ARES DE
1964
Mair Pena Neto
Publicada em: 04/07/2007
O fatídico ano de 1964 andou
rondando a cena brasileira nos últimos dias. Não como possibilidade
de novo golpe de Estado, mas como reminiscências, discursos e novas
revelações, que nos alertam para que a história não se repita, nem
como farsa.
O fato mais importante foi a divulgação de
documentos da CIA provando o apoio financeiro e material que os
Estados Unidos deram ao golpe militar que derrubou o governo de João
Goulart e instaurou no país uma ditadura que durou 21 anos.
O
envolvimento norte-americano já era conhecido por diversas fontes,
uma das mais famosas a gravação da conversa de julho de 1962, entre
o então presidente dos EUA, John Kennedy, e seu embaixador no
Brasil, Lincoln Gordon. Dois anos antes do golpe, ele já era
articulado na Casa Branca, com Kennedy, inclusive, se comprometendo
a não reprová-lo como fizera com os militares peruanos, que
derrubaram o presidente Manuel Prado naquele mês.
Neste
famoso encontro, que reuniu ainda o subsecretário de Estado para
Assuntos Interamericanos, Richard Goodwin, e o assessor especial
para Assuntos da Segurança Nacional, McGeorge Bundy, se acertou que
o novo adido militar dos EUA no Brasil seria Vernon Walters, que
fora o intérprete de Eisenhower no Brasil durante a guerra e falava
fluentemente português. Walters foi articulador do golpe junto aos
militares.
A nova documentação revela detalhes da
participação de Lincoln Gordon na intervenção norte-americana e seus
informes pedindo apoio logístico e militar ao golpe. Em outro
documento, este do Congresso e revelado anteriormente, Gordon
admitira que a embaixada dos EUA no Brasil tinha dado dinheiro a
candidatos anti-Jango em 1962 e encorajado os
conspiradores.
Quatro dias antes do golpe, o embaixador
norte-americano pede a entrega clandestina de armas aos partidários
de Castello Branco, em São Paulo, e sugere que seja feita por um
submarino sem identificação, que seria descarregado à noite em
pontos isolados da costa paulista.
Seus pedidos foram
atendidos e no dia do golpe o Departamento de Estado informou a
Gordon que tinham sido despachados de Aruba o primeiro de três
navios-tanque, um porta-aviões, quatro destróieres, duas escoltas de
destróieres e toneladas de munição. Nada menos que toda a frota do
Caribe.
Gordon previa uma revolução sangrenta e a frota
estaria pronta para a intervenção norte-americana. Algumas correntes
defendem que Jango evitou a resistência por saber das intenções dos
Estados Unidos e temer um banho de sangue.
1964 também voltou
à tona com o reaparecimento do cabo Anselmo, presidente da Asociação
de Cabos e Soldados da Marinha naquele ano e que depois de ser preso
se tornou um agente da repressão. Cabo Anselmo pede indenização na
Comissão de Anistia e disse ao Estadão que passou a apoiar o regime
militar para “salvar vidas”.
Por fim, o senador Almeida Lima
(PMDB-SE), ao defender o presidente do Senado, Renan Calheiros, que
responde a um processo por quebra de decoro no Conselho de Ética,
acusou os adversários de agirem como a UDN antes do golpe de 64.
Segundo o senador, os oposicionistas de Renan acham que vão se
beneficiar com a “degeneração institucional”, como a UDN achou que
se beneficiaria com o golpe militar.
Que os fantasmas de 64
não voltem a assombrar o país, mas que não sejam esquecidos para que
os males não se repitam.
*Publicado por Nezimar Borges
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