A macacada da paz e do amor
20 de Agosto de 2007
Um dos primatólogos mais respeitados do mundo. Bonobos fazem sexo por
prazer. Nós somos seus descendentes. Tomara. Pois eis aqui o bom
macaco.
Patrícia Campos Mello, Washington
Olhando assim para um bonobo, ninguém dá nada. Para olhos leigos, ele parece
só mais um chimpanzé de zoológico. Mas um connaisseur sabe que o bonobo é muito
mais que um macaco - ele é a esperança de que a humanidade tenha jeito.
Está certo, o bonobo é mesmo parecido com o chimpanzé. E ambos são, digamos,
nossos primos - os humanos compartilham 98% de seu DNA com esses dois primatas.
Mas, como diz o holandês Frans de Waal, “chimpanzés são de Marte e bonobos são
de Vênus”. Waal, no caso, é um connaisseur - biólogo de formação, é o maior
especialista em bonobos do mundo. Estuda primatas há 35 anos. Observa por horas
a fio chimpanzés, babuínos, macacos-capuchinhos e, claro, bonobos. Faz isso em
seu laboratório - o Yerkes Primate Research Center, na Universidade Emory, em
Atlanta (EUA), onde dá aulas no Departamento de Psicologia - e também em
zoológicos. A partir dessa experiência, já escreveu dezenas de obras sobre os
animais.
Um dos grandes méritos de Frans de Waal foi ter transformado os bonobos nos
bichos mais cool do mundo animal. Com seu livro Bonobo: the Forgotten Ape (sem
tradução no Brasil), amplamente ilustrado com fotos eróticas, o pesquisador
popularizou os macacos “paz e amor”. Bonobos têm ombros mais estreitos, são mais
escuros e mais eretos que os chimpanzés. Mas o visual é o de menos. O que
importa é que bonobos são sensíveis e afetuosos; chimpanzés são brutos e
esquentados. Bonobos são da paz, enquanto os maquiavélicos chimpanzés vivem
imersos em picuinhas de poder. Entre estes, os machos dominam as fêmeas, às
vezes de forma brutal. Na sociedade dos bonobos, a vida é centrada na fêmea, e
os machos continuam ligados a suas mães a vida inteira.
Chimpanzés fazem guerra; bonobos fazem sexo. O tempo inteiro e de todas as
maneiras, diga-se de passagem. Sexo é parte essencial dos relacionamentos
sociais entre os bonobos; ajuda a dar estabilidade ao grupo e aliviar as
tensões. Antes de se alimentar, os bonobos transam. Quando não há espaço e eles
ficam muito juntos, os bonobos transam. Antes de dormir, os bonobos transam.
Eles fazem sexo macho com macho, fêmea com fêmea, macho com fêmea, macho com
jovem, fêmea com jovem. Também se masturbam e beijam de língua. Chimpanzés só
dão selinho e têm relações sexuais apenas para fins de reprodução. “Bonobos têm
um erotismo criativo”, diz Frans de Waal. “São os únicos animais que fazem
preliminares.”
Essa natureza pacífica e sexual dos bonobos está no centro de uma querela
filosófica: afinal, nós, humanos, somos bonobos ou chimpanzés? Muitos escritores
científicos, como o inglês Richard Dawkins, acreditam que o homem seja
essencialmente egoísta. Trata-se da “teoria do verniz” - todos os animais são
competitivos e só pensam em seus interesses. Os humanos são a mesma coisa.
Quando somos legais e altruístas, trata-se apenas de um verniz, de uma camada
civilizatória criada recentemente, que freia os instintos mais baixos dos seres
humanos.
Frans de Waal discorda. Em seu penúltimo livro, Eu, Primata (Companhia das
Letras, 2005), Frans prega que, no nível biológico, celular, o homem possa até
ser assim. Mas psicologicamente não. “Acredito que o homem herdou tendências
positivas, de cooperação e socialização, que explicam por que temos moral”, diz.
“A moral humana não foi inventada há 2 mil anos, ela vem evoluindo, e os traços
dela podem ser vistos em outros primatas.” É justamente aí que entram os
bonobos, animais primordialmente solidários. Descendemos de macacos “paz e
amor”, não de chimpanzés sanguinários, insiste Waal.
A fama desses macacos, podemos dizer, hippies cresceu tanto que os bonobos se
transformaram em um fenômeno de cultura pop. Estampam camisetas e roupinhas de
bebê, são homenageados em festas descoladas de Nova York, ganharam até sua
sociedade de proteção ao bonobo. Há pouco mais de cem bonobos em cativeiro no
mundo, diante de milhares de chimpanzés. Em liberdade, calcula-se que existam
entre 10 mil e 20 mil bonobos, todos nas florestas do Rio Congo, na República
Democrática do Congo, na África.
Mas será que existe uma certa lenda urbana em torno dos bonobos, ou eles são
mesmo tão pacíficos assim? “Os bonobos brigam às vezes, mas eles são tão
eficientes em resolver seus conflitos com sexo que acabam tendo mais relações
sexuais e menos violência que os chimpanzés”, ensina Frans de Waal, que foi
eleito este ano uma das cem pessoas mais influentes do mundo pela revista
americana Time. Segundo ele, uma das maiores provas de que os bonobos são
diferentes dos chimpanzés é que não existe um único registro, em cativeiro ou em
liberade, de um bonobo matando outro. Já entre chimpanzés, dezenas de casos de
“assassinato” e canibalismo já foram observados.
Frans de Waal quer mudar a imagem dos ancestrais do homem, sempre retratados
como chimpanzés agressivos, cheios de maquinações, sede de status e propensos à
guerra. Bonobos são tão geneticamente próximos ao homem quanto os chimpanzés,
ele argumenta. Existe a mesma possibilidade de descendermos de macacos
sanguinários ou de primatas que têm a capacidade de cooperar.
Os bonobos “parecem com a gente em tudo”, entusiasma-se o biólogo holandês.
Um bonobo bebê faz muxoxo quando tem um pedido negado. No meio do ato sexual, as
macacas bonobo dão gritinhos de prazer. Dois pesquisadores alemães nos anos 30,
observando bonobos e chimpanzés no zoológico Hellabrunn, em Munique, chegaram à
conclusão de que bonobos copulam more hominum (como homens, ou seja, estilo
papai-e-mamãe), enquanto chimpanzés, more canum (como cães).
Extrapolando, poderíamos dizer: bonobos provam que Rousseau e sua teoria do
bom selvagem - somos naturalmente bons, mas corrompidos pela sociedade - estavam
certos; e Thomas Hobbes e sua visão de que somos egoístas contidos pelo contrato
social estavam errados? “Os dois tinham visões muito extremas da humanidade”,
opina Frans de Waal. “Hobbes diz que os humanos estão eternamente competindo
entre si, enquanto Rousseau pensa que não precisamos de ninguém.” De qualquer
maneira, ele diz, “o bonobo se assentaria melhor com Rousseau”.
E os humanos, estão mais para bonobo ou chimpanzé? “Humanos têm um pouco dos
dois - as tendências territoriais e agressivas dos chimpanzés, que muitas vezes
são úteis para nossa proteção, e também uma ótima habilidade de resolver
conflitos e cooperar com os outros.”
Para Frans de Waal, somos uma espécie de meio-termo: temos muito do bonobo,
mas nos comportamos como chimpanzés. “No fundo, no fundo, somos uns bípedes
bipolares.”
A natureza pacífica e sexual dos bonobos está no centro de uma querela
filosófica:
nós humanos somos bonobos ou chimpanzés? O inglês Richard Dawkins
acredita que todos os
animais são egoístas, incluindo o ser humano. Frans de
Waal discorda
SEX HOT
“Eles têm um erotismo criativo. São os únicos animais que fazem
preliminares”
GENTE BOA
“A moral humana não foi inventada há 2 mil anos. Há traços dela
em outros primatas”
CONCLUINDO
“Humanos têm um pouco de bonobos e de chimpanzés. No fundo,
somos bípedes bipolares”
Jornal Estado de S. Paulo
http://www.estadao.com.br/
*Publicado por Nezimar Borges
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