De Saigon a Bagdá
29 de Agosto de 2007
Quanto mais procura justificativas para a injustificada invasão do Iraque,
mais se enreda o presidente estadunidense em mentiras e falsidades. Seu último
lance foi a distorção da História apresentada em discurso para veteranos de
guerra no dia 22 de agosto, em que a luta contra os japoneses na II Guerra
Mundial, a Guerra do Vietnã e a Operação “Liberdade para o Iraque” foram
apresentadas como uma mesma luta: a luta ideológica entre os defensores da
liberdade (os estadunidenses e seus aliados, é claro) e os inimigos da liberdade
(os outros). O raciocínio de Bush vai além: para ele, foi a saída prematura das
tropas estadunidenses do Vietnã que desencadeou a violência que se seguiu, tanto
naquele país como no Camboja.
Embora incorretas, as comparações do líder estadunidense servem a algumas
considerações importantes. Primeiramente, há de se considerar uma diferença
básica entre os “malvados militaristas japoneses” e os malvados comunistas ou
terroristas islâmicos: o Japão iniciou a construção de um Império na década de
1930, invadindo e ocupando os países vizinhos, e efetivamente agrediu os Estados
Unidos no bombardeio a Pearl Harbor, que levou o gigante norte-americano a
entrar na Segunda Guerra Mundial. Quanto aos comunistas do Vietnã, ou os
“fascistas islâmicos” que habitam o Iraque (e certamente o Irã, a Síria, a
Palestina…), a realidade é que nunca apresentaram ameaça concreta aos Estados
Unidos – mesmo se considerarmos válida a versão oficial dos eventos de 11 de
setembro de 2001, o que implicaria a Al-Qaeda mas não Saddam Hussein nos
atentados.
Outras diferenças saltam aos olhos ao se comparar a luta contra os japoneses
e a luta contra os vietcongs ou iraquianos: no primeiro caso: tratava-se de
fazer regredir o Império que se havia expandido por todo o sudeste asiático e
estendia suas garras pelo Oceano Pacífico, ameaçando a América. No caso do
Vietnã e do Iraque, trata-se de tentar impor um regime de ocupação que dê
sustentação a um governo títere local que de outra forma não teria forças de se
manter. Assim, bastou a retirada dos militares estadunidenses de Saigon para o
governo sul-vietnamita ruir diante do ímpeto da guerrilha comunista dos
vietcongs. E bastará uma eventual retirada estadunidense do Iraque para que
imediatamente colapse o governo instalado em Badgá (que de forma alguma tem o
controle sobre todo o país). Para sintetizar, pode-se dizer que a grande
diferença é que, no caso do Japão, os Estados Unidos lutaram contra uma potência
imperialista militarista em expansão; no caso do Vietnã e do Iraque, são os
Estados Unidos a potência imperialista militarista a invadir outras regiões
visando dar vazão a seus interesses estratégicos e econômicos.
Se a guerra contra o Japão, pelos motivos apontados, não serve como parâmetro
de comparação, o Vietnã devia ensinar muito ao presidente em final de mandato –
que acredita, segundo palavras do discurso aos veteranos, que teria sido melhor
ficar mais alguns anos no Vietnã, o que faria certamente que o muro de granito
com os nomes dos soldados estadunidenses mortos já estivesse cercando a cidade
de Washington.
No Vietnã e no Iraque, ao contrário do que afirma Bush, foi a presença das
forças armadas estadunidenses (e sua violência, seu desrespeito, seus
preconceitos) que intensificou o grau de violência. Pode-se razoavelmente supor
que a ausência de apoio francês e depois estadunidense ao governo de Saigon
levaria uma rápida vitória dos vietcongs, levando o Vietnã do Sul a unir-se ao
já comunista Vietnã do Norte sem maiores traumas (e evitando a radicalização no
Camboja, iniciada após os arrasadores bombardeios estadunidenses). Quanto ao
Iraque, as próprias agências de segurança e informação dos Estados Unidos
constataram, em relatório de setembro de 2006, que o radicalismo islâmico, mais
do que diminuir, vem aumentando e espalhando-se pelo globo, e que a Guerra do
Iraque é uma das razões para a difusão da “ideologia jihadista”, tornando o
problema do terrorismo muito pior.
Em ambos os casos, a principal lição histórica a se considerar é a
impossibilidade de se vencer uma guerra de ocupação, por mais poderoso que seja
o poder ocupante e suas forças armadas. Que o digam os ingleses ou russos que
tentaram no século XIX e XX ocupar o Afeganistão; os franceses, que com toda
superioridade militar foram expulsos da Indochina e da Argélia; os israelenses,
que conseguem destruir, mas não ocupar toda a Palestina; os próprios japoneses,
que no alvorecer da década de 1940 pareciam imbatíveis no sudeste asiático.
As guerras de ocupação – como é a “Guerra ao Terror” empreendida por Bush
Júnior, por enquanto tendo como alvos Afeganistão e Iraque, e em breve Irã e
Síria – têm um diferencial em relação à “guerra tradicional”, opondo dois ou
mais países e suas forças armadas: as forças de ocupação lutam contra toda a
população, não distinguindo combatentes de civis. O saldo, por pior que possa
ser para o poder ocupante, é catastrófico para o país ocupado e sua população.
Oremos pelo Iraque e pelos iraquianos.
André Gattaz, Doutor em História pela Universidade de São
Paulo; autor de “A Guerra da Palestina: da criação do Estado de Israel à Nova
Intifada” (São Paulo, Usina do Livro, 2003).
Icárabe
*Publicado por Nezimar Borges
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