provou um fracasso
retumbante - e fez a alegria da máfia
Felipe van Deursen
Ex-jogador de beisebol, o reverendo Billy Sunday era um dos religiosos mais
populares dos Estados Unidos. Conhecido por seus eloqüentes discursos, ele
adotou um tom épico naquele 16 de janeiro de 1920. A platéia de 10 mil fiéis, na
cidade de Norfolk, ficou radiante. “O reino das lágrimas acabou. As favelas logo
serão memória. Vamos fazer de nossas prisões fábricas e das cadeias armazéns.
Homens caminharão eretos, mulheres vão sorrir e as crianças darão risadas.”
No mesmo dia, a Constituição americana ganhara sua 18ª emenda, proibindo a
fabricação, o comércio, o transporte, a importação e a exportação de bebidas
alcoólicas. Era a Lei Seca, adotada com o objetivo de salvar o país de problemas
que iam da pobreza à violência. Sunday e muitos outros americanos acreditavam
que todos esses males tinham apenas uma raiz: o álcool.
Válida por 13 anos, a emenda se tornou um dos maiores fracassos legislativos
de todos os tempos. Em vez de acabar com os problemas sociais atribuídos à
bebida, a Lei Seca fez o contrário.
A medida desmoralizou as autoridades e foi um estímulo à corrupção. Cidades
como Chicago e Nova York viram a criminalidade explodir, enquanto a máfia
enriquecia com o contrabando de álcool.
Em todo o país, movimentos contra as bebidas existiam desde o século 19. A
campanha ganhou escala nacional e, em dezembro de 1917, o Congresso aprovou a
18ª emenda. Em pouco mais de um ano, ela foi ratificada pela maioria dos
estados, o que garantiu sua entrada em vigor em 1920. O texto instituía o Ato de
Proibição Nacional, também chamado de Ato de Volstead (homenagem a Andrew
Volstead, deputado que liderou a iniciativa). Era considerada “intoxicante”
qualquer bebida que tivesse mais de 0,5% de álcool (as cervejas mais fracas têm
cerca de 2%).
Mas por que a nação mais poderosa do mundo deu tanta importância para as
bebidas a ponto de proibi-las? Boa parte da resposta parece estar no
protestantismo predominante nos Estados Unidos, que inclui a idéia do “Destino
Manifesto”: os americanos seriam o povo eleito por Deus para guiar o mundo. Para
manter a nação no caminho certo, a sobriedade deveria ser estabelecida por
decreto. “Se a honra do grupo depende de todos, o pecado individual pode
arrastar a todos”, diz Leandro Karnal, professor de História da América da
Universidade Estadual de Campinas.
Apesar de ter o apoio de muitos setores da sociedade, a Lei Seca foi ignorada
por milhões de americanos. Não importava a classe social: quem queria beber - o
que era permitido, mas, em tese, impossibilitado pela lei - dava um
jeitinho.
Muitos iam para o Canadá e voltavam com caminhonetes e lanchas cheias de
bebida. Outros faziam no quintal o próprio uísque. Havia ainda quem se passasse
por padre ou medico para obter litros de vinho sacramental ou de destilados
medicinais (que tinham uso controlado).
Logo essa demanda começaria a ser atendida de forma organizada. Eram os
gângsteres - em sua maioria, imigrantes vindos de países como Itália e Irlanda.
Antes da Lei Seca, esses mafiosos viviam do jogo e da prostituição. Passaram
então a dominar também os milionários negócios com bebidas, corrompendo
policiais, elegendo politicos e matando seus concorrentes.
Em Nova York, o principal mafioso era o siciliano Joseph Bonanno - apontado
como a inspiração de O Poderoso Chefão (livro de Mario Puzo que se tornou um
clássico do cinema). Já Dean O’Banion inundava o norte de Chicago com cerveja e
uísque vindos do Canadá, enquanto Johnny Torrio contratava policiais para
proteger seus interesses no sul da cidade.
Mas nenhum gângster se tornou tão lendário quanto Alphonse Capone. Filho de
napolitanos, ele nasceu em 1899, em Nova York. Conheceu Johnny Torrio aos 14
anos e, com a Lei Seca, passou a auxiliá-lo no contrabando de bebidas em
Chicago.
Quando o rival O’Banion resolveu enfrentá-los, foi morto em sua floricultura.
Em 1925, Torrio se aposentou, deixando Chicago inteira para “Al” Capone, que
expandiu o império illegal para cidades como Saint Louis e Detroit. Apesar de
todos os assassinatos e outros crimes atribuídos a Capone, foi a sonegação de
impostos que o pôs na cadeia.
Em 1931, graças às investigações conduzidas pelo agente fiscal Eliot Ness,
líder dos “Intocáveis” (grupo de agentes que combatia a máfia), Capone passou
cinco anos na penitenciária de Alcatraz, na Califórnia. Morreria em liberdade,
no dia 25 de janeiro de 1947 - apenas cinco dias antes de Andrew Volstead, o
“pai” da Lei Seca.
Grande ressaca
Sob a Lei Seca, os bebedores se encontravam nos
speakeasies. Eram bares clandestinos, muitas vezes subterrâneos, nos quais era
preciso falar baixo (speak easy, em inglês) para não chamar atenção.
O clima da época foi descrito em diversos livros. O mais célebre é O Grande
Gatsby, de 1925, obra-prima do americano F. Scott Fitzgerald. O
personagem-título é um contrabandista de bebidas que promove festas regadas a
coquetéis.
A Lei Seca, aliás, tem tudo a ver com a disseminação de drinques
incrementados. O hábito servia para mascarar o gosto ruim dos destilados
clandestinos - um exemplo é o bloody mary, à base de suco de tomate, que teria
sido criado durante a proibição.
E os destilados não eram ruins só no gosto. Muitos uísques, runs e gins da
época eram feitos de maneira tosca. Alguns continham substâncias tóxicas na
formula - como alvejante, solvente de tinta e formol. A baixa qualidade das
bebidas contribuiu para que os casos de morte por cirrose nos Estados Unidos
praticamente não diminuíssem durante a Lei Seca.
Mas nem todas as mortes relacionadas à bebida tinham a ver com o fígado.
Entre 1920 e 1935, as taxas de assassinato cresceram 30% nos Estados Unidos. Os
americanos, contudo, seguiam suportando a proibição. Afinal, o país vivia uma
época de prosperidade econômica.
A situação mudou com a quebra da Bolsa de Valores de Nova York, em 1929:
indústrias fecharam as portas e famílias perderam todo o dinheiro que tinham.
Começava a Grande Depressão - que deixaria um em cada quatro americanos
desempregado.
A crise foi decisiva para que a Lei Seca acabasse. Seus inimigos começaram a
dizer que legalizar as bebidas criaria empregos, estimularia a economia e
aumentaria a arrecadação de impostos. Em março de 1933, dias depois de assumir a
presidência, Franklin Roosevelt pediu ao Congresso que legalizasse a cerveja.
Foi atendido.
Finalmente, em 5 de dezembro, a Lei Seca se tornou a única emenda da
Constituição americana a ser revogada. O país viveu um clima de Réveillon
antecipado, com fabricantes e bebedores saindo das sombras.
Hoje em dia, ainda há quem ache que a Lei Seca foi uma boa idéia. De fato, o
volume de bebidas ingerido pela população diminuiu: o número de litros consumido
em 1915 (último ano em que houve esse levantamento antes de a lei entrar em
vigor) só seria atingido novamente em 1970.
O problema é que, com a proibição, os americanos mudaram de hábitos. Como a
cerveja era mais difícil de ser feita, eles passaram a preferir destilados, que
contêm muito mais álcool. A Lei Seca fez os Estados Unidos beberem menos, mas
beberem pior. Além disso, transformou os mafiosos em lendas vivas. “Nós tendemos
a romancear homens como Al Capone e seus contemporâneos, mas eles eram tão
violentos quanto os traficantes de drogas de hoje”, afirma a jornalista inglesa
Lauren Carter, autora de Os Gângsteres mais Perversos da História.
Aventuras na História
http://historia.abril.com.br/
*Publicado por Nezimar Borges
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