Desapareceu a perspectiva de um progresso que torne o país
decente
20 de Agosto de 2007
Livro reúne intelectualida de brasileira para celebrar a obra de Roberto
Schwarz; em entrevista, crítico aponta diferenças nas transgressões cometidas
por ricos ou pobres
MARCOS AUGUSTO
GONÇALVES
EDITOR DA ILUSTRADA
RAFAEL
CARIELLO
DA REPORTAGEM LOCAL
O crítico e ensaísta Roberto Schwarz será celebrado e sua obra servirá de
ponto de partida para ensaios sobre a realidade social e cultural brasileira no
livro “Um Crítico na Periferia do Capitalismo”, que a Companhia das Letras prevê
lançar no próximo mês.
Nascido em 1938 na Áustria, Schwarz emigrou para o
Brasil, trazido pelos pais, no ano seguinte. Intelectual de formação marxista,
tornou-se um dos principais intérpretes do país ao escrever sobre obras
literárias, teatro e música sem aceitar, no dizer do decano Antonio Candido,
“cortar os vínculos entre a palavra e o mundo”.
Na entrevista a seguir, feita
por escrito (ele selecionou algumas perguntas das que lhe foram propostas), o
autor de célebres estudos sobre Machado de Assis e as relações entre liberalismo
e escravismo no Brasil afirma que a luta de classes foi substituída no país por
uma “desigualdade social degradada”, em que pobres e ricos viraram “lúmpen”. E
diz que desapareceu a perspectiva de progresso “que tornasse o Brasil um país
decente”.
Para o crítico, a transgressão às normas, ou a facilidade com que a
elite do país transita dentro e fora delas -sempre para seu maior ganho-, é uma
marca distintiva da sociabilidade brasileira. Na entrevista, ele diz ver uma
diferença se essa transgressão é cometida por ricos ou por pobres.
“Um
Crítico na Periferia do Capitalismo - Reflexões sobre a Obra de Roberto Schwarz”
foi organizado pelo historiador Milton Ohata e pela professora do Departamento
de Letras da USP Maria Elisa Cevasco.
O volume trará ensaios e depoimentos,
entre outros, do crítico Antonio Candido, dos sociólogos Fernando Henrique
Cardoso e Francisco de Oliveira, do filósofo José Arthur Giannotti, do
historiador Fernando Novais, dos críticos Rodrigo Naves e Ismail Xavier e do
psicanalista Tales Ab’Sáber. A seguir, a entrevista.
FOLHA - Na homenagem que lhe prestou o sociólogo Chico de Oliveira, ele diz
que tomou o seu ensaio “Fim de Século” como espécie de plataforma de pesquisa
para o “Ornitorrinco” -texto em que ele trata do casamento encalacrado e sem
superação da modernidade e do atraso brasileiros. No seu ensaio, aparece um tipo
social novo, chamado “sujeito monetário sem dinheiro”. O sr. poderia
explicar?
ROBERTO SCHWARZ - O “sujeito monetário sem dinheiro” não é uma
expressão minha, é de Robert Kurz [ensaísta alemão de esquerda]. Ela designa as
massas humanas deixadas ao deus dará pelas industrializações interrompidas do 3º
Mundo.
No período anterior, do desenvolvimentismo, a esperança de emprego e
de integração à vida moderna havia atraído os pobres para as cidades,
arrancando-os ao enquadramento rural. Quando o motor desenvolvimentista não teve
força para absorver essas populações, estava criada a figura do sujeito
monetário sem dinheiro: multidões “modernizadas”, quer dizer, cujas vidas passam
obrigatoriamente pelo dinheiro, que entretanto não têm salário, sem falar em
cidadania plena. O “Ornitorrinco” de Chico de Oliveira fez um retrato atualizado
desse bicho que não é isso nem aquilo e que somos nós. Uma sociedade que já não
é subdesenvolvida, não porque se desenvolveu, mas porque deixou de ser
tensionada pelo salto desenvolvimentista; e que não é desenvolvida, pois
continua aquém da integração social civilizada.
FOLHA - Esses “sujeitos monetários sem dinheiro” são os (des)agregados de
hoje?
SCHWARZ - De fato, os excluídos de hoje são consumidores sem meios para
consumir, o que os obriga a algum grau de ilegalidade. Se não há emprego e tudo
tem preço, como vão fazer? O paralelo com a categoria dos “agregados”,
característicos de nosso século 19 escravista, é possível, se forem guardadas as
diferenças. Também eles subsistiam no interior da economia monetária e meio à
margem dela.
Ermínia Maricato viu a continuidade entre os dois momentos,
ligada ao interesse que o sistema de poder sempre teve em manter os pobres na
precariedade, pendentes de alguém com mando. No começo do processo, em 1850, a
Lei de Terras dificultou a pequena propriedade rural, que seria um fator de
legalidade civil. E até hoje não houve vontade política para regularizar a
propriedade em favelas e cortiços, onde a massa pobre vive imersa na
ilegalidade, achacada de inúmeras maneiras e naturalmente achacando por sua
vez.
Como explica Maria Sylvia de Carvalho Franco, os agregados eram homens
livres e pobres vivendo como podiam no limbo social deixado pela ordem
escravista. Se o grosso do serviço cabia aos escravos, os demais pobres ficavam
sem meio regular de ganhar o seu sustento. Nem escravos nem senhores, eles eram
economicamente supérfluos, o que os levou a desenvolver traços peculiares.
No
mundo rural, a sua figura elementar era o morador, vivendo de favor na terra de
um proprietário, a quem devia gratidão e contraprestações, e de quem não recebia
salário, no máximo alguns cobres. No mundo urbano, extensão do rural, essa
relação se entrelaçou com a civilização moderna, diversificando-se notavelmente,
mas conservando o traço básico. Persistiam o paternalismo, a patronagem, o
clientelismo, o apadrinhamento, o filhotismo, o personalismo etc. -cuja verdade,
no pólo fraco da relação, eram a dependência pessoal e a falta de
garantias.
Especialmente no Rio de Janeiro, a massa sem ocupação certa,
obrigada a levar a vida ao acaso dos serviços, dos favores, das proteções e das
gatunagens criou um modo de ser próprio, analisado por Antonio Candido em
“Dialética da Malandragem”. A apropriação do mundo moderno dentro das pautas do
clientelismo e da informalidade locais, um processo vasto e surpreendente,
produziu uma nota “nacional” inconfundível, explorada em profundidade por
Machado de Assis.
Basta ler o teatro de Martins Pena ou as “Memórias de um
Sargento de Milícias” para saber que em meados do século 19 o entra-e-sai
brasileiro entre os campos da norma e da infração, entre o modelo europeu e os
desvios locais, já era uma trivialidade conhecida de todos. Se estou lembrado,
há uma baronesa em Martins Pena que tem empenhos na alfândega para levar para
casa os melhores escravos apreendidos do contrabando. Assim, a irregularidade e
o salve-se-quem-puder em que vivem os pobres é um lado da moeda; o outro é a
prerrogativa que têm os ricos de abusar e transgredir, “legitimada” às vezes
pelo exemplo popular.
Dito isso, a exclusão não é a mesma em nossos séculos
19 e 21, embora haja em comum a falta de dinheiro e de direitos. Num caso, o
contexto era a sociedade escravista, que a certa altura se torna abolicionista
e, decênios depois, desenvolvimentista, aspirando à dignificação do trabalho e à
superação da herança colonial; no outro caso, é a vitória avassaladora do
capital sobre os movimentos operários, carregada de conseqüências sociais
regressivas, entre as quais uma certa desmoralização de alto a baixo,
proveniente da nova unilateralidade. Com idas e vindas, abolicionismo e
desenvolvimentismo eram ascensionais; ao passo que o movimento atual, a despeito
de dois presidentes originários da esquerda, participa da vaga mundial de
aprofundamento do capitalismo e de sua destrutividade social.
FOLHA - As relações de que participam esses “sujeitos monetários sem
dinheiro” significam uma superação da relação perversa do favor?
SCHWARZ - A
troca de favores em si não tem nada de perverso. É uma relação de prestação e
contraprestação em que não entra o dinheiro. Quando é decente, é das coisas boas
da vida. Ela fica perversa quando é muito desigual, como entre um proprietário e
um desvalido, ou quando é uma cumplicidade anti-social entre ricos, para burlar
a lei e levar vantagem. Quando serve à contravenção dos pobres também não é
bonita, mas não é o mesmo, pois ajuda os de baixo a contornar a necessidade e a
desigualdade.
O que tornava perversa a relação, no século 19 brasileiro, era
algo mais particular. Como o essencial do serviço era feito por escravos, o
mercado de trabalho era incipiente, obrigando os homens pobres a buscar a
proteção de um proprietário para tocar a vida. O proprietário, por seu lado,
ficava à vontade para favorecê-los, como um senhor personalista, à antiga, a que
é devida gratidão, ou para desconhecê-los, como um cidadão moderno, que não está
nem aí, ou melhor, que não deve nada a ninguém. Essa assimetria vertiginosa
entre as classes, em que, dependendo do capricho dos ricos, os pobres podiam ser
favorecidos ou resvalar para o nada, de fato tornava a relação de favor iníqua.
Tratava-se de uma perversão estrutural, que Machado explorou como
ninguém.
Você pergunta se essa relação foi “superada” pelos sujeitos
monetários sem dinheiro. É exagero falar em superação onde o ruim foi
substituído pelo que não é bom. Superação civilizadora teria havido se o
paternalismo e as relações de clientela tivessem sido derrotados pela
generalização do trabalho assalariado, com sindicalização maciça, conquista de
direitos sociais e renegociação da parte do trabalho na vida nacional.
Não
foi o rumo que a história tomou. Algo desse tipo talvez tenha estado na ordem do
dia no começo dos anos 1960. Quem tem idade lembra da grita da classe média que
via secar o reservatório das empregadas domésticas. Mesmo com salário menor, as
moças tinham orgulho de ser operárias. Preferiam o jugo impessoal na fábrica aos
caprichos humilhantes das patroas.
Como hoje está na moda achar que 1964 não
foi nada, não custa lembrar que Lincoln Gordon, o embaixador americano na época,
reconheceu que o golpe militar brasileiro foi um momento importante da Guerra
Fria. Refletindo sobre o golpe à luz da irrisão tropicalista, que veio na sua
esteira, um “brasilianista” me observou que nossa virada à direita teve papel
precursor e deu ensejo à ordem pós-moderna, o que achei inesperado e
sugestivo.
Seja como for, estavam se instalando as condições de
despolitização e ulterior administração da pobreza. Para não perder o pé, é
preciso reconhecer que esta -a administração da pobreza- é melhor do que nada e
que a miséria na favela é preferível à miséria rural.
É o gênero de
comparação entre patamares de desgraça que esvazia a idéia de progresso, mas que
ainda assim é indispensável. Reconhecida pois uma espécie de progresso nesses
decênios, digamos que o que desapareceu foi a perspectiva do progresso orientado
e acelerado, fruto do conflito e da consciência coletiva, que tornasse o Brasil
um país decente em tempos de nossa vida. Mal ou bem, era essa a aspiração da
esquerda.
FOLHA - Como se passou de uma forma social -a do favor- a essa outra, nova?
Qual o significado dessa mudança?
SCHWARZ - Quando escrevia os seus
extraordinários artigos abolicionistas, Joaquim Nabuco tinha claro o laço entre
escravidão, latifúndio e degradações ligadas à dependência pessoal, no campo e
na cidade. Nas palavras incisivas do próprio Nabuco, era um quadro que diminuía
o valor de nosso título de cidadão. Desde então, até a crise do
nacional-desenvolvimentismo, nos anos 1970, a transformação dos excluídos em
assalariados rurais, operários e cidadãos fez parte do ideário progressista.
Sobretudo através da industrialização e da reforma agrária, que prometiam
reformar o país, acabando com a liga de mandonismo, miséria, clientelismo
sub-cidadania etc., que nos separavam da modernidade. Com a globalização estas
expectativas passaram por uma redefinição drástica. Para desconcerto geral da
esquerda, a modernização agora se tornava excludente e reiterava a
marginalização e a desagregação social em grande escala. Para quem não sabia, o
progresso do capital e o progresso da sociedade podiam não coincidir.
A
superação da marginalidade pelo trabalho ordeiro é um tópico antigo. Todos
conhecem o samba getulista da conversão do malandro: “Quem trabalha é que tem
razão / Eu digo e não tenho medo de errar / O bonde São Januário / Leva mais um
operário / Sou eu que vou trabalhar”. A letra gabava o trabalhador à custa do
malandro, mas os dois lados da alternativa eram simpáticos. Ora, o testemunho
dos artistas recentes aponta numa direção mais escura. No romance de Paulo Lins
assistimos à substituição da favela pela neofavela, em que os traços
comparativamente amenos da marginalidade tradicional são escorraçados pela
violência nova e maciça do narcotráfico, em contexto de exclusão com consumismo.
Em “Carioca”, o corajoso CD de Chico Buarque, o cantor empresta a voz, como se
fosse um telão, ao avesso fosco e temível da Cidade Maravilhosa, que não convida
ao canto. A postura é ainda mais admirável num artista que tem tanto público a
perder.
FOLHA - No seu ensaio “Cultura e Política”, o sr. fala de idéias que são
desenvolvidas antes de 64, no período democrático, e usadas pela esquerda no
período entre o golpe e 68. Seria possível fazer uma analogia entre esse uso e a
lógica das “idéias fora do lugar”?
SCHWARZ - A derrota da esquerda foi tão
completa, primeiro pelo golpe militar, depois pelas armas e enfim pelo curso das
coisas, que hoje parece extravagante valorizar a sua contribuição intelectual.
Mas não creio que esta última tenha sido uma “idéia fora do lugar”, uma fachada
caricata, alheia às necessidades e aos sofrimentos reais. Há um bom livro à
espera de ser escrito, que sintetize com isenção a obra por assim dizer coletiva
de Caio Prado Jr., Celso Furtado, Antonio Candido, Fernando Henrique Cardoso,
Paulo Emilio Salles Gomes, Fernando Novais e certamente outros que conheço
menos.
Com ponto de fuga socialista, o conjunto colocou em pé uma idéia
complexa e muito real de subdesenvolvimento, alcançada a força de independência
de espírito e abertura para a realidade. Saiu a campo contra o conservadorismo
brasileiro, a esclerose comunista, o peso ideológico do “establishment”
internacional, com passos adiante em cada uma dessas frentes. Não se tratava
mais de identidade nacional como anteriormente, mas de assumir uma posição
particular e estrutural no capitalismo contemporâneo, com impasses que não são
apenas sinais de atraso, deficiências locais, mas pontos de crise e limites da
ordem mundial. Foi um alto momento de inserção e de desprovincianização da vida
intelectual brasileira.
Em 1964 uma parte da esquerda se concentrou na
crítica aos compromissos e às ilusões do Partido Comunista no período anterior,
que haviam conduzido à debacle. Em política, sob influência de Cuba, a
radicalização levou à luta armada, duramente batida. No campo estético ela se
diversificou e teve resultados notáveis, como os filmes de Glauber Rocha e
Joaquim Pedro de Andrade, as canções de Caetano Veloso e Chico Buarque, os
espetáculos dos Teatros de Arena e Oficina em São Paulo, a teorização de Sergio
Ferro sobre arquitetura.
Seja como for, estamos longe da comédia ideológica,
do arranjo do liberal-escravismo clientelista designado nas “idéias fora do
lugar”.
FOLHA - Esta nova ordem em que vivemos produziu narrativas que dêem conta de
suas relações?
SCHWARZ - Por que não colocar a pergunta ao contrário? Digamos
que a nossa narrativa custou a entrar em sintonia com a nova ordem e a receber
as suas energias.
No seu discurso de posse, em 1995, Fernando Henrique
Cardoso sustentou que o Brasil não era mais um país subdesenvolvido, e sim um
país injusto. Noutras palavras, os impasses estruturais seriam coisa do passado
e o que viria pela frente seria uma sociedade mais racional e tranqüila,
inserida no progresso mundial. O otimismo não convenceu todo mundo, mas no geral
o debate político e estético seguia morno.
Nesse ambiente, o filme de Sergio
Bianchi “Cronicamente Inviável” foi um pequeno escândalo que fez renascer a
discussão. O desconforto e o interesse despertado indicavam que a forma
artística havia restabelecido o contato com a realidade. Em lugar de luta de
classes, o filme mostrava a desigualdade social degradada, em que os dois pólos
haviam virado lúmpen e se mereciam mutuamente -uma posição inédita na cultura
brasileira, que sempre confiara seja na pureza popular, seja na missão tutelar
das elites. De um lado, trabalhadores desmoralizados pelo desemprego e rendidos
ao imaginário burguês; de outro, uma burguesia ressentida e lamentável, invejosa
de suas congêneres do Primeiro Mundo, queixosa de não morar lá, além de amargada
com a insegurança local, que azedou os seus privilégios.
Em suma, Bianchi
recolheu os resultados não-programados da abertura econômica de Collor, com a
qual se iniciara o período contemporâneo do Brasil. As classes sociais haviam
sido expostas à competição global: os trabalhadores perdiam as condições de
luta, ao passo que o projeto nacional deixava der ser uma carta no jogo da
burguesia. Com variações, uma constelação desse tipo rebaixado conferiu
atualidade e gume a uma batelada de filmes e de espetáculos off-teatrão do
período. Com grande sucesso mas sem causar muita discussão, esse ângulo
politicamente incorreto havia sido antecipado por Chico Buarque, em
“Estorvo”.
Ele vem sendo explorado com maestria artística notável no
minimalismo poético de Francisco Alvim.
FOLHA - A noção de idéias fora do lugar pressupõe uma perfeita adequação
entre estrutura e superestrutura que talvez só tenha ocorrido nos textos de Marx
(e em alguns pontos da Europa). O resto do mundo não estaria então fora do
lugar? Esse ponto de vista não reflete uma visão eurocêntrica marxista, a ver o
Brasil como um defeito?
SCHWARZ - É como você diz, o resto do mundo estava
fora de lugar. Em palavras de Gilberto Freyre, o século 19 vivia “sob o olho do
inglês”, ou também do francês. O modelo liberal era inalcançável para a grande
maioria das demais nações, cujas condições eram outras, mas era também
indescartável, porque representava a tendência de ponta no sistema
internacional. São contradições objetivas. Em “Origens do Totalitarismo” Hannah
Arendt menciona o ressentimento contra o padrão inglês e francês na Europa de
Leste e vê nele uma predisposição para o fascismo. No século 20 o modelo
norte-americano e ultimamente a fórmula neoliberal funcionaram de maneira
análoga, como paradigmas quase incontornáveis.
Parafraseando Marx, as idéias
da classe dominante na nação hegemônica do período tendem a ser dominantes ou
pelo menos presença obrigatória nas nações periféricas. Quem as adota tais quais
é apologista ou deslumbrado. Quem pensa que as pode desconhecer coloca-se
intelectualmente fora do mundo. Dentro do possível, tudo está em relacionar-se
com elas de maneira judiciosa, reconhecendo a sua parte de necessidade, mas sem
perder de vista as realidades e os interesses próprios. Na verdade, quem foi
eurocêntrico e depois impôs o padrão americano foi o capitalismo. O marxismo,
que é a sua teoria crítica, acompanha a voragem concentradora, mas não adere a
ela.
FOLHA - Sua crítica ao tropicalismo foi realizada “a quente”, sob forte
influência de uma visão de esquerda. Censurava no movimento o seu “esnobismo de
massa”, sua tendência a fixar a imagem do Brasil como absurdo, sem apontar para
o futuro. Você faria reparos a essa perspectiva? Como recebeu a leitura que o
próprio Caetano fez do processo em “Verdade Tropical”?
SCHWARZ - Com sua
licença, vou desfazer alguns mal-entendidos em sua pergunta. Não tenho nada
contra o esnobismo, muito menos contra o esnobismo de massa, que são formas de
insatisfação e de atualização. Também não censurei a alegoria tropicalista do
Brasil absurdo. Pelo contrário, procurei mostrar o seu fundamento histórico e
seu acerto artístico. Deliberadamente ou não, ela fixava e fazia considerar a
experiência da contra-revolução vitoriosa, ou da modernização conservadora, que
em vez de dissolver o fundo arcaico do país o reiterava em meio a formas
ultramodernas. As alegorias do absurdo-Brasil, com seu poço de ambigüidades, com
seu vaivém entre a crítica, o comercialismo e a adesão, são o achado e a
contribuição do movimento. Ainda assim, em estética, e não só nela, os acertos
têm o seu custo, que é parte do problema. É este o campo explorado pela análise
dialética, que procura desentranhar alguma verdade do emaranhado artístico. Se
não me engano, a pergunta cedeu ao estereótipo do que seja a crítica de
esquerda.
“Verdade Tropical” é uma obra incomum, que vai ficar. A sua
qualidade é feita, entre vários méritos, de suas fraquezas. Quem não tenha olho
para estas passará batido pelo incômodo e pelo alto grau de contradição do
livro. São eles a sua principal força, a sua energia histórica, maior do que os
seus méritos literários óbvios. Algo semelhante vale para o próprio
Tropicalismo.
Jornal Folha de S. Paulo
http://www.uol.com.br/
*Publicado por Nezimar Borges
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