Índia: a potência mundial do futuro faz 60 anos
19 de Agosto de 2007
Há 60 anos a Índia conquistava sua independência, e o país de Mahatma
Gandhi hoje está prestes a se tornar uma potência global. Mas sua nova
prosperidade continua ilusória para muitos: 1 milhão de agricultores ainda vivem
na miséria absoluta.
Mathieu von Rohr
A República da Índia tinha apenas quatro horas de vida quando uma intocável,
uma menina chamada Shyama, nasceu em Gurgaon, uma aldeia perto de Déli. Ela veio
ao mundo às 4 da manhã de 15 de agosto de 1947, em uma casa simples de tijolos,
a terceira de sete filhos.
A mãe de Shyama lhe contou mais tarde sobre os fogos de artifícios e as
comemorações de rua naquela noite e sobre as palavras históricas do primeiro
primeiro-ministro da Índia, Jawaharlal Nehru: “Ao soar a meia-noite, quando o
mundo estiver dormindo, a Índia acordará para a vida e a liberdade”. Mas um
homem, Mahatma Gandhi, o pai da nação indiana, não comemorou naquela noite -
porque milhões de pessoas continuavam famintas e porque a independência também
significava a divisão da antiga Índia britânica em dois países, Índia e
Paquistão. Gandhi ficou em casa e jejuou.
A família em que Shyama nasceu naquela noite não era das mais pobres da
Índia. Seu pai era um funcionário público de nível inferior. Mas eles eram
párias, membros da subcasta jatav. Seus ancestrais tinham sido trabalhadores do
couro, o que os tornava impuros, colocando-os no nível mais baixo da sociedade.
Nem mesmo suas sombras tinham permissão para tocar um brâmane.
Outro intocável, um homem chamado dr. Bhimrao Ramji Ambedkar, havia escrito a
maior parte da Constituição do novo país. Ela se destinava a criar uma nação em
que todos os cidadãos teriam oportunidades iguais. “Se as coisas derem errado
com a nova Constituição, o motivo não será que tivemos uma Constituição ruim”,
disse Ambedkar. “O que teremos de dizer é que o homem foi vil”.
Ao longo da história da Índia, desde sua independência, periodicamente
parecia que de fato as coisas iam dar errado. Mas agora que a República completa
60 anos, em 15 de agosto, o mundo não menciona mais o país só em histórias de
pobreza e desesperança. As histórias sobre a Índia hoje são contos de
sucesso.
Shyama foi uma boa aluna, uma das seis meninas que freqüentavam o colégio
local em Gurgaon. Ela gostava de dançar e queria ser uma estrela de cinema. Mas
os outros alunos a evitavam. Suas famílias eram da afluente casta de
agricultores jat, e eles habitualmente a repudiavam como intocável e a chamavam
de nomes feios, que mais tarde ela se esforçou para esquecer. Shyama jurou para
si mesma que teria grande sucesso na vida. Aos 16 anos, adotou um novo sobrenome
para que as pessoas não pudessem mais saber qual era sua casta. Como nasceu no
mesmo dia que a Índia, chamou a si mesma de Shyama Bharti -Shyama, a indiana.
“Abandonei meu nome para abandonar minha casta”, ela diz.
Assim como o país, hoje Shyama tem quase 60 anos, mas parece mais jovem. Está
sentada em seu escritório no centro de Déli, vestindo um sári cor-de-rosa. Tem
grandes olhos castanhos e um nariz fino com narinas largas que a faz parecer
quase aristocrática. Usa o cabelo tingido de preto, preso no alto da cabeça, num
penteado semelhante ao favorito de seu ídolo, Indira Gandhi, que foi o terceiro
primeiro-ministro da Índia.
Como diretora geral da Delhi Transco Limited, a companhia de eletricidade
local, Shyama está no nível mais alto que pode alcançar no funcionalismo
público. Tem quatro telefones em sua mesa, e seu cartão comercial revela que
possui quatro diplomas universitários. “No que se refere à educação, sou uma
brâmane”, ela diz, rindo.
Shyama ganha 42 mil rúpias (cerca de R$ 2.000) por mês. Seu marido recebe uma
pensão do governo. O casal tem direito a carro e motorista, um telefone celular
da empresa e uma grande casa com empregados. O Estado indiano trata bem seus
servidores civis.
Shyama Bharti conseguiu completar sua ascensão à classe média alta muito
antes do aparecimento da atual geração de alpinistas sociais, que enriquecem
como agentes de centros telefônicos e especialistas em informática. Cerca de 200
milhões dos 1,1 bilhão de indianos já fazem parte da classe média, número que
deverá aumentar para cerca de 600 milhões até 2025 - e que causa delírios nos
investidores.
O Ocidente há muito tempo percebeu que a Índia caminhava para ser uma
potência global. O país gigantesco deverá ser a terceira maior economia do mundo
nas próximas três décadas. A Índia e os EUA assinaram um tratado nuclear há duas
semanas. A Índia foi aceita de fato como potência nuclear e seu próximo objetivo
é um lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU. As elites do país estão
praticamente estourando de satisfação.
Os indianos que lêem jornais podem se assombrar com as histórias diárias de
progresso do país e de sua ascensão mundial. A Índia lança ao espaço um satélite
espião israelense. Fabricantes de carros indianos pretendem adquirir a Jaguar.
Há internet sem-fio grátis em toda Bangalore. Os vôos domésticos duplicaram em
dois anos. Todos os moradores do Estado de Himachal Pradesh possuem contas
bancárias.
Ao mesmo tempo, a infra-estrutura indiana continua sendo um problema. Suas
estradas, ônibus e aeroportos estão em péssimo estado, e os cortes de energia
elétrica são comuns.
Uma viagem pela Índia é uma lição de fortes contrastes. A Índia é uma terra
do futuro, no entanto, partes dela ainda estão muito distantes do presente. É um
país de pessoas fabulosamente ricas e desesperadamente pobres, de hindus e
muçulmanos, arados de madeira e usinas nucleares.
Shyama Bharti vai se aposentar em 15 de agosto, seu 60º aniversário. Ela e o
marido vão se mudar para sua antiga aldeia, Gurgaon, que desde então foi
engolida pelos subúrbios a sudoeste de Déli. A terra que o casal comprou lá 20
anos atrás vale hoje pelo menos cem vezes o que eles pagaram.
SPIEGEL viajou por cinco partes diferentes da Índia para ter uma visão do
futuro do país.
Gurgaon: “Será Cingapura daqui a cinco anos”
Ashish Gupta, sentado numa
cabine de vidro no segundo andar de uma torre de escritórios semicircular, cor
de salmão, no setor 39 de Gurgaon, diz: “Será Cingapura daqui a cinco anos”.
Hoje ainda há campos lá fora e vacas passeiam pela rua, atrapalhando o tráfego.
Mas Gupta fala sério.
A Índia do futuro está surgindo em Gurgaon. Onde antes só havia mato, hoje
são construídas torres de concreto e vidro para escritórios de conglomerados
ocidentais como Siemens, Alcatel e Microsoft. Os operários da construção vivem
em tendas entre os prédios. Uma pista expressa de oito faixas corta o que ainda
é terra de ninguém, com constantes engarrafamentos na frente da meia dúzia de
novos shopping centers. Um metrô está sendo construído até o centro de Déli.
Gupta veste calças pretas, camisa azul e gravata. Ele fez faculdade nos EUA e
já trabalhou para a gigante da consultoria empresarial McKinsey. É o principal
diretor operacional de uma companhia chamada Evalueserve. Seu trabalho é
estressante e ele sua em profusão, apesar do ar-condicionado no escritório. A
empresa tem 2.100 empregados e está em operação há apenas seis anos e meio.
Cresceu 100% a cada ano nos primeiros quatro, e mais 75% desde então. A
Evalueserve está em processo de expansão para a China, Chile e Europa oriental.
As frases de Gupta são bastante sóbrias, mas ele parece quase inebriado: “A
questão não é que tamanho queremos ter, mas que tamanho podemos ter.
Teoricamente, não há limite”.
A Evalueserve é uma empresa-vitrine da nova Índia. Enquanto a China está
crescendo através de produtos industriais de baixo custo, a Índia cresce por
meio de serviços baratos: centros telefônicos para atender a clientes em Ohio,
especialistas em informática que cuidam da programação para clientes europeus e
empresas de pesquisas de mercado como a Evalueserve, que realizam tarefas como
analisar as vendas de xampus dos concorrentes de seus clientes.
Segundo Gupta, não há a menor dúvida de que a Índia está se tornando uma
potência global. “Precisamos de mais 20 anos, mas eles passarão voando”.
O milagre econômico indiano começou em 1991, quando Ashish Gupta ainda era
estudante. Manmohan Singh, o ministro da Economia na época e hoje
primeiro-ministro indiano, descartou o “socialismo democrático” dos fundadores
do país. Até ele chegar ao cargo, grandes setores da indústria indiana ainda
eram estatais. Singh começou a privatizar empresas e a liberalizar os mercados.
O setor de informática floresceu desde o final dos anos 1990 e a economia em
geral cresceu em média 8% ao ano nos últimos cinco anos.
Na Evalueserve, mais de cem pessoas, na maioria com menos de 30 anos,
trabalham em uma única sala, sentadas em longas filas de mesas amarelas e
olhando para telas de computadores. Uma delas é a analista sênior Andrea Demsic,
uma loura de 30 anos com um sorriso satisfeito que trabalha no departamento de
pesquisas de negócios da companhia. Ela vem da cidade alemã de Schwäbisch-Gmünd
e fala o dialeto suábio. Depois de se formar em economia na Universidade de
Jena, na então Alemanha Oriental, ela conta, era relativamente difícil encontrar
trabalho na Alemanha. Um dia ela viu um anúncio na agência de empregos de sua
cidade: Procura-se analista para cargo no exterior. Andrea se candidatou e um
ano e meio atrás acabou em Gurgaon.
Seu salário inicial foi de 21 mil rupias (cerca de R$ 1.000), mais um
apartamento grátis. Ela foi promovida depois de um ano. Diz que deverá continuar
na Índia por mais algum tempo.
Andrea está impressionada com a ambição de seus colegas indianos e pela
cidade que está sendo construída ao seu redor. “Aqui há movimento. Todo mundo
quer conquistar alguma coisa. Há oportunidades para galgar a escada corporativa
na Índia. É muito diferente da Alemanha”.
Trinta e seis estrangeiros trabalham na Evalueserve, e seu número também está
aumentando em outras empresas indianas. Gupta, o presidente, sorri. Ele precisa
de gente que conheça a Europa e fale perfeitamente suas línguas, porque seus
clientes são europeus. Mas também está feliz com a mensagem que envia ao mundo:
em vez de contratar exclusivamente indianos para trabalhar para o Ocidente, as
empresas indianas também estão criando empregos para trabalhadores
ocidentais.
Vidarbha: “Eles constroem cidades e esquecem as aldeias”
Sua mulher e os
dois filhos estavam dormindo quando o agricultor Punjaram Kubde acordou à noite
e foi até o quarto ao lado, onde guardava sacos de sementes, fertilizantes e
pesticidas. Ele se serviu uma xícara do veneno e o bebeu. Sua mulher o encontrou
morto no chão de pedra na manhã seguinte.
Hoje seu corpo está embaixo de uma pilha de madeira que os homens e mulheres
de Chondha armaram numa colina verde em frente à aldeia. Eles pintaram seu rosto
de roxo, lhe trouxeram flores, arroz e moedas para sua viagem ao próximo mundo,
e enrolaram seu corpo num lençol branco.
Cerca de 200 pessoas vieram assistir à cremação. Seus rostos estão sérios. O
caso de Kubde é o primeiro de um agricultor que se suicida nessa aldeia. Alguns
dizem que, se não chover logo, seu suicídio não será o último.
Chondha fica em Vidarbha, no centro da Índia e uma das regiões mais pobres do
país. Somente este ano 521 agricultores já se mataram em Vidarbha. No ano
passado houve mais de 1.200 suicídios. Quase todos os homens usaram pesticida,
enquanto alguns se incendiaram.
A mulher do morto soluça baixo, com o corpo trêmulo. Seu nome é Lalita e ela
usa um sári cor-de-laranja que reserva para ocasiões especiais. Tem apenas 30
anos, é jovem e bonita, mas continuará viúva para o resto da vida. As regras da
aldeia proíbem que as viúvas voltem a se casar. Sagar, o filho mais velho do
casal, tem 10 anos. Um homem o ajuda a segurar um feixe de palha, que ele deve
usar para acender a pira fúnebre. Então os homens e mulheres de Chondha caminham
ao redor da fogueira, atirando galhos.
Punjaram Kubde foi um homem importante. Ele possuía 12 hectares de terra, uma
casa grande e uma motocicleta. Tinha 45 anos, era um homem forte com bigode e,
como a maioria aqui, plantava algodão. Cultivava uma variedade conhecida como
“algodão Bt”, desenvolvida pela gigante americana da agroquímica Monsanto.
Segundo os agricultores da aldeia, as sementes convencionais não são mais
encontradas hoje em dia. Ninguém sabe por quê, mas os comerciantes não as vendem
mais. A semente geneticamente modificada da Monsanto é cara e é preciso comprar
um novo suprimento a cada ano. A semente representa a metade dos custos de
produção dos agricultores. Pior ainda, se o algodão Bt recebe água de mais ou de
menos, reage com muito maior sensibilidade que o algodão normal.
Quando as fortes chuvas do ano passado arruinaram sua colheita, Kubde não
conseguiu pagar os empréstimos e os bancos se recusaram a lhe emprestar mais.
Ele procurou financistas particulares, que lhe emprestaram dinheiro para novas
sementes, mas este ano houve mais chuvas fortes e Kubde perdeu novamente a
colheita. Afinal ele devia 500 mil rúpias e ninguém quis lhe emprestar mais.
Incapaz de se livrar dessa montanha de dívidas, ele seria obrigado a se
tornar um empregado de seus credores. Escolheu a saída mais fácil.
O homem que conta os mortos da região chama-se Kishor Tiwari. Um
ex-engenheiro, Tiwari fundou sua própria ONG na pequena cidade de Pandharkawada,
onde tem escritório. Ele passa os dias mandando e-mails cheios de acusações e
números. Mais de 6 mil agricultores já cometeram suicídio em Vidarbha, ele
escreve, e mais de 2 milhões de agricultores estão endividados. Tiwari relata
notícias de uma Índia que não tem nada a ver com o país que os analistas
enaltecem atualmente.
Cerca de dois terços dos indianos ainda são agricultores, número que coloca
muitas coisas em perspectiva. Vivem em aldeias que consistem em um punhado de
cabanas de barro, cada qual com um quarto de dormir, um segundo cômodo para a
cozinha e uma latrina externa. Os caminhos enlameados entre as choças são
cobertos de excrementos de bois.
Mais de 300 milhões de indianos vivem na pobreza e 400 milhões são
analfabetos. Em muitas partes da Índia ainda existem relações de dependência
feudais, as mulheres e os intocáveis são oprimidos, existem crimes de honra e a
prática de incendiar as viúvas ainda não foi totalmente abolida.
Tiwari é um homem rude que usa sapatos lustrosos, calças pretas e camisa
branca. Ele percorre a região de carro com uma placa no pára-brisa que diz:
“Deus mandou este homem para os pobres”. Vai sentado no banco traseiro do carro
que sacoleja por uma rua cheia de buracos, culpando a liberalização do mercado
agrícola pelos problemas dos agricultores. Primeiro, ele diz, o governo quase
parou de comprar algodão, e então permitiu a importação de algodão e sementes
geneticamente modificadas. O resultado foi a queda do preço do algodão.
Ele fala sobre Mahatma Gandhi, que fundou sua comunidade-aldeia Sevagram
Ashram em 1936, não longe dali. Tiwari diz que os sucessores de Gandhi o
traíram. “Eles construíram cidades e esqueceram as aldeias. Para Gandhi, a
aldeia, que é auto-suficiente, era o pilar sobre o qual se ergue este país. Em
vez disso, agora temos a aldeia escravizada”.
Segundo Tiwari, a mesma liberalização que impulsiona o crescimento da Índia
está arrasando os agricultores.
Mumbai: “Em meia hora eu teria muitos muçulmanos aqui prontos para
lutar”
A cidade de Mumbai, antes conhecida como Bombaim, abriga alguns dos
mais pobres dos pobres da Índia. Mais da metade de seus moradores vive em
bairros como Dharavi, a segunda maior favela da Ásia, que investidores
escolheram para transformar em um moderno projeto residencial.
Mumbai também abriga alguns dos mais ricos cidadãos indianos. A maioria dos
bilionários do país vive aqui, como os irmãos Ambani, cujo pai, um comerciante,
trabalhou até ganhar bilhões. Outro é Anand Mahindra, que sonha em dominar a
Europa com os veículos esportivos-utilitários fabricados por sua companhia.
Mumbai também é Bollywood. A indústria de cinema da cidade produz centenas de
filmes por ano, cheios de música açucarada e atores que ganham milhões.
A carreira da maioria dos astros de Bollywood é curta, e apenas um punhado
deles tornam-se lendas. A mais inesquecível das estrelas mora em uma mansão no
bairro de Cumballa Hill em Mumbai: Dilip Kumar, o primeiro e provavelmente o
maior astro que o cinema indiano já teve.
Ele está numa sala de sua mansão, totalmente vestido de branco, segurando uma
paleta e um pincel. Cercado por uma dezena de fotógrafos e câmeras agitados,
Kumar não se perturba. Sua mulher, Saira Banu, está ao seu lado e de Jatin Das,
um conhecido artista. O trio está produzindo um quadro que será leiloado para
ajudar as crianças de rua de Mumbai.
Dilip Kumar tem 84 anos. Nasceu em Peshawar, no atual Paquistão, e vem de uma
família pashtun de 12 filhos. Seu verdadeiro nome é Mohammed Yusuf Khan, mas ele
achou que era muçulmano demais para se tornar um astro. Tem dificuldade para
lembrar dos velhos tempos. Quando perguntado sobre 1947, o ano da independência
e da divisão, a primeira coisa que lembra é que jogava futebol com os ingleses.
Então lembra as imagens de horror e morte e os massacres após a independência, e
seus três primos que morreram na rebelião. Os olhos do velho ator se enchem de
lágrimas e ele diz: “Foi muito chocante”.
A divisão provocou massacres terríveis. Já em 1946, ano anterior à divisão,
militantes hindus, muçulmanos e sikhs lutavam entre si, e quando os britânicos
anunciaram as fronteiras dos futuros países Índia e Paquistão, 10 milhões de
refugiados deixaram suas casas, tentando ir para o lado certo. Muitos nunca
conseguiram. Um grupo de muçulmanos atacou um trem cheio de refugiados no
Punjab, hindus destruíram centenas de mesquitas e sikhs assassinaram muçulmanos
com machados. Milhões de pessoas morreram. A Índia e o Paquistão nasceram de um
banho de sangue.
Kumar passou a maior parte da vida fazendo campanha pela reconciliação entre
os dois países e foi até condecorado por seus esforços. Mas hoje, em idade
avançada, parece temer um retorno: “Se isso acontecesse de novo, em meia hora eu
teria muitos muçulmanos aqui prontos para lutar”, diz.
Kumar senta-se em sua poltrona como um imperador nos últimos dias de vida,
com uma cúpula reluzente sobre a cabeça. Um quadro na parede em frente o mostra
no papel de grande astro romântico de Bollywood, posando com a mão estendida.
Ele olha para o espaço e diz que tem saudade de Peshawar e às vezes vai à
mesquita.
Caxemira: “Tenho medo de tudo”
A ferida da divisão nunca se fechou
totalmente na Índia. Aqui na Caxemira está bem aberta.
O lago Dal brilha à luz do sol, tendo ao fundo as verdejantes montanhas Pir
Pinjal. Srinagar é um lugar magnífico - mas também um dos mais perigosos do
mundo.
Duas potências nucleares, Índia e Paquistão, se enfrentam aqui, ambas
reivindicando a posse da Caxemira, de maioria muçulmana. A China também ocupa
parte da região. A Caxemira é provavelmente a zona mais militarizada do mundo.
Há 500 mil soldados estacionados no lado indiano, juntamente com forças
paramilitares, policiais e agentes de inteligência.
Tudo isso porque, no ano da divisão, o marajá de Jammu e Caxemira, flertando
com a independência, hesitou para escolher um lado. O Paquistão mandou tropas de
guerrilha, o marajá pediu a ajuda da Índia e desde então uma linha de
cessar-fogo separou os exércitos dos dois países.
Apesar dos atritos, a Caxemira foi por muito tempo um destino turístico de
sonho, até que uma guerrilha de independência apoiada pelo Paquistão irrompeu em
1990. Hoje a região é uma zona de guerra devastada, sem economia ou
infra-estrutura. Mas as coisas se acalmaram nos últimos anos, enquanto os
militantes atenuaram seus ataques. Há motivos para esperança na Caxemira?
O Mirwaiz da Caxemira, Omar Farooq, é o líder religioso muçulmano local e um
dos mais conhecidos políticos da província. Ele vive numa casa cor-de-rosa no
centro de Srinagar, onde uma dúzia de homens barbados e armados fica sentada na
entrada. Farooq, que tem apenas 34 anos, usa barba e óculos de grife e está
fazendo Ph.D. em sufismo na Universidade de Srinagar.
De que ele tem medo? A resposta de Farooq pode ser resumida em uma palavra:
tudo. De um lado, há os grupos militantes que assassinaram seu pai 17 anos
atrás, de modo que ele era apenas um adolescente quando se tornou seu sucessor.
Do outro lado há os indianos, nos quais também não pode confiar.
Farooq é um homem jovem e inteligente, mas já interiorizou esse conflito de
tal maneira que parece que o vem enfrentando há 60 anos. Ele é considerado um
moderado, um dos que querem negociar com o governo indiano. O primeiro-ministro
indiano propôs recentemente que a linha de controle seja transformada em uma
“linha de paz” entre os dois países. Existe uma proposta de um tipo de
administração conjunta da Caxemira pela Índia e o Paquistão.
O Mirwaiz é a favor dessas iniciativas, mas fica frustrado porque na verdade
há pouco progresso. Ele acredita que está na hora de Déli fazer algo para
cumprir suas intenções declaradas. Os jornais indianos escrevem que a Caxemira
está melhor que nunca e que sua economia é florescente. Farooq sorri
tristemente. A Caxemira é um lugar que deixa as pessoas melancólicas.
Déli: “Não somos os únicos que demos certo”
Shyama Bharti, que nasceu em
15 de agosto de 1947, às vezes se surpreende ao ver o quanto seu país mudou.
“Quando eu era menina a Índia era dominada pela população rural, os agricultores
não sabiam ler e eram supersticiosos”, ela diz, “mas hoje até seu padrão de vida
está melhorando. As pessoas são educadas e conhecem seus direitos e
deveres.”
Naquele tempo, diz Shyama, a casa de sua família só tinha uma cama, três
cobertores, algumas cadeiras e um rádio-transistor. “Hoje temos ar-condicionado
em todo lugar e é tudo bem mobiliado, e não somos os únicos que demos certo”.
Toda manhã e toda tarde Shyama vai até a pequena sala com um altar atrás da
cozinha para agradecer a Ganesha, o deus-elefante.
Nos fins de semana ela visita seus parentes pobres, onde é tratada como
convidada de honra. Ela lhes conta que as mulheres devem lutar por seus direitos
e suas profissões. Às vezes lhes dá dinheiro. Está pensando em entrar na
política quando se aposentar. Shyama diz que o país lhe deu muito e que agora é
sua vez de retribuir.
Shyama tem um orgulho enorme de seus filhos. O mais velho também escolheu uma
carreira no serviço público e foi aceito no prestigioso Serviço Administrativo
Indiano, que só admite 300 candidatos por ano. Quando a nomeação foi anunciada
no jornal, Shyama e seu marido foram inundados - para deleite dela - com ofertas
de noivas para o rapaz. Mas e o amor? “Os indianos não apreciam os casamentos
por amor”, diz. “Preferem casamentos arranjados. É mais seguro.” O casamento
dela também foi arranjado.
As tradições da Índia não estão desaparecendo com seu sucesso econômico. Na
verdade, os jornais registram uma nova tendência: famílias de classe média que
se arruinam financeiramente para pagar o dote de suas filhas.
A família da noiva de seu filho pagou um dote? “Não aceitamos”, diz Shyama.
“Só as pessoas mesquinhas fazem isso”. Ela e o marido escolheram uma bela garota
para seu filho. É funcionária pública sênior, uma mulher inteligente.
Ela é da mesma casta? “É claro!”, diz Shyama.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Der Spiegel
http://www.spiegel.de/
*Publicado por Nezimar Borges
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