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De Saigon a Bagdá

Quanto mais procura justificativas para a injustificada invasão do Iraque, mais se enreda o presidente estadunidense em mentiras e falsidades. Seu último lance foi a distorção da História apresentada em discurso para veteranos de guerra no dia 22 de agosto, em que a luta contra os japoneses na II Guerra Mundial, a Guerra do Vietnã e a Operação “Liberdade para o Iraque” foram apresentadas como uma mesma luta: a luta ideológica entre os defensores da liberdade (os estadunidenses e seus aliados, é claro) e os inimigos da liberdade (os outros). O raciocínio de Bush vai além: para ele, foi a saída prematura das tropas estadunidenses do Vietnã que desencadeou a violência que se seguiu, tanto naquele país como no Camboja.

Embora incorretas, as comparações do líder estadunidense servem a algumas considerações importantes. Primeiramente, há de se considerar uma diferença básica entre os “malvados militaristas japoneses” e os malvados comunistas ou terroristas islâmicos: o Japão iniciou a construção de um Império na década de 1930, invadindo e ocupando os países vizinhos, e efetivamente agrediu os Estados Unidos no bombardeio a Pearl Harbor, que levou o gigante norte-americano a entrar na Segunda Guerra Mundial. Quanto aos comunistas do Vietnã, ou os “fascistas islâmicos” que habitam o Iraque (e certamente o Irã, a Síria, a Palestina…), a realidade é que nunca apresentaram ameaça concreta aos Estados Unidos – mesmo se considerarmos válida a versão oficial dos eventos de 11 de setembro de 2001, o que implicaria a Al-Qaeda mas não Saddam Hussein nos atentados.

Outras diferenças saltam aos olhos ao se comparar a luta contra os japoneses e a luta contra os vietcongs ou iraquianos: no primeiro caso: tratava-se de fazer regredir o Império que se havia expandido por todo o sudeste asiático e estendia suas garras pelo Oceano Pacífico, ameaçando a América. No caso do Vietnã e do Iraque, trata-se de tentar impor um regime de ocupação que dê sustentação a um governo títere local que de outra forma não teria forças de se manter. Assim, bastou a retirada dos militares estadunidenses de Saigon para o governo sul-vietnamita ruir diante do ímpeto da guerrilha comunista dos vietcongs. E bastará uma eventual retirada estadunidense do Iraque para que imediatamente colapse o governo instalado em Badgá (que de forma alguma tem o controle sobre todo o país). Para sintetizar, pode-se dizer que a grande diferença é que, no caso do Japão, os Estados Unidos lutaram contra uma potência imperialista militarista em expansão; no caso do Vietnã e do Iraque, são os Estados Unidos a potência imperialista militarista a invadir outras regiões visando dar vazão a seus interesses estratégicos e econômicos.

Se a guerra contra o Japão, pelos motivos apontados, não serve como parâmetro de comparação, o Vietnã devia ensinar muito ao presidente em final de mandato – que acredita, segundo palavras do discurso aos veteranos, que teria sido melhor ficar mais alguns anos no Vietnã, o que faria certamente que o muro de granito com os nomes dos soldados estadunidenses mortos já estivesse cercando a cidade de Washington.

No Vietnã e no Iraque, ao contrário do que afirma Bush, foi a presença das forças armadas estadunidenses (e sua violência, seu desrespeito, seus preconceitos) que intensificou o grau de violência. Pode-se razoavelmente supor que a ausência de apoio francês e depois estadunidense ao governo de Saigon levaria uma rápida vitória dos vietcongs, levando o Vietnã do Sul a unir-se ao já comunista Vietnã do Norte sem maiores traumas (e evitando a radicalização no Camboja, iniciada após os arrasadores bombardeios estadunidenses). Quanto ao Iraque, as próprias agências de segurança e informação dos Estados Unidos constataram, em relatório de setembro de 2006, que o radicalismo islâmico, mais do que diminuir, vem aumentando e espalhando-se pelo globo, e que a Guerra do Iraque é uma das razões para a difusão da “ideologia jihadista”, tornando o problema do terrorismo muito pior.

Em ambos os casos, a principal lição histórica a se considerar é a impossibilidade de se vencer uma guerra de ocupação, por mais poderoso que seja o poder ocupante e suas forças armadas. Que o digam os ingleses ou russos que tentaram no século XIX e XX ocupar o Afeganistão; os franceses, que com toda superioridade militar foram expulsos da Indochina e da Argélia; os israelenses, que conseguem destruir, mas não ocupar toda a Palestina; os próprios japoneses, que no alvorecer da década de 1940 pareciam imbatíveis no sudeste asiático.

As guerras de ocupação – como é a “Guerra ao Terror” empreendida por Bush Júnior, por enquanto tendo como alvos Afeganistão e Iraque, e em breve Irã e Síria – têm um diferencial em relação à “guerra tradicional”, opondo dois ou mais países e suas forças armadas: as forças de ocupação lutam contra toda a população, não distinguindo combatentes de civis. O saldo, por pior que possa ser para o poder ocupante, é catastrófico para o país ocupado e sua população. Oremos pelo Iraque e pelos iraquianos.

André Gattaz, Doutor em História pela Universidade de São Paulo; autor de “A Guerra da Palestina: da criação do Estado de Israel à Nova Intifada” (São Paulo, Usina do Livro, 2003).

Icárabe

*Publicado por Nezimar Borges

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