O declínio dos Estados Unidos
Local: SP-09/10/2007
Fonte: Henrique Rattner
Link: Revista Espaço Acadêmico |
A história da modernidade é rica em ensinamentos sobre a ascensão e o
declínio de impérios baseados na acumulação irrefreada de riquezas materiais e
alavancados por conquistas militares que levaram à subjugação e posterior
exploração de outros povos. Às conquistas dos portugueses e espanhóis no século
XVI, seguiu a expansão comercial holandesa no século XVII, substituída no século
XVIII pelos franceses e britânicos. O império britânico atingiu seu apogeu no
século XIX, entrando em decadência a partir da 1a guerra mundial que inaugurou o
século da supremacia dos Estados Unidos da América do Norte.
Na corrida armamentista durante a Guerra Fria, a ex-União Soviética tentou
contestar a hegemonia americana; sem sucesso, entrou em colapso em 1989.
No último quartel do século XX, após uma reconstrução inédita de sua
indústria e infra-estrutura, o Japão despontou como potência industrial e
financeira, o que levou vários estudiosos da geopolítica a indagar: “será o
Japão o número um?”
Contudo, apesar de avanços espetaculares de sua indústria e tecnologia, o
Japão, com base territorial reduzida e insular, sem recursos naturais e
energéticos próprios, ficou restrito ao segundo lugar entre os países
desenvolvidos, membros da OCDE – Organização para Cooperação e Desenvolvimento
Econômico –, alcançando seu PIB – Produto Interno Bruto – o valor respeitável de
4,5 trilhões de dólares.
A hegemonia econômico-financeira e militar, desde o fim da 2a guerra mundial,
ficou com os Estados Unidos, apesar da contestação no âmbito militar pela
ex-União Soviética. Durante a “Guerra Fria”, as duas superpotências construíram
um arsenal de bombas atômicas – aproximadamente 10.000 cada uma, posteriormente
reduzido a 5.000 em cada país, com capacidade de destruição inimaginável de todo
o planeta. Após o desmoronamento da ex-União Soviética, em 1989, os
estrategistas dos dois lados do Atlântico apressaram-se em proclamar o “fim da
história”, com a vitória e hegemonia incontestável do capitalismo
norte-americano.
Efetivamente, os Estados Unidos têm a maior economia do mundo, com um PIB de
11,5 trilhões de dólares, embora sofram de um déficit crescente em sua balança
comercial, sobretudo com os países do Oriente. China, Japão, Taiwan, Coréia do
Sul juntos têm reservas cambiais de mais de 2 trilhões de dólares, o que revela
a vulnerabilidade financeira da potência hegemônica, cujas finanças seguem
desequilibradas, em ritmo crescente.
Os Estados Unidos têm o maior orçamento de defesa, praticamente igual ao de
todos os outros países juntos e suas forças armadas – exército, armada naval e
força aérea estão equipados com a mais avançada aparelhagem tecnológica. Sua
frota de navios de guerra, capitaneada por 12 porta-aviões, está em todos os
mares e a força aérea conta com o maior número de aviões de caça voando com
velocidade supersônica e de bombardeiros capazes de carregar e despejar
artefatos nucleares em qualquer parte do mundo. O número de soldados efetivos é
de 1.500.000, o que permitiu o envolvimento em duas guerras simultaneamente.
Após a invasão do Afeganistão, em 2001, para aniquilar os combatentes da Al
Qaeda e do Talibã, as tropas norte-americanas invadiram, em 2003, o Iraque,
contrariando a opinião mundial, as Nações Unidas e seu Conselho de Segurança. O
motivo alegado por George W. Bush e Tony Blair da existência de depósitos de
armas de destruição em massa – químicas, biológicas e nucleares – nunca foi
comprovado.
Quatro anos depois da invasão, e o aprisionamento, julgamento e execução de
Saddam Hussein, o desastre militar no Iraque fica cada vez mais evidente e
inextrincável. Com 4.000 soldados aliados mortos e dezenas de milhares feridos e
mutilados, o Iraque está submergido numa guerra civil entre xiitas e sunitas,
enquanto mais de 2 milhões de civis fugiram do país. O número de vítimas civis
entre a população iraquiana é estimado em centenas de milhares, tornando trágica
a pretensão de Bush de implantar um regime democrático no Oriente Médio.
Enquanto as perdas em homens e equipamentos alcançam cifras astronômicas,
cresce a pressão interna, nos Estados Unidos, para uma retirada de seus
militares. Mas, como abandonar o Iraque, sem evocar de novo o desastre da
retirada de mais de meio milhão de soldados do Vietnã, derrotados pelos
exércitos “descalços”, há 32 anos?
Acrescenta-se o ressurgimento de combates no Afeganistão, onde as tropas
americanas e da NATO enfrentam os guerrilheiros do Talibã, da Al Qaeda e dos
“insurgentes” tribais, evidenciando a impotência do governo central “eleito” de
Hamid Karzai de impor um mínimo de lei e segurança pública.
O engajamento das forças armadas dos Estados Unidos nos dois países estendeu
sua capacidade de operar além dos limites e configura a derrota fragorosa da
superpotência. O Congresso norte-americano, dominado por escassa maioria
democrata, após as últimas eleições de 2006, votou uma proposta fixando a data
de retirada das tropas norte-americanas do Iraque, prontamente vetada pelo
presidente Bush. Mas, também os democratas não querem assumir a responsabilidade
pública do decreto e não sabem o que fazer diante da carnificina diária por
carros-bomba e ataques por homens-suicidas contra alvos civis e militares que já
causaram inúmeras vítimas entre os iraquianos e outros que procuram abandonar o
país destruído.
Apesar de todo o poderio de suas armas, o prestígio militar dos Estados
Unidos tem sofrido um abalo do qual nenhuma nova aventura militar (Irã, Coréia
do Norte, Síria) poderia resgatá-lo. Os recursos bélicos estão no limite de sua
utilização eficaz, dado que para cada brigada em combate, há necessidade de duas
em atividades de apoio e treinamento. O recrutamento de novos voluntários está
ficando cada vez mais difícil o que levou o comando a baixar as exigências de
qualificação de novos recrutas. O tempo de exposição das tropas ao combate foi
aumentado para seis meses seguidos de igual período de recuperação e
treinamento. As tropas inglesas concentradas na região de Basra mantêm quatro
meses de combate seguidos de oito meses de recuperação. O número de soldados
mortos aumenta constantemente e, mais ainda aqueles que necessitam de longos
períodos de tratamento psicológico para superar o trauma e o “stress”
permanentes. Cresce também, em proporções alarmantes, o número de soldados
mutilados – mais de 20.000 – cujo tratamento e readaptação à vida constituem um
imenso problema social e financeiro.
Embora continue incontestável a supremacia militar dos Estados Unidos, seu
prestígio político e moral têm sofrido sérios abalos, pelo mundo afora e entre a
própria população norte-americana.
Durante décadas, as forças armadas norte-americanas foram treinadas para
enfrentar os poderosos exércitos da ex-União Soviética, dando-se pouca
importância a pequenos conflitos regionais, embora não faltassem advertências de
militares sobre a inadequação do treinamento e do equipamento para um conflito
com guerrilheiros urbanos. Poucas unidades dos 1,5 milhão de soldados estão
preparadas para lutar contra os “insurgentes” no Iraque e no Afeganistão,
entrincheirados sob edifícios civis, onde o emprego maciço da aviação e de
veículos blindados pesados se tem revelado ineficaz para expulsar os combatentes
inimigos, enquanto tem causado inúmeras vítimas entre civis e destruído cidades
inteiras.
A doutrina militar herdada da 2a guerra mundial (“Blitzkrieg”) não funciona
em condições de combate com guerrilheiros urbanos, como bem aprenderam as tropas
norte-americanas e seus mercenários no Iraque, e os israelenses no curto
conflito com o Hezbolah, no Líbano, em julho de 2006.
Às perdas enormes em vidas humanas e ao custo financeiro deve ser
acrescentada a decadência do prestígio político e moral entre os americanos e
seus aliados.
O envolvimento em conflitos sangrentos, reprovado por praticamente todos os
governos e povos, com exceção de Tony Blair, companheiro de Bush nas mentiras
sobre depósitos de armas de destruição em massa no Iraque, foi seguido pelo
horror causado no mundo após os relatos sobre as atrocidades cometidas por
soldados norte-americanos em Abu Ghraib, a manutenção em prisão e tortura de
prisioneiros “suspeitos” de atividades terroristas em Guantánamo, Cuba e a
divulgação de operações ilegais da CIA em vários países europeus.
A confiança e auto-estima dos norte-americanos foram profundamente atingidas,
moral e legalmente, por medidas propostas por Bush e aprovadas pelo Congresso,
então com maioria republicana, tais como o Military Commissions Act, a
autorização de torturas em “certas circunstâncias” e restrição ao habeas corpus
que constituem uma grave ameaça à democracia e aos direitos humanos. Ainda antes
da aprovação dessas leis pelo Congresso, o Governo Bush lançou mão de
seqüestros, encarceramento e tortura de pessoas que jamais haviam sido
formalmente acusadas de qualquer crime específico.
Efetivamente, com exceção de Blair que não mais representa o povo britânico,
os Estados Unidos não contam com o apoio ou a solidariedade de nenhuma região do
planeta. Analistas e estrategistas militares levantam conjecturas sobre os
impactos causados pela guerra do Iraque no “declínio do império” e que possam
resultar em redesenho do mapa e do equilíbrio geopolítico no mundo.
Tanto na Europa ocidental, na África e, sobretudo, na América Latina,
alastram-se profundos sentimentos de rejeição e crítica às políticas
norte-americanas. O mundo islâmico, com mais de um bilhão de pessoas, desde
Indonésia e Malásia até o norte da África condena os Estados Unidos e sua
política no Oriente Médio. Mesmo no Extremo Oriente, cujos países estão sob o
guarda-chuva de proteção nuclear norte-americana contra possíveis, mas
improváveis ataques da Coréia do Norte, os japoneses, coreanos, taiwaneses
adotam freqüentemente atitudes abertamente hostis contra os americanos.
As relações com a Rússia continuam tensas, apesar dos encontros entre Bush e
Putin que, além das 5.000 armas atômicas armazenadas, controla crescentemente o
abastecimento dos países europeus com o gás combustível. Embora não haja
perspectivas de um conflito armado com a Rússia, seu regime autoritário, a
repressão interna de qualquer oposição e a venda de armas sofisticadas,
inclusive aviões de caça supersônicos constituem fator de preocupação permanente
do governo norte-americano.
Ademais, o Governo Putin acaba de anunciar a retirada da Rússia do tratado
sobre a limitação de armas convencionais na Europa que foi considerado como o
primeiro passo em direção ao desarmamento. A decisão da Rússia é claramente uma
reação à suposta ameaça que representaria a construção, pelos Estados Unidos de
um escudo antimísseis na República Tcheca e na Polônia, alegando o perigo de
mísseis carregados de bombas nucleares do Irã.
A contraproposta de Putin de ampliar e administrar em conjunto a base já
existente no Azerbaijão, próxima à fronteira com o Irão, foi descartada por
Bush.
Mas, a maior fonte de preocupação para a política norte-americana e concebida
como ameaça mais séria a sua hegemonia é a ascensão da China, com mais de 1,3
bilhões de população e cuja influência e presença econômica, comercial e
tecnológica permeia o atual cenário internacional.
Há um quarto de século a China investe, anualmente, pesadamente (até 50% de
seu PIB) no seu crescimento econômico, na educação, no desenvolvimento
tecnológico e na modernização de suas forças armadas, e tem construído e mandado
para o espaço naves e satélites, além, também, de dispor de centenas de armas
nucleares.
A ascensão da China
A China, junto com a Mesopotâmia, o Egito e a Índia são considerados os
berços da civilização humana, amplamente documentados e estudados pela
Arqueologia, a Antropologia Cultural e a História oral e escrita transmitidas
através de gerações.
Com extensão territorial de quase 10 milhões de km2, o dobro da Europa,
excluindo a Rússia, e uma população que ultrapassa 1,3 bilhões de pessoas, a
China possui enormes recursos naturais e minerais, além de um imenso potencial
hídrico representado pelos rios Yang Tse e Hoang-Hu cujas águas irrigam as
planícies férteis desde tempos pré-históricos, e permitem o cultivo de milho,
trigo e arroz, alimentos básicos para uma população em expansão constante.
As riquezas produzidas pela agricultura irrigada atraíram os “bárbaros”
hunos, mongóis, turcmenos e outros que invadiram inúmeras vezes as prósperas
terras do império. Para se proteger contra as invasões, os chineses construíram
a “grande muralha” de mais de 2.400 km de extensão, uma verdadeira maravilha do
engenho e da capacidade construtiva dos chineses.
Durante a história milenar da China, nota-se a forte presença do Estado
centralizador na organização e administração das atividades econômicas e de
defesa.
Entre as várias dinastias que dominaram esse país, de dimensões continentais,
destaca-se a dos Souéi (581-619) que impôs uma série de reformas políticas,
sociais e econômicas, conseguindo pacificar a sociedade. Além da reforma do
código penal, os impostos foram reduzidos por um terço e os dízimos, pela
metade. As terras foram distribuídas entre os camponeses – 1,5 hectares por
adulto – conseguidas pela expropriação dos senhores feudais. O fortalecimento da
monarquia coincidiu com uma expansão do comércio por via marítima.
Diferentemente dos outros países da época, o regime chinês foi mais
democrático e mais igualitário, baseado no direito natural da posse da terra em
comum. A organização social da população foi configurada por aldeias, cantões e
províncias, cujo funcionamento e segurança foram assegurados pelas forças
militares sob comando do imperador.
O Estado organizou, também, a instrução e formou um quadro de administradores
admitidos por concurso, além de estimular os estudos acadêmicos e científicos.
Os cargos político-administrativos não foram hereditários e o novo código civil
pregou os princípios de humanização e solidariedade.
Quanto ao culto religioso, diferentemente dos hindus e islâmicos, os chineses
não demonstram atitudes de intolerância ou de fanatismo. Em vez de se ocupar com
o além, os sábios dirigem suas atenções para a gestão de assuntos terrenos, do
dia-a-dia, para assegurar o bem estar de todos. Diferentemente das culturas
ocidentais, onde a Arte e a Música foram profundamente influenciadas pela idéia
do divino, a China desenvolveu sua cultura na veneração da natureza. A liderança
na sociedade chinesa não foi exercida por sacerdotes de personalidade
carismática, mas pelos instruídos nos ensinamentos hedonistas e pragmáticos de
Confúcio.
A história da China não oferece exemplos de intolerância ou de perseguição
religiosas, embora sua estrutura social tenha sido sempre marcada pela religião.
As massas de camponeses seguiram as crenças e superstições do animismo
primitivo, herança da cultura primeval. As elites instruídas se definem pela
adesão à ética confuciana. Ao longo dos séculos, a estruturação religiosa
configura-se em três grandes correntes: o confucionismo, o taoísmo e o
budismo.
Pela antiga concepção chinesa, o céu, a terra e os homens constituem uma
completa unidade, donde se deriva a busca de harmonia entre as ações humanas e a
natureza. A observação da natureza, em seus movimentos cíclicos – as estações do
clima, o crescimento da flora e as correntezas dos grandes rios, por um lado e a
violência das inundações, tempestades e secas, por outro, deu origem a uma
cosmologia que permeia todo o pensamento e a ação dos chineses. O princípio do
Tao – a unidade e amplitude do universo – é o fundamento pelo qual a vida em
sociedade deve se reger livre de agressividade e de ganância, em harmonia com a
natureza.
Desde os primórdios da civilização chinesa e antes de Confúcio e Buda, os
costumes, valores e o folclore tradicionais procuravam aplacar a ira os demônios
e maus espíritos por sacrifícios os quais ao longo dos séculos se tornaram
simbólicos. Já no 2o milênio antes da era cristã, instalou-se o culto aos
ancestrais, mediante altares e ritos de luto específicos. A idéia central que
permeia esses ritos é a continuidade da vida, atravessando passado, presente e
futuro representados pelas diversas gerações da família.
O imperador, filho do céu, foi venerado como pai benevolente da nação, visão
refletida na relação à propriedade das terras, lares e outros bens que
pertenciam a todos, inclusive aos entes falecidos. Assim, o culto de reverência
aos parentes mortos constitui ainda parte fundamental da cultura chinesa.
Os ensinamentos de Confúcio que impregnam e continuam a pesar na cultura
chinesa atual, podem ser encontrados numa coletânea de provérbios e injunções
éticas do mestre. Segundo esses preceitos, facilitar a governabilidade e o
convívio em sociedade exige distanciar-se da crença em demônios e divindades
sobrenaturais. Assim, Confúcio rejeitou a sua própria divinização e preferiu ser
considerado como exemplo do saber e da virtude.
A ascensão do regime comunista a partir de 1949 e a conseqüente transformação
da ideologia dominante levaram ao enfraquecimento e até a eliminação, tanto dos
ritos tradicionais, quanto dos cultos de Confúcio. Em 1912, com a queda do
último imperador e a criação da República, a veneração a Confúcio ficou abalada,
embora o governo de Chiang Kai Chek tenha declarado seu aniversário como feriado
nacional, até hoje celebrado – em Taiwan.
Como explicar a decadência do poderoso império chinês que desde a antigüidade
mantinha relações comerciais com o ocidente, construindo e zelando pela
segurança da famosa “estrada de seda”, pela qual transitavam as caravanas de
mercadores, alimentando um fluxo intenso de bens e inovações tecnológicas da
China para o resto do mundo, como a bússola, a pólvora, a impressão em papel que
foram trazidas para a Europa e contribuíram para o processo de modernização na
época do Renascimento.
Mas, o fortalecimento dos senhores feudais e o isolamento do resto do mundo
causaram atraso econômico e militar, sobretudo no século XIX. As constantes
lutas dos generais – senhores feudais entre si, enfraqueceram o poder central e
atiçaram a cobiça pela conquista de territórios chineses por parte dos países
ocidentais.
Em 1857, a Grã-Bretanha derrotou os exércitos chineses dotados de armamentos
antiquados, na famigerada “guerra de ópio”, cuja livre importação foi imposta
pelos vencedores. Sucessivamente, os Estados Unidos, Portugal, França, Alemanha
e Inglaterra ocuparam enclaves territoriais chineses, a partir dos quais
importavam suas mercadorias e exportavam bens demandados em seus países.
Em 1894/5, os exércitos chineses sofreram uma fragorosa derrota numa guerra
contra os japoneses, que se apoderaram de vastas extensões territoriais da
China. Em 1899/1900 ocorreu um levante popular contra a opressão e exploração
pelos países imperialistas, conhecido na História como o levante dos “Boxers”.
Os países ocidentais mandaram uma força expedicionária que reprimiu o levante de
forma sangrenta e, em seguida, exigiram o pagamento das reparações pesadas que
enfraqueceram ainda mais a autoridade imperial e abriram o caminho para sua
derrubada e a conseqüente proclamação da República.
As derrotas militares humilhantes e a ocupação de seus territórios pelas
potências imperialistas, despertaram o nacionalismo chinês e levaram à criação
de um partido nacionalista, o Kuo Ming-Tang, sob a liderança de Sun Yat Sen,
considerado o pai da China moderna.
Em 1927, sob a inspiração da Internacional Comunista, comandada por Stalin, o
partido comunista chinês esboçou um levante revolucionário em Cantão,
violentamente reprimido pelos militares.
Nos anos trinta do século passado, os japoneses se lançaram novamente à
guerra contra a China, enfraquecida internamente pelas lutas entre seus
generais. As tropas japonesas ocuparam um vasto território no nordeste da China,
a Manchúria, rica em matérias-primas, que foi declarada um reino “independente”
sob proteção do Japão.
Durante a 2a guerra mundial, pressionada pelos aliados ocidentais, a China,
liderada pelo General Chiang Kai Chek, declarou a guerra ao Japão e aos seus
aliados do “eixo” Alemanha e Itália.
As tropas chinesas, mal armadas e treinadas, não conseguiram resistir aos
japoneses e sofreram também constantes ataques pelos soldados camponeses
liderados por Mao Tse Tung. Em 1949, as tropas de Chiang Kai Chek se renderam e
uma parte dos soldados e suas famílias fugiram para a ilha de Formosa – hoje
Taiwan – onde proclamaram um Estado independente, em oposição ao regime
comunista.
Apesar das ameaças das antigas potências coloniais e a pressão nada amigável
da ex-União Soviética, o novo regime conseguiu unir, integrar e pacificar um
povo de 600 milhões de habitantes, dando início a um processo de construção de
um Estado moderno, dinâmico e militarmente eficaz, como provou a intervenção das
tropas chinesas ao lado da Coréia do Norte, quase expulsando as tropas
americanas da península Coreana, em 1951.
Nos anos sessenta, a China passou pelo movimento de “Revolução Cultural” que
mobilizou e despertou, politicamente, dezenas de milhões de camponeses,
trabalhadores e estudantes. Ao mesmo tempo, foram varridas do cenário social e
político as “elites” tradicionais que tinham arrastado a sociedade chinesa
durante séculos, na mais abjeta miséria e exploração.
Por outro lado, apesar das crueldades e eventuais injustiças cometidas
durante a Revolução Cultural, a China emergiu dela como uma sociedade mais coesa
e solidária e seus membros mais conscientes de seu legado histórico e de sua
identidade nacional e cultural.
Na fase de transição para uma sociedade industrial moderna, como comprovam os
exemplos da Alemanha e do Japão no século XIX, a presença do Estado com sua
capacidade de planejar, orientar e regulamentar os investimentos produtivos tem
sido o fator fundamental para a emergência da China como potência hegemônica no
cenário internacional. A ação do poder público, apoiado em amplo consenso da
população, cria oportunidades para planejar e fiscalizar a aplicação de recursos
materiais, financeiros e humanos, que asseguraram o êxito na condução do
processo de desenvolvimento.
Indubitavelmente, a China desponta neste começo de século XXI como a nova
superpotência em ascensão. Há mais de duas décadas a economia chinesa cresce a
um ritmo alucinante, com uma taxa anual superior a 10% medida pelo PIB ,
causando assombro e inveja aos economistas e políticos ocidentais. Junto com o
processo de crescimento econômico ocorreu um acelerado processo de urbanização
que transferiu centenas de milhões de camponeses para as cidades, a um ritmo e
intensidade superiores a qualquer outro país na história recente,
incorporando-os como produtores e consumidores. Com a pressão demográfica – são
1,3 bilhão de habitantes – expandiu-se o desenvolvimento em direção ao interior,
ao longo de milhares de quilômetros beirando os rios Yang-Tse e Huang-Ho.
Investindo quase 50% do PIB anualmente, a acumulação de capital e a
incorporação de mão-de-obra prosseguem a um ritmo acelerado, atraindo, também,
mais da metade dos FDI – Foreign Direct Investment (investimentos estrangeiros)
do mercado mundial. Com uma oferta praticamente ilimitada de mão-de-obra
relativamente qualificada e o acesso e incorporação de tecnologia de ponta, a
China consegue abarrotar o mercado mundial com seus produtos, exportando bens e
serviços no total de US$ 600 bilhões anuais e acumulando saldos comerciais
superavitários que elevaram suas reservas cambiais a mais de um trilhão de
dólares.
Sem dúvida, a China enfrenta enormes problemas sociais e ambientais, cujo
equacionamento e solução exigirão investimentos e esforços adicionais de
planejamento da expansão econômica. No período de 25 anos, a China conseguiu
incorporar à sociedade mais de trezentos milhões de pessoas como membros
produtivos, mais do que todos os países “emergentes” e em desenvolvimento em
conjunto.
A qualidade de vida da população melhorou nesse período, revelando uma
crescente e próspera classe média. O coeficiente de GINI – parâmetro de
distribuição desigual da renda é igual ao dos Estados Unidos. Apesar de
previsões pessimistas afirmando a insustentabilidade do presente crescimento
econômico e das exportações, os avanços nas transformações e na expansão do
mercado interno reforçam a tendência ao crescimento da economia chinesa, em vias
de ultrapassar a Alemanha e alcançar o Japão.
O orçamento militar chinês superou o do Japão, seguindo de perto os da França
e da Grã-Bretanha, alimentado por um crescimento econômico (PIB) que ultrapassou
os dois países, igualou-se ao da Alemanha e persegue o segundo lugar na economia
mundial, atrás dos Estados Unidos.
Durante o século XX, os Estados Unidos alcançaram sua posição hegemônica, não
somente pela pujança de sua indústria, comércio e finanças, mas, sobretudo pela
irradiação da democracia liberal e sua cultura – o “American Way of Life”.
Hoje, após o descalabro e próxima retirada do Iraque, suas alianças e
prestígio desmoronaram, junto com a sua imagem política e moral. Procurando um
“bode expiatório”, os grupos conservadores norte-americanos clamam por um
sistema protecionista comercial contra a rival – China; à semelhança dos anos
oitenta quando medidas idênticas foram advogadas, sem sucesso, contra o Japão.
As indústrias de ponta chinesas e japonesas instalaram-se nos Estados Unidos e
seus produtos eliminam competidores americanos do mercado.
Finalmente, os problemas do aquecimento global por efeito estufa e a questão
de combustíveis alternativos e mais limpos afetam a todos os países
industrializados, sendo os Estados Unidos e a China os maiores emissores de CO2.
Ambos dispõem de imensas reservas de carvão mineral, sendo a fonte energética
mais barata, sobretudo face ao aumento dos preços do petróleo. Queimar carvão é
o processo mais barato de gerar energia elétrica, mas produz, aproximadamente,
40% de emissão de CO2.
O Governo Bush tem resistido sistematicamente a estabelecer metas de redução
das emissões e a China, na sua corrida desenfreada pelo crescimento econômico,
coloca em operação uma usina movida a carvão de 500 MW por semana.
Enquanto os Estados Unidos discutem subsídios para a produção de etanol à
base de milho (alto custo e ambientalmente desaconselhado) a China investe,
pesadamente, em energia eólica e solar.
Qual dos dois países atenderá mais rápido e eficazmente o clamor das
populações por um mundo mais justo, limpo e seguro para todos?
HENRIQUE RATTNER
*Publicado por Nezimar Borges
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