Globalização e regionalização
20 de Agosto de 2007
O desfecho da Segunda Guerra Mundial descortinou um panorama radicalmente
novo na economia capitalista mundial. A Europa ocidental e o Japão, arrasados
pelo conflito, dependiam profundamente das exportações americanas, ao mesmo
tempo em que careciam desesperadamente de dólares para fazer frente a essas
necessidades comerciais. Os Estados Unidos, ao contrário, emergiam como credores
isolados do mundo capitalista, contando com uma economia, dinamizada pelo
esforço de guerra, que conhecia taxas inéditas de crescimento. Esse panorama
impunha uma reorganização do mercado mundial capitalista que formalizasse a nova
posição dos Estados Unidos como vértice da economia ocidental.
No verão de
1944, reuniu-se nas cercanias de Washington a Conferência de Bretton Woods.
destinada a estabelecer as novas regras do jogo monetário, comercial e
financeiro internacional. Reconhecendo a nova realidade mundial, os acordos de
Bretton Woods substituem o antigo padrão-ouro, que regulava as trocas
internacionais, por um novo padrão, conhecido como padrão dólar-ouro.
Segundo
a nova regra, o dólar passava a funcionar como moeda internacional no mesmo
nível do ouro. Era estabelecida uma paridade fixa entre o dólar e o ouro (uma
onça de ouro – igual a 28,35 gramas - correspondia a 35 dólares) e a
convertibilidade total de dólares por ouro. Assim, o Tesouro dos Estados Unidos
obrigava-se a trocar, imediatamente, ouro por dólares, segundo a paridade
fixada, agindo como fiador do novo sistema monetário internacional.
Do
Sistema de Bretton Woods nasceram inúmeros organismos destinados a regulamentar
a economia internacional, promover a reconstrução européia e japonesa do
pós-guerra e evitar graves crises econômicas internacionais. O FMI e o Bird
surgem com a finalidade de prestar assistência financeira aos
Estados-Membros.
A memória da crise de 1929 ainda atormentava os
estrategistas da economia capitalista, que buscavam fórmulas para prevenir
depressões e recessões capazes de conduzir à quebra dos fluxos internacionais e
ao isolacionismo comercial. O Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT) , hoje
denominado O.M.C. (Organização Mundial de Comércio), complementava a arquitetura
econômica originada de Bretton Woods, visando promover o crescimento dos fluxos
comerciais internacionais e diminuir as tarifas, taxas e barreiras
comerciais.
Em 1947 era deflagrado o Plano Marshall, instrumento ativo da
reconstrução capitalista do pós-guerra. Para revitalizar os fluxos comerciais
internacionais, o Plano buscava corrigir a defasagem imensa entre a acumulação
de dólares no interior dos Estados Unidos e a dramática carência de dólares dos
aliados europeus, transferindo moeda a juros simbólicos de um lado para o outro
do Atlântico Norte. Estratégia econômica de fundo geopolítico, o Plano Marshall
tinha como horizonte a constituição de uma sólida área de economia capitalista
no Ocidente europeu, integrada à economia americana, e de enfrentamento do Bloco
Socialista.
Durante duas décadas, a economia capitalista mundial conheceu um
boom ininterrupto, marcado por taxas de crescimento inéditas e por uma
estabilidade desconhecida nas tumultuadas décadas anteriores. A Europa ocidental
e o Japão tomavam-se, depois dos Estados Unidos, verdadeiras “sociedades de
consumo”. Entre 1950 e 1970, os países capitalistas desenvolvidos cresceram a
uma média anual de 5,3%. No mesmo período, o comércio mundial se elevou de 60
bilhões para 300 bilhões de dólares.
O Tratado de Roma, de 1957, lançou as
bases da Comunidade Econômica Européia (CEE), moldura para um pólo capitalista
de intensa prosperidade. No interior da CEE.- a RFA (República Federal Alemã)
realizou, ao longo dos anos 50, o seu “milagre econômico”, integrando-se
plenamente ao mundo ocidental e capitalista tanto no plano político como no
econômico. No Extremo Oriente, o “milagre japonês” dos anos 70 dinamizou a
formação de outro pólo capitalista, abrangendo as áreas asiáticas sob influência
geopolítica ocidental (Coréia do Sul, Taiwan, Cingapura, Hong Kong).
O ciclo
de prosperidade capitalista do pós-guerra, cujo início coincidiu com a
deflagração da Guerra Fria, foi conduzido por governos conservadores.
De
fato, a conjuntura política e econômica produzida pelos primeiros lances da
Guerra Fria e pelo Plano Marshall provocou o encerramento do curto período de
governos de ampla coalizão instalados no imediato pós-guerra. As forças de
centro e de centro-direita passaram a controlar integralmente as administrações
dos principais Estados europeus.
Na França e na Itália, as novas realidades
da cena internacional determinaram o alijamento dos partidos comunistas que,
desde o fim da guerra participavam minoritariamente de gabinetes de coligação.
Na Grã-Bretanha, principal país europeu aliado dos Estados Unidos, as eleições
gerais de 1950 marcaram a derrota dos trabalhistas, que ocupavam o governo desde
1945, e a volta dos conservadores liderados mais uma vez por Winston Churchill.
Já a RFA, Estado gerado diretamente pela Guerra Fria, não chegou a conhecer um
período governamental de centro-esquerda ou de coalizão. Desde sua proclamação,
em 1949, os conservadores de Konrad Adenauer mantiveram uma ampla hegemonia
política. Os trabalhistas ingleses conseguiram maioria nas eleições de 1964,
configurando uma exceção na paisagem político-eleitoral européia.
ANOS 70: A DÉCADA DA CRISE
Os anos 70, uma década de crise e recessão na
economia mundial, assinalaram o esgotamento do modelo de crescimento adotado no
pós-guerra, encerrando um longo ciclo ascendente da economia capitalista.
A
crise dos anos 70 ficou conhecida nos meios de comunicação como “crise do
petróleo”. Efetivamente, a década conheceu dois grandes choques altistas do
preço do principal combustível das economias industriais, que passou de menos de
dois dólares o barril para quase trinta dólares durante o
período.
Indiscutivelmente, o choque do petróleo foi um componente essencial
da “crise dos 70″, atuando como poderoso acelerador da inflação nas economias
desenvolvidas. Contudo, o petróleo não pode ser visto como causa de uma crise de
natureza estrutural, que já se manifestava antes da primeira alta do preço do
barril e que era condicionada pela completa alteração das condições gerais que
tinham impulsionado o ciclo ascendente das décadas de 50 e 60.
A economia americana e a crise internacional
o modelo de crescimento
arquitetado no pós-guerra alicerçava-se no absoluto predomínio da economia
americana no mundo capitalista e no correspondente papel jogado pelo dólar,
simultaneamente moeda nacional americana e meio de troca internacional. Eram
pressupostos necessários desse modelo à hegemonia comercial americana e a
carência de dólares dos demais países capitalistas desenvolvidos, tanto da área
européia como da asiática.
Esse modelo começou a desaparecer justamente em
função do seu sucesso. A reconstrução do pós-guerra e, depois, os “milagres”
alemão e japonês provocaram o desaparecimento progressivo da hegemonia comercial
americana e o surgimento de fortes concorrentes no mercado mundial
capitalista.
A Guerra do Vietnã, que recrudescia no fim da década de 60,
exatamente quando evaporavam os grandes saldos da balança comercial e do balanço
de pagamentos dos Estados Unidos, obrigava Washington a adotar uma política de
emissão de dólares não lastreados em ouro. Era uma política nitidamente
inflacionária que, entre outros efeitos, contribuía para o surgimento de um
fenômeno inédito: pela primeira vez, a conta corrente (saldo entre todas as
exportações e importações de bens e serviços) americana revelava-se negativa. Ao
mesmo tempo, a tradicional carência de dólares na Europa e no Japão
transformava-se numa inédita abundância.
Nas novas condições, a paridade fixa
e a livre convertibilidade entre o dólar e o ouro, pilares do Sistema de Bretton
Woods, tornavam-se extremamente perigosas para os Estados Unidos. De um lado, a
paridade fixa mantinha o dólar artificialmente valorizado em relação às demais
moedas européias e japonesas, destruindo a competitividade dos produtos de
exportação americanos e agravando os problemas da balança comercial. De outro, a
livre convertibilidade de um dólar enfraquecido criava o risco de uma corrida
dos Bancos Centrais europeus e japonês rumo aos estoques de ouro do Tesouro
americano, que não mais era capaz de honrar a troca estabelecida em Bretton
Woods.
O Sistema de Bretton Woods estava falido. Em agosto de 1971, o
presidente americano Richard Nixon começa a mudança das regras do jogo,
decretando unilateralmente uma desvalorização do dólar em relação ao ouro.
Em
1973, Nixon completou a “virada da mesa”, decretando o fim do sistema de
paridades. fixas e livre convertibilidade. O dólar passava a “flutuar” em
relação ao ouro e às demais moedas fortes, valorizando-se ou desvalorizando-se
de acordo com as leis do mercado. Além disso, o Tesouro americano livrava-se da
obrigação de trocar dólares por ouro.
A jogada de Nixon selava a morte do
sistema monetário do pós-guerra, mas não o substituía por qualquer outro. Apenas
protegia a economia americana dos graves riscos de curto prazo que a ameaçavam.
“Atuando” em condições de abundância relativa, o dólar tendia a se desvalorizar
em relação às moedas fortes, o que deveria permitir a recuperação da
competitividade das exportações americanas e da balança comercial, à custa dos
parceiros europeu e japonês.
Desobrigada da convertibilidade, a administração
americana podia continuar financiando seus déficits pela emissão de dólares,
claro que à custa de uma alta inflacionária não só no interior dos Estados
Unidos, como em toda a área internacional capitalista regida pelo dólar.
Com
a inflação, diminuíam as trocas internacionais e a atividade econômica, sinais
claros de uma recessão internacional. O desemprego aumentava e os níveis
salariais caíam na América do Norte, Europa e Japão.
O petróleo e a crise internacional
A propalada “crise do petróleo” surge
como agravante conjuntural de uma crise estrutural que já manifestava seus
primeiros sintomas em 1968, e se revelava de maneira dramática em agosto de
1971. Prova disso está no fato de o primeiro “choque de preços” produzido pela
Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) acontecer apenas no fim
de 1973, após a derrota árabe diante de Israel na Guerra do Yom Kippur.
A
crise do petróleo, mesmo não sendo a “causa” da recessão mundial, alimentou os
sinais inflacionários e recessivos já presentes na década de 70. Entretanto,
seus resultados são mais complexos do que parecem.
Entre os grandes
beneficiados pela crise do petróleo estão os Estados Unidos (e, evidentemente,
as multinacionais petrolíferas, a maioria das quais americana) e os países
exportadores de petróleo.
Os Estados Unidos se beneficiaram por diversos
motivos. De um lado, porque apresentavam menor dependência de importações de
petróleo que seus concorrentes europeu e japonês, o que possibilitou
recuperações conjunturais da sua balança comercial, com reflexos favoráveis na
conta corrente. Observe no gráfico esse fenômeno no comportamento da conta
corrente americana nos anos seguintes aos dois “choques do petróleo”, ocorridos
em 1973 e 1979. De outro, porque os excedentes de dólares em mãos dos
exportadores de petróleo (petrodólares) foram investidos principalmente no
mercado financeiro americano (que atraiu esses capitais praticando elevadas
taxas de juro), o que provocou nova valorização do dólar em relação às demais
moedas fortes.
Entre os prejudicados com a crise do petróleo estão a Europa
ocidental e o Japão, que conheceram um agravamento das suas taxas de inflação,
durante alguns anos de recessão, e crescimento econômico nulo ou negativo. Já os
países subdesenvolvidos acabaram por pagar a quase totalidade dos custos da
crise, em função das políticas de recuperação adotadas pelos países
desenvolvidos, que envolveram a alta dos juros internacionais (com o crescimento
acelerado das dívidas externas) e a baixa dos preços das matérias-primas e
produtos agrícolas no mercado mundial.
A crise Internacional e o Welfare State
A década de 70 combinou uma
prolongada crise econômica com uma radical alteração da diplomacia
internacional, marcada pela coexistência pacífica. Essa combinação repercutiu
nas instituições políticas, provocando o recuo dos partidos conservadores,
desgastados pela crise, que tinham dominado a cena européia desde o início dos
anos 50. Voltaram ao poder os partidos social-democrata e trabalhista.
Foi na
Alemanha Ocidental que teve início o ciclo de governos de centro-esquerda, com a
ascensão do Partido Social-Democrata (SPD) do chanceler Willy Brandt. Criador da
política de reaproximação com a Alemanha Oriental, transformou-se na mais
importante liderança da distensão européia.
Na Grã-Bretanha, o Labour Party
retomava finalmente ao poder nas eleições de 1974. Até 1979, os trabalhistas
ocupariam o governo por meio dos primeiros-ministros Harold Wilson e James
Callaghan. O conservadorismo das instituições da V República francesa retardou a
manifestação da tendência internacional de ascensão social-democrata até o ano
de 1981, quando François Mitterrand foi eleito para a presidência e formou um
governo de coligação entre socialistas e comunistas. Mesmo nos Estados Unidos, a
virada política rumo à centro-esquerda se manifestou por meio da eleição de
Jimmy Carter, do Partido Democrata, em 1976.
No poder, esses governos
orientaram-se na direção de políticas destinadas a amenizar as conseqüências
sociais da crise econômica. Procuraram conter a elevação do desemprego, proteger
os salários submetidos à corrosão inflacionária e multiplicar as leis sociais
(seguro-desemprego, aposentadorias, programas estatais de saúde, etc.). Esse
conjunto de medidas, que respondia a um descontentamento social crescente e a
uma dinamização das atividades sindicais, ficou conhecido como Welfare State. ou
Estado de Bem-Estar.
Suas raízes encontram-se no pensamento
político-econômico keynesiano, adotado na década de 30 para recuperar a economia
mundial abalada pela crise de 29. Apregoava a intervenção do Estado na economia
para minimizar os efeitos da concentração de riqueza produzidos pelo
liberalismo.
ANOS 80: A ALTERNATIVA LIBERAL
A reconstrução capitalista do pós-guerra e
o longo ciclo ascendente que a seguiu originaram-se de uma reorganização geral
das forças produtivas internacionais.
Esse período de reconstrução baseou-se
na reposição das mercadorias e da infra-estrutura destruída ou tornada obsoletas
pela guerra. Paradoxalmente, a destruição econômica provocada pelo conflito
tornava-se uma alavanca para a recuperação de inúmeros setores industriais e
para a criação de novos setores antes inexistentes. Em decorrência, abriram-se e
cresceram novos setores industriais, particularmente nos ramos químico e
petro-químico, eletroeletrônico, energético, etc.
Um intenso processo de
oligopolização acompanhou a abertura dessas novas fronteiras produtivas. As
grandes empresas, favorecidas pelas encomendas do Estado e pelos programas de
reconstrução da economia, engoliam os pequenos capitais e expandiam seus
negócios além das fronteiras dos países-sede, tornando-se conglomerados
transnacionais.
Os anos 70 manifestaram, pelos sintomas típicos da recessão
(queda do emprego e alta dos preços), o esgotamento dessa base produtiva
construída nas décadas de 40 e 50. A crise da década de 70 provocou um novo
rearranjo e um movimento generalizado na direção de um novo modelo de
crescimento capitalista.
A nova organização da base produtiva apoiou-se num
esquema parecido com o do pós-guerra, ou seja, na abertura de novos setores de
investimentos, direcionados agora para a informática, a biotecnologia, os novos
materiais, a pesquisa aeroespacial e a química fina. Como no pós-guerra, esse
processo desbravador foi acompanhado e viabilizado por gastos estatais e por
estímulos à pesquisa e ao desenvolvimento. Nova- . mente, ele combinou-se com
movimentos de concentração e centralização de capitais tendentes à
oligopolização, isto é, à eliminação dos pequenos capitais e à fusão de
conglomerados já existentes.
A retomada do crescimento das economias desenvolvidas
A política econômica
da administração Reagan (conhecida como reaganomics) comandou a estratégia de
superação da crise posta em prática pelos países desenvolvidos.
No início dos
anos 80, os preços do petróleo iniciavam uma trajetória de baixa acelerada,
provocada pela combinação do aumento da oferta mundial do produto com a perda da
capacidade da Opep de controlar essa oferta em ascensão.
A nova situação
propiciava uma rápida recuperação das balanças comerciais dos concorrentes dos
Estados Unidos, capitaneados pelo Japão e pela Alemanha Ocidental. Ao mesmo
tempo, a supervalorização do dólar - mantida na segunda metade da década de 70
pela recessão européia e japonesa e pelos fluxos de petrodólares rumo ao mercado
financeiro americano - provocava déficits sucessivos na conta corrente dos
Estados Unidos. O mercado americano absorvia uma quantidade cada vez maior de
produtos importados e os demais países compravam cada vez menos dos Estados
Unidos.
Nessas condições, a administração Reagan optou por uma política
econômica aparentemente contraditória. Nela se combinavam altas taxas de juros,
sérias restrições monetárias, convivência com déficits gigantescos na conta
corrente e diminuição dos impostos com a conseqüente produção de um gigantesco
déficit orçamentário. Essa política econômica surpreendente se baseava na
circunstância especial que faz do dólar, simultaneamente, moeda nacional e meio
de troca internacional.
A política de altas taxas de juros servia para
desviar o rumo do seguro mercado financeiro americano: a poupança internacional.
Em conseqüência, o dólar prosseguiu valorizando-se em relação às demais moedas
fortes até quase o final do governo Reagan.
O “superdólar”, artificialmente
valorizado, permitia à administração Reagan conviver com a perda de
competitividade das exportações americanas e com o decorrente rombo na conta
corrente. Permitia, ainda, financiar o explosivo déficit orçamentário (receitas
menos despesas do governo), derivado dos imensos gastos armamentistas e da
política de diminuição dos impostos. A poupança internacional, aplicada no
mercado financeiro americano, simplesmente substituía os recursos antigamente
conseguidos pelas exportações de mercadorias e serviços.
Simultaneamente, as
severas restrições na política monetária (um controle violento da emissão de
moeda) conseguiram debelar as altas taxas inflacionárias da década
anterior.
A engenhosa política da administração Reagan conduziu a uma rápida
retomada do crescimento econômico americano, apoiada numa explosão de consumo
cujos fundamentos eram a inflação em declínio, a baixa dos impostos e a
importação generalizada de bens de consumo.
As economias européia e japonesa,
mesmo financiando em parte os déficits americanos, devido à atração de suas
poupanças provocadas pelo “superdólar”, beneficiaram-se da retomada do
crescimento dos Estados Unidos. Na esteira do consumismo americano, ampliaram-se
largamente suas exportações para aquele mercado insaciável, ao mesmo tempo em
que os preços do petróleo deixavam de constituir fator de estrangulamento de
suas contas externas. Os sinais do relançamento econômico do mundo desenvolvido
já estavam claramente delineados, em 1983.
A transferência da crise para o Terceiro Mundo
O relançamento das
economias desenvolvidas apoiou-se, nitidamente, sobre uma transferência dos
custos da crise para os países do Terceiro Mundo.
Dois mecanismos principais
de transferência foram acionados: a manipulação das taxas de juros
internacionais e dos preços das commodities (produtos primários ou
semi-elaborados).
As altas taxas de juros praticadas pela reaganomics
repercutiram sobre todo o mercado financeiro internacional. Os grandes
prejudicados foram os países endividados com instituições oficiais ou bancos
particulares sediados nos países desenvolvidos. A explosão dos juros determinou
assim uma explosão das dívidas externas, que se convencionou denominar debt
crisis, como mostra o quadro a seguir:
Os países endividados foram arrastados
para conjunturas recessivas agudas, ao comprometer praticamente todos os saldos
comerciais com os pagamentos dos serviços (juros e taxas) da
dívida.
Precisamente nessa conjuntura, em que os países subdesenvolvidos
transformavam-se em fontes de capitais para a recuperação econômica dos países
desenvolvidos, o FMI adotava uma orientação voltada para a negação de novos
empréstimos que ajudassem os devedores a “rolar” suas dívidas. A dramaticidade
do problema das dívidas veio à tona já em 1981, com o reconhecimento da
impossibilidade de continuar pagando os serviços da dívida pela Polônia, seguida
depois pelo México, Brasil e Peru.
Para a liberação de novos empréstimos, o
FMI passava a exigir dos devedores a aplicação de estratégias recessivas
(chamadas eufemisticamente “ortodoxas”) em suas economias internas. Tais
estratégias conduziam ao aumento das exportações para gerar divisas destinadas
ao pagamento dos juros e taxas das dívidas. Porém, o crescimento da oferta de
commodities no mercado mundial provocava um rebaixamento contínuo do preço
dessas mercadorias.
Para produzir saldos comerciais sempre crescentes, os
endividados terminavam por conter o consumo interno (pelo rebaixamento do poder
aquisitivo da população) e diminuir as importações (ocasionando problemas de
reposição dos bens de produção e queda da atividade econômica). Esse circuito
perverso só pode conduzir ao aumento do desemprego e a processos inflacionários
e hiperinflacionários, como os conhecidos pelo México, Argentina, Brasil,
Bolívia e Peru.
O neoliberalismo no poder
A década de 80 produziu uma nova reviravolta no
jogo político europeu e americano. O cerne dessa reviravolta esteve na
decadência das políticas orientadas para o Welfare State e na ascensão das
políticas chamadas “neoliberais”.
O relançamento econômico dos anos 80
apoiou-se na premissa de que o Estado deveria abandonar as intervenções, que
tendiam a limitar os lucros auferidos pelo capital, a fim de que fossem
estimulados os investimentos nos novos setores abertos pela “revolução
tecnológica” em andamento. Segundo os teóricos neoliberais, a interferência do
Estado (por exemplo, na defesa dos empregos) retardava a necessária realocação
de capitais até então investidos em setores econômicos estagnados.
O termo
“neoliberalismo” surgia nesse contexto para produzir a imagem de que as teorias
em moda pregavam o “livre jogo do mercado” e a “completa liberdade da lei da
oferta e da procura”.
Entretanto, essa imagem configurava muito mais um
disfarce das teorias econômicas em ascensão do que uma realidade.
fetivamente,
o que o neoliberalismo buscava não era o fim da interferência do Estado na
economia, mas uma mudança de rota dessa interferência. O Estado deveria parar de
opor restrições ao capital, defendendo direitos e leis sociais, e subsidiar e
estimular os processos de oligopolização e os investimentos em pesquisa e
desenvolvimento nos setores de tecnologia de ponta.
Os governos de Margaret
Thatcher, na Grã-Bretanha, e de Ronald Reagan, nos Estados Unidos, implantados,
respectivamente, em 1979 e 1980, ilustram nitidamente as orientações neoliberais
que passavam a ter hegemonia sobre a política econômica dos países
desenvolvidos.
Interessante é constatar que, mesmo naqueles países em que
socialistas e social-democratas mantiveram o poder, como é o caso da França de
Mitterrand e da Espanha de Felipe González, as teorias neoliberais passaram a
dar o tom das políticas econômicas governamentais.
DÓLAR, MOEDA TRANSNACIONAL
O texto seguinte é de autoria do francês
Raymond Aron, especialista em economia e relações Internacionais. Foi extraído
da obra Os últimos anos do século (Rio de Janeiro, Guanabara, 1987, p. 44 a 50),
publicada originalmente na França, em 1984.
Inicialmente, ao serem negociados os estatutos de Bretton Woods, os Estados
Unidos, saídos intactos de uma guerra e enriquecidos pela mobilização de seu
parque industrial, desfrutavam de um superpoder econômico e financeiro. Eles se
outorgaram uma autoridade quase ilimitada dentro do Fundo Monetário
Internacional. Apesar disso, enquanto respeitaram, fosse como fosse, os
regulamentos que em boa parte ditaram, tiraram menos proveito que seus
concorrentes.
O mesmo não aconteceu após 1973. Após uma experiência de dez
anos, constatou-se que o mercado aumenta e diminui o valor do dólar. Ora
supervalorizado, ora desvalorizado, ele jamais se situa no nível da taxa que
corresponderia à paridade do poder aquisitivo. Com toda certeza ele continua a
gozar as vantagens que lhe assegura o seu caráter transnacional: possibilita
comprar produtos estrangeiros e, automaticamente, permite aos dirigentes de
Washington tolerarem sem ansiedade os déticits da balança de pagamentos. Os
períodos de desvalorização comportam, assim como os de supervalorização,
vantagens e inconvenientes, tanto para estrangeiros como para norte-americanos
(…).
Atualmente, a política de Ronald Reagan irrita ou indigna a maioria dos
dirigentes dos principais países (com exceção do Japão). Essa política consiste
na combinação de um déficit orçamentário considerável (100 bilhões, cerca de 6%
do PI B) e restrições monetárias (até o mês de agosto de 1983). As restrições
monetárias provocam uma queda considerável da inflação e alta das taxas de
juros. Assim, na fase inicial de recuperação, as taxas de juros são mais altas
do que jamais o foram nessa fase do ciclo. As taxas de juros atraem o capital
estrangeiro e fazem o valor do dólar aumentar no mercado. A recuperação da
economia arrisca-se a ser rapidamente freada: para evitar que a retomada da
atividade econômica venha acompanhada de um recrudescimento inflacionário, o
Federal Reserve Board poderia ser levado a adotar ações restritivas.
Cabe
aqui uma primeira observação. Os Estados Unidos, mais uma vez, aproveitam-se de
sua situação ímpar. Nenhum Estado pode atrair capitais se tiver um déficit
orçamentário maciço (mesmo se o déficit de pagamentos for em parte compensado
pelos interesses dos investimentos no exterior). Nenhum Estado pode permitir-se
tal déficit orçamentário e lutar de maneira eficiente contra a inflação usando
exclusivamente a arma monetária (…).
Seria por causa da força militar de seu
país que Ronald Reagan poderia adotar tal política? Uma formulação desse gênero
não tem, a meu ver, nenhum sentido. É claro que a força militar é parte do todo
“Estados Unidos”. Eu não saberia como responder de maneira sensata à pergunta:
“Poderiam os Estados Unidos se comportar assim se não tivessem a força que têm
em terra, mar e ar?” A hipótese irreal parece-me bastante inverossímil para que
se possa escolher entre um sim ou um não. O que me parece essencial é que os
Estados Unidos administram a sua moeda transnacional como se ela fosse
estritamente nacional. Decidido a combater a inflação e incapaz de reduzir as
despesas governamentais, justo no momento em que tomara a decisão de aumentar o
arsenal, o presidente encarregou o presidente do Federal Reserve Board de conter
a alta dos preços. A situação ímpar dos Estados Unidos tornou isso possível. A
moeda transnacional desempenha sua função, qualquer que seja o estado das
finanças públicas ou da balança de pagamentos.
Já houve, é claro, um momento
em que Carter se viu obrigado a intervir no mercado para segurar a cotação do
dólar. Qualquer dia desses ele cairá do topo onde se encontra. O capital
estrangeiro é atraído não só por taxas de juros elevadas, mas também pelo país
refúgio em caso de crise internacional, pela economia que, apesar de tudo, é
ainda a mais rica e talvez a mais dinâmica do mundo.
Teria a situação sido
diferente, caso a segurança dos europeus não dependesse dos Estados Unidos?
Talvez; porém o que modificaria a paisagem econômica seria a formação de uma
autêntica unidade européia. Se a comunidade européia se tornasse o equivalente
dos Estados Unidos da América, as discussões transatlânticas tomariam outro
rumo. A moeda dos Estados Unidos da Europa anularia a posição de monopólio do
dólar e sua condição de unidade monetária transnacional; nem a economia alemã
nem a britânica possuem dimensões suficientes para servir de suporte a uma moeda
transnacional (…).
Teriam os Estados Unidos interesse em deixar sua moeda
ficar acima ou abaixo do valor de equilíbrio, que corresponderia à paridade do
poder aquisitivo? A resposta não é tão óbvia. A supervalorização do dólar
provoca um déficit da balança comercial (em tempos de crise, os Estados tentam
desvalorizar, como aconteceu na década de 30); a desvalorização do dólar em
1978-79 favorecia as exportações norte-americanas e facilitava a tarefa dos
devedores dos bancos e do Tesouro norte-americanos. Acaso uma taxa de câmbio
próxima da paridade dos poderes aquisitivos seria melhor tanto para os Estados
Unidos quanto para o sistema econômico em geral?
Não duvido, mas não tenho a
ilusão de convencer nem os assessores nem os responsáveis de Washington. Tanto
uns como outros guardam a lembrança dos anos 60, que foi um período de
paralisia. Como o dólar estava ligado ao ouro, ele não podia se mover sozinho;
só flutuava quando havia flutuação de outras moedas. Ao pedirem uma
desvalorização plenamente legítima em 1971, encontraram resistência por parte de
seus aliados e concorrentes. A partir de então, rejeitam qualquer forma de
rigidez e aplicam com satisfação às moedas a idéia de que o mercado tem sempre
razão. A extensão da lei do mercado às moedas leva a um tipo de relatividade
geral. A moeda não mais encarna um bem real, não se liga a nenhuma mercadoria em
particular. Assim como outras moedas, o dólar vale o que os compradores estão
dispostos a gastar em francos, marcos ou ienes para comprá-lo.
Por quanto
tempo ainda os Estados Unidos vão impor as taxas de câmbio flutuantes? Ninguém
arriscaria uma previsão. Pode ser que, na falta de um acordo entre os ocidentais
sobre um regime substituto, o regime perdure. A restauração do padrão-ouro e do
padrão de câmbio-ouro (moedas juntando-se ao ouro enquanto instrumentos de
reserva) pressupõe uma conversão dos peritos americanos, que só se manifesta
esporadicamente. A opinião dominante entre os economistas e nos meios dirigentes
continua mais fiel à recusa da rigidez anterior do que às flutuações atuais.
Ora, qualquer reforma limitaria a liberdade de ação interna dos governantes. O
presidente Ronald Reagan quer aumentar o orçamento da defesa, reduzir o imposto
de renda e vencer a inflação. A política do Federal Reserve Board completa e
concilia essas intenções aparentemente divergentes e mesmo contraditórias. Como
resultado, temos o aumento das taxas de juros e a ascensão do dólar.
A isso,
vários peritos do outro lado do Atlântico objetariam que os capitais europeus
afluem para os Estados Unidos menos por causa das taxas de juros do que pela
atração exercida pela economia norte-americana, destinada atualmente a um novo
florescimento, enquanto todas as economias européias, de uma forma ou de outra,
parecem estagnadas. Pode ser que estejamos assistindo a uma repetição dos anos
que vieram imediatamente após a guerra, quando o Velho Continente ainda não
recuperara a confiança em si mesmo e a confiança do mundo.
Orientação Bibliográfica
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Demétrio Magnoli
*Publicado por Nezimar Borges
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