A reconstrução de um país: a realidade contemporânea da
Venezuela
27 de Agosto de 2007
Entrevista especial com Adrián Padilla Fernández e Norah Gamboa
Vela
O projeto bolivariano, iniciado com Simon Bolívar e retomado por Chávez, na
Venezuela, tem gerado inúmeras notícias na mídia internacional. Inclui temas que
vão da nacionalização do petróleo à não renovação da concessão à RCTV. Chávez é
visto, pelos meios de comunicação, como um ditador, sendo quase diabolizado. No
entanto, o povo, em sua maioria, o apóia veementemente. O que há de verdade e o
que há de mentira nas notícias sobre a Venezuela? Essa é uma das questões que a
IHU On-Line tentou desvendar na entrevista realizada, pessoalmente, com Adrián
Padilla Fernández e Norah Gamboa Vela, professores da Universidade Simon
Rodriguez e da Universidade Bolivariana, respectivamente.
Adrián e Norah fazem um resgate histórico da política venezuelana para que
possamos entender as posições das mídias e o nível do desenvolvimento do país
durante o governo Hugo Chávez. Para Adrián, “o povo só era notícia quando estava
envolvido com violência, crime ou em momentos cruciais, como as eleições”. “A
mídia não refletia o que realmente estava acontecendo no país”, complementa
Norah.
Adrián Padilla Fernández é professor do Curso de Comunicação Social da
Universidade Simon Rodriguez, focando em disciplinas como Seminário avançado em
jornalismo e teorias da comunicação. Por sua vez, com forte experiência em
Jornalismo on-line, planejamento gráfico e redação jornalística, Norah Gamboa
Vela é professora do curso de Jornalismo da Universidade Bolivariana.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Como vocês analisam a relação do povo venezuelano com a mídia
antes e depois de Chávez no governo do país? Como a sociedade vive com essa
imagem que a mídia faz de Chávez?
Adrián Padilla Fernández – O que aparecia na mídia da Venezuela dava a
impressão de que se tratava de um país com uma forte paz social. Parecia ser um
país em que não estavam acontecendo problemas e os que aconteciam eram naturais,
ou seja, sempre havia existido pobres e miséria e eles continuariam a existir. O
povo só era notícia quando estava envolvido com violência, crime ou em momentos
cruciais, como as eleições. Então, os conglomerados de comunicação e os grupos
de interesses, que detinham tais meios de comunicação, queriam tirar proveito
desse momento político e se aliavam aos partidos tradicionais.
Retomando a história
Em 1960, depois que caiu a ditadura do Perez Gimenez (1), que foi um governo
militar que caiu por pressão popular, dos partidos políticos, durante quarenta
anos quem governou o país foram dois partidos de direita. É engraçado porque na
Venezuela, ninguém, até 1960, se assumia verdadeiramente como de direita. A
nossa história foi desenvolvida sob uma visão liberal e inspirada na Revolução
Francesa. Então, no percurso histórico, a pauta era mais liberal. Ninguém de
governo se assumiu como de direita, até porque o peso do ideal e da vida do
Simon Bolívar (2), chamado “O libertador” da Venezuela, era de emancipação, de
liberdade. Naquele momento, não era uma referência, então, ser chamado de
direita ou de esquerda. Mas foi, com certeza, um momento antiimperialista. Simon
Bolívar foi contra o Império espanhol e já observava, naquele momento, a ameaça
do Império Estadunidense, que estava se constituindo. Ele falava que tínhamos
que ficar de olho no norte e que era para considerarmos a idéia de uma só nação,
ou seja, ele falava na consolidação da Grande Colômbia, que, naquele tempo, era
constituída pela Venezuela, Colômbia e Equador.
Depois que Simon Bolívar teve um problema interno, o país foi dividido e
começou uma nova história. A Venezuela, em particular, sempre teve um sistema
liberal. Todo mundo, inclusive os partidos a que nos referimos, falava que era
democrático. Durante a ditadura, os partidos de esquerda, que eram constituídos
pelo Partido Comunista e pelo Movimento de Esquerda Revolucionária, participaram
dessa luta, mas foram excluídos do poder por um acordo chamado Acordo de Punto
Fijo (3). O acordo dizia que o governo seria dividido entre esses dois grupos
políticos apenas. A primeira coisa que fizeram foi ilegalizar os partidos de
esquerda, prender os líderes e perseguir os militantes. Então, começou esse
período conhecido como puntofijismo, que durou 40 anos. Os meios de comunicação
estão fortemente ligados a esse processo. Os grupos de esquerda e o povo foram
sempre excluídos da centralidade desses meios. Só que no processo histórico esse
projeto foi se desfigurando, perdendo o sentido, se esvaziando de doutrina
política. A idéia desse projeto era apenas o poder e o lucro.
Norah Gamboa Vela – Era só o poder para um pequeno grupo. A mídia não
refletia o que realmente estava acontecendo no país. Havia desaparecidos,
mortos, uma grande quantidade de perseguições, mas essas notícias não foram
informadas pelos meios de comunicação. Era como se nada disso estivesse
acontecendo. Se alguém era morto na rua, havia sido morto, pronto e acabou.
Estamos falando de 40 anos de uma democracia que era mais ditadura do que outra
coisa. Realmente, era a ditadura de dois partidos políticos formados pelo mesmo
grupo. Essa situação persistiu até que houve uma explosão social, porque a gente
já não tinha o dinheiro e a situação econômica ficou muito ruim, sobretudo para
os setores pobres. 80% da população da Venezuela era muito pobre, mesmo vivendo
num país rico. Perguntavam-me: “Mas vocês não têm o petróleo?”. E eu respondia:
“Nós não temos o petróleo, pois ele está nas mãos de outro que não é o povo da
Venezuela”. O petróleo e toda a riqueza da Venezuela estavam nas mãos de
empresas estrangeiras. Nada, portanto, ficava na Venezuela.
IHU On-Line – E como o povo agora vive o desenvolvimento de uma verdadeira
democracia dentro de um sistema que não deixa de ser capitalista?
Adrián Padilla Fernández – Vem acontecendo um conjunto de fatos que são
inovadores em relação à política nacional e às referências que se tem da
esquerda. Tanto é assim que muitos grupos e correntes políticas, que estiveram
ligadas às transformações profundas e movimentos políticos bem engajados, no
momento em que aparece Chávez não o acompanharam e até o olharam com receio,
pelo fato de ser um militar. Nós, como povo, ficamos com um pé atrás, olhando e
esperando o que aconteceria. Mas os fatos foram acontecendo e criando um
referente novo. A promessa que Chávez fez no processo eleitoral foi: “Vamos
refundar a pátria”. Ele prometia refazer a sociedade venezuelana, com um povo
que começou a lutar pela independência com o projeto bolivariano e que de 1830
para cá tem sido traído. Então, na hora em que assume o governo, o primeiro
decreto de Chávez foi a Reforma Constitucional, a fim de realmente refundar a
pátria.
Chávez começou a criar todo um marco jurídico para que esta mudança fosse e
seja possível. As pessoas ficavam se perguntando se era possível fazer uma
revolução dentro dos parâmetros da democracia liberal, do mundo capitalista de
produção. Num primeiro momento, parecia que não, mas, na medida em que os fatos
iam acontecendo, parecia cada vez mais possível fazer as mudanças, mudar as
regras do jogo dentro da própria dinâmica liberal. E, com isso, a mentalidade
das pessoas foi mudando em relação ao presidente.
Norah Gamboa Vela – A primeira lógica dessa mudança era tentar ser um país
independente. Para isso, o governo tem se apoiado muito na pequena indústria e
não na grande, que era o que acontecia antes. Além disso, apóia-se em
cooperativas, empresas de produção social, que são formadas por pessoas que
moram em um lugar pequeno e têm um projeto produtivo. Essas empresas têm
assessorias técnicas e formação. E como isso tudo começa? Com uma Reforma na
Educação. Todo mundo hoje na Venezuela está estudando. Neste momento, podemos
dizer que existe 0% de analfabetismo no país. Antes, o nível de analfabetismo
era muito alto. Hoje, as oportunidades existem para quem quiser aproveitar e
todas elas de graça. Isso está se refletindo em toda a sociedade. Todos têm um
parente, um vizinho, um conhecido que está estudando. Desde os pequeninos até os
velhinhos estão estudando. Antes, era muito caro estudar.
IHU On-Line – A oposição hoje continua sendo formada pelos grandes
empresários da Venezuela?
Norah Gamboa Vela – São os mesmo de sempre. A oposição é formada por aqueles
que antes eram os donos do país.
Adrián Padilla Fernández – Na medida em que esses 40 anos passaram, esses
partidos foram perdendo sentido, mas a luta em termos de projeto político
continuou. Construiu-se um projeto novo que não tinha liderança de um partido. O
pessoal juntou forças políticas, alguns partidos de esquerda, expressões
políticas novas, agrupamentos, comunidades e apóiam o atual projeto político na
participação do povo. Até então, os partidos tradicionais tinham o controle da
população e, além de fazerem fraudes, utilizavam benefícios sociais e a mídia
para se manterem no poder e manter a população calma. Essa possibilidade de
influenciar pessoas também foi se perdendo. No final da sua hegemonia, eles já
não tinham forças para articular e, na medida em que isso foi acontecendo, os
atores políticos mudaram. Os atores políticos mais dominantes serão outros, no
caso Chávez. Depois que os conservadores perdem a hegemonia, aparecem,
inclusive, os grupos indígenas para participar da reconstrução da Venezuela.
A presença dos indígenas na Venezuela, comparada a outros países da América
Latina, não é tão grande, tão significativa, porque foram aniquilados no
processo da conquista. Mas existem e são importantes. Hoje, na Venezuela, são
reconhecidos 47 grupos indígenas, que têm língua e cultura própria e são
considerados agentes importantes para o país. Esses agentes (indígenas,
camponeses, operários etc.) aparecem nesse novo momento e com isso aparece,
finalmente, a igreja, que antes era ligada aos partidos conservadores sem
assumirem.
Hoje, a mídia considera como notícia denúncias de problemas sociais
estruturais que antigamente não apareciam. Há miséria, problemas de segurança,
tráfico, mas isso já existia. E, para mudar tudo isso, precisa ser feita uma
dinâmica de transformação profunda, que passa pela educação, pela moradia, pelas
condições sociais de vida das pessoas. Por exemplo, acabaremos com a
criminalidade quando trabalharmos com as crianças dos bairros pobres, que
provavelmente virariam criminosos no futuro. Ao atender seus problemas, muda-se
toda uma realidade. Isso é uma estratégia integral para tentar transformar a
sociedade. Mas, para a mídia, o que está sendo feito pelo governo não vale
nada.
A mídia diz que essas mudanças não servem, pois são de baixa qualidade, uma
farsa. Agora, essa mídia que antigamente era passiva em relação aos problemas
sociais, é ativa e está denunciando, atenta a tudo o que acontece. Ela está
“preocupada” com o que está acontecendo com o povo. Antigamente, quando isso
acontecia, não existiam problemas de abastecimento nem problemas que hoje estão
sendo gerados por causa das ações desses grupos empresariais.
Norah Gamboa Vela – Eles não fazem a produção que precisam fazer; pelo
contrário; têm parado a produção.
Adrián Padilla Fernández – Além do mais, o povo, para comprar, tem hoje
dinheiro que antes não tinha.
Norah Gamboa Vela – Porque o dinheiro que as pessoas têm nesse momento, a
partir do aumento do salário mínimo e do emprego, é maior. Mas, agora que elas
podem comprar, não há produtos. Essa é uma forma de sabotar o que está sendo
feito no governo. Então, o governo, até agora, vem dando algumas respostas,
formando mercados nos bairros. Infelizmente, com o boicote à produção de
alimentos, ficou muito evidente a fraqueza do governo enquanto à distribuição de
alimentos. Por isso, a solução foi criar centros de distribuição de
alimentos.
Além disso, o preço dos alimentos nesses centros é regulado e, portanto, mais
barato do do que nos supermercados. Na primeira fase, os centros importaram
muitos produtos brasileiros. Eram acordos comerciais feitos entre a Venezuela e
empresas brasileiras, e muitos disseram que o governo brasileiro estava apoiando
a Venezuela, mas não é verdade, não nesse sentido. Na Venezuela, os grupos que
comandavam o governo sempre incutiram a cultura de que os venezuelanos não
tinham a capacidade de fazer nada, de produzir nada. Essa mentalidade é criada e
mantida ainda, embora não tanto quanto antes. Quando as grandes empresas pararam
de produzir, surgiram pequenas para produzir as coisas que não tinham durante a
crise e com custo muito menor. Há uma quantidade de marcas novas no mercado e
todas são de produção nacional. Então, é possível fazer: as pessoas só precisam
de tecnologias e apoio. O comerciante não tem dinheiro para manter uma empresa
se não receber apoios, taxas baixas. Esses apoios existem por parte do
governo.
Adrián Padilla Fernández – Outra questão que foi incorporada na época é a
questão do desenvolvimento endógeno e a questão da soberania. A soberania era
vista como um tema militar, em termos de produção de território, como um
problema integral, em que a alimentação é fundamental. Um povo que não é capaz
de se auto-abastecer na alimentação é um povo dependente. Sendo dependente,
jamais poderia ser soberano. Então, a soberania é tratada nesse sentido.
Precisamos garantir a produção nacional de alimentos pelo próprio país. Nisso se
trabalha, hoje em dia, com os acordos comerciais, como com o Irã. Antes, os
Estados Unidos eram quase o único sócio comercial da Venezuela. Tudo era feito
por eles e agora não é mais, o que gera algumas crises.
Eles dizem que a Venezuela está se armando, está entrando numa corrida
armamentista, se armando com os russos, mas essas compras e acordos sempre foram
feitos. Só que os únicos fornecedores, anteriormente, eram os Estados Unidos.
Então, apenas mudamos o local dos contratos. Tudo começou porque esse governo
tem sido pressionado. O governo e o processo bolivariano têm se radicalizado na
medida em que têm sido pressionados pelos conservadores. Se eles pressionam, o
governo radicaliza mais. É assim a relação com os Estados Unidos. No caso, a
compra de armamento russo tem a ver com um tema: os aviões de fabricação
estadunidense F16 estavam sucateados. Era, então, necessário comprar peças,
trocar, e o mercado dizia que só era possível comprar novas peças nos Estados
Unidos e na Espanha, que, no entanto, não quiseram vender à Venezuela. Então, a
Venezuela comprou aviões dos russos. Ou seja, eles nos levaram a isso. Assim
acontece internamente, como disse: quanto mais pressionam o governo, mais
decisões radicais vão sendo tomadas.
As ações em relação à mídia têm sido cada vez mais radicais, pois ela tenta
desmontar o projeto político bolivariano. Aí podemos pegar um referente teórico
do Pierre Bourdieu (4), quando fala do capital simbólico e no caso do jornalismo
seria o caso da credibilidade, pois cada vez mais esse capital simbólico da
mídia tradicional tem caído mais e mais. Tanto que as pessoas comuns, e não falo
em analistas e pesquisadores, pegam um jornal e falam que aquelas denúncias
relacionadas ao governo devem ser mentiras, pela maneira como estão sendo
trabalhadas as informações.
Norah Gamboa Vela – Um exemplo disso: estão investindo muito no transporte. O
governo está fazendo uma rede ferroviária, em todo o país. Quando inauguraram um
trecho dessa rede, que vai até outra cidade próxima a Caracas, que é onde nós
moramos, falavam que ele não existia, que era mentira que o tinham inaugurado,
que pagavam as pessoas para falar que existia um. Os jornais, a TV e algumas
rádios já não têm a credibilidade que tinham. Quando fecharam a Rádio Caracas
(5), ninguém acreditava nesse canal mais, apesar de ter o maior ibope. Então,
quando se fala na liberdade de expressão, se fala em quê? Na liberdade de
expressão de quem? Do grupo econômico, porque, na verdade, o povo comum não tem
acesso à mídia.
Adrián Padilla Fernández – Em termos jurídicos, a liberdade de expressão é um
direito individual das pessoas, não das corporações. Então, o direito de
expressão é de quem? De um canal? De um grupo econômico? Ou das pessoas
naturais? Muitas pessoas que falavam em defesa da liberdade de expressão não
assistiam a esse canal.
Norah Gamboa Vela – A maioria dos estudantes universitários que saíram às
ruas, querendo as universidades privadas, não sabiam o que sentiam falta do
Canal Caracas. Eles não tinham a menor idéia da programação, não assistiam, mas
estavam contra a liberdade de expressão. Eles têm TV por assinatura e não
assistiam a esse canal, que é muito popular.
IHU On-Line – Como vocês vêem as articulações para tentar inserir a Venezuela
no Mercosul e os Estados sendo, abertamente, contrários a isso?
Adrián Padilla Fernández – O caso do Mercosul é interessante para a
Venezuela, pois vemos a integração como um tema importante para o
desenvolvimento de todos os países participantes. Desde o começo do Governo
Chávez, ele manifestou o interesse da Venezuela em fazer parte do Mercosul. Uma
questão que já se discutiu no Mercosul, não só pela Venezuela, é o fato de ir
além da questão comercial. O Mercosul não pode ficar tratar de um acordo
comercial, mas ampliar para a integração cultural, de intercâmbio, de aprofundar
o que seria uma identidade, que possui sua unidade e diversidade. No caso da
América Latina, é no Mercosul que está a possibilidade de podermos nos
fortalecer para poder negociar em melhores condições com outros exemplos de
poder, como os Estados Unidos e a Europa. Então, nesse sentido, é importante
para a Venezuela essa participação.
Só que, nos últimos tempos, apareceu com bastante força este posicionamento
político, estas forças políticas, que se articulam no continente, onde, em algum
momento, grupos mais conservadores de direita tentam evitar que esta integração
aconteça. Há o temor de que possa vir por um outro caminho, que não o
tradicional. Mas isso aparece hoje com a questão discutida no Congresso no
Brasil, em que a isca foi o caso da RCTV, quando veio uma pessoa para cá criar
todo um condicionamento. Já tinha um acordo, devido às reuniões que já
aconteceram entre os países do Mercosul. Tudo vinha sendo feito até agora e, de
repente, já não convém, tornou-se perigoso.
Existe um outro projeto também, que é a Alba – Alternativa Bolivariana para
as Américas (6), que tem uma questão política, um acordo comercial, mas de
solidariedade, já em prática. Esse acordo existe na Bolívia, na Nicarágua e em
Cuba. São trocas comerciais justas, com apoio e solidariedade. Mas a Venezuela
não quer só a Alba; também precisa do Mercosul. É importante para a Venezuela
estar nele. E é importante para o Mercosul que a Venezuela esteja inserida
também. É evidente que existe um jogo de interesses políticos e há grupos
econômicos sem interesse que a Venezuela possa fazer parte deles. A influência
que a Venezuela tem hoje no cenário internacional é muito grande, fazendo com
que algumas pessoas apóiem e outras não.
IHU On-Line – Com isso, podemos dizer que Lula e Chávez estão disputando uma
liderança na América Latina?
Adrián Padilla Fernández – Acho que não. Até eles falam que se olham como
aliados e, como chefes de Estado e líderes políticos, se respeitam muito. Ainda
não conseguiram fazer com que o Lula falasse mal do Chávez. E Chávez também fala
muito bem do Lula. O Brasil é importante, mas a relação do Brasil com os demais
países, hoje, está mais aberta, em termos de propostas. No caso da liderança e
do projeto, poderia ter mais peso para o Chávez, mas não é isso que está em
questão neste momento. Acho que esta é mais uma questão de liderança coletiva,
na qual estão todos os chefes de Estado, que é a proposta que está sendo feita
pela Venezuela. Deve existir a vinculação dos chefes de Estado, cada um com sua
particularidade, mas com um ponto em comum, que é o continente.
IHU On-Line – Chávez prometeu cem anos de energia para o Uruguai. A Venezuela
tem toda esta energia prometida?
Adrián Padilla Fernández – Tem. Em algum momento, alguém falou que o petróleo
que temos é uma maldição. Mas alguém falou isso em uma época em que ele estava
na mão dos Estados Unidos e de um grupo da Venezuela muito pequeno. Então, é um
paradoxo, porque o petróleo é sustentação de um modelo de desenvolvimento,
diante do qual nós somos contra. É um modelo de desenvolvimento industrial
responsável por muitos problemas globais e ambientais que temos neste momento. A
idéia é partir desta fortaleza e aproveitá-la para mudar este modelo. No caso da
Venezuela, Chávez falou isso, e trata-se de uma verdade. As reservas de petróleo
da Venezuela são as maiores do mundo. Se nós continuamos no mesmo nível de
exploração, sem mudar nada que precisa ser mudado, em termos mecânicos, acabaria
primeiro o petróleo dos países árabes. Por isso, a Venezuela é tão importante
para a geopolítica internacional. Existe aí uma faixa de petróleo que, até
agora, era considerada pelas empresas como um petróleo de baixa qualidade. Os
Estados Unidos chegaram a falar que sequer era petróleo, e sim betume. Então,
eles quiseram tomar conta da faixa, pagando um valor mínimo.
Norah Gamboa Vela – Apenas 1% da exploração ficava na Venezuela.
Adrián Padilla Fernández – Hoje em dia está demonstrado que a qualidade do
petróleo é muito alta.
Norah Gamboa Vela – Desde o momento em que começou a exploração do petróleo,
os presidentes entregaram a exploração aos Estados Unidos. Eram eles que
decidiam, davam o quanto queriam. E isso ficou assim até agora. Então, a
Venezuela pode investir em educação e saúde porque o petróleo está dando
suporte. Ou seja, o dinheiro do petróleo está ficando no país. O dinheiro é do
país, por que não usar? Até ontem as reservas ficavam nas mãos dos Estados
Unidos, que eram os administradores. Eles entendiam que faziam um favor.
Notas:
(1) O General Marcos Pérez Gimenez foi Ministro da Defesa da
Venezuela até 1952 e logo assumiu a presidência do país. Seu governo era
considerado uma ditadura autoritária e personalista, que silenciou as forças da
oposição, tanto de direita quanto de esquerda. Fechou os jornais que o
criticaram e impôs a ditadura à TV e Rádio. Foi deposto de seu cargo em
1958.
(2) Simón José Antonio de la Santísima Trinidad Bolívar Palacios y
Blanco foi um militar venezuelano e líder revolucionário responsável pela
independência de vários territórios da América Espanhola. Na França, participou
da vida cultural e científica, travando amizade com os naturalistas e
exploradores Alexander von Humboldt e Aimé Bonpland. Em 1805, no Monte Sacro, em
Roma, Bolívar proclamou, diante de Simón Rodríguez e do seu amigo Francisco
Rodríguez del Toro, que não descansaria enquanto não libertasse toda a América
do domínio espanhol. Em 1813, liderou a invasão da Venezuela, sendo proclamado
El Libertador.
(3) O Pacto de Punto Fijo (Ponto Fixo, em português) aconteceu
em 1959 de uma articulação entre Rómulo Betancourt, Rafael Caldera, Jóvito
Villalba. Ele asegurava a alternância no poder de três partidos vetados pela
ditadura: Acción Democrática, COPEI e Unión Republicana Democrática (URD). Com
isso, os partidos de esquerda foram execrados do pacto, o que gerou a
perseguição dos líderes desses partidos e, depois, a luta armada, o que também
desencandeou a divisão da Ação Democrática no Movimento de Esquerda
Revolucionária (MIR).
(4) A discussão sociológica do francês Pierre Bourdieu
centralizou-se, ao longo de sua obra, na tarefa de desvendar os mecanismos da
reprodução social que legitimam as diversas formas de dominação. Para empreender
esta tarefa, Bourdieu desenvolve conceitos específicos, retirando os fatores
econômicos do epicentro das análises da sociedade, a partir de um conceito
concebido por ele como violência simbólica, no qual advoga sobre da
não-arbritariedade da produção simbólica na vida social, advertindo para seu
caráter efetivamente legitimador das forças dominantes, que expressam por meio
delas seus gostos de classe e estilos de vida, gerando o que seria uma distinção
social.
(5) Radio Caracas Televisión (RCTV) é uma rede de televisão privada
venezuelana fundada em 1953. Foi a primeira emissora de televisão da Venezuela.
A RCTV deixou de transmitir em sinal aberto às 23h59min do dia 27 de maio de
2007, entrando em seu lugar a TVes (Televisora Venezolana Social), ao ser negada
a renovação de sua concessão de transmissão, alegando que a emissora teria
participado na tentativa do golpe em 2002, fato abordado no documentário “A
revolução não será televisionada”.
(6) A Alba é um modelo de integração para
os povos da América Latina e Caribe, inspirado nos ensinamentos de Simón
Bolívar, alternativo à Área de Livre Comércio das Américas (Alca), proposta de
um mercado comum americano defendido pelos Estados Unidos, porém muito atacado
pelos grupos de esquerda de toda a América Latina.
Instituto Humanitas Unisinos
http://www.unisinos.br/ihu/index.php
*Publicado por Nezimar Borges
|