Michel Bôle-Richard Correspondente em Jerusalém
“Por que será que eles morreram?” (”Why they died?”): esta é a pergunta à qual a Human Rights Watch (HRW) tenta responder, num relatório de 247 páginas sobre as vítimas libanesas da guerra do verão de 2006, que foi tornado público na quinta-feira, 6 de setembro. Esta organização de defesa dos direitos humanos conduziu investigações sobre 94 ataques realizados pelo exército israelense, que mataram 561 pessoas, das quais 510 civis e 51 combatentes do Hizbollah.
No total, 355 vítimas e testemunhas foram interrogadas e tiveram de responder a três perguntas: os libaneses que foram mortos teriam sido civis ou combatentes? Teria Israel respeitado as leis humanitárias internacionais durante este conflito? Teria o Hizbollah contribuído, por meio dos seus métodos, para aumentar o número de vítimas civis?
A HRW não consegue responder a essas perguntas, a não ser por meio da análise dos casos examinados, mesmo se informações parciais foram obtidas a respeito dos 548 outros mortos durante esta guerra de 34 dias, que se desenrolou de 12 de julho a 14 de agosto de 2006. No total, segundo a contagem efetuada pela organização, houve 1.109 mortos e 4.399 feridos no Líbano, vítimas de 7.000 bombas ou mísseis lançados pelos aviões e as aeronaves não-tripuladas israelenses, sem falar dos tiros de artilharia e de marinha. Mais de um milhão de pessoas fugiram dos combates.
As autoridades israelenses tentaram argumentar em sua defesa, alegando que o número elevado de vítimas civis se devia ao comportamento do Hizbollah, que se dissimulava em meio à população, utilizando os habitantes como escudos e as aldeias como locais de armazenamento de munições, e cujos combatentes não trajavam o seu uniforme. Elas também lembraram que o exército israelense havia, antes de cada ataque, pedido à população civil do sul do rio Litani para se afastar desta área.
Segundo a HRW, dos 499 civis que foram mortos e dos quais não foi possível determinar a identidade, 302 eram mulheres e crianças. Informações equivocadas custaram a vida de cidadãos libaneses que não pertenciam ao movimento radical xiita.
Sem discernimento Ainda que os argumentos apresentados por Israel não estejam desprovidos de fundamento, indica o relatório, “a responsabilidade pelo número elevado de vítimas civis recai integralmente sobre Israel, no quadro da conduta das suas operações militares”.
O exército israelense, aponta o relatório, “escolheu como alvos pessoas ou estruturas que poderiam ser associadas de uma maneira ou de outra com a organização militar, política ou social do Hizbollah, sem levar em conta o fato que elas constituíam (ou não) objetivos militares válidos. Um grande número de ataques foi perpetrado sem discernimento, de maneira desproporcionada e, em função disso, não se justificam. Com isso, todos eles constituem sérias violações das regras humanitárias internacionais. Em conseqüência, os militares em postos de comando e os oficiais sabiam ou deveriam ter sabido que crimes de guerra estavam sendo cometidos”.
A HRW não aprofunda a questão da utilização das bombas de submunições (constituídas por centenas de bombas menores que se espalham e atingem uma área muito mais extensa, muitas delas sem explodir de imediato). A seu respeito, foi dedicado um outro relatório que será publicado em breve.
Mas a organização sublinha que Israel intensificou a sua disseminação no decorrer dos últimos três dias da guerra, e aponta que muitos desses artefatos provinham de estoques que remontavam à guerra do Vietnã. Em conseqüência, 30% a 40% dentre eles não explodiram. No total, haveria 4 milhões de bombas espalhadas na natureza, as quais, desde o final da guerra até 20 de junho, mataram 24 pessoas e feriram 183.
Em Israel, os cerca de 4.000 foguetes que foram atirados pelos Hizbollah causaram a morte de 43 civis e de 12 soldados israelenses. O comportamento da milícia xiita também foi severamente criticado pela HRW num relatório anterior. A coletiva de imprensa que estava agendada para marcar a divulgação deste último, em 29 de agosto, em Beirute, teve de ser cancelada por razões de segurança, depois de uma campanha hostil ter sido lançada contra a organização, principalmente pelo canal Al-Manar, um órgão do Hizbollah.
No terreno libanês, a HRW estima, entretanto, que “não há nenhuma prova de que os combatentes do Hizbollah tivessem agido regularmente e amplamente em contravenção a essas leis, ao contrário do que afirmou Israel em diversas oportunidades”. Até o último dia da guerra, o Hizbollah esteve em condições de arremessar seus foguetes katiouchas, apesar dos intensivos bombardeios israelenses. Dos 1.109 mortos libaneses, cerca de 250 eram combatentes do Hizbollah.