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A morte do espião do bem 

Local: Brasil - 10/01/2008
Fonte: Luiz Augusto Gollo
Link: http://lgollo.blog.terra.com.br/

Philip Agee vivia em Havana.

Morreu aos 72 anos, em Havana, Philip Agee, que as gerações mais novas não conhecem nem de nome. Foi espião da CIA (Central Intelligence Agency) durante as ditaduras militares sul e centro-americanas. Abandonou o serviço denunciando o apoio da agência e do governo americano às torturas, perseguições e assassinatos de dissidentes políticos dos ditadores. O Brasil dos generais Médici e Geisel estavam no topo da lista. Obviamente persona non grata em seu país, Philip viveu o resto da vida em Cuba e seu necrológico no Granma o destacou como “um amigo leal de Cuba e ferrenho defensor da luta dos povos por um mundo melhor”.

A morte de Philip Agee desmente a ficção cinematográfica e confirma que espiões, no geral, morrem mal, em serviço ou no ostracismo, com possíveis raras exceções guardadas em anonimato absoluto. Mata Hari, charmosa e bela bailarina holandesa, foi executada na França em 1917, por espionagem durante a Primeira Guerra Mundial. Nos Estados Unidos do pós Segunda Guerra, o casal Julius e Ethel Rosenberg morreu na cadeira elétrica acusado de passar aos soviéticos segredos militares.

Na Inglaterra do começo dos anos 1960, um governo inteiro foi ao chão, o do primeiro-ministro Harold MacMillan, por conta de uma garota de programa de 19 anos chamada Christine Keeler, que deve estar viva ainda e morando em Londres às custas da previdência social da rainha, muito diferente da nossa.

Chris conheceu John numa festa do socialite Stephen Ward, em 1961 e iniciaram um caso comum no mundo da infidelidade conjugal. Sua mulher, Valerie Hobson, atriz de filmes policiais e de terror, não se abalou, mas o Parlamento sim, porque Christine Keeler também namorava o adido da Marinha da União Soviética, Eugene Ivanov. O triângulo sugeria espionagem e montou-se logo algo como uma CPI à qual Profumo mentiu com a cara de pau de senador brasileiro e foi demitido.

A mocinha pegou nove meses de prisão e Stephen Ward se matou durante a investigação. Mais tarde, a Suprema Corte Britânica conduziu nova investigação em que nada ficou comprovado sobre a suposta espionag

A morte de Philip Agee, autor do livro “Inside de Company”, suscita reminiscências dos tempos em que espionagem tinha um quê de romântico e humano. Espiões eram pessoas comuns, tinham sentimentos e em épocas de caça às bruxas muitas vezes nem eram profissionais. Espiões trocavam de lado para livrar a própria pele, outros morriam pela causa com maior ou menor dignidade e convicção.

Neste contexto, a atitude de Philip Agee de discordar e denunciar prisões, torturas e mortes sob inspiração de seus chefes, sobretudo nas circunstâncias daqueles tempos difíceis para a democracia latino e centro-americana, merece este registro póstumo.

*Publicado por Nezimar Borges

 

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