As forças que movem a história estão de volta
20 de Agosto de 2007
Nacionalismo e ideologias sepultam idéia de que mundo havia se tornado
diferente
ROBERT KAGAN
Os anos imediatamente seguintes ao final da Guerra Fria proporcionaram um
vislumbre tentador de uma nova espécie de ordem internacional -uma em que os
países cresceriam juntos ou desapareceriam por completo, os conflitos
ideológicos se desfariam e as culturas se misturariam, por meio de comércio e
comunicações cada vez mais livres.
Era o fim da concorrência internacional, o
fim da geopolítica, o fim da história. O mundo democrático liberal queria
acreditar que a conclusão da Guerra Fria não estava pondo fim apenas a um
conflito estratégico e ideológico, mas a todos os conflitos estratégicos e
ideológicos. Na década de 1990, sob a égide de George H. W. Bush e Bill Clinton,
a estratégia norte-americana visava erguer uma ordem pós-Guerra Fria em torno
dos mercados em expansão, democracia e instituições -a encarnação triunfal da
visão liberal da ordem internacional.
Mas tudo isso foi uma certa miragem.
Hoje sabemos que tanto o nacionalismo quanto a ideologia já estavam dando a
volta por cima nos próprios anos 1990. A Rússia rapidamente perdeu seu desejo de
fazer parte do Ocidente liberal. A China embarcou num rumo de ambição e poderio
militar crescentes. As forças do islã radical já tinham lançado sua jihad, a
globalização já provocara uma reação contrária em todo o mundo, e a máquina
tremenda da democracia já emperrara e começara a se desequilibrar de maneira
precária. No entanto, até hoje muitos ainda se apegam à visão de “um mundo
transformado”.
O mundo não se transformou. As nações continuam tão fortes
quanto nunca, e o mesmo se aplica às ambições nacionalistas, às paixões e à
competição entre as nações, que sempre moldaram a história. É verdade que o
mundo ainda é “unipolar” e que os EUA ainda são a única superpotência. Mas a
competição internacional entre grandes potências voltou à cena, com EUA, Rússia,
China, Europa, Japão, Índia, Irã e outros disputando a hegemonia regional. As
lutas por poder e influência no mundo mais uma vez se tornaram fatores chaves do
cenário internacional.
Ideologicamente, vivemos um tempo não de convergência,
mas de divergência. A competição entre liberalismo e autocracia ressurgiu, com
os países do mundo cada vez mais se alinhando ideologicamente, como no passado.
Finalmente, existe uma divisão entre modernidade e tradição, a luta violenta de
fundamentalistas islâmicos contra as potências modernas e as culturas seculares
que, na visão deles, contaminaram o mundo islâmico.
Bush não é exceção
Muitos ainda preferem acreditar que o mundo está em
tumulto não por estar vivendo um tumulto, mas porque o presidente Bush o fez
assim, ao destruir a nova era repleta de esperança. E, quando Bush deixar o
poder, acreditam, o mundo poderá voltar a ser como era.
A primeira ilusão,
porém, é que Bush tenha de fato mudado qualquer coisa. Os historiadores vão
debater por muito tempo a decisão de travar a guerra no Iraque, mas o menos
provável é que concluam que a intervenção tenha sido algo que destoou muito do
que é habitual para os EUA. Desde o final da 2ª Guerra Mundial, pelo menos, os
presidentes americanos têm seguido uma abordagem bastante constante em relação
ao mundo. Eles têm visto os EUA como “a locomotiva que puxa a humanidade”,
parafraseando Dean Acheson.
Desde 1945, os EUA têm insistido em obter e
manter a supremacia militar -uma “preponderância de poder no mundo”-, em lugar
de um equilíbrio de poder com outros países. Eles vêm operando com base na
convicção ideológica de que a democracia liberal é a única forma de governo
legítima e que outras formas não apenas são ilegítimas, como também
transitórias.
Quando as pessoas falam de uma doutrina Bush, geralmente se
referem a três conjuntos de princípios: a idéia da ação militar preventiva; a
promoção da democracia e das “mudanças de regime”, e uma diplomacia que tende ao
“unilateralismo” -a disposição em agir sem a sanção de organismos internacionais
como o Conselho de Segurança da ONU ou a aprovação unânime dos aliados.
Mas
essas características da política externa americana não constituem reflexo de um
homem, um partido ou um círculo de pensadores. Elas nascem da experiência
histórica do país. Elas se fundamentam, por um lado, em crenças e ambições
antigas e, por outro lado, no poder. Enquanto os americanos continuarem a eleger
líderes que crêem que é papel dos Estados Unidos melhorar o mundo, é pouco
provável que se abstenham de usar qualquer dessas ferramentas. E, enquanto o
poderio americano em todas as suas formas for suficiente para moldar o
comportamento de outros, é pouco provável que a direção ampla da política
externa americana se modifique.
ROBERT KAGAN é autor de “Dangerous Nation” e editor
colaborador da “Weekly Standard”.
Jornal Folha de S. Paulo
http://www.uol.com.br/
*Publicado por Nezimar Borges
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