JOÃO CAPIBERIBE é Apontado como o "Maior Amapaense de Todos os Tempos" Saiba Mais Aqui>>

Sobre o Casal Capiberibe: Uma fraude e duas vidas públicas de serviço ao Brasil

João Capiberibe: Perseguido indomável

João Capiberibe, Heloísa Helena e Protógenes Queiroz em ato do PSOL contra o desemprego e a corrupção

Carta aberta ao senador Renan Calheiros

Casal Capiberibe: Dois seres preciosos

O  caso da cassação de Capiberibe:  Passo a passo de uma farsa

Carta aberta a Carlos Veloso

João Capiberibe explica o projeto Transparência ao procurador-geral da República

João Capiberibe é Apontado como o "Maior Amapaense de Todos os Tempos"

João Capiberibe recebe Maior Comenda do Acre

Globalização e regionalização

O desfecho da Segunda Guerra Mundial descortinou um panorama radicalmente novo na economia capitalista mundial. A Europa ocidental e o Japão, arrasados pelo conflito, dependiam profundamente das exportações americanas, ao mesmo tempo em que careciam desesperadamente de dólares para fazer frente a essas necessidades comerciais. Os Estados Unidos, ao contrário, emergiam como credores isolados do mundo capitalista, contando com uma economia, dinamizada pelo esforço de guerra, que conhecia taxas inéditas de crescimento. Esse panorama impunha uma reorganização do mercado mundial capitalista que formalizasse a nova posição dos Estados Unidos como vértice da economia ocidental.

No verão de 1944, reuniu-se nas cercanias de Washington a Conferência de Bretton Woods. destinada a estabelecer as novas regras do jogo monetário, comercial e financeiro internacional. Reconhecendo a nova realidade mundial, os acordos de Bretton Woods substituem o antigo padrão-ouro, que regulava as trocas internacionais, por um novo padrão, conhecido como padrão dólar-ouro.

Segundo a nova regra, o dólar passava a funcionar como moeda internacional no mesmo nível do ouro. Era estabelecida uma paridade fixa entre o dólar e o ouro (uma onça de ouro – igual a 28,35 gramas - correspondia a 35 dólares) e a convertibilidade total de dólares por ouro. Assim, o Tesouro dos Estados Unidos obrigava-se a trocar, imediatamente, ouro por dólares, segundo a paridade fixada, agindo como fiador do novo sistema monetário internacional.
Do Sistema de Bretton Woods nasceram inúmeros organismos destinados a regulamentar a economia internacional, promover a reconstrução européia e japonesa do pós-guerra e evitar graves crises econômicas internacionais. O FMI e o Bird surgem com a finalidade de prestar assistência financeira aos Estados-Membros.
A memória da crise de 1929 ainda atormentava os estrategistas da economia capitalista, que buscavam fórmulas para prevenir depressões e recessões capazes de conduzir à quebra dos fluxos internacionais e ao isolacionismo comercial. O Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT) , hoje denominado O.M.C. (Organização Mundial de Comércio), complementava a arquitetura econômica originada de Bretton Woods, visando promover o crescimento dos fluxos comerciais internacionais e diminuir as tarifas, taxas e barreiras comerciais.

Em 1947 era deflagrado o Plano Marshall, instrumento ativo da reconstrução capitalista do pós-guerra. Para revitalizar os fluxos comerciais internacionais, o Plano buscava corrigir a defasagem imensa entre a acumulação de dólares no interior dos Estados Unidos e a dramática carência de dólares dos aliados europeus, transferindo moeda a juros simbólicos de um lado para o outro do Atlântico Norte. Estratégia econômica de fundo geopolítico, o Plano Marshall tinha como horizonte a constituição de uma sólida área de economia capitalista no Ocidente europeu, integrada à economia americana, e de enfrentamento do Bloco Socialista.

Durante duas décadas, a economia capitalista mundial conheceu um boom ininterrupto, marcado por taxas de crescimento inéditas e por uma estabilidade desconhecida nas tumultuadas décadas anteriores. A Europa ocidental e o Japão tomavam-se, depois dos Estados Unidos, verdadeiras “sociedades de consumo”. Entre 1950 e 1970, os países capitalistas desenvolvidos cresceram a uma média anual de 5,3%. No mesmo período, o comércio mundial se elevou de 60 bilhões para 300 bilhões de dólares.
O Tratado de Roma, de 1957, lançou as bases da Comunidade Econômica Européia (CEE), moldura para um pólo capitalista de intensa prosperidade. No interior da CEE.- a RFA (República Federal Alemã) realizou, ao longo dos anos 50, o seu “milagre econômico”, integrando-se plenamente ao mundo ocidental e capitalista tanto no plano político como no econômico. No Extremo Oriente, o “milagre japonês” dos anos 70 dinamizou a formação de outro pólo capitalista, abrangendo as áreas asiáticas sob influência geopolítica ocidental (Coréia do Sul, Taiwan, Cingapura, Hong Kong).

O ciclo de prosperidade capitalista do pós-guerra, cujo início coincidiu com a deflagração da Guerra Fria, foi conduzido por governos conservadores.

De fato, a conjuntura política e econômica produzida pelos primeiros lances da Guerra Fria e pelo Plano Marshall provocou o encerramento do curto período de governos de ampla coalizão instalados no imediato pós-guerra. As forças de centro e de centro-direita passaram a controlar integralmente as administrações dos principais Estados europeus.

Na França e na Itália, as novas realidades da cena internacional determinaram o alijamento dos partidos comunistas que, desde o fim da guerra participavam minoritariamente de gabinetes de coligação. Na Grã-Bretanha, principal país europeu aliado dos Estados Unidos, as eleições gerais de 1950 marcaram a derrota dos trabalhistas, que ocupavam o governo desde 1945, e a volta dos conservadores liderados mais uma vez por Winston Churchill. Já a RFA, Estado gerado diretamente pela Guerra Fria, não chegou a conhecer um período governamental de centro-esquerda ou de coalizão. Desde sua proclamação, em 1949, os conservadores de Konrad Adenauer mantiveram uma ampla hegemonia política. Os trabalhistas ingleses conseguiram maioria nas eleições de 1964, configurando uma exceção na paisagem político-eleitoral européia.

ANOS 70: A DÉCADA DA CRISE
Os anos 70, uma década de crise e recessão na economia mundial, assinalaram o esgotamento do modelo de crescimento adotado no pós-guerra, encerrando um longo ciclo ascendente da economia capitalista.

A crise dos anos 70 ficou conhecida nos meios de comunicação como “crise do petróleo”. Efetivamente, a década conheceu dois grandes choques altistas do preço do principal combustível das economias industriais, que passou de menos de dois dólares o barril para quase trinta dólares durante o período.

Indiscutivelmente, o choque do petróleo foi um componente essencial da “crise dos 70″, atuando como poderoso acelerador da inflação nas economias desenvolvidas. Contudo, o petróleo não pode ser visto como causa de uma crise de natureza estrutural, que já se manifestava antes da primeira alta do preço do barril e que era condicionada pela completa alteração das condições gerais que tinham impulsionado o ciclo ascendente das décadas de 50 e 60.

A economia americana e a crise internacional
o modelo de crescimento arquitetado no pós-guerra alicerçava-se no absoluto predomínio da economia americana no mundo capitalista e no correspondente papel jogado pelo dólar, simultaneamente moeda nacional americana e meio de troca internacional. Eram pressupostos necessários desse modelo à hegemonia comercial americana e a carência de dólares dos demais países capitalistas desenvolvidos, tanto da área européia como da asiática.

Esse modelo começou a desaparecer justamente em função do seu sucesso. A reconstrução do pós-guerra e, depois, os “milagres” alemão e japonês provocaram o desaparecimento progressivo da hegemonia comercial americana e o surgimento de fortes concorrentes no mercado mundial capitalista.

A Guerra do Vietnã, que recrudescia no fim da década de 60, exatamente quando evaporavam os grandes saldos da balança comercial e do balanço de pagamentos dos Estados Unidos, obrigava Washington a adotar uma política de emissão de dólares não lastreados em ouro. Era uma política nitidamente inflacionária que, entre outros efeitos, contribuía para o surgimento de um fenômeno inédito: pela primeira vez, a conta corrente (saldo entre todas as exportações e importações de bens e serviços) americana revelava-se negativa. Ao mesmo tempo, a tradicional carência de dólares na Europa e no Japão transformava-se numa inédita abundância.
Nas novas condições, a paridade fixa e a livre convertibilidade entre o dólar e o ouro, pilares do Sistema de Bretton Woods, tornavam-se extremamente perigosas para os Estados Unidos. De um lado, a paridade fixa mantinha o dólar artificialmente valorizado em relação às demais moedas européias e japonesas, destruindo a competitividade dos produtos de exportação americanos e agravando os problemas da balança comercial. De outro, a livre convertibilidade de um dólar enfraquecido criava o risco de uma corrida dos Bancos Centrais europeus e japonês rumo aos estoques de ouro do Tesouro americano, que não mais era capaz de honrar a troca estabelecida em Bretton Woods.

O Sistema de Bretton Woods estava falido. Em agosto de 1971, o presidente americano Richard Nixon começa a mudança das regras do jogo, decretando unilateralmente uma desvalorização do dólar em relação ao ouro.

Em 1973, Nixon completou a “virada da mesa”, decretando o fim do sistema de paridades. fixas e livre convertibilidade. O dólar passava a “flutuar” em relação ao ouro e às demais moedas fortes, valorizando-se ou desvalorizando-se de acordo com as leis do mercado. Além disso, o Tesouro americano livrava-se da obrigação de trocar dólares por ouro.

A jogada de Nixon selava a morte do sistema monetário do pós-guerra, mas não o substituía por qualquer outro. Apenas protegia a economia americana dos graves riscos de curto prazo que a ameaçavam. “Atuando” em condições de abundância relativa, o dólar tendia a se desvalorizar em relação às moedas fortes, o que deveria permitir a recuperação da competitividade das exportações americanas e da balança comercial, à custa dos parceiros europeu e japonês.

Desobrigada da convertibilidade, a administração americana podia continuar financiando seus déficits pela emissão de dólares, claro que à custa de uma alta inflacionária não só no interior dos Estados Unidos, como em toda a área internacional capitalista regida pelo dólar.

Com a inflação, diminuíam as trocas internacionais e a atividade econômica, sinais claros de uma recessão internacional. O desemprego aumentava e os níveis salariais caíam na América do Norte, Europa e Japão.

O petróleo e a crise internacional
A propalada “crise do petróleo” surge como agravante conjuntural de uma crise estrutural que já manifestava seus primeiros sintomas em 1968, e se revelava de maneira dramática em agosto de 1971. Prova disso está no fato de o primeiro “choque de preços” produzido pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) acontecer apenas no fim de 1973, após a derrota árabe diante de Israel na Guerra do Yom Kippur.

A crise do petróleo, mesmo não sendo a “causa” da recessão mundial, alimentou os sinais inflacionários e recessivos já presentes na década de 70. Entretanto, seus resultados são mais complexos do que parecem.

Entre os grandes beneficiados pela crise do petróleo estão os Estados Unidos (e, evidentemente, as multinacionais petrolíferas, a maioria das quais americana) e os países exportadores de petróleo.
Os Estados Unidos se beneficiaram por diversos motivos. De um lado, porque apresentavam menor dependência de importações de petróleo que seus concorrentes europeu e japonês, o que possibilitou recuperações conjunturais da sua balança comercial, com reflexos favoráveis na conta corrente. Observe no gráfico esse fenômeno no comportamento da conta corrente americana nos anos seguintes aos dois “choques do petróleo”, ocorridos em 1973 e 1979. De outro, porque os excedentes de dólares em mãos dos exportadores de petróleo (petrodólares) foram investidos principalmente no mercado financeiro americano (que atraiu esses capitais praticando elevadas taxas de juro), o que provocou nova valorização do dólar em relação às demais moedas fortes.

Entre os prejudicados com a crise do petróleo estão a Europa ocidental e o Japão, que conheceram um agravamento das suas taxas de inflação, durante alguns anos de recessão, e crescimento econômico nulo ou negativo. Já os países subdesenvolvidos acabaram por pagar a quase totalidade dos custos da crise, em função das políticas de recuperação adotadas pelos países desenvolvidos, que envolveram a alta dos juros internacionais (com o crescimento acelerado das dívidas externas) e a baixa dos preços das matérias-primas e produtos agrícolas no mercado mundial.

A crise Internacional e o Welfare State
A década de 70 combinou uma prolongada crise econômica com uma radical alteração da diplomacia internacional, marcada pela coexistência pacífica. Essa combinação repercutiu nas instituições políticas, provocando o recuo dos partidos conservadores, desgastados pela crise, que tinham dominado a cena européia desde o início dos anos 50. Voltaram ao poder os partidos social-democrata e trabalhista.

Foi na Alemanha Ocidental que teve início o ciclo de governos de centro-esquerda, com a ascensão do Partido Social-Democrata (SPD) do chanceler Willy Brandt. Criador da política de reaproximação com a Alemanha Oriental, transformou-se na mais importante liderança da distensão européia.

Na Grã-Bretanha, o Labour Party retomava finalmente ao poder nas eleições de 1974. Até 1979, os trabalhistas ocupariam o governo por meio dos primeiros-ministros Harold Wilson e James Callaghan. O conservadorismo das instituições da V República francesa retardou a manifestação da tendência internacional de ascensão social-democrata até o ano de 1981, quando François Mitterrand foi eleito para a presidência e formou um governo de coligação entre socialistas e comunistas. Mesmo nos Estados Unidos, a virada política rumo à centro-esquerda se manifestou por meio da eleição de Jimmy Carter, do Partido Democrata, em 1976.
No poder, esses governos orientaram-se na direção de políticas destinadas a amenizar as conseqüências sociais da crise econômica. Procuraram conter a elevação do desemprego, proteger os salários submetidos à corrosão inflacionária e multiplicar as leis sociais (seguro-desemprego, aposentadorias, programas estatais de saúde, etc.). Esse conjunto de medidas, que respondia a um descontentamento social crescente e a uma dinamização das atividades sindicais, ficou conhecido como Welfare State. ou Estado de Bem-Estar.

Suas raízes encontram-se no pensamento político-econômico keynesiano, adotado na década de 30 para recuperar a economia mundial abalada pela crise de 29. Apregoava a intervenção do Estado na economia para minimizar os efeitos da concentração de riqueza produzidos pelo liberalismo.

ANOS 80: A ALTERNATIVA LIBERAL
A reconstrução capitalista do pós-guerra e o longo ciclo ascendente que a seguiu originaram-se de uma reorganização geral das forças produtivas internacionais.

Esse período de reconstrução baseou-se na reposição das mercadorias e da infra-estrutura destruída ou tornada obsoletas pela guerra. Paradoxalmente, a destruição econômica provocada pelo conflito tornava-se uma alavanca para a recuperação de inúmeros setores industriais e para a criação de novos setores antes inexistentes. Em decorrência, abriram-se e cresceram novos setores industriais, particularmente nos ramos químico e petro-químico, eletroeletrônico, energético, etc.

Um intenso processo de oligopolização acompanhou a abertura dessas novas fronteiras produtivas. As grandes empresas, favorecidas pelas encomendas do Estado e pelos programas de reconstrução da economia, engoliam os pequenos capitais e expandiam seus negócios além das fronteiras dos países-sede, tornando-se conglomerados transnacionais.

Os anos 70 manifestaram, pelos sintomas típicos da recessão (queda do emprego e alta dos preços), o esgotamento dessa base produtiva construída nas décadas de 40 e 50. A crise da década de 70 provocou um novo rearranjo e um movimento generalizado na direção de um novo modelo de crescimento capitalista.

A nova organização da base produtiva apoiou-se num esquema parecido com o do pós-guerra, ou seja, na abertura de novos setores de investimentos, direcionados agora para a informática, a biotecnologia, os novos materiais, a pesquisa aeroespacial e a química fina. Como no pós-guerra, esse processo desbravador foi acompanhado e viabilizado por gastos estatais e por estímulos à pesquisa e ao desenvolvimento. Nova- . mente, ele combinou-se com movimentos de concentração e centralização de capitais tendentes à oligopolização, isto é, à eliminação dos pequenos capitais e à fusão de conglomerados já existentes.

A retomada do crescimento das economias desenvolvidas
A política econômica da administração Reagan (conhecida como reaganomics) comandou a estratégia de superação da crise posta em prática pelos países desenvolvidos.
No início dos anos 80, os preços do petróleo iniciavam uma trajetória de baixa acelerada, provocada pela combinação do aumento da oferta mundial do produto com a perda da capacidade da Opep de controlar essa oferta em ascensão.

A nova situação propiciava uma rápida recuperação das balanças comerciais dos concorrentes dos Estados Unidos, capitaneados pelo Japão e pela Alemanha Ocidental. Ao mesmo tempo, a supervalorização do dólar - mantida na segunda metade da década de 70 pela recessão européia e japonesa e pelos fluxos de petrodólares rumo ao mercado financeiro americano - provocava déficits sucessivos na conta corrente dos Estados Unidos. O mercado americano absorvia uma quantidade cada vez maior de produtos importados e os demais países compravam cada vez menos dos Estados Unidos.

Nessas condições, a administração Reagan optou por uma política econômica aparentemente contraditória. Nela se combinavam altas taxas de juros, sérias restrições monetárias, convivência com déficits gigantescos na conta corrente e diminuição dos impostos com a conseqüente produção de um gigantesco déficit orçamentário. Essa política econômica surpreendente se baseava na circunstância especial que faz do dólar, simultaneamente, moeda nacional e meio de troca internacional.

A política de altas taxas de juros servia para desviar o rumo do seguro mercado financeiro americano: a poupança internacional. Em conseqüência, o dólar prosseguiu valorizando-se em relação às demais moedas fortes até quase o final do governo Reagan.

O “superdólar”, artificialmente valorizado, permitia à administração Reagan conviver com a perda de competitividade das exportações americanas e com o decorrente rombo na conta corrente. Permitia, ainda, financiar o explosivo déficit orçamentário (receitas menos despesas do governo), derivado dos imensos gastos armamentistas e da política de diminuição dos impostos. A poupança internacional, aplicada no mercado financeiro americano, simplesmente substituía os recursos antigamente conseguidos pelas exportações de mercadorias e serviços.

Simultaneamente, as severas restrições na política monetária (um controle violento da emissão de moeda) conseguiram debelar as altas taxas inflacionárias da década anterior.

A engenhosa política da administração Reagan conduziu a uma rápida retomada do crescimento econômico americano, apoiada numa explosão de consumo cujos fundamentos eram a inflação em declínio, a baixa dos impostos e a importação generalizada de bens de consumo.

As economias européia e japonesa, mesmo financiando em parte os déficits americanos, devido à atração de suas poupanças provocadas pelo “superdólar”, beneficiaram-se da retomada do crescimento dos Estados Unidos. Na esteira do consumismo americano, ampliaram-se largamente suas exportações para aquele mercado insaciável, ao mesmo tempo em que os preços do petróleo deixavam de constituir fator de estrangulamento de suas contas externas. Os sinais do relançamento econômico do mundo desenvolvido já estavam claramente delineados, em 1983.

A transferência da crise para o Terceiro Mundo
O relançamento das economias desenvolvidas apoiou-se, nitidamente, sobre uma transferência dos custos da crise para os países do Terceiro Mundo.

Dois mecanismos principais de transferência foram acionados: a manipulação das taxas de juros internacionais e dos preços das commodities (produtos primários ou semi-elaborados).

As altas taxas de juros praticadas pela reaganomics repercutiram sobre todo o mercado financeiro internacional. Os grandes prejudicados foram os países endividados com instituições oficiais ou bancos particulares sediados nos países desenvolvidos. A explosão dos juros determinou assim uma explosão das dívidas externas, que se convencionou denominar debt crisis, como mostra o quadro a seguir:

Os países endividados foram arrastados para conjunturas recessivas agudas, ao comprometer praticamente todos os saldos comerciais com os pagamentos dos serviços (juros e taxas) da dívida.

Precisamente nessa conjuntura, em que os países subdesenvolvidos transformavam-se em fontes de capitais para a recuperação econômica dos países desenvolvidos, o FMI adotava uma orientação voltada para a negação de novos empréstimos que ajudassem os devedores a “rolar” suas dívidas. A dramaticidade do problema das dívidas veio à tona já em 1981, com o reconhecimento da impossibilidade de continuar pagando os serviços da dívida pela Polônia, seguida depois pelo México, Brasil e Peru.

Para a liberação de novos empréstimos, o FMI passava a exigir dos devedores a aplicação de estratégias recessivas (chamadas eufemisticamente “ortodoxas”) em suas economias internas. Tais estratégias conduziam ao aumento das exportações para gerar divisas destinadas ao pagamento dos juros e taxas das dívidas. Porém, o crescimento da oferta de commodities no mercado mundial provocava um rebaixamento contínuo do preço dessas mercadorias.
Para produzir saldos comerciais sempre crescentes, os endividados terminavam por conter o consumo interno (pelo rebaixamento do poder aquisitivo da população) e diminuir as importações (ocasionando problemas de reposição dos bens de produção e queda da atividade econômica). Esse circuito perverso só pode conduzir ao aumento do desemprego e a processos inflacionários e hiperinflacionários, como os conhecidos pelo México, Argentina, Brasil, Bolívia e Peru.

O neoliberalismo no poder
A década de 80 produziu uma nova reviravolta no jogo político europeu e americano. O cerne dessa reviravolta esteve na decadência das políticas orientadas para o Welfare State e na ascensão das políticas chamadas “neoliberais”.

O relançamento econômico dos anos 80 apoiou-se na premissa de que o Estado deveria abandonar as intervenções, que tendiam a limitar os lucros auferidos pelo capital, a fim de que fossem estimulados os investimentos nos novos setores abertos pela “revolução tecnológica” em andamento. Segundo os teóricos neoliberais, a interferência do Estado (por exemplo, na defesa dos empregos) retardava a necessária realocação de capitais até então investidos em setores econômicos estagnados.

O termo “neoliberalismo” surgia nesse contexto para produzir a imagem de que as teorias em moda pregavam o “livre jogo do mercado” e a “completa liberdade da lei da oferta e da procura”.
Entretanto, essa imagem configurava muito mais um disfarce das teorias econômicas em ascensão do que uma realidade.

fetivamente, o que o neoliberalismo buscava não era o fim da interferência do Estado na economia, mas uma mudança de rota dessa interferência. O Estado deveria parar de opor restrições ao capital, defendendo direitos e leis sociais, e subsidiar e estimular os processos de oligopolização e os investimentos em pesquisa e desenvolvimento nos setores de tecnologia de ponta.

Os governos de Margaret Thatcher, na Grã-Bretanha, e de Ronald Reagan, nos Estados Unidos, implantados, respectivamente, em 1979 e 1980, ilustram nitidamente as orientações neoliberais que passavam a ter hegemonia sobre a política econômica dos países desenvolvidos.

Interessante é constatar que, mesmo naqueles países em que socialistas e social-democratas mantiveram o poder, como é o caso da França de Mitterrand e da Espanha de Felipe González, as teorias neoliberais passaram a dar o tom das políticas econômicas governamentais.

DÓLAR, MOEDA TRANSNACIONAL
O texto seguinte é de autoria do francês Raymond Aron, especialista em economia e relações Internacionais. Foi extraído da obra Os últimos anos do século (Rio de Janeiro, Guanabara, 1987, p. 44 a 50), publicada originalmente na França, em 1984.

Inicialmente, ao serem negociados os estatutos de Bretton Woods, os Estados Unidos, saídos intactos de uma guerra e enriquecidos pela mobilização de seu parque industrial, desfrutavam de um superpoder econômico e financeiro. Eles se outorgaram uma autoridade quase ilimitada dentro do Fundo Monetário Internacional. Apesar disso, enquanto respeitaram, fosse como fosse, os regulamentos que em boa parte ditaram, tiraram menos proveito que seus concorrentes.

O mesmo não aconteceu após 1973. Após uma experiência de dez anos, constatou-se que o mercado aumenta e diminui o valor do dólar. Ora supervalorizado, ora desvalorizado, ele jamais se situa no nível da taxa que corresponderia à paridade do poder aquisitivo. Com toda certeza ele continua a gozar as vantagens que lhe assegura o seu caráter transnacional: possibilita comprar produtos estrangeiros e, automaticamente, permite aos dirigentes de Washington tolerarem sem ansiedade os déticits da balança de pagamentos. Os períodos de desvalorização comportam, assim como os de supervalorização, vantagens e inconvenientes, tanto para estrangeiros como para norte-americanos (…).

Atualmente, a política de Ronald Reagan irrita ou indigna a maioria dos dirigentes dos principais países (com exceção do Japão). Essa política consiste na combinação de um déficit orçamentário considerável (100 bilhões, cerca de 6% do PI B) e restrições monetárias (até o mês de agosto de 1983). As restrições monetárias provocam uma queda considerável da inflação e alta das taxas de juros. Assim, na fase inicial de recuperação, as taxas de juros são mais altas do que jamais o foram nessa fase do ciclo. As taxas de juros atraem o capital estrangeiro e fazem o valor do dólar aumentar no mercado. A recuperação da economia arrisca-se a ser rapidamente freada: para evitar que a retomada da atividade econômica venha acompanhada de um recrudescimento inflacionário, o Federal Reserve Board poderia ser levado a adotar ações restritivas.

Cabe aqui uma primeira observação. Os Estados Unidos, mais uma vez, aproveitam-se de sua situação ímpar. Nenhum Estado pode atrair capitais se tiver um déficit orçamentário maciço (mesmo se o déficit de pagamentos for em parte compensado pelos interesses dos investimentos no exterior). Nenhum Estado pode permitir-se tal déficit orçamentário e lutar de maneira eficiente contra a inflação usando exclusivamente a arma monetária (…).

Seria por causa da força militar de seu país que Ronald Reagan poderia adotar tal política? Uma formulação desse gênero não tem, a meu ver, nenhum sentido. É claro que a força militar é parte do todo “Estados Unidos”. Eu não saberia como responder de maneira sensata à pergunta: “Poderiam os Estados Unidos se comportar assim se não tivessem a força que têm em terra, mar e ar?” A hipótese irreal parece-me bastante inverossímil para que se possa escolher entre um sim ou um não. O que me parece essencial é que os Estados Unidos administram a sua moeda transnacional como se ela fosse estritamente nacional. Decidido a combater a inflação e incapaz de reduzir as despesas governamentais, justo no momento em que tomara a decisão de aumentar o arsenal, o presidente encarregou o presidente do Federal Reserve Board de conter a alta dos preços. A situação ímpar dos Estados Unidos tornou isso possível. A moeda transnacional desempenha sua função, qualquer que seja o estado das finanças públicas ou da balança de pagamentos.

Já houve, é claro, um momento em que Carter se viu obrigado a intervir no mercado para segurar a cotação do dólar. Qualquer dia desses ele cairá do topo onde se encontra. O capital estrangeiro é atraído não só por taxas de juros elevadas, mas também pelo país refúgio em caso de crise internacional, pela economia que, apesar de tudo, é ainda a mais rica e talvez a mais dinâmica do mundo.

Teria a situação sido diferente, caso a segurança dos europeus não dependesse dos Estados Unidos? Talvez; porém o que modificaria a paisagem econômica seria a formação de uma autêntica unidade européia. Se a comunidade européia se tornasse o equivalente dos Estados Unidos da América, as discussões transatlânticas tomariam outro rumo. A moeda dos Estados Unidos da Europa anularia a posição de monopólio do dólar e sua condição de unidade monetária transnacional; nem a economia alemã nem a britânica possuem dimensões suficientes para servir de suporte a uma moeda transnacional (…).

Teriam os Estados Unidos interesse em deixar sua moeda ficar acima ou abaixo do valor de equilíbrio, que corresponderia à paridade do poder aquisitivo? A resposta não é tão óbvia. A supervalorização do dólar provoca um déficit da balança comercial (em tempos de crise, os Estados tentam desvalorizar, como aconteceu na década de 30); a desvalorização do dólar em 1978-79 favorecia as exportações norte-americanas e facilitava a tarefa dos devedores dos bancos e do Tesouro norte-americanos. Acaso uma taxa de câmbio próxima da paridade dos poderes aquisitivos seria melhor tanto para os Estados Unidos quanto para o sistema econômico em geral?

Não duvido, mas não tenho a ilusão de convencer nem os assessores nem os responsáveis de Washington. Tanto uns como outros guardam a lembrança dos anos 60, que foi um período de paralisia. Como o dólar estava ligado ao ouro, ele não podia se mover sozinho; só flutuava quando havia flutuação de outras moedas. Ao pedirem uma desvalorização plenamente legítima em 1971, encontraram resistência por parte de seus aliados e concorrentes. A partir de então, rejeitam qualquer forma de rigidez e aplicam com satisfação às moedas a idéia de que o mercado tem sempre razão. A extensão da lei do mercado às moedas leva a um tipo de relatividade geral. A moeda não mais encarna um bem real, não se liga a nenhuma mercadoria em particular. Assim como outras moedas, o dólar vale o que os compradores estão dispostos a gastar em francos, marcos ou ienes para comprá-lo.

Por quanto tempo ainda os Estados Unidos vão impor as taxas de câmbio flutuantes? Ninguém arriscaria uma previsão. Pode ser que, na falta de um acordo entre os ocidentais sobre um regime substituto, o regime perdure. A restauração do padrão-ouro e do padrão de câmbio-ouro (moedas juntando-se ao ouro enquanto instrumentos de reserva) pressupõe uma conversão dos peritos americanos, que só se manifesta esporadicamente. A opinião dominante entre os economistas e nos meios dirigentes continua mais fiel à recusa da rigidez anterior do que às flutuações atuais. Ora, qualquer reforma limitaria a liberdade de ação interna dos governantes. O presidente Ronald Reagan quer aumentar o orçamento da defesa, reduzir o imposto de renda e vencer a inflação. A política do Federal Reserve Board completa e concilia essas intenções aparentemente divergentes e mesmo contraditórias. Como resultado, temos o aumento das taxas de juros e a ascensão do dólar.

A isso, vários peritos do outro lado do Atlântico objetariam que os capitais europeus afluem para os Estados Unidos menos por causa das taxas de juros do que pela atração exercida pela economia norte-americana, destinada atualmente a um novo florescimento, enquanto todas as economias européias, de uma forma ou de outra, parecem estagnadas. Pode ser que estejamos assistindo a uma repetição dos anos que vieram imediatamente após a guerra, quando o Velho Continente ainda não recuperara a confiança em si mesmo e a confiança do mundo.

Orientação Bibliográfica
ALIBER, Robert. O jogo monetário internacional. Rio de Janeiro, Zahar, 1976.
ARON, Raymond. Dezoito lições sobre a sociedade industrial. Lisboa, Presença, 1981.
BEAUD, Michel. História do capitalismo. São Paulo, Brasiliense, 1987. .
BECKOUCHE, Pierre. Indústria; um só mundo. São Paulo, Ática, 1995.
COSTA, Rogério Haesbaert. Blocos internacionais de poder. São Paulo, Contexto, 1994.
GRIFFITH, Jones & SUNKEL. O fim de uma ilusão. São Paulo, Brasiliense, 1990.
MAGNOLl, Demétrio. União Européia; história e geopolítica. São Paulo, Moderna, 1994.
SOLOMON, Robert. O Sistema Monetário Internacional: 1945-1976. R. de Janeiro, Zahar, 1979.

Demétrio Magnoli

*Publicado por Nezimar Borges

Bookmark and Share

AJUDE O SITE "históriadocapi" A SOBREVIVER. FAÇA UMA DOAÇÃO AQUI>>>
Trajetória | Capiberibe na Mídia | Anos de Chumbo | Luta pelo mandato | Artigos | Entrevistas
Página Inicial | Idealizador do Site | Notícias | Fale Conosco
Transparência | Desenvolvimento Sustentável | Amazônia
Mundo | Especial | Socialismo do Séc. 21
Site feito por: Nezimar Borges
Copyright © 2006-2012