O exemplo boliviano
20 de Agosto de 2007
‘O que Evo Morales está fazendo é o que muitos brasileiros gostariam que
o Lula fizesse no Brasil’, diz em entrevista o geógrafo Antônio Thomaz
Jr
04/05/2007
da redação
Entre os dias 15 e 17 de maio, aconteceu, na Venezuela, a 1º Cúpula
Energética Sul Americana, que discutiu a questão dos biocombustíveis e a
integração energética dos países da América do Sul. Outro assunto discutido foi
a criação do Banco do Sul, que servirá de competidor e, talvez, de substituto,
do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) muito próximo ao governo dos
Estados Unidos. A intenção de alguns países, como Venezuela e Bolívia, é
distanciar a política econômica da América do Sul da política adotada pelos
Estados Unidos. Já a intenção de outros países, como o Brasil, é aproximar-se
desta potência econômica mundial.
Por isso, a IHU On-Line entrevistou, via skype, o professor e pesquisador
Antônio Thomaz Jr. Na entrevista, ele fala dos benefícios e malefícios que a
produção de biocombustíveis pode trazer para a sociedade brasileira. Falou ainda
da política que Lula tem adotado em relação às alternativas energéticas e de seu
apoio às medidas adotadas por Evo Morales. Para Antonio, Morales está fazendo o
que o povo brasileiro esperava que Lula fizesse em seu primeiro mandato. “O que
Lula não fez no primeiro mandato não vai fazer no segundo também”.
Antônio Thomaz Jr. é geógrafo formado pela UNESP, com mestrado e doutorado
também realizados nesta área pela USP. Realizou três pós-doutorados: dois na
Universidade de Santiago de Compostela, na Espanha, e o outro na Unicamp. Há 20
anos trabalha na FCT/UNESP/Presidente Prudente como pesquisador e docente nos
cursos de Graduação e Pós-Graduação em Geografia. É autor dos livros “Por trás
dos canaviais os nós da cana” (São Paulo: Annablume/Fapesp, 2002) e “Geografia
passo-a-passo” (Santiago de Compostela: Editorial Centelha, 2005).
IHU On-Line – A produção de biocombustíveis na América do Sul pode ser um
instrumento de desenvolvimento social?
Antonio Thomaz Jr. – Bom, para essa pergunta posso te responder de duas
formas antagônicas. Sim, porque qualquer possibilidade de se transformar
matérias-primas renováveis em combustível é interessante. É muito mais do que
ficar preso à matriz energética. Então, partindo desse ponto de vista, é
possível, sim, a produção de biocombustíveis alavancar um projeto de
desenvolvimento social. Agora, o que é complicado nisso tudo, e as pessoas
precisam entender, é o que se fala de biocombustível, de que, com ele,
estaríamos contribuindo para diminuir a quantidade de poluentes e diminuir a
capacidade de recuperação da camada de ozônio. O que não se leva em consideração
é o fato de que estaríamos apostando no mesmo modelo de produção ou no mesmo
modelo produtivo fundamentado em grandes extensões de terras, em grandes
propriedades, nas grandes corporações, nas grandes estruturas econômicas. Esses
grupos e essas empresas não têm nenhuma preocupação em inserir os pequenos, de
dar oportunidade, por exemplo, para a alternativa camponesa. Então, é uma
bobeira muito grande ficar acreditando nesse marketing que está associado à
defesa dos biocombustíveis, sem se conhecer as razões econômicas, políticas e
estratégicas que existem no país.
IHU On-Line – Qual sua avaliação da 1º Cúpula Energética Sul Americana?
Antonio Thomaz Jr. – Essa reunião ocorreu agora de 15 a 17 de abril na
Venezuela, e de lá saiu a Declaração de Margarita. Em relação a esta reunião eu
penso o seguinte: ela foi um encontro para se tentar acertar algumas
divergências entre esses países que participaram, através da presença de seus
chefes de estado. De concreto, porém, não obtivemos nada. Porque ao mesmo tempo
em que Hugo Chávez divulga algumas propostas muito interessantes, mais no
sentido macroeconômico, no sentido mais estratégico, a Venezuela é o maior
fornecedor de petróleo dos Estados Unidos. A Venezuela, por exemplo, tem a
balança comercial absolutamente vinculada ao petróleo e, conseqüentemente, esse
seu vínculo comercial com os Estados Unidos tem um peso muito forte internamente
e externamente. Então, de bate-pronto a Venezuela não abriria mão de mexer na
equação central da matriz energética em que aposta, incluindo a questão
mercadológica, as divisas etc. Agora há um efeito político nisso tudo que é o da
possibilidade de colocar um assunto em pauta, e eu acho que esse é o grande
mérito do Hugo Chávez, ou seja, colocar em pauta a possibilidade de estar
produzindo outros combustíveis, sobretudo energéticos renováveis.
Todavia, a preocupação dele não é ajudar a viabilizar isso de forma concreta,
como foi falado e como ele próprio acabou oferecendo para a grande imprensa, por
meio de algumas informações, mas, sobretudo, admitir o cultivo de algumas
possíveis plantas de produção biocombustíveis, porque a Venezuela não é capaz de
produzir etanol de uma hora para outra, pelo menos não através da cana. Quando
se levam em consideração os efeitos dessa cúpula para os doze países que
participaram, não poderíamos desconsiderar o que significa a magnitude esse
assunto. Por exemplo, fazendo comparação com o Brasil, você põe o Uruguai, o
Paraguai e o Peru na “parada”, ou seja, as magnitudes das economias desses
países, os interesses estratégicos, os interesses dos grandes grupos
transnacionais, que não estariam necessariamente produzindo os biocombustíveis,
mas atuando na circulação, na compra, em todo o sistema de circulação deles, da
mesma forma que o fazem em relação à soja. Então, eu vejo que os efeitos
concretos da 1º Cúpula Energética Sul Americana são ainda muito pouco palpáveis,
pelo menos no meu entendimento. Uma parte do que foi discutido, segundo
informações que recebi, será rediscutido na III Cúpula Sul Americana de Nações.
Eu penso que Hugo Chávez fez o que queria, ou seja, colocou esse assunto em
pauta para tirar um pouco do efeito da passagem do Bush aqui na América do Sul.
Mas, concretamente, não temos absolutamente nada resolvido. Inclusive Marco
Aurélio Garcia, que é o assessor internacional do Lula, declarou que esse evento
possibilitou, efetivamente, ao governo brasileiro explicitar suas preocupações,
mas de concreto não temos absolutamente nada.
IHU On-Line – As demandas e necessidades salientadas pelos movimentos sociais
foram consideradas pelos países participantes da 1º Cúpula Energética Sul
Americana?
Antonio Thomaz Jr. – O que existiu foi uma mise en scène, porque as propostas
e as reivindicações de alguns movimentos sociais, como as centrais sindicais,
não foram levantadas. Essa cúpula não tinha nenhum interesse de costurar os
caminhos políticos aos movimentos sociais, porque não se produziu nada de
concreto e tampouco os movimentos sociais foram chamados para participarem dessa
reunião.
IHU On-Line – Como o senhor vê a relação entre a Venezuela, Bolívia e Brasil
depois da Cúpula e das novas nacionalizações feitas?
Antonio Thomaz Jr. – Vamos por partes. Se pensarmos nas nacionalizações
feitas na Venezuela e Bolívia, não podemos imaginar que o governo brasileiro, ou
pelo menos a figura simbólica do Lula, representando esse governo, faria o
mesmo. O fato é que o Lula “puxou a faca” para o Evo Morales há cerca de dez
dias atrás em uma conversa que não foi muito bem acertada na Cúpula quando disse
que os interesses da Petrobras deveriam ser garantidos sob pena do governo
brasileiro recuar os investimentos e, inclusive, não participar mais dos
projetos em conjunto com esses três países, em especial a condição do gasoduto,
o que significa uma ameaça do Lula ao Evo Morales, que não está preocupado com
esse tom usado pelo brasileiro, mas em algum momento terá que se preocupar,
porque se a Petrobras sai da Bolívia e Lula retira o apoio político a Morales,
conseqüentemente isso vai trazer problemas e repercussões grandes.
Então, eu penso que ainda teremos a oportunidade de compreendermos melhor
essas ações, sobretudo olhando a nacionalização separada de tudo o que está
acontecendo. Eu, particularmente, acho que Morales está no caminho certo. Mesmo
com todos os problemas políticos que ele tem enfrentado, ainda assim eu acho que
ele está no caminho certo, Embora não seja a salvação do país, é muito melhor
nacionalizar do que ficar à mercê das ações que você precisa conceder para
manter essa equação política. O que Morales está fazendo é o que muitos
brasileiros gostariam que o Lula fizesse, pelo menos no início de seu primeiro
mandato. Lula não fez no primeiro mandato e, afirmo, não vai fazer no segundo
também.
IHU On-Line – Para o senhor, quais foram os benefícios que o encontro entre
Lula e Bush para discutir o etanol podem trazer ao Brasil?
Antonio Thomaz Jr. – Eles só promoveram encontros. Não houve nenhum acordo
ainda. Existe, por ora, uma declaração de intenções do governo estadunidense de
oferecer tecnologias, conhecimento científico para que o programa do etanol
brasileiro, e também para produção de biocombustíveis, possa caminhar ainda
mais. E existe, por parte do governo brasileiro, interesse no mercado
estadunidense expandido dentro de suas exportações. A conversa foi essa. Não
temos ainda nada concreto em relação à venda ou ao futuro contrato bilateral de
fornecimento de biocombustíveis renováveis do Brasil para os Estados Unidos.
IHU On-Line – Quem vai sair ganhando com essa equação?
Antonio Thomaz Jr. – Os grandes grupos que já estão consolidados, que são
responsáveis por produzir biocombustíveis, mais especificamente do etanol.
Também são grandes grupos que têm grande poder para produção de matérias-primas.
Nunca podemos descolar uma coisa da outra. Produzir etanol envolve possuir
matéria-prima, no caso. Em especial, em São Paulo essa equação acontece há
muitos anos, ou seja, os empresários produzem o etanol e o açúcar, sendo que
controlam aproximadamente 80% ou mais, dependendo da região, da matéria-prima
que os Estados Unidos consomem. E isso, conseqüentemente, lhes dá um poder
impressionante no encaminhamento do negócio. O que mais tem preocupado nós
pesquisadores, professores, políticos, sindicalistas e militantes, a respeito
deste assunto, é o que se avizinha, o que se sinaliza em relação à expansão
deste setor de atividade, sobretudo se falarmos de São Paulo, onde você tem 60%
das plantas e praticamente 70% de tudo que se mói de cana no Brasil, ou seja, o
avanço da agroindústria canavieira para o oeste paulista está se dando já à base
de grandes empresas.
Então, são bobagens que se estão falando sobre essas alternativas econômicas.
É conversa mole que elas abrem possibilidades para os pequenos e médios
empresários. O que existe é a consolidação desses grandes grupos. Inclusive, são
os principais grupos que estão em plena expansão, desde empresários paulistas,
propriamente ditos, até grandes empresários do setor de Alagoas e Pernambuco,
por exemplo, o grupo Carlos Lyra, que está expandindo assustadoramente para o
oeste de São Paulo e Mato Grosso do Sul. As pessoas precisam entender que a
produção de etanol no Brasil não vai resolver todos os problemas da crise
energética.
IHU On-Line – O que o senhor acha da afirmação de Hugo Chávez quando ele diz
que a produção de biocombustíveis pode aumentar o preço dos alimentos?
Antonio Thomaz Jr. – Sim, acho que ele tem razão sim, porque nós vivemos numa
economia capitalista globalizada absolutamente contaminada pelos princípios e
preceitos neoliberais e, do ponto de vista da produção de alimentos, nós temos
uma equação reguladora que tem promovido, nos quatro cantos do planeta, o
rebaixamento do preço dos produtos de origem agrícola. Isso significa que se
pensarmos na agricultura familiar e nos camponeses, ambos estão sendo duramente
atingidos em todos os quadrantes do planeta. Porque os preços, geralmente, são
rebaixados artificialmente e quem se beneficia com isso não são os compradores.
Os beneficiados são as grandes transnacionais que compram e atuam na circulação
e distribuição do produto. São meia dúzia de empresas, como a Monsanto, que
compram grande parte dos produtos e trabalham com a agroindustrialização ou
então com o comércio a granel, ou seja, seja lá como for são eles que controlam
os produtos. Os produtos industrializados não têm passado pelo mesmo crivo do
rebaixamento dos preços, isto é, o consumidor não se beneficia disso.
Esse é o substrato do projeto que está se tentando assim forjar e criar a
qualquer custo em países como o Brasil, África do Sul, Indonésia etc, para criar
essas plantas produtoras de bioenergéticos à custa do que está fundada nas
grandes empresas, nos grandes conglomerados, nas grandes extensões de terras e à
base de monocultura. Na realidade, tudo isso já está indicando e poderá indicar
agravos ainda maiores em relação à produção de alimentos e, conseqüentemente,
nos preços dos alimentos.
Jornal Brasil de Fato
ttp://www.brasildefato.com.br/
*Publicado por Nezimar Borges
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