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Índia: a potência mundial do futuro faz 60 anos

Há 60 anos a Índia conquistava sua independência, e o país de Mahatma Gandhi hoje está prestes a se tornar uma potência global. Mas sua nova prosperidade continua ilusória para muitos: 1 milhão de agricultores ainda vivem na miséria absoluta.

Mathieu von Rohr

A República da Índia tinha apenas quatro horas de vida quando uma intocável, uma menina chamada Shyama, nasceu em Gurgaon, uma aldeia perto de Déli. Ela veio ao mundo às 4 da manhã de 15 de agosto de 1947, em uma casa simples de tijolos, a terceira de sete filhos.

A mãe de Shyama lhe contou mais tarde sobre os fogos de artifícios e as comemorações de rua naquela noite e sobre as palavras históricas do primeiro primeiro-ministro da Índia, Jawaharlal Nehru: “Ao soar a meia-noite, quando o mundo estiver dormindo, a Índia acordará para a vida e a liberdade”. Mas um homem, Mahatma Gandhi, o pai da nação indiana, não comemorou naquela noite - porque milhões de pessoas continuavam famintas e porque a independência também significava a divisão da antiga Índia britânica em dois países, Índia e Paquistão. Gandhi ficou em casa e jejuou.

A família em que Shyama nasceu naquela noite não era das mais pobres da Índia. Seu pai era um funcionário público de nível inferior. Mas eles eram párias, membros da subcasta jatav. Seus ancestrais tinham sido trabalhadores do couro, o que os tornava impuros, colocando-os no nível mais baixo da sociedade. Nem mesmo suas sombras tinham permissão para tocar um brâmane.

Outro intocável, um homem chamado dr. Bhimrao Ramji Ambedkar, havia escrito a maior parte da Constituição do novo país. Ela se destinava a criar uma nação em que todos os cidadãos teriam oportunidades iguais. “Se as coisas derem errado com a nova Constituição, o motivo não será que tivemos uma Constituição ruim”, disse Ambedkar. “O que teremos de dizer é que o homem foi vil”.

Ao longo da história da Índia, desde sua independência, periodicamente parecia que de fato as coisas iam dar errado. Mas agora que a República completa 60 anos, em 15 de agosto, o mundo não menciona mais o país só em histórias de pobreza e desesperança. As histórias sobre a Índia hoje são contos de sucesso.

Shyama foi uma boa aluna, uma das seis meninas que freqüentavam o colégio local em Gurgaon. Ela gostava de dançar e queria ser uma estrela de cinema. Mas os outros alunos a evitavam. Suas famílias eram da afluente casta de agricultores jat, e eles habitualmente a repudiavam como intocável e a chamavam de nomes feios, que mais tarde ela se esforçou para esquecer. Shyama jurou para si mesma que teria grande sucesso na vida. Aos 16 anos, adotou um novo sobrenome para que as pessoas não pudessem mais saber qual era sua casta. Como nasceu no mesmo dia que a Índia, chamou a si mesma de Shyama Bharti -Shyama, a indiana. “Abandonei meu nome para abandonar minha casta”, ela diz.

Assim como o país, hoje Shyama tem quase 60 anos, mas parece mais jovem. Está sentada em seu escritório no centro de Déli, vestindo um sári cor-de-rosa. Tem grandes olhos castanhos e um nariz fino com narinas largas que a faz parecer quase aristocrática. Usa o cabelo tingido de preto, preso no alto da cabeça, num penteado semelhante ao favorito de seu ídolo, Indira Gandhi, que foi o terceiro primeiro-ministro da Índia.

Como diretora geral da Delhi Transco Limited, a companhia de eletricidade local, Shyama está no nível mais alto que pode alcançar no funcionalismo público. Tem quatro telefones em sua mesa, e seu cartão comercial revela que possui quatro diplomas universitários. “No que se refere à educação, sou uma brâmane”, ela diz, rindo.

Shyama ganha 42 mil rúpias (cerca de R$ 2.000) por mês. Seu marido recebe uma pensão do governo. O casal tem direito a carro e motorista, um telefone celular da empresa e uma grande casa com empregados. O Estado indiano trata bem seus servidores civis.

Shyama Bharti conseguiu completar sua ascensão à classe média alta muito antes do aparecimento da atual geração de alpinistas sociais, que enriquecem como agentes de centros telefônicos e especialistas em informática. Cerca de 200 milhões dos 1,1 bilhão de indianos já fazem parte da classe média, número que deverá aumentar para cerca de 600 milhões até 2025 - e que causa delírios nos investidores.

O Ocidente há muito tempo percebeu que a Índia caminhava para ser uma potência global. O país gigantesco deverá ser a terceira maior economia do mundo nas próximas três décadas. A Índia e os EUA assinaram um tratado nuclear há duas semanas. A Índia foi aceita de fato como potência nuclear e seu próximo objetivo é um lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU. As elites do país estão praticamente estourando de satisfação.

Os indianos que lêem jornais podem se assombrar com as histórias diárias de progresso do país e de sua ascensão mundial. A Índia lança ao espaço um satélite espião israelense. Fabricantes de carros indianos pretendem adquirir a Jaguar. Há internet sem-fio grátis em toda Bangalore. Os vôos domésticos duplicaram em dois anos. Todos os moradores do Estado de Himachal Pradesh possuem contas bancárias.

Ao mesmo tempo, a infra-estrutura indiana continua sendo um problema. Suas estradas, ônibus e aeroportos estão em péssimo estado, e os cortes de energia elétrica são comuns.

Uma viagem pela Índia é uma lição de fortes contrastes. A Índia é uma terra do futuro, no entanto, partes dela ainda estão muito distantes do presente. É um país de pessoas fabulosamente ricas e desesperadamente pobres, de hindus e muçulmanos, arados de madeira e usinas nucleares.

Shyama Bharti vai se aposentar em 15 de agosto, seu 60º aniversário. Ela e o marido vão se mudar para sua antiga aldeia, Gurgaon, que desde então foi engolida pelos subúrbios a sudoeste de Déli. A terra que o casal comprou lá 20 anos atrás vale hoje pelo menos cem vezes o que eles pagaram.

SPIEGEL viajou por cinco partes diferentes da Índia para ter uma visão do futuro do país.

Gurgaon: “Será Cingapura daqui a cinco anos”
Ashish Gupta, sentado numa cabine de vidro no segundo andar de uma torre de escritórios semicircular, cor de salmão, no setor 39 de Gurgaon, diz: “Será Cingapura daqui a cinco anos”. Hoje ainda há campos lá fora e vacas passeiam pela rua, atrapalhando o tráfego. Mas Gupta fala sério.

A Índia do futuro está surgindo em Gurgaon. Onde antes só havia mato, hoje são construídas torres de concreto e vidro para escritórios de conglomerados ocidentais como Siemens, Alcatel e Microsoft. Os operários da construção vivem em tendas entre os prédios. Uma pista expressa de oito faixas corta o que ainda é terra de ninguém, com constantes engarrafamentos na frente da meia dúzia de novos shopping centers. Um metrô está sendo construído até o centro de Déli.

Gupta veste calças pretas, camisa azul e gravata. Ele fez faculdade nos EUA e já trabalhou para a gigante da consultoria empresarial McKinsey. É o principal diretor operacional de uma companhia chamada Evalueserve. Seu trabalho é estressante e ele sua em profusão, apesar do ar-condicionado no escritório. A empresa tem 2.100 empregados e está em operação há apenas seis anos e meio. Cresceu 100% a cada ano nos primeiros quatro, e mais 75% desde então. A Evalueserve está em processo de expansão para a China, Chile e Europa oriental. As frases de Gupta são bastante sóbrias, mas ele parece quase inebriado: “A questão não é que tamanho queremos ter, mas que tamanho podemos ter. Teoricamente, não há limite”.

A Evalueserve é uma empresa-vitrine da nova Índia. Enquanto a China está crescendo através de produtos industriais de baixo custo, a Índia cresce por meio de serviços baratos: centros telefônicos para atender a clientes em Ohio, especialistas em informática que cuidam da programação para clientes europeus e empresas de pesquisas de mercado como a Evalueserve, que realizam tarefas como analisar as vendas de xampus dos concorrentes de seus clientes.

Segundo Gupta, não há a menor dúvida de que a Índia está se tornando uma potência global. “Precisamos de mais 20 anos, mas eles passarão voando”.

O milagre econômico indiano começou em 1991, quando Ashish Gupta ainda era estudante. Manmohan Singh, o ministro da Economia na época e hoje primeiro-ministro indiano, descartou o “socialismo democrático” dos fundadores do país. Até ele chegar ao cargo, grandes setores da indústria indiana ainda eram estatais. Singh começou a privatizar empresas e a liberalizar os mercados. O setor de informática floresceu desde o final dos anos 1990 e a economia em geral cresceu em média 8% ao ano nos últimos cinco anos.

Na Evalueserve, mais de cem pessoas, na maioria com menos de 30 anos, trabalham em uma única sala, sentadas em longas filas de mesas amarelas e olhando para telas de computadores. Uma delas é a analista sênior Andrea Demsic, uma loura de 30 anos com um sorriso satisfeito que trabalha no departamento de pesquisas de negócios da companhia. Ela vem da cidade alemã de Schwäbisch-Gmünd e fala o dialeto suábio. Depois de se formar em economia na Universidade de Jena, na então Alemanha Oriental, ela conta, era relativamente difícil encontrar trabalho na Alemanha. Um dia ela viu um anúncio na agência de empregos de sua cidade: Procura-se analista para cargo no exterior. Andrea se candidatou e um ano e meio atrás acabou em Gurgaon.

Seu salário inicial foi de 21 mil rupias (cerca de R$ 1.000), mais um apartamento grátis. Ela foi promovida depois de um ano. Diz que deverá continuar na Índia por mais algum tempo.

Andrea está impressionada com a ambição de seus colegas indianos e pela cidade que está sendo construída ao seu redor. “Aqui há movimento. Todo mundo quer conquistar alguma coisa. Há oportunidades para galgar a escada corporativa na Índia. É muito diferente da Alemanha”.

Trinta e seis estrangeiros trabalham na Evalueserve, e seu número também está aumentando em outras empresas indianas. Gupta, o presidente, sorri. Ele precisa de gente que conheça a Europa e fale perfeitamente suas línguas, porque seus clientes são europeus. Mas também está feliz com a mensagem que envia ao mundo: em vez de contratar exclusivamente indianos para trabalhar para o Ocidente, as empresas indianas também estão criando empregos para trabalhadores ocidentais.

Vidarbha: “Eles constroem cidades e esquecem as aldeias”
Sua mulher e os dois filhos estavam dormindo quando o agricultor Punjaram Kubde acordou à noite e foi até o quarto ao lado, onde guardava sacos de sementes, fertilizantes e pesticidas. Ele se serviu uma xícara do veneno e o bebeu. Sua mulher o encontrou morto no chão de pedra na manhã seguinte.

Hoje seu corpo está embaixo de uma pilha de madeira que os homens e mulheres de Chondha armaram numa colina verde em frente à aldeia. Eles pintaram seu rosto de roxo, lhe trouxeram flores, arroz e moedas para sua viagem ao próximo mundo, e enrolaram seu corpo num lençol branco.

Cerca de 200 pessoas vieram assistir à cremação. Seus rostos estão sérios. O caso de Kubde é o primeiro de um agricultor que se suicida nessa aldeia. Alguns dizem que, se não chover logo, seu suicídio não será o último.

Chondha fica em Vidarbha, no centro da Índia e uma das regiões mais pobres do país. Somente este ano 521 agricultores já se mataram em Vidarbha. No ano passado houve mais de 1.200 suicídios. Quase todos os homens usaram pesticida, enquanto alguns se incendiaram.

A mulher do morto soluça baixo, com o corpo trêmulo. Seu nome é Lalita e ela usa um sári cor-de-laranja que reserva para ocasiões especiais. Tem apenas 30 anos, é jovem e bonita, mas continuará viúva para o resto da vida. As regras da aldeia proíbem que as viúvas voltem a se casar. Sagar, o filho mais velho do casal, tem 10 anos. Um homem o ajuda a segurar um feixe de palha, que ele deve usar para acender a pira fúnebre. Então os homens e mulheres de Chondha caminham ao redor da fogueira, atirando galhos.

Punjaram Kubde foi um homem importante. Ele possuía 12 hectares de terra, uma casa grande e uma motocicleta. Tinha 45 anos, era um homem forte com bigode e, como a maioria aqui, plantava algodão. Cultivava uma variedade conhecida como “algodão Bt”, desenvolvida pela gigante americana da agroquímica Monsanto. Segundo os agricultores da aldeia, as sementes convencionais não são mais encontradas hoje em dia. Ninguém sabe por quê, mas os comerciantes não as vendem mais. A semente geneticamente modificada da Monsanto é cara e é preciso comprar um novo suprimento a cada ano. A semente representa a metade dos custos de produção dos agricultores. Pior ainda, se o algodão Bt recebe água de mais ou de menos, reage com muito maior sensibilidade que o algodão normal.

Quando as fortes chuvas do ano passado arruinaram sua colheita, Kubde não conseguiu pagar os empréstimos e os bancos se recusaram a lhe emprestar mais. Ele procurou financistas particulares, que lhe emprestaram dinheiro para novas sementes, mas este ano houve mais chuvas fortes e Kubde perdeu novamente a colheita. Afinal ele devia 500 mil rúpias e ninguém quis lhe emprestar mais.

Incapaz de se livrar dessa montanha de dívidas, ele seria obrigado a se tornar um empregado de seus credores. Escolheu a saída mais fácil.

O homem que conta os mortos da região chama-se Kishor Tiwari. Um ex-engenheiro, Tiwari fundou sua própria ONG na pequena cidade de Pandharkawada, onde tem escritório. Ele passa os dias mandando e-mails cheios de acusações e números. Mais de 6 mil agricultores já cometeram suicídio em Vidarbha, ele escreve, e mais de 2 milhões de agricultores estão endividados. Tiwari relata notícias de uma Índia que não tem nada a ver com o país que os analistas enaltecem atualmente.

Cerca de dois terços dos indianos ainda são agricultores, número que coloca muitas coisas em perspectiva. Vivem em aldeias que consistem em um punhado de cabanas de barro, cada qual com um quarto de dormir, um segundo cômodo para a cozinha e uma latrina externa. Os caminhos enlameados entre as choças são cobertos de excrementos de bois.

Mais de 300 milhões de indianos vivem na pobreza e 400 milhões são analfabetos. Em muitas partes da Índia ainda existem relações de dependência feudais, as mulheres e os intocáveis são oprimidos, existem crimes de honra e a prática de incendiar as viúvas ainda não foi totalmente abolida.

Tiwari é um homem rude que usa sapatos lustrosos, calças pretas e camisa branca. Ele percorre a região de carro com uma placa no pára-brisa que diz: “Deus mandou este homem para os pobres”. Vai sentado no banco traseiro do carro que sacoleja por uma rua cheia de buracos, culpando a liberalização do mercado agrícola pelos problemas dos agricultores. Primeiro, ele diz, o governo quase parou de comprar algodão, e então permitiu a importação de algodão e sementes geneticamente modificadas. O resultado foi a queda do preço do algodão.

Ele fala sobre Mahatma Gandhi, que fundou sua comunidade-aldeia Sevagram Ashram em 1936, não longe dali. Tiwari diz que os sucessores de Gandhi o traíram. “Eles construíram cidades e esqueceram as aldeias. Para Gandhi, a aldeia, que é auto-suficiente, era o pilar sobre o qual se ergue este país. Em vez disso, agora temos a aldeia escravizada”.

Segundo Tiwari, a mesma liberalização que impulsiona o crescimento da Índia está arrasando os agricultores.

Mumbai: “Em meia hora eu teria muitos muçulmanos aqui prontos para lutar”
A cidade de Mumbai, antes conhecida como Bombaim, abriga alguns dos mais pobres dos pobres da Índia. Mais da metade de seus moradores vive em bairros como Dharavi, a segunda maior favela da Ásia, que investidores escolheram para transformar em um moderno projeto residencial.

Mumbai também abriga alguns dos mais ricos cidadãos indianos. A maioria dos bilionários do país vive aqui, como os irmãos Ambani, cujo pai, um comerciante, trabalhou até ganhar bilhões. Outro é Anand Mahindra, que sonha em dominar a Europa com os veículos esportivos-utilitários fabricados por sua companhia.

Mumbai também é Bollywood. A indústria de cinema da cidade produz centenas de filmes por ano, cheios de música açucarada e atores que ganham milhões.

A carreira da maioria dos astros de Bollywood é curta, e apenas um punhado deles tornam-se lendas. A mais inesquecível das estrelas mora em uma mansão no bairro de Cumballa Hill em Mumbai: Dilip Kumar, o primeiro e provavelmente o maior astro que o cinema indiano já teve.

Ele está numa sala de sua mansão, totalmente vestido de branco, segurando uma paleta e um pincel. Cercado por uma dezena de fotógrafos e câmeras agitados, Kumar não se perturba. Sua mulher, Saira Banu, está ao seu lado e de Jatin Das, um conhecido artista. O trio está produzindo um quadro que será leiloado para ajudar as crianças de rua de Mumbai.

Dilip Kumar tem 84 anos. Nasceu em Peshawar, no atual Paquistão, e vem de uma família pashtun de 12 filhos. Seu verdadeiro nome é Mohammed Yusuf Khan, mas ele achou que era muçulmano demais para se tornar um astro. Tem dificuldade para lembrar dos velhos tempos. Quando perguntado sobre 1947, o ano da independência e da divisão, a primeira coisa que lembra é que jogava futebol com os ingleses. Então lembra as imagens de horror e morte e os massacres após a independência, e seus três primos que morreram na rebelião. Os olhos do velho ator se enchem de lágrimas e ele diz: “Foi muito chocante”.

A divisão provocou massacres terríveis. Já em 1946, ano anterior à divisão, militantes hindus, muçulmanos e sikhs lutavam entre si, e quando os britânicos anunciaram as fronteiras dos futuros países Índia e Paquistão, 10 milhões de refugiados deixaram suas casas, tentando ir para o lado certo. Muitos nunca conseguiram. Um grupo de muçulmanos atacou um trem cheio de refugiados no Punjab, hindus destruíram centenas de mesquitas e sikhs assassinaram muçulmanos com machados. Milhões de pessoas morreram. A Índia e o Paquistão nasceram de um banho de sangue.

Kumar passou a maior parte da vida fazendo campanha pela reconciliação entre os dois países e foi até condecorado por seus esforços. Mas hoje, em idade avançada, parece temer um retorno: “Se isso acontecesse de novo, em meia hora eu teria muitos muçulmanos aqui prontos para lutar”, diz.

Kumar senta-se em sua poltrona como um imperador nos últimos dias de vida, com uma cúpula reluzente sobre a cabeça. Um quadro na parede em frente o mostra no papel de grande astro romântico de Bollywood, posando com a mão estendida. Ele olha para o espaço e diz que tem saudade de Peshawar e às vezes vai à mesquita.

Caxemira: “Tenho medo de tudo”
A ferida da divisão nunca se fechou totalmente na Índia. Aqui na Caxemira está bem aberta.

O lago Dal brilha à luz do sol, tendo ao fundo as verdejantes montanhas Pir Pinjal. Srinagar é um lugar magnífico - mas também um dos mais perigosos do mundo.

Duas potências nucleares, Índia e Paquistão, se enfrentam aqui, ambas reivindicando a posse da Caxemira, de maioria muçulmana. A China também ocupa parte da região. A Caxemira é provavelmente a zona mais militarizada do mundo. Há 500 mil soldados estacionados no lado indiano, juntamente com forças paramilitares, policiais e agentes de inteligência.

Tudo isso porque, no ano da divisão, o marajá de Jammu e Caxemira, flertando com a independência, hesitou para escolher um lado. O Paquistão mandou tropas de guerrilha, o marajá pediu a ajuda da Índia e desde então uma linha de cessar-fogo separou os exércitos dos dois países.

Apesar dos atritos, a Caxemira foi por muito tempo um destino turístico de sonho, até que uma guerrilha de independência apoiada pelo Paquistão irrompeu em 1990. Hoje a região é uma zona de guerra devastada, sem economia ou infra-estrutura. Mas as coisas se acalmaram nos últimos anos, enquanto os militantes atenuaram seus ataques. Há motivos para esperança na Caxemira?

O Mirwaiz da Caxemira, Omar Farooq, é o líder religioso muçulmano local e um dos mais conhecidos políticos da província. Ele vive numa casa cor-de-rosa no centro de Srinagar, onde uma dúzia de homens barbados e armados fica sentada na entrada. Farooq, que tem apenas 34 anos, usa barba e óculos de grife e está fazendo Ph.D. em sufismo na Universidade de Srinagar.

De que ele tem medo? A resposta de Farooq pode ser resumida em uma palavra: tudo. De um lado, há os grupos militantes que assassinaram seu pai 17 anos atrás, de modo que ele era apenas um adolescente quando se tornou seu sucessor. Do outro lado há os indianos, nos quais também não pode confiar.

Farooq é um homem jovem e inteligente, mas já interiorizou esse conflito de tal maneira que parece que o vem enfrentando há 60 anos. Ele é considerado um moderado, um dos que querem negociar com o governo indiano. O primeiro-ministro indiano propôs recentemente que a linha de controle seja transformada em uma “linha de paz” entre os dois países. Existe uma proposta de um tipo de administração conjunta da Caxemira pela Índia e o Paquistão.

O Mirwaiz é a favor dessas iniciativas, mas fica frustrado porque na verdade há pouco progresso. Ele acredita que está na hora de Déli fazer algo para cumprir suas intenções declaradas. Os jornais indianos escrevem que a Caxemira está melhor que nunca e que sua economia é florescente. Farooq sorri tristemente. A Caxemira é um lugar que deixa as pessoas melancólicas.

Déli: “Não somos os únicos que demos certo”
Shyama Bharti, que nasceu em 15 de agosto de 1947, às vezes se surpreende ao ver o quanto seu país mudou. “Quando eu era menina a Índia era dominada pela população rural, os agricultores não sabiam ler e eram supersticiosos”, ela diz, “mas hoje até seu padrão de vida está melhorando. As pessoas são educadas e conhecem seus direitos e deveres.”

Naquele tempo, diz Shyama, a casa de sua família só tinha uma cama, três cobertores, algumas cadeiras e um rádio-transistor. “Hoje temos ar-condicionado em todo lugar e é tudo bem mobiliado, e não somos os únicos que demos certo”. Toda manhã e toda tarde Shyama vai até a pequena sala com um altar atrás da cozinha para agradecer a Ganesha, o deus-elefante.

Nos fins de semana ela visita seus parentes pobres, onde é tratada como convidada de honra. Ela lhes conta que as mulheres devem lutar por seus direitos e suas profissões. Às vezes lhes dá dinheiro. Está pensando em entrar na política quando se aposentar. Shyama diz que o país lhe deu muito e que agora é sua vez de retribuir.

Shyama tem um orgulho enorme de seus filhos. O mais velho também escolheu uma carreira no serviço público e foi aceito no prestigioso Serviço Administrativo Indiano, que só admite 300 candidatos por ano. Quando a nomeação foi anunciada no jornal, Shyama e seu marido foram inundados - para deleite dela - com ofertas de noivas para o rapaz. Mas e o amor? “Os indianos não apreciam os casamentos por amor”, diz. “Preferem casamentos arranjados. É mais seguro.” O casamento dela também foi arranjado.

As tradições da Índia não estão desaparecendo com seu sucesso econômico. Na verdade, os jornais registram uma nova tendência: famílias de classe média que se arruinam financeiramente para pagar o dote de suas filhas.

A família da noiva de seu filho pagou um dote? “Não aceitamos”, diz Shyama. “Só as pessoas mesquinhas fazem isso”. Ela e o marido escolheram uma bela garota para seu filho. É funcionária pública sênior, uma mulher inteligente.

Ela é da mesma casta? “É claro!”, diz Shyama.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Der Spiegel
http://www.spiegel.de/

*Publicado por Nezimar Borges

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