Essa é a opinião da cientista política mexicana Denise Dresser sobre o empresário Carlos Slim Helú, o novo homem mais rico do mundo.
Estela Caparelli, da Cidade do México
O empresário mexicano de origem libanesa Carlos Slim Helú, 67, atraiu a atenção da mídia internacional nas últimas semanas após ter sido apontado como o novo homem mais rico do mundo. O site de economia mexicano Sentido Común http://www.sentidocomun.com.mx/ recalculou o valor das ações das empresas controladas por Slim e sua família e chegou à espetacular cifra de US$ 62,9 bilhões, o equivalente a 7,5% do PIB mexicano. O valor supera os US$ 56 bilhões de Bill Gates, líder absoluto da lista dos mais ricos do mundo da revista Forbes nos últimos 13 anos. O feito incitou novamente toda a sorte de questionamentos sobre a evolução de patrimônio de Slim. O “engenheiro”, como é conhecido entre seus assessores, começou no mundo dos negócios há 42 anos adquirindo empresas no setor produtivo e financeiro. A partir dos anos 80, começou a expandir sua fortuna, comprando a preços baixos empresas desvalorizadas pela crise que assolou o país. Mas a sua aposta mais rentável foi realizada em 1990 quando, juntamente com a France Telecom, a Southwestern Bell e outros 35 investidores mexicanos, arrematou o controle da Telmex, gigante estatal mexicana de telecomunicações. E foi exatamente o mercado de telefonia que lhe permitiu multiplicar sua fortuna e internacionalizar seus negócios. Com a compra, ganhou o direito de explorar com exclusividade, durante seis anos, os serviços de telefonia de longa distância no México, mercado que até hoje impede o controle de empresas por parte de investidores estrangeiros. Hoje, 17 anos depois, Slim domina o setor de telecomunicações na América Latina com suas empresas Telmex e América Móvil, atuando em 16 países. O empresário tem três negócios no Brasil: controla as empresas Claro e Embratel e tem 49% da Net. Juntas, a operadora de telefonia celular Claro, a operadora de telefonia fixa Embratel e a empresa de TV por assinatura Net faturaram R$ 24,2 bilhões em 2006, segundo levantamento feito por especialistas em telecomunicações (dados publicados na revisa Época Negócios). Mas, afinal, como ele chegou lá? Há quem atribua a ascensão de Slim única e exclusivamente ao seu faro para bons negócios combinado a um estilo único de gestão. Para seus críticos, no entanto, a fortuna do empresário é resultado da proteção governamental. Um proteção que, segundo eles, permite a Slim deter um monopólio virtual do setor de telefonia mexicano. No México, o principal representante desse segundo grupo – e o mais ácido deles – é a cientista política Denise Dresser, doutora em ciências políticas pela Universidade de Princeton e professora do Instituto Tecnológico Autônomo do México (ITAM).
Nesta entrevista, concedida por telefone, Dresser responde a pergunta feita no início deste parágrafo aos leitores de Caros Amigos:
Qual é a sua opinião sobre a ascensão da fortuna do empresário Carlos Slim Helú? Inegavelmente, é um homem talentoso, que assumiu riscos, que soube o momento certo de comprar empresas e em que momento vendê-las. Tem boa vocação empresarial. Mas isso não explica o crescimento monumental da sua fortuna. Creio que ele é um produto do capitalismo disfuncional que existe no México. Ele é um sintoma da má qualidade do capitalismo mexicano. Isso significa que o governo, em lugar de assegurar um equilíbrio de forças entre as companhias em setores cruciais, permite que cresça os poderes monopólicos. Esse é o caso de Slim. Ele entende muito bem as regras informais, o sistema político e econômico e tem sabido usar essas regras melhor que qualquer outro empresário mexicano. Ainda que as pessoas insistam em aplaudir o olfato empresarial de Slim, creio que essa questão só explica uma parte da história. A outra, talvez a mais importante, é o fato de que ele adquiriu o monopólio na 10ª economia do mundo e uma das menos competitivas. O governo o protegeu desde 1990 e continua protegendo. Na verdade, o responsável pela acumulação da fortuna de Slim não é ele mesmo, mas o governo mexicano na medida em que não regulou melhor o mercado, na medida em que não protegeu os direitos do consumidor, na medida em que o governo mexicano permitiu uma transferência massiva de riqueza da população do país ao bolso do Sr. Slim.
Há outros empresários protegidos no México? Vários setores. Basta ler qualquer documento da OCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, sobre a estrutura do capitalismo mexicano. É um capitalismo altamente concentrado nas 200 grandes empresas do México, que dominam os mercados de cimento, bebida, transporte e energia. Estamos falando em concentração em mãos privadas e públicas. Não é um capitalismo inovador, competitivo, de regras claras. No México, há barreiras de entrada, um funil muito significativo. Slim e outros estão estrangulando a economia mexicana que é muito menos dinâmica que outras de América Latina como Brasil e Chile.
Slim seria o mais rico do mundo em uma economia mais competitiva? Não. Estou convencida de que não seria. Ele comprou a CompUSA (empresa de informática) e perdeu muito dinheiro porque a empresa teve que competir com outras empresas.
Há uma situação de monopólio no México, ainda que esse monopólio seja virtual. Por que a Comissão Federal de Concorrência (CFC, organismo regulador mexicano) não consegue reverter essa situação? A CFC é um tigre sem dentes. O orçamento anual é o equivalente ao lucro de um dia de América Móvil (braço de telefonia celular de Slim). A CFC tem poucos instrumentos para domesticar o monstro que se transformou Carlos Slim. Criamos um monstro e não temos a menor idéia de como vamos enjaulá-lo. A Lei de Competência, aprovada no ano passado, não dá autoridade regulatória, a capacidade de quebrar Telmex, como foi feito com AT&T há 20 anos nos Estados Unidos. A CFC tem tentado, sem sucesso. A regulação mexicana chega de maneira tardia e muito débil para o tamanho do problema que enfrenta a economia mexicana e os consumidores mexicanos.
Ou seja, se depender da economia mexicana, Slim continuará sendo o homem mais rico do mundo? O dinheiro que a Telmex dá diariamente a Carlos Slim permite que ele expanda para o resto da América Latina. Não sou anti-capitalista. Creio que na criação na riqueza e aplaudo empresários inovadores. O que não aplaudo é a construção de fortunas multimilionárias sobre a custa dos consumidores.